607: Um astrofísico de Harvard acredita que o misterioso Oumuamua foi enviado por extraterrestres

CIÊNCIA/ASTROFÍSICA

NASA

Avi Loeb defende ainda que as outras hipóteses apresentadas até agora não têm em conta todas as características conhecidas do misterioso objecto e critica a arrogância da comunidade científica.

Em Outubro de 2017, o astrónomo canadiano Robert Weryk fez uma descoberta surpreendente com o telescópio Pan-STARRS1 do Observatório Haleakala no Havai.

O cientista observou um objecto estranho, alongado e do tamanho de um campo de futebol a viajar pelo Sistema Solar a 315 quilómetros por hora, puxado por uma força invisível sem explicação, revela o Futurism.

O objecto foi mais tarde apelidado “Oumuamua” — olheiro em Havaiano — e os cientistas acreditam que pode ter sido o primeiro visitante de fora do Sistema Solar a ser observado directamente.

Já muitas hipóteses procuraram decifrar do que se tratava, mas a proposta de Avi Loeb, astrofísico e professor da Universidade de Harvard, é mais inusitada por defender que o objecto é uma sonda enviada por uma civilização extraterrestre.

No seu novo livro — “Extraterrestrial: The First Sign of Intelligent Life Beyond Earth” — o especialista explora mais a sua hipótese e aborda ainda a dificuldade de ser levado a sério dentro da comunidade científica, mesmo quando as outras teorias mais universalmente aceites não respondem a todas as questões levantadas pelas características do Oumuamua.

Loeb dá como exemplo a hipótese de que o objecto é uma bola de pó, que defende que a sua trajectória estranha pode ser explicada pela sua densidade muito baixa.

“O problema com isso é que não acho que algo do tamanho de um campo de futebol que seja uma bola de pó sobreviveria a uma viagem de milhões de anos através do espaço interestelar”, explica ao Futurism.

O astrofísico acredita que as explicações baseadas nos conhecimento científicos que temos até agora não são suficientes perante o misterioso objecto — e foi assim que chegou à hipótese dos extraterrestres.

Loeb sugere que o Oumuamua é uma vela solar— uma forma de propulsão de uma nova espacial que usa pressão baixa da radiação solar para gerar movimento —  enviada até ao Sistema Solar de outro sistema. O cientista acredita que isso explica a aceleração inesperada do objecto.

Caso seja sólido, deve ainda ter uma espessura de menos de um milímetro, segundo os cálculos de Loeb, que considera que esta é a conclusão mais lógica quando se seguem os pistas que foram excluindo outras hipóteses mais imediatas.

Mesmo assim, a comunidade científica continua a duvidar da explicação de Loeb. Um estudo de 2019 argumentou que não há provas que sustentem uma ligação alienígena do Oumuamua porque as suas “propriedades são consistentes com uma origem natural”, propondo antes que o objecto é um fragmento de um bloco de construção planetário que está a flutuar pelo nosso Sistema Solar.

Weryk, que descobriu o objecto, também é céptico da teoria de Loeb, acreditando antes que é apenas um “destroço de outro sistema solar“.

Mas o astrofísico não se deixa deter pela sua falta de apoio de outros astrónomos. “O princípio que me guia é a modéstia. Se não formos arrogantes, se formos modestos, diríamos que a vida, da forma como a temos, deve ser comum”, defende.

Loeb acredita que tudo é uma questão de probabilidades. “Sabemos pelos dados do satélite Kepler que cerca de metade das estrelas parecidas com o Sol têm um planeta como a Terra a uma distância parecida e que podem ter água líquida e a química da vida como a conhecemos”, começa.

“Por isso sabemos que os dados foram lançamos milhares de milhões de vezes na galáxia. E se houverem circunstâncias como às que temos na Terra, teremos um resultado semelhante”, afirma, acrescentando que esta estimativa é “conservadora” e que devia ser a “visão mainstream“. No entanto, propor que não estamos sozinhos no Universo continua a ser “uma visão à margem” e um “tabu”.

Loeb remata lembrando que outros campos de estudo, como a matéria negra ou a teoria das cordas, também se baseiam em especulação mas que isso não impossibilita a existência de “comunidades de centenas de cientistas a trabalhar para darem prémios uns aos outros”.

Adriana Peixoto
20 Fevereiro, 2022

 



 

604: “Besta crocodilo” vagueou pela Tanzânia há 240 milhões de anos

CIÊNCIA/PALEOBIOLOGIA

(dr) Gabriel Ugueto
Reconstrução do Mambawakale ruhuhu

Um fóssil descoberto nos anos 1960 foi finalmente reconhecido como uma espécie distinta: o Mambawakale ruhuhu passa a ser considerado um dos primeiros membros da família de répteis cujos fósseis eventualmente dariam origem aos crocodilos modernos.

Há cerca de 240 milhões de anos, um arcossauro com “mandíbulas muito poderosas e grandes dentes” vagueou na actual Tanzânia.

Com mais de 5 metros de comprimento, esta criatura recentemente descrita – chamada Mambawakale ruhuhu, que significa “antigo crocodilo da Bacia de Ruhuhu”, em Kiswahili – teria sido um “predador muito grande e bastante aterrador”, quando estava viva durante o período Triássico.

Richard Butler, professor de Paleobiologia na Universidade de Birmingham, no Reino Unido, disse ao Live Science que este predador “é um dos maiores que conhecemos desde o Triássico Médio”.

O fóssil – que inclui a maior parte do crânio, a mandíbula inferior, várias vértebras e uma pata – foi descoberto em 1963, mas foram necessários quase 60 anos para os paleontólogos descreverem devidamente M. ruhuhu.

A grande quantidade de material permitiu aos cientistas identificar várias características que diferem este animal de outros arcossauros. Aliás, há tantas diferenças que, no final, não havia como não reconhecê-lo como uma espécie distinta.

“A nossa análise identificou M. ruhuhu como um dos mais antigos arcossauros conhecidos, além de um membro primário da linhagem que eventualmente iria evoluir para os crocodilos modernos. É uma descoberta empolgante, uma vez que identificar este animal nos ajuda a entender a rápida diversificação dos arcossauros e acrescentar mais um elo na corrente evolucionária dos crocodilos”, especificou Butler.

O artigo científico com a descoberta foi publicado no Royal Society Open Science.

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19 Fevereiro, 2022



 

598: Monstro do Espaço. Astrónomos encontram a maior galáxia já conhecida

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

(dr) Oei et al., arXiv

A cerca de 3 mil milhões de anos-luz de distância está Alcyoneus, uma gigantesca radio-galáxia com 16,3 milhões de anos-luz de comprimento – a maior estrutura conhecida de origem galáctica.

As radio-galáxias são um mistério do Universo: muito luminosas no comprimento de onda de rádio, formadas por uma galáxia hospedeira (um aglomerado de estrelas a orbitar um núcleo galáctico, formado por um buraco negro super-massivo), jactos colossais e lóbulos que irrompem do centro.

Os astrónomos acreditam que os jactos têm origem no buraco negro super-massivo e que podem viajar por enormes distâncias antes de se dividirem em lóbulos emissores de ondas de rádio.

Quando interagem com o meio, estes jactos e lóbulos actuam como um acelerador de partículas para acelerar os electrões que produzem emissão de rádio.

Segundo o Science Alert, não há grandes novidades neste processo, até porque a Via Láctea também tem lóbulos de rádio. O que intriga os astrónomos é o facto de não saberem o motivo de algumas galáxias terem lóbulos gigantescos, que alcançam a escala dos megaparsecs.

Nestes casos, são chamadas de “radio-galáxias gigantes”, e as mais extremas podem ajudar a explicar este crescimento tão intenso.

A equipa acredita que se houver galáxias hospedeiras com características importantes para o crescimento das radio-galáxias, as hospedeiras das maiores possuem, muito provavelmente, estas características.

Alcyoneus

Os cientistas decidiram procurar estes objectos em dados recolhidos pelo radiotelescópio LOw Frequency ARray (LOFAR) e processados para remover emissões de rádio que pudessem interferir com as detecções dos lóbulos.

Foi ao analisar as imagens resultantes que os astrónomos descobriram o “monstro” Alcyoneus: “Descobrimos o que é, em projecção, a maior estrutura formada por uma única galáxia – uma gigantesca radio-galáxia com um comprimento projectado adequado de, 4,99 ± 0,04 megaparsecs”.

Trata-se de uma galáxia elíptica, com cerca de 240 mil milhões de vezes a massa do Sol e que guarda um buraco negro super-massivo de 400 milhões de massas solares no seu interior.

Alcyoneus e a sua anfitriã têm massa estelar e um buraco negro super-massivo mais pequenos do que os das radio-galáxias gigantes médias, pelo que ambas são estranhamente comuns.

“Alcyoneus e o seu hospedeiro são suspeitamente vulgares: a densidade total de luminosidade de baixa frequência, a massa estelar e a massa do buraco negro super-massivo são todas inferiores, embora semelhantes, às das radio-galáxias gigantes mediais”, escreveram os investigadores, no artigo científico disponível no arXiv.

As galáxias massivas ou os buracos negros super-massivos no interior não vão, necessariamente, dar origem a objectos gigantes. Por isso, a equipa sugere que Alcyoneus esteja numa região do Espaço de menor densidade, o que poderia permitir sua expansão.

Ainda assim, pode haver outras interacções relacionadas a este processo de crescimento. Certo é que os autores acreditam que Alcyoneus continua a crescer.

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18 Fevereiro, 2022



 

597: Desvendado o mistério de vida “alienígena” nas profundezas do Árctico

CIÊNCIA/VIDA ALIENÍGENA/ÁRCTICO

Instituto Alfred Wegener
Esponjas gigantes no fundo do Árctico

Cientistas dizem que resolveram o mistério de como as esponjas gigantes florescem nas águas profundas e geladas do Árctico.

De acordo com a BBC News, as esponjas marinhas sobrevivem alimentando-se de restos de vermes e outros animais extintos que morreram há milhares de anos, segundo um estudo publicado a semana passada na Nature Communications.

Esponjas são animais antigos muito simples encontrados em mares de todo o mundo, de oceanos profundos a recifes tropicais rasos.

Foram encontradas a viver em grande número e em tamanho impressionante no fundo do Oceano Árctico.

Esses enormes “jardins de esponja” fazem parte de um ecossistema único que prospera no oceano coberto de gelo perto do Polo Norte, explica Teresa Morganti, investigadora do Instituto Max Planck de Microbiologia Marinha em Bremen, na Alemanha.

“Encontramos esponjas enormes — elas podem atingir até um metro de diâmetro”, sublinhou a investigadora. “Esta é a primeira evidência de esponjas a comer matéria fóssil antiga.”

Através de uma câmara nas profundezas do gelo, os investigadores conseguiram fotografar os conjuntos de esponjas que formam um “jardim” no fundo do mar.

Alfred-Wegener-Institut
Populoso ecossistema, dominado por esponjas, encontrado junto aos vulcões submarinos do fundo do Árctico

Mas os cientistas ficaram confuso com o facto de aqueles animais primitivos sobreviverem nas profundezas frias e escuras, longe de qualquer fonte de alimento conhecida.

Mais recentemente, após analisar amostras da expedição ao Árctico, descobriram que as esponjas tinham em média 300 anos — e que esses seres sobrevivem com os restos de uma extinta comunidade de animais — com a ajuda de bactérias amigáveis ​​que produzem antibióticos.

“Onde as esponjas gostam de viver, há uma camada de material morto“, refere  Antje Boetius, professora do Instituto Alfred Wegener em Bremerhaven, que liderou a expedição ao Árctico.

“E finalmente ocorreu-nos que esta pode ser a solução para o porquê de as esponjas serem tão abundantes, porque elas podem explorar essa matéria orgânica com a ajuda da simbiose”, acrescentou a investigadora.

A descoberta mostra que temos muito mais a aprender sobre o Planeta Terra e pode haver mais formas de vida à espera de serem descobertas debaixo do gelo.

“Há tanta vida do tipo alienígena e especialmente nos mares cobertos de gelo, onde mal temos tecnologia para ter acesso, olhar em redor e fazer um mapa”, acrescenta.

Mas com o gelo marinho do Árctico a recuar a uma taxa sem precedentes, os investigadores alertam que essa teia única de vida está sob crescente pressão das mudanças climáticas.

De acordo com cálculos científicos, tanto a espessura quanto a extensão do gelo marinho de verão no Árctico mostraram um declínio dramático nos últimos 30 anos, o que é consistente com as observações de um Árctico em aquecimento.

“Com a cobertura de gelo marinho em declínio rápido e o ambiente oceânico a mudar, um melhor conhecimento dos ecossistemas de hotspots é essencial para proteger e gerir a diversidade única desses mares do Árctico sob pressão”, conclui Boetius.

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18 Fevereiro, 2022



 

569: Há uma criatura que constrói o seu próprio coração — mesmo depois de perder os genes para esse efeito

CIÊNCIA/BIOLOGIA

Proyecto Agua / Flickr

A perda dos genes responsáveis pela criação do coração ajudou esta espécie a adaptar-se e a criar este órgão de uma outra forma.

A espécie Oikopleura destaca-se entre os restantes tunicados, tanto do ponto de visto genético como dos atributos físicos, revela a Scientific American. O animal pertence a um grupo maior de invertebrados que são familiares próximos dos vertebratos — os tunicados.

No entanto, ao contrário da maioria dos outros tunicados, esta espécie não passa pela metamorfose de uma larva de natação livre até uma que se fixa no fundo. Em vez disso, passa a sua vida inteira como uma pequena criatura de natação livre de 0,5 milímetros de comprimento e vive dentro de um balão composto por uma folha transparente de celulose.

O animal usa depois a sua cauda e o seu coração para absorver água através do balão semi-permeável e para filtrar pequenas partículas orgânicas de que se alimenta. A grande maioria dos tunicados adultos ficam no fundo do oceano e bombeiam água para as suas bocas para filtrarem comida.

Mas o tamanho pequeno da Oikopleura forçou a que esta espécie evoluísse de maneira a que crie um enorme balão ou rede de pesca fora do seu próprio corpo para conseguir capturar alimento suficiente.

A casa destas criaturas também fica rapidamente cheia de partículas da água e é nesta altura que estas decidem livrar-se dela e construir uma nova, a cada três horas. As suas casas abandonadas cobrem o fundo do mar.

Mas este balão não é a única coisa de que a Oikopleura se livra. Cristian Cañestro, biólogo evolucionário, descobriu que a criatura também perdeu um grupo inteiro de genes, incluindo alguns que são essenciais para o desenvolvimento do coração e do cérebro.

Num estudo publicado na Nature, Cañestro tentou descobrir como é que a espécie consegue ter um coração sem ter os genes para esse efeito e concluiu que a criatura acelera o seu desenvolvimento ao criar um coração de uma forma diferente.

No desenvolvimento vertebrado, a sinalização do ácido retinóico determina quais as células que compõem o coração, a faringe e o cérebro. As células que fazem o coração derivam das células estaminais, no entanto, na Oikopleura, os investigadores descobriram que as células do embrião têm os seus destinos traçados muito cedo no desenvolvimento, ignorando as decisões sequenciais do destino das células que ocorrem na grande maioria dos vertebrados.

Por causa disto, a Oikopleura não precisa de usar a sinalização do ácido retinóico para criar um coração porque as células já conhecem o seu destino final. Assim, a criatura pode perder estes genes sem grandes consequências. Na verdade, muitos tunicados decidem o destino das células muito cedo no seu desenvolvimento, o que os torna muito flexíveis e adaptáveis.

Cañestro acredita que a perda dos genes acelera a criação do coração, o que é essencial para o estilo da vida deste animal, visto que precisa de um batimento cardíaco imediatamente quando cria a sua primeira casa com 10 horas de idade. As criaturas passam de ovos para adultos em apenas uma semana.

A equipa de Cañestro também usou a análise da perda dos genes para tentar determinar como os antepassados dos tunicados seriam. O estudo inferiu que os antepassados ainda tinham os genes que os vertebrados e outros tunicados usam para criarem um coração e um músculo da faringe que são úteis para a sua alimentação enquanto adultos. Assim, é provável que os tunciados ancestrais tinham passado por uma metamorfose antes da mudança que os levou à perda dos genes.

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ZAP
13 Fevereiro, 2022

 



 

568: Geólogos descobrem “super montanhas” esquecidas, três vezes maiores que os Himalaias

CIÊNCIA/GEOLOGIA

Don Pettit / NASA
Himalaias vistos a partir do espaço

A destruição destas antigas “super montanhas” pode ter alimentado os maiores booms de evolução do planeta Terra.

Segundo a Space.com, na história do nosso planeta apenas existiram duas cadeias montanhosas gigantes,  tão altas como os Himalaias, com milhares de quilómetros, que se erguiam para fora da Terra, dividindo os antigos super continentes em dois. Os geólogos chamam-lhes as “super montanhas”.

Não há nada como estas duas super montanhas hoje em dia“, disse Ziyi Zhu, estudante de pós-doutoramento na Universidade Nacional Australiana (ANU) em Camberra e autor principal do novo estudo sobre as formações rochosas, publicado na revista Earth and Planetary Science Letters.

“Não é apenas a sua altura — se conseguirmos imaginar os 2.400 quilómetros de comprimento dos Himalaias três ou quatro vezes, ficamos com uma ideia da escala”, acrescentou o estudante.

Estas montanhas pré-históricas foram mais do que uma visão surpreendente. De acordo com novas pesquisas de Zhu e outros investigadores, a formação e destruição destas duas “super montanhas” também podem ter alimentado dois dos maiores booms da evolução da história do nosso planeta.

O primeiro aparecimento de células complexas há cerca de 2 mil milhões de anos atrás, e a explosão de vida marinha há 541 milhões de anos atrás.

É provável que, à medida que estas enormes cadeias montanhosas foram sofrendo erosão, tenham deitado enormes quantidades de nutrientes ao mar, acelerando a produção de energia e a evolução da super-carga, escreveram os investigadores.

As montanhas erguem-se quando as placas tectónicas da Terra, sempre em movimento, esmagam duas massas de terra juntas, empurrando as rochas superficiais para grandes alturas.

As montanhas podem crescer durante centenas de milhões de anos ou mais, mas mesmo as cordilheiras mais altas nascem com uma data de expiração, à medida que a erosão do vento, água e outras forças abafam as formações.

Os cientistas podem reconstituir a história das montanhas da Terra, estudando os minerais que essas montanhas deixaram para trás na crosta do planeta.

O zircão, por exemplo, forma-se sob alta pressão nas profundezas das cadeias montanhosas, e pode sobreviver nas rochas muito depois de as suas montanhas-mãe terem desaparecido. A composição elementar de cada grão de zircónio pode revelar as condições na crosta, quando e onde esses cristais se formaram.

No novo estudo, os investigadores examinaram um zircão com baixas quantidades de lutécio — um elemento raro da Terra que só se forma na base de altas montanhas.

Os dados revelaram dois “picos” de formação extensiva de “super montanhas” na história da Terra — um há cerca de 2 mil milhões a 1,8 mil milhões de anos, e o segundo há 650 milhões a 500 milhões de anos.

Estudos anteriores tinham sugerido a existência desse segundo pico — conhecido como “super montanha” Trans Gondwanan, porque atravessou o vasto super continente de Gondwana (um único continente gigante que continha a África moderna, América do Sul, Austrália, Antárctida, Índia e Península Arábica).

Fenton Peter David Cotterill / Research Gate

Contudo, a anterior formação, chamada “super montanha” Nuna, depois de um anterior super continente, nunca tinha sido detectada.

A distribuição de cristais de zircão mostrou que ambas as “super montanhas” eram enormes — provavelmente com mais de 8.000 quilómetros de comprimento, ou cerca do dobro da distância da Florida à Califórnia.

À medida que ambas as montanhas se foram desgastando, deitaram enormes quantidades de nutrientes como ferro e fósforo ao mar.

Estes nutrientes poderiam ter acelerado significativamente os ciclos biológicos no oceano, fazendo com que a evolução fosse mais complexa.

Para além deste derrame de nutrientes, as montanhas em erosão podem também ter libertado oxigénio para a atmosfera, tornando a Terra ainda mais hospitaleira para a vida complexa.

A formação da “super montanha” Nuna, por exemplo, coincide com o aparecimento das primeiras células eucarióticas da Terra, que contém um núcleo que evoluiu para plantas, animais e fungos.

Entretanto, a “super montanha” Trans Gondwanan teria estado a sofrer erosão, enquanto aconteceu mais um boom de evolução no mar.

“A super montanha Trans Gondwanan coincide com o aparecimento dos primeiros grandes animais há 575 milhões de anos e com a explosão Cambriana 45 milhões de anos mais tarde, quando a maioria dos grupos animais apareceu no registo fóssil”, sublinhou Zhu.

A equipa de investigadores também confirmou estudos anteriores que constataram que a formação das montanhas parou na Terra há cerca de 1,7 mil milhões a 750 milhões de anos.

Os geólogos referem-se a este período como o “aborrecido bilião”, porque a vida nos mares da Terra parece ter parado de evoluir, ou pelo menos evoluiu lentamente.

Alguns cientistas supõem que a falta de nova formação montanhosa pode ter impedido novos nutrientes de vazar para os oceanos durante este período, deixando criaturas marinhas esfomeadas e impedindo a sua evolução.

Embora seja necessária mais investigação para estabelecer uma ligação entre as “super montanhas” e a evolução na Terra, este estudo parece confirmar que os maiores booms de evolução do nosso planeta ocorreram na sombra de algumas montanhas verdadeiramente colossais.

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Alice Carqueja
13 Fevereiro, 2022

 



 

558: Síndrome misteriosa está a “derreter” as estrelas-do-mar

CIÊNCIA/BIOLOGIA

jkirkhart35 / Flickr
Pisaster ochraceus

Enquanto tentamos ultrapassar uma pandemia, que nos apanhou de surpresa, as estrelas-do-mar estão a ser assoladas por uma condição que as “derrete” numa gosma. Não há forma de proteger os animais com uma vacina, pelo que os biólogos tentam desesperadamente encontrar uma solução.

Andrea Burton, bióloga marinha da Universidade do Estado do Oregon, e a sua equipa analisaram 200 estrelas-do-mar Pisaster ochraceus, não só por serem as mais afectadas por esta doença, mas também por serem as únicas das 20 espécies capazes de a ultrapassar.

Segundo o Science Alert, o objectivo era apurar se existiam diferenças genéticas entre as estrelas marinhas que parecem ser capazes de suportar a doença e as que sucumbem.

A análise permitiu concluir que a “síndrome do desgaste” é causada por enormes florescimentos de micróbios que roubam a água do seu abastecimento de oxigénio, provocando o afogamento da estrela-do-mar.

A decomposição da estrela-do-mar aumenta ainda mais os nutrientes para os micróbios, o que por sua vez alimenta o ciclo de florescimento e asfixia.

Apesar de o fitoplâncton ser o micróbio vegetal mais apontado como principal causa desta síndrome, os cientistas pensam que há outros agentes patogénicos a afectar estas criaturas marinhas.

Apesar de a genética não representar um papel na transmissão da doença, pode desempenhar um papel na resistência à mesma. O estudo revelou que algumas das espécies de estrelas-do-mar que tinham alterações genéticas eram também aquelas que tinham sido capazes de superar a síndrome.

A única causa possível para explicar a propagação desta doença, que reduziu a população de estrelas-do-mar em 50%, é o aquecimento global e a poluição ambiental.

Como são problemas cada vez mais emergentes, os cientistas acreditam que a “síndrome do desgaste” das estrelas-do-mar é apenas o primeiro sinal de uma extinção em massa de espécies, tanto das criaturas infectadas como dos predadores que se alimentavam delas para sobreviver.

O artigo científico foi publicado na Molecular Ecology.

  ZAP //

ZAP
12 Fevereiro, 2022

 



 

509: Há diferenças entre dinossauros machos e fêmeas? Cientistas estão a descobrir a resposta

CIÊNCIA/PALEONTOLOGIA

cheungchungtat / Deviant Art

Havia diferenças entre dinossauros machos e fêmeas? Uma nova técnica estatística está a ajudar os cientistas a responder a esta pergunta.

Na maioria das espécies animais, machos e fêmeas diferem. Isto é verdade para pessoas e outros mamíferos, assim como muitas espécies de pássaros, peixes e répteis. Mas e os dinossauros?

Em 2015, uma equipa de investigadores propôs que a variação encontrada nas placas traseiras dos estegossauros devia-se a diferenças sexuais. Vários cientistas mostraram-se cépticos, argumentando que as diferenças entre os sexos, chamadas de dimorfismo sexual, não existiam nos dinossauros.

O debate desencadeado pelo artigo de 2015 fez o co-autor Evan Thomas Saitta reconsiderar como os investigadores que estudam animais antigos usam a estatística.

O registo fóssil limitado torna difícil declarar se um dinossauro era sexualmente dimórfico. Mas os investigadores começam a afastar-se do pensamento estatístico tradicional que se baseia em valores e significância estatística para definir uma descoberta verdadeira.

Em vez de procurar apenas respostas sim ou não, os cientistas estão a começar a considerar a magnitude estimada da variação sexual numa espécie, o grau de incerteza nessa estimativa e como é que essas medidas se comparam a outras espécies. Essa abordagem oferece uma análise mais subtil para questões desafiantes na paleontologia, bem como em muitos outros campos da ciência.

O dilema dos dinossauros

Estudar o dimorfismo sexual em animais extintos é repleto de incertezas. Se desenterrarmos fósseis semelhantes da mesma espécie, eles inevitavelmente serão ligeiramente diferentes. Essas diferenças podem ser devidas ao sexo, mas também podem ser causadas pela idade, por exemplo. Também podem ser devido à genética não relacionada com o sexo, como a cor dos olhos em humanos.

Se os paleontólogos tivessem milhares de fósseis para estudar de todas as espécies, as muitas fontes de variação biológica não teriam tanta importância. Infelizmente, a devastação do tempo deixou o registo fóssil dolorosamente incompleto, muitas vezes com menos de uma dúzia de bons espécimes de grandes espécies de vertebrados extintas.

Além disso, actualmente não há como identificar o sexo de um fóssil individual, excepto em casos raros em que existem pistas óbvias, como ovos preservados na cavidade do corpo.

Então, onde é que tudo isto deixa o debate sobre se os dinossauros machos e fêmeas tinham diferenças? Por um lado, as aves – descendentes directas dos dinossauros – costumam apresentar dimorfismo sexual. O mesmo acontece com os crocodilianos, os parentes vivos mais próximos dos dinossauros.

A teoria evolucionista também prevê que, como os dinossauros se reproduziam com esperma e óvulo, haveria um benefício para o dimorfismo sexual.

Todas estas coisas sugerem que os dinossauros provavelmente eram sexualmente dimórficos. Mas na ciência é preciso ser quantitativo. O desafio é que há poucas análises estatisticamente significativas do registo fóssil para sustentar o dimorfismo.

Tamanho de efeito

A fraqueza da abordagem tradicional que se concentra apenas em se um resultado é estatisticamente significativo levou centenas de cientistas a abandonar os testes de significância com valores-p em favor de algo chamado estatísticas de tamanho de efeito. Usando esta abordagem, os investigadores simplesmente relatariam a diferença medida entre dois grupos e a incerteza nessa medição.

Foi então que Evan Thomas Saitta começou a aplicar estatísticas de tamanho de efeito na sua pesquisa sobre dinossauros. A sua equipa comparou o dimorfismo sexual no tamanho do corpo entre três dinossauros diferentes: o Maiasaura, o Tyrannosaurus rex e o Psittacosaurus, um pequeno parente do Triceratops.

Nenhuma dessas espécies deveria apresentar diferenças de tamanho estatisticamente significativas entre machos e fêmeas de acordo com os valores-p. Mas esta abordagem não capta a natureza da variação dentro dessas espécies.

Quando os autores usaram estatísticas de tamanho de efeito, foram capazes de estimar que o Maiasaura macho e fêmea demonstram uma diferença maior na massa corporal em comparação com as outras duas espécies e que também tiveram uma confiança maior nessa estimativa.

Além disso, todos os fósseis de Maiasaura vêm de um único sítio, de criaturas que morreram ao mesmo tempo. Isto significa que a variação entre os indivíduos provavelmente não se deve ao facto de serem espécies diferentes de diferentes regiões ou períodos de tempo.

Se os investigadores tivessem abordado o problema à espera de uma resposta ‘sim’ ou ‘não’ sobre se machos e fêmeas diferiam em tamanho, teriam perdido completamente todas estas complexidades.

As estatísticas de tamanho de efeito permitem que os investigadores produzam resultados muito mais subtis e informativos.

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5 Fevereiro, 2022


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492: O gelo não engana: houve uma misteriosa tempestade solar há 9.200 anos

CIÊNCIA/ASTRONOMIA/GEOLOGIA

NASA / Unsplash

Costuma dizer-se que o algodão não engana, mas no que toca à geologia, o mesmo pode dizer-se em relação ao gelo.

Através da análise de gelo da Gronelândia e da Antárctida, uma equipa de investigadores encontrou evidências de uma enorme tempestade solar que ocorreu há cerca de 9.200 anos.

No entanto, esta não foi uma típica tempestade solar. A tempestade observada pelos cientistas ocorreu durante uma das fases mais calmas do Sol — durante a qual acredita-se que a Terra esteve menos exposto a tais eventos.

Prever tempestades solares é um exercício complicado. Acredita-se que são mais prováveis durante uma fase activa do Sol. Contudo, este novo estudo, publicado este mês na revista científica Nature Communications mostra que esse pode nem sempre ser o caso.

“Estudamos testemunhos de perfuração da Gronelândia e da Antárctida e descobrimos vestígios de uma enorme tempestade solar que atingiu a Terra durante uma das fases passivas do Sol há cerca de 9.200 anos“, anunciou Raimund Muscheler, da Universidade de Lund, na Suécia, citado pelo SciTechDaily.

Os cientistas procuraram especificamente picos dos isótopos radioactivos berílio-10 e cloro-36. Estes isótopos são produzidos por partículas cósmicas de alta energia e podem ser preservados em gelo.

Uma tempestade solar semelhante nos dias de hoje poderia ter consequências devastadoras. Além de falhas de energia e danos em satélites, podia representar um perigo para o tráfego aéreo, bem como resultar no colapso de vários sistemas de comunicação.

As tempestades solares não constituem um perigo directo para os humanos e outros seres vivos na Terra, mas podem provocar prejuízos de muitos milhares de milhões de euros.

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2 Fevereiro, 2022


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