683: O risco nuclear e a vitória de Pirro

OPINIÃO

No passado dia 28 foi conhecida a II Parte do 6.º Relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, mostrando um planeta em rápida degradação, anunciando um futuro de regressão e insegurança generalizadas. A absurda tempestade de fogo e aço que se abateu sobre a Ucrânia apagou a relevância deste relatório, que contém a mais vital mensagem para o nosso tempo.

Escrevi, na semana passada, que desde 1962 (crise dos mísseis de Cuba) o perigo de escalada nuclear nunca esteve tão iminente. Para isso, concorrem duas razões principais. A primeira, prende-se com a evolução da doutrina militar russa desde o fim da URSS, e a segunda deriva da conduta actual de Putin. Durante a guerra fria, sobretudo a partir do final dos anos 1950, quando Moscovo obteve uma suficiente paridade atómica com Washington, o arsenal nuclear funcionou, essencialmente, como um factor de dissuasão de última instância.

Moscovo chegou mesmo a prometer não usar jamais a arma atómica em primeiro lugar. Em 1993, no tempo de Ieltsin, a nova doutrina abandonou o princípio de não-primeiro uso, mas reservou a arma nuclear apenas para casos em que “a existência da Federação Russa” estivesse ameaçada. A mudança mais significativa ocorreu em 2000, com uma nova doutrina, que no Ocidente é conhecida como “escalar para desescalar” (escalate to de-escalate).

Essa concepção tem uma relação directa com a consciência russa da supremacia crescente e esmagadora dos EUA e da NATO em forças convencionais, tornada evidente tanto na Guerra do Golfo (1991) como na intervenção contra a Sérvia (1999). O conceito foi desenvolvido por vários estrategistas (V.I. Levshin, A.V. Nedelin e M.E. Sosnovskii) na revista militar Voennaia Mysl, em 1999, quando Putin era o secretário do Conselho de Segurança da Rússia, passando a doutrina em 2000, já com Putin na presidência. A diferença radical consiste na afirmação de que armas nucleares tácticas (de baixa intensidade e curto raio de acção) poderão ser usadas num quadro de guerra convencional, para dissuadir um inimigo superior e evitar a derrota.

Contudo, no que diz respeito à actual conduta de Putin, a possibilidade de serem usadas armas nucleares tácticas na Ucrânia só se colocaria numa situação em que uma derrota russa fosse inevitável devido a uma intervenção de forças convencionais da NATO, ou a ela ligadas. Putin recordou isso ao colocar o dispositivo nuclear em alerta. Apesar do que parece ter sido uma subestimação inicial da capacidade de resistência ucraniana e uma sobrestimação do desempenho das forças convencionais russas, não parece provável que a capitulação formal das forças militares ucranianas possa ser evitada nas próximas semanas. Mas a vitória de Putin deverá ter um sabor amargo.

Uma NATO reforçada, uma atmosfera externa hostil contra a Rússia, um aumento do descontentamento popular contra a sua autocracia, a intranquilidade na sua base de apoio oligárquica, proporcional à duração das sanções em vigor, empobrecimento das condições de vida do povo russo num quadro de cerco económico.

Putin é leitor de Clausewitz, e sabe que o sentido da guerra se mede pelos objectivos políticos que consegue atingir. Neste caso, para além de servir o narcisismo do senhor do Kremlin, não se percebe que ganho político terá a Rússia com uma vitória que lhe destruirá por muito tempo as pontes com grande parte das outras nações. Precisamente, num tempo em que a cooperação é um imperativo de sobrevivência.

Professor universitário

Diário de Notícias
Viriato Soromenho-Marques
05 Março 2022 — 00:05



 

640: Derrota mútua assegurada

OPINIÃO

Entre a chegada de Gorbachev ao poder em Moscovo (1985) e a dissolução da URSS (1991) assistimos a um acontecimento sem paralelo na história mundial: um império colocou à frente da sua própria sobrevivência, o interesse da humanidade, evitando uma guerra nuclear generalizada que conduziria a uma “destruição mútua assegurada” (mutual assured destruction). A liderança de Gorbachev salvou a paz no mundo, mas com um custo doloroso para a o povo russo. Na nova Rússia, do centralismo estalinista e de economia planificada, transitou-se para um centralismo autocrático e para um capitalismo brutal e oligárquico.

Entre 1991 e 1994 a esperança de vida na Rússia diminuiu 5 anos… Do lado ocidental, depois da simpatia inicial por Gorby, ganhou a tese de que a Rússia tinha perdido a guerra-fria, podendo doravante ser ignorada. Apesar das promessas de que a reunificação da Alemanha não implicaria o alargamento para leste da NATO, a verdade é que esta se efectuou em duas fases principais (1999 e 2004), integrando uma dezena de aliados do ex-Pacto de Varsóvia, e mesmo ex-repúblicas soviéticas, como foi o caso dos Estados bálticos.

Como brilhantemente percebeu José Medeiros Ferreira (ver seu artigo de 20-02-2007 no DN), num “discurso histórico” numa conferência de segurança em Munique (10-02-2007), Putin interrompeu 15 anos de “hibernação” russa: os interesses e a segurança da Rússia não poderiam continuar a ser ignorados nas decisões dos EUA e aliados. Contudo, em 2008, a Geórgia e a Ucrânia foram convidadas a aderir à NATO.

A breve guerra desse ano na Geórgia, e a anexação da Crimeia em 2014, mostraram que Putin tinha falado a sério em 2007: a Rússia traçou uma linha vermelha à expansão de uma aliança militar, que considerava fazer perigar a sua segurança nacional. O desastrado activismo bélico da NATO e dos EUA nos últimos 20 anos, num proselitismo democrático coberto de sangue e ruínas, no Afeganistão, Iraque ou Líbia, ajudou a consolidar as reservas de Moscovo.

Contudo, as razões russas contra a surdez da NATO, não legitimam a ofensiva bélica em curso na Ucrânia. A desmesura dos meios usados, esmaga a eventual bondade dos fins. A “neutralização” de Kiev pela via das armas constitui um gesto inverso àquele de Gorbachev: Putin está a arriscar a paz mundial para fazer prevalecer a sua visão de interesse nacional. E fá-lo, com uma determinação desesperada, depois do fracasso do objectivo russo de fazer da Ucrânia, nas fronteiras anteriores a 2014, uma nova Finlândia, aceite por Moscovo e pelo Ocidente. Impedir a NATO de ficar com Sebastopol, ou anexar as regiões de maioria russa em Donetsk e Lugansk, não são sinal de uma vitória russa, mas uma perigosa operação de resgate de salvados. O que se vai seguir será uma incerta escalada de perdas e danos.

As sanções vão fazer sofrer tanto a Rússia, quanto os seus promotores, em particular a União Europeia. Os tambores de guerra vão sobrepor-se à prioridade mundial do combate à crise ambiental e climática, que exige uma necessária e urgente cooperação compulsória entre todas as grandes potências.

Desde a crise dos mísseis de Cuba que nunca estivemos tão perto de uma situação em que um desaire, um erro de análise, uma ferida narcísica perante a perspectiva de uma derrota convencional, possa fazer descarrilar o conflito para o patamar nuclear. Mais do que nunca é preciso que a lucidez prudente prevaleça sobre a precipitação e o ressentimento.

Professor universitário

Diário de Notícias
Viriato Soromenho-Marques
26 Fevereiro 2022 — 00:03



 

O perigoso erro de “relativizar”

OPINIÃO

Capoulas Santos foi por três vezes ministro da Agricultura. Primeiro nos governos de António Guterres e depois no primeiro governo de António Costa. Como deputado ao Parlamento Europeu (2004-2014), ele juntou a perspectiva parlamentar das bancadas de Bruxelas e Estrasburgo à longa vivência como membro do Conselho de Ministros de Agricultura e Pescas.

Trata-se, pois, de alguém com acesso a informação qualificada e privilegiada ao longo de quase três décadas. Por isso mesmo só posso classificar como inaceitáveis as afirmações por ele prestadas, numa entrevista concedida à Antena 1 e ao Negócios. Interrogado sobre a seca, o ex-ministro disse o seguinte: “Temos de relativizar o problema.

Há registos históricos de secas prolongadas, particularmente, no sul do país, desde o século XV, XVI. Não é um fenómeno novo. E os dados estatísticos revelam que em cada ciclo de 10, 13 anos, há normalmente um período de seca de dois, três ou até mais anos (…) mas não estamos confrontados com um fenómeno novo…”

As palavras de Capoulas Santos são uma negação grosseira do “fenómeno novo” das alterações climáticas, e do seu impacto crescente sobre a agricultura portuguesa. Se estivéssemos a escutar um seguidor de Trump ou Bolsonaro, gente que confunde a realidade com as conveniências da sua fantasia, não haveria admiração. Mas estamos a falar de um socialista de primeira linha que, sem pestanejar, troca a ciência pelos seus palpites.

Repare-se que o entrevistado refere registos seculares, qualitativos e imprecisos, ocultando que eles não têm o mesmo grau de validade da rigorosa monitorização quantitativa que só se iniciou no século XX. Como escreveu em 2021 o físico Filipe Duarte Santos, também presidente do Conselho Nacional do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável: “Uma análise da precipitação anual em Portugal Continental no período de 106 anos, entre 1913 e 2019, revela uma alteração do padrão de precipitação nos finais da década de 1960.”

Comparando o período de 1913 e 1968 com o período de 1968-2019 verifica-se uma diminuição dos valores da precipitação, no segundo período, de 500 mm na região noroeste e de mais de 120 mm na maior parte do sul do país. As afirmações “tranquilizadoras” do deputado socialista, ocorrem na altura em que, justificadamente, a Agência Portuguesa do Ambiente está a promover uma consulta pública (até 30 de Junho) sobre “Avaliação das Disponibilidades Hídricas Actuais e Futuras”.

A apresentação do tema foi feita por Rodrigo Proença Oliveira, um dos nossos maiores especialistas na área. Uma das conclusões é peremptória: “Nos últimos 20 anos a precipitação em Portugal e Espanha diminuiu cerca de 15%, prevendo-se que diminua entre 10 a 25% até ao final do século.”

Capoulas Santos prova a justeza de Platão quando separou, definitivamente, a “opinião” (doxa) do “conhecimento” (episteme). As maçãs caíram sobre a cabeça de muita gente, mas só Newton partiu dessa experiência para a lei da gravitação universal… Apesar de estar mergulhado há décadas nos labirintos da agricultura europeia, o ex-ministro parece não ter aproveitado a oportunidade para aprender o essencial.

A seca é um dos maiores desafios que o país vai ter de enfrentar se nos quisermos adaptar a um futuro difícil e hostil. Aos políticos não se pede que sejam peritos, mas exige-se a sábia humildade de saber escutar quem sabe. Neste duro tempo novo, a incompetência política pode ser letal para a segurança colectiva. Por isso, não deve nem pode ser relativizada.

Professor universitário

Diário de Notícias
Viriato Soromenho-Marques
19 Fevereiro 2022 — 00:07



 

566: Solidão na encruzilhada

OPINIÃO

Aprendemos com Hannah Arendt que a mentira conveniente tem perna curta, e jamais pode substituir-se à verdade factual. Contudo, consegue danificar gravemente a bússola que nos orienta colectivamente no mar alteroso da existência em comum. Chegámos hoje a um ponto crucial de consciência pública sobre as grandes ameaças globais, mas a inércia continua a empurrar-nos para diante, fazendo os nossos actos seguir na direcção oposta das nossas palavras. Estamos muitos preocupados com a degradação do ambiente e do clima, mas temos dificuldade em articular um pensamento crítico.

Apesar do slogan da descarbonização, mantemos as rotinas económicas e os estilos de vida, criando até taxonomias mágicas, como o fez agora a Comissão Europeia ao lançar água benta “verde” para cima dos isótopos radioactivos e do gás natural. Não obstante o anunciado e maravilhoso novo mundo digital, onde mergulhámos a pés juntos e de olhos fechados, percebemos que os profetas que nos conduzem não levaram mapas para a estrada. Pobre da empresa, do Estado, ou do cidadão que não tenha a reserva redundante dos seus dados em registo analógico…Fica na mira de tiro de qualquer anónimo terrorista digital.

Esta é uma sociedade de risco (ambiental e tecnológico) por excelência Um risco tornado inevitável pela prevalência de um sistema de responsabilidade difusa, o mesmo é dizer, um sistema de inimputabilidade e de irresponsabilidade organizadas. Chegámos a uma encruzilhada em que é preciso escolher entre mudar de rumo ou continuar na senda de um crescimento que deixou atrás de nós um mar de ruínas, e ainda promete pior para diante. O mais fácil será deixarmo-nos ir na corrente.

Contudo, nesta tortuosa encruzilhada, há escolhos que nos obrigam a tomar posição. António Costa, com a tonificada legitimidade resultante de uma maioria absoluta, terá de decidir, preto no branco, em dois casos bicudos, que vão condicionar o futuro do país e o seu lugar como estadista na história de Portugal. Estou a falar no desfecho do truculento processo do novo aeroporto de Lisboa e na controvérsia sobre a exploração de lítio. Ao longo da história, verificamos que só os grandes estadistas conseguem dizer “não”. As forças que nestes dois casos querem o “sim” julgam-se tão poderosas que já estavam perto da meta, mesmo antes de a corrida ter começado. O problema é que, pesando os prós e os contras, verificamos que os motivos do “sim” são bastante mais leves do que os do “não”.

O lítio, neste contexto, interessa conjunturalmente à indústria automóvel europeia, até surgir uma melhor tecnologia para baterias eléctricas. A mobilidade eléctrica, sendo positiva, não é gratuita. Qualquer projecto mineiro tem um preço muito elevado na destruição da biodiversidade (uma disfunção ambiental tão grave como a das alterações climáticas), na perda de solo arável, na contaminação dos lençóis freáticos e na degradação da paisagem.

Esse preço seria definitivo para quem ficaria refugiado ambiental na sua própria terra, e lesaria a futura política nacional de adaptação. Para daqui a 30 anos, só temos duas certezas: a conta a pagar pela alucinação do crescimento será muito maior; quem cá estiver continuará a precisar de ter alimento e abrigo. Todos somos convocados pela nossa consciência, mas só a António Costa, na solidão que o poder e a responsabilidade conferem, caberá decidir por todos.

Professor universitário

Diário de Notícias
Viriato Soromenho-Marques
12 Fevereiro 2022 — 00:09

 



 

525: Humanidade pode estar a criar um planeta inabitável, alerta Viriato Soromenho-Marques

SOCIEDADE

Investigador defendeu que “as coisas” mudam-se com mais cooperação, mais responsabilidade pelo futuro, mais humildade para ouvir os sinais do mundo, e com uma mudança do estilo de vida, por decisão das pessoas e não porque são obrigadas a isso.

Viriato Soromenho-Marques na Faculdade de Letras
© Rita Chantre / Global Imagens

O professor universitário Viriato Soromenho-Marques alertou esta segunda-feira para o perigo de a humanidade estar a levar o planeta para uma situação climática incontrolável em que a espécie humana pode tornar-se inviável.

“Ou seguimos neste caminho, numa lógica de mercado, e caminhamos para uma Terra fornalha, ou temos a capacidade de fazer mudanças para uma Terra estabilizada. Esta é a encruzilhada que temos pela frente”, avisou o filósofo e professor, ligado a causas do ambiente e da justiça e direitos humanos, no início de um ciclo de conferências dedicado à “Sociedade do séc. XXI: Desafios sociais, geracionais, políticos e económicos”, organizado pela Academia das Ciências de Lisboa.

Numa intervenção na qual falou de ambiente e da justiça entre gerações, Viriato Soromenho-Marques começou por lembrar a jovem activista sueca Greta Thunberg, que, disse, representa milhões de jovens que se interrogam sobre que futuro vão viver e citou-a para falar do chamado “paradoxo da juventude contemporânea”, dos jovens que nascem num lugar onde lhes é permitido sonhar e ter tudo e que podem não ter nada, “provavelmente nem um futuro”.

“A crise ambiental é uma espécie de teste limite a uma ética e uma justiça entre gerações”, afirmou, salientando que o tempo actual, de crise climática, de crise energética, é na verdade uma crise de “dimensão existencial”.

É, disse, uma crise de dimensão planetária, sem qualquer local imune a ela, uma crise irreversível, ligada a “forças poderosíssimas, naturais”, e uma crise em aceleração.

E é também uma crise que leva a uma fuga à realidade, por isso são eleitos líderes como Donald Trump (Estados Unidos) ou Jair Bolsonaro (Brasil), escolhidos por esse “impulso para fugir das dificuldades” e não olhar para elas.

É na verdade, disse Soromenho-Marques, uma crise diferente de qualquer outra, que a humanidade nunca viveu e que nem por isso está a enfrentar.

Essa “falta de vontade de mudar as coisas”, tomando decisões para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa e proteger a biodiversidade foi uma das críticas ao longo de toda a conferência, com Soromenho-Marques a dar como exemplo a campanha eleitoral para as eleições legislativas do mês passado.

“Chegou a ser escandaloso, o conceito de crescimento ocupou o palco, como se estivéssemos no século XIX”, disse, considerando que o discurso foi “medieval” e “de ignorância”, e de “um profundo desrespeito pelas gerações futuras”.

Hoje vive-se, disse, na “era da tecno-ciência, das empresas onde as pessoas trabalham para produzir novas mercadorias que possam ser úteis e vendáveis, à espera que a tecnologia as salve, à espera de uma aplicação que resolva o problema da crise climática”.

“As coisas não funcionam assim”, advertiu, apontando que as empresas “colocam os lucros à frente da sobrevivência da Humanidade”, e que nem na esfera económica nem na política se vê vontade de mudar “o rumo das coisas”.

E “as coisas” mudam-se com mais cooperação, mais responsabilidade pelo futuro, mais humildade para ouvir os sinais do mundo, e com uma mudança do estilo de vida, por decisão das pessoas e não porque são obrigadas a isso.

Lembrando ainda que o mundo enfrentou duas guerras no século passado, Viriato Soromenho-Marques disse que hoje o que está em causa é a possibilidade de se perderem as condições que levaram ao crescimento da civilização humana.

“Não conseguimos perceber que o que está em causa é a nossa própria existência como espécie. Estamos a viver não daquilo que a ciência nos ensinou, mas como se as leis da economia fossem mais sólidas do que as leis da física”, concluiu.

Diário de Notícias
DN/Lusa
07 Fevereiro 2022 — 21:43


Web designer
HTML Programmer
Network Engineering and Computer Systems



 

507: Depois dos votos contados

OPINIÃO

Nas recentes eleições verificámos, uma vez mais, a dificuldade transversal em falar dos problemas bicudos ou em sair dos lugares-comuns. É interessante ter sido necessário que o pleito eleitoral terminasse para que o tema da seca fosse encarado com a centralidade que a dureza do real crescentemente imporá.

Esse problema, que não tem travado sucessivos governos na aprovação do alargamento da agricultura intensiva, é apenas uma pequena orelha desse grande elefante na sala: a pressão crescente e multiforme da crise ambiental e climática. Ou seja, a metamorfose para pior do chão planetário que pisamos. Como é que se responde a isso? Com palavras mágicas, sendo a principal o “crescimento”, esse mantra de quem desistiu de pensar.

Assim como na física de partículas toda a investigação implica provocar a realidade que se estuda, não existindo experimentação que não seja sempre intrusiva, também nestas eleições aprendemos que todas as sondagens acabam por ser um factor de alteração profunda, não apenas do comportamento dos partidos, mas sobretudo da decisão dos cidadãos. Os eleitores mostraram ter aprendido a fazer contas e cálculos estratégicos, revelando perceber os limites do nosso modelo eleitoral, que os partidos insistem em manter inamovível. O “voto útil” tornou-se o substituto do “voto em consciência”.

António Costa foi quem melhor percebeu essa inteligência colectiva e ganhou uma inesperada, conjuntural e condicional maioria absoluta, que, a acreditar no seu cuidadoso discurso de vitória, promete ser usada com moderação. Sem cair na tentação há muito definida por Adriano Moreira do “presidencialismo de primeiro-ministro”. Conseguirá Costa cumprir a promessa de não repetir a pulsão hegemónica ocorrida no passado?

Os desafios de uma realidade repleta de desafios urgentes, mas sem resposta conhecida, podem provocar sucessos e derrotas. Os casos do Chega e da Iniciativa Liberal (IL) ilustram a primeira situação. O BE e o PCP, a segunda. A vintena de deputados do Chega (12) e da IL (8) mostra como a ficção de passados imaginários serve de refúgio a ressentimentos e ilusórias esperanças, vestidos por discursos simplificadores e demagógicos.

No Chega, domina um caudilhismo a roçar exemplos recentes de neo-fascismo europeu, onde a gesticulação encobre o vazio de alternativas. Na IL, destaca-se uma deslumbrada referência a um liberalismo, visto como ideia platónica – como se ainda estivéssemos nas Cortes Constituintes de 1821 – que só existe na voluntária distracção dos seus promotores. Por seu turno, o BE e o PCP confirmaram como pior do que a arrogância dos vencedores só é a arrogância dos vencidos. Em conjunto, ficaram reduzidos a 11 deputados (um deputado a menos do que o Chega). Perderam 20 assentos (o mesmo número do conjunto da nova direita).

O botão para implodir a geringonça foi premido por ambos, com intransigência. Os estilhaços poderiam ter rasgado e paralisado o país, mas acabaram, sobretudo, por mutilar as mãos dos seus autores. Mas ali ninguém se demite ou admite ter errado. O “colectivo” funciona nos dois partidos como um ácido que dissolve a responsabilidade pessoal. Há erros de casting quando um artista estraga um bom filme. Mas há também o caso em que o argumento é incompatível com o artista. O PCP e o BE atingiram o seu limite no difícil “arco da governação”. Regressaram agora ao lugar tranquilo onde ainda sonhavam ter futuro.

Professor universitário

Diário de Notícias
Viriato Soromenho-Marques
05 Fevereiro 2022 — 00:07


Web designer
HTML Programmer
Network Engineering and Computer Systems



 

459: David contra Golias

OPINIÃO

Se o leitor for interrogado sobre qual o maior exemplo de avanço tecno-científico ocorrido no século XX, é provável que responda: o Projecto Manhattan, o modelo de Big Science, que garantiu aos EUA, milhares de milhões de dólares e milhares de cientistas depois, ganhar a corrida à bomba atómica. Usando a notável dicotomia de Aldo Leopold sobre as duas faces da ciência, a saber, “holofote” (searchlight) e “arma” (weapon), a resposta estaria certa para a segunda face, aquela que está ligada à tecno-ciência como instrumento de poderio e dominação.

Mas, se pensarmos na perspectiva da luz que nos orienta e nos pode salvar, então o maior acontecimento científico foi a descoberta da “curva de Keeling”, que é hoje o termómetro que permite cartografar, com rigor e sem disfarce, a deriva autofágica em que a humanidade continua embarcada.

Desde 1827 que, graças a Jean Baptiste-Fourier, sabemos da existência do crucial fenómeno do efeito de estufa (sem o qual em vez da amena temperatura média de 14º C, a temperatura terrestre seria de -18º C!). Por seu turno, John Tyndall, no final da década de 1850, conseguiu provar a ausência de contributo para esse efeito dos gases esmagadoramente presentes na nossa atmosfera, a saber, azoto e oxigénio.

Percebemos que os gases de efeito estufa (GEE) são quase residuais, com relevo para o dióxido de carbono (CO2) e o metano, sem esquecer o vapor de água. Em 1896, o químico sueco Svante Arrhenius estimou aquilo que hoje é da ordem da evidência: como estamos “a evaporar as nossas minas de carvão”, seria provável que em caso de duplicação da concentração do dióxido de carbono a temperatura média pudesse aumentar cerca de 5º C.

Está aqui o ponto crítico das actuais alterações climáticas: elas são antropogénicas, induzidas pela acção humana, não por variações naturais como as que foram estudadas por Milutin Milankovitch (1930). Na medida em que o nosso consumo exponencial de carvão, petróleo, gás natural, gás de xisto (além do metano produzido pela indústria agropecuária) aumenta a concentração de gases com efeito estufa, de modo correspondente aumenta a escalada incontrolada do aquecimento global.

Contudo, foi preciso esperar pela segunda metade do século XX para aprender a avaliar com rigor a concentração do principal GEE, o CO2. Nem os Estados nem as empresas mostraram qualquer interesse em medir o CO2, pois tal não aumentava o arsenal bélico nem os lucros. Com escassos milhares de dólares, e um convite de Roger Revelle – pioneiro do estudo do impacte das alterações climáticas nos oceanos – Charles David Keeling (1928-2005) realizou o seu tenaz e solitário trabalho de desenvolvimento de instrumentos e técnicas de medição do CO2 que hoje se tornaram padrão.

Em 1958, quando Keeling fez a primeira medição, o valor era de 313 ppmv (partes por milhão de volume de CO2 na atmosfera). Em 1750, a concentração rondava as 275 ppmv. Em maio de 2021 escalou para 419 ppmv. Uma curva exponencial que, paradoxalmente, sobe para o abismo ambiental e climático. Será preciso recuar milhões de anos, bem antes da entrada em cena dos humanos, para encontrarmos valores semelhantes. A febre da Terra ameaça inviabilizar a nossa sobrevivência colectiva em condições de dignidade. A “curva de Keeling”, essa descoberta de um herói individual, é uma sóbria e poderosa demonstração da irresponsabilidade organizada que comanda o mundo e nos torna a todos suas vítimas e cúmplices..

Professor universitário

Diário de Notícias
Viriato Soromenho-Marques
29 Janeiro 2022 — 00:47

 

Web designer
Computer Programmer



 

256: Um erro após outro

Agora que é claro ter a recusa do Orçamento conduzido a uma espécie de auto-mutilação da capacidade de influência do BE e do PCP, estes procuram explicar-se, num simulacro de ética da responsabilidade, alijando para Marcelo e Costa uma culpa pela dissolução da AR que é inteiramente sua.

OPINIÃO

Na sua célebre conferência de 1919 sobre a essência da política, Max Weber deixou-nos algumas reflexões que continuam a ser completamente válidas. Uma delas prende-se com o dilema ético que as encruzilhadas políticas decisivas colocam a quem tem de decidir. A paleta de opções desenhada por Weber está estruturada em torno do binómio “ética da convicção” (Gesinnungsethik) versus “ética da responsabilidade” (Verantwortungsethik). Não se trata de uma dicotomia simplificadora do tipo correto/incorrecto, mas de algo mais subtil.

Ela prende-se com o modo como cada potencial estadista mede a relação entre a ideia que ele tem para o mundo e a textura e a resistência que esse mundo tem perante a sua ideia. Saber estar à altura de uma encruzilhada exige do político uma visão de 360 graus e uma excepcional capacidade de escutar. Exige rigor de cálculo e articulação causal, mas também talento de antecipação e cenarização. A decisão competente tem de juntar determinação com humildade. Na história serão raras as decisões puras que obedeçam exclusivamente a um dos dois tipos éticos indicados por Weber.

Uma decisão motivada exclusivamente pela ética da convicção poderá conduzir à violência, quando uma ideia de vida em comum é imposta a uma sociedade que maioritariamente a recusa. Pelo contrário, uma ética da responsabilidade, que começa por medir prudentemente as consequências negativas de uma apressada implementação das suas ideias programáticas, pode acabar refém dos seus adversários, afogada num reformismo que se transforma em situacionismo.

Ao tempo de Weber, os casos do bolchevismo russo – com a sua vertigem armada que conduziu ao totalitarismo – e da social-democracia alemã – com a sua aliança às forças conservadoras derrotadas em 1918, que depois abririam o caminho ao nazismo – dariam exemplos fortes dos dois tipos de ética, pela ordem acima enunciada.

O BE e o PCP, depois de precipitarem eleições após a votação negativa do Orçamento, têm vindo a inverter o fio temporal das causas e dos efeitos com uma narrativa que transforma o aviso prévio de Marcelo sobre o risco de dissolução da AR numa intenção conspirativa, que Costa aproveitaria para almejar a maioria absoluta.

Trata-se da incompetente justificação de um erro somando-lhe outro. No dia decisivo da votação, o BE e o PCP pareciam movidos pela ética da convicção, colocando a intransigência nos princípios acima de qualquer outra consideração. Agora que é claro ter a recusa do Orçamento conduzido a uma espécie de auto-mutilação da capacidade de influência do BE e do PCP, estes procuram explicar-se, num simulacro de ética da responsabilidade, alijando para Marcelo e Costa uma culpa pela dissolução da AR que é inteiramente sua.

Acusar os adversários ou aliados pelos nossos erros é uma caricatura de responsabilidade destinada a reduzir os danos de uma anterior e imprudente convicção.

Acusar os adversários ou aliados pelos nossos erros é uma caricatura de responsabilidade destinada a reduzir os danos de uma anterior e imprudente convicção. Numa altura em que os interesses instalados se preparam para aproveitar não só o PRR, mas também a entropia crescente do Estado, num quadro geral de carestia energética e alimentar, num contexto de deslassamento europeu e de persistência pandémica, o BE e o PCP decidiram complicar ainda mais a situação do país, criando uma encruzilhada em que correm o risco de ser afastados do processo de decisão política futura.

Apenas poderão queixar-se de si próprios, se os eleitores os deixarem ficar na margem para onde, voluntariamente, se deixaram escorregar.

Professor universitário

Diário de Notícias
Viriato Soromenho-Marques
13 Novembro 2021 — 00:05

 

241: Os sonâmbulos em Glasgow

– Os sonâmbulos querem lá saber do clima, das alterações climáticas, das florestas… Quando a Terra estoirar, eles já não se encontram cá, para quê então preocuparem-se com o futuro que muitos deles não verão vivos? O último a sair que feche a porta e apague a luz…

OPINIÃO

A COP26 tem, infelizmente, correspondido e ultrapassado a esperada ausência de expectativas. Não se trata apenas da débil vontade política. Trata-se da pura e simples falta de seriedade. Tanto pela gravidade do assunto como pelo direito dos cidadãos a serem informados com respeito.

Logo de início, a encenação montada em torno da protecção das florestas esqueceu, convenientemente, o facto de em Setembro de 2014 uma declaração semelhante ter sido assinada (sempre de modo voluntário e não vinculativo) em Nova Iorque, numa conferência promovida pelas Nações Unidas. Em vez da ocasião fotográfica, o que haveria a destacar hoje é o enorme aumento da destruição das florestas prístinas, que, se o ritmo assim continuar, tornarão o ano alvo de 2030 numa data em que em vez da sua salvação se assinará a sua certidão de óbito.

No que diz respeito ao progressivo abandono do carvão, a mais poluente fonte de gases com efeito estufa, confirmaram-se os prognósticos mais negativos. Os maiores produtores e consumidores ficaram de fora, mesmo de metas difusas e longínquas.

Com isso, verifica-se a exactidão dos resultados de um recentíssimo estudo (Production Gap Report 2021) do Programa de Ambiente das Nações Unidas (UNEP) e do Instituto de Ambiente de Estocolmo (SEI), que confrontavam as reduções de emissões de gases com efeito estufa necessárias para se atingir a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris (um aumento médio da temperatura limitado a 1,5º C), com os investimentos em novas explorações de combustíveis fósseis, declarados pelos principais países.

Na verdade, em 2030 o desvio em relação à meta de 1,5 º C poderá ser de 240% para o carvão, de 71% para o gás natural e de 57% para o petróleo. Desde Janeiro de 2020, os países do G20 já subsidiaram os combustíveis fósseis em cerca de 300 mil milhões de dólares, superando em muito o apoio às energias renováveis. Noutro estudo, calcula-se que se poderá atingir 2030, não com uma radical diminuição das emissões, como seria necessário, mas com um aumento das mesmas em 16%, relativamente ao ano de 2010.

A mesma obstinação sombria percorre outros assuntos contidos na agenda da COP26. O financiamento de 100 mil milhões de dólares, pedido aos países desenvolvidos para apoio a medidas de mitigação e adaptação dos países em vias de desenvolvimento – uma verba que desde o longínquo ano de 1992 se mantém por atingir -, deverá ficar por cumprir. O mesmo se deverá dizer da agendada discussão do Rule Book, isto é, de regras que confiram algum rigor à métrica e monitorização das promessas dos países, no sentido de aproximar este acordo voluntário de um instrumento mais adulto e eficaz.

A COP26 dá-nos uma triste imagem da ausência de poder real e transformador das políticas públicas a nível mundial, incluindo as dos regimes democráticos, todos eles feridos por défices de legitimidade, representatividade e competência. No meio desta deriva, devo salientar a nota positiva que, tudo o indica na hora em que escrevo, será dada pelo parlamento português na esperada aprovação da nossa legislação climática.

Portugal será o primeiro país do mundo a incluir na Lei do Clima, como desígnio da nossa diplomacia ambiental junto das Nações Unidas, o reconhecimento do “clima estável como património comum da humanidade”. Substituindo, com isso, a fórmula vazia de sentido, que hoje prevalece, do “clima como preocupação comum da humanidade”.

Professor universitário

Diário de Notícias
Viriato Soromenho-Marques
06 Novembro 2021 — 00:17

230: O espelho partido da diplomacia

OPINIÃO

Começa amanhã a 26.ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas para as Alterações Climáticas. O secretário-geral, António Guterres, não tem cessado de alertar para o provável insucesso de mais esta reunião. As fugas de informação vão revelando alianças na sombra entre países e sectores económicos, do Brasil à Austrália, passando por Arábia Saudita. Argentina e Japão, entre outros.

Numa total indiferença para com o esmagador avanço do conhecimento científico – e a prova do seu rigor, que a realidade objectiva não cessa de confirmar -, muitos Estados e sectores económicos instalados, do carvão e do petróleo à carne e à agricultura intensiva, passando pelo nuclear e a geo-engenharia, estão firmemente organizados para deixar que a trajectória de colisão entre este modelo de globalismo predatório com os limites ambientais do nosso planeta continue a acelerar.

No passado, os pensadores ocidentais sustentaram que o impulso para a auto-preservação era a base do acordo político. Contudo, o próprio Thomas Hobbes recordou-nos que a vontade de domínio pode ainda ser mais poderosa, rasgando todos os limites para se perpetuar. Aqueles que se espantam por as leis da física, evidenciando o profundo e vertiginoso desequilíbrio do Sistema-Terra causado pela acção antrópica, serem ignoradas com desprezo pelos poderosos do mundo, esquecem o alerta de Hobbes, no Leviatã (1651): se Euclides constituísse uma ameaça aos detentores do poder, estes fariam tudo para queimar os livros de geometria…

O que o fracasso de mais uma cimeira climática irá revelar é o colapso das políticas públicas à escala mundial. A globalização neoliberal do início dos anos 1980, iniciada ao mesmo tempo com Deng Xiaoping, Thatcher e Reagan, entregou este precioso e ímpar planeta à voragem predatória de uma economia extractiva e primitiva, quando comparada com a complexidade do software que a natureza desenvolveu ao longo de milhões de anos. Os governos transformaram-se em meros facilitadores.

Nestes últimos 40 anos, o novo e turbinado mercado global causou mais danos na ecologia da Terra do que os milhares de anos anteriores da história humana. Os sucessivos protelamentos das decisões necessárias conduziram ao actual caos instalado. Todos os Estados e interesses querem combater as alterações climáticas, desde que sejam os outros a fazer sacrifícios, e eles, pelo contrário, possam obter bons negócios e conquistar novos mercados.

A anarquia madura do sistema internacional, sobre a qual Adriano Moreira há tantos anos lucidamente escreve, transformou-se num pandemónio declarado. O Acordo de Paris foi sempre uma criatura imperfeita: sem a natureza de um tratado (apenas para permitir a entrada dos EUA de Obama, incapaz de vencer a oposição no Senado); sem metas nem obrigações vinculativas; sem sanções para os prevaricadores.

Se o fracasso anunciado de Glasgow se concretizar importará reconhecer que o Acordo de Paris, na sua actual forma, está esgotado. Fingir que uma monstruosa caricatura de acordo é melhor do que acordo nenhum, é um erro político que só ajuda aqueles que pretendem simular preocupação, mas se recusam a agir. Se queremos defender o chão dos nossos filhos teremos de ousar outro caminho. A diplomacia também conhece os meios de tornar obrigatória a cooperação entre potenciais inimigos. Mas para isso importa partir o espelho dos falsos consensos, encontrar os aliados confiáveis e reconstruir as regras do jogo.

Professor universitário

Diário de Notícias
Viriato Soromenho-Marques
30 Outubro 2021 — 00:05