1088: Petição para salvar a muralha e a guarita do Baluarte do Livramento

OPINIÃO

Está a circular, principalmente, em Lisboa, uma petição para salvar a muralha e a guarita do Baluarte do Livramento, endereçada aos Exmos. Srs. Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Presidente do Conselho de Administração do Metropolitano de Lisboa-EP, Ministro do Ambiente e da Acção Climática e à atenção dos Senhores Presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, Deputados Municipais da AML, Presidente da Assembleia da República, e Deputados da Assembleia da República.

É sabido que o velho, mas sempre actual, ditado português, “é melhor prevenir do que remediar”, tantas vezes repetido nos conselhos que damos, sobretudo, aos mais jovens e aos nossos amigos, infelizmente, nem sempre é por nós utilizado quando somos chamados a tomar decisões importantes e irreversíveis.

Sendo um dos impulsionadores da petição para salvar a muralha e a guarita do Baluarte do Livramento, reconheço que nós não temos tempo nem a capacidade que têm os partidos políticos, ou outras entidades, para mobilizar um exército de voluntários para a recolha de assinaturas, contudo, por mais escasso que seja o número de nossos assinantes isso não significa que a causa por nós defendida seja menos meritória, ou inferior àquelas que recolhem milhares de assinaturas.

Considero que nenhum português, por mais indiferente que seja ao sentimento patriótico, ou desprendido em relação à necessidade da preservação e defesa da identidade nacional, aceitará de bom grado que um monumento, por mais insignificante que seja, possa ser destruído, podendo ser evitado.

No caso vertente, nós, os promotores e peticionários, não estamos a lutar pela preservação de um padrão insignificante, mas sim do Baluarte do Livramento que é uma construção militar edificada no século XVII que, nas guerras de Restauração da Independência (1640-1668), fazia parte da linha defensiva da cidade de Lisboa.

Este monumento histórico faz parte da memória colectiva do povo português. Nele se alicerça, também, a História de Portugal. Por isso, batalhar pela sua defesa e preservação constitui uma obrigação de todos os portugueses, tão importante como a que sucedeu em outras situações, que levaram os responsáveis políticos a adoptar medidas de salvaguarda.

É preciso que todos saibam que nos trabalhos de expansão da Linha Vermelha do Metro, a concretizar-se o projecto inicial, irá suprimir e, muito possivelmente, desfigurar uma grande parte da muralha do Baluarte do Livramento e a histórica guarita.

A configuração deste importante empreendimento citadino não está no segredo dos deuses. Segundo as notícias que correm, uma parte da muralha, na área em que o túnel e o viaduto se encontrarem, será amputada, definitivamente, e a outra parte será “desmontada” para, posteriormente, ser reconstruida e reforçada estruturalmente.

Sem ser especialista na matéria, tenho para mim que, mesmo que os avanços tecnológicos o permitam, quando reconstruida, a muralha sobrevivente jamais será a mesma.

Numa época em que se perdem, cada vez mais, as referências do passado, nunca será demais repetir que a muralha e a guarita do Baluarte do Livramento fazem parte do Património Nacional e da memória colectiva lisboeta e de Portugal.

Todos os esforços dos autores do projecto inicial e dos responsáveis políticos para que aquele projecto seja revisto, de forma a garantir a preservação integral do Baluarte do Livramento, serão uma valiosa e inesquecível contribuição em prol da defesa da identidade e da História de Portugal.

Estou em crer que a salvação das gravuras rupestres do Vale do Coa, levada a efeito no passado, será uma fonte de inspiração para aqueles que pugnarem em defesa do património cultural e histórico português.

Apelo, encarecida e veementemente, a todos os portugueses, que lutem por todos os meios de que dispõem, e nos ajudem a salvar o Baluarte do Livramento e a guarita.

Amar Portugal e ser patriota é defender a identidade nacional e os seus monumentos mais representativos, como é o caso do Baluarte do Livramento!

Historiador

Diário de Notícias
Valentino Viegas
23 Maio 2022 — 00:15



 

919: A guerra e a ilusão da vitória

OPINIÃO

Desconheço quando nasceu a primeira guerra no nosso planeta nem sei se alguém o saberá ao certo, mas verifico que não só veio para ficar como, principalmente, para ameaçar a humanidade da sua extinção total.

Talvez tenha tido origem em local ainda por descobrir, porventura em momentos distintos ou até em simultâneo, na Mesopotâmia, em Mohenjo-daro, no Egipto, ou na China, extenso se afamados territórios onde se desenvolveram civilizações fascinantes, enaltecidas pelos estudiosos pela sua antiguidade e esplendor.

Quando nos referimos aos avanços tecnológicos então ocorridos, habitualmente, fazemo-lo com espanto e admiração, dando pouca importância ao facto de os progressos nelas concretizados terem gerado também os gérmenes das primeiras armas de destruição e da morte.

Ao reflectirmos sobre o assunto, inferimos que, na sua génese, quando determinados instrumentos foram inventados, para ferir ou matar terceiros, os humanos devem ter sobrevalorizado, sobretudo, as suas virtualidades, menosprezando os efeitos nefastos que poderiam causar. Eles deviam ter avaliado a descoberta dessas armas de maneira egocêntrica por causa dos constantes perigos que os rodeava, do grande apego que tinham pela vida, e também por que o raio de acção dessas ferramentas era limitado, possibilitando atingir apenas um escasso número de seus semelhantes ou outros animais.

Perscrutando a vivência daquele passado muito distante, cujas circunstâncias determinantes são inimagináveis, a arma teria como principal objectivo a defesa pessoal e do grupo, sendo utilizada para matar apenas quando necessitassem de caçar para se alimentar. Ao tempo, ninguém estaria em condições de antever que, com sucessivos avanços científicos, fruto de invenções sobre invenções, o homem atingiria uma habilidade destrutiva de tal ordem que a série de progressos realizados acabaria por virar-se contra si próprio.

Para chegarem a esse nível dramático emprenhado de desgraças e tragédias, onde presentemente nos encontramos, sem darem conta disso, os humanos não se importaram de transitar por várias fases intermédias, iniciando os caminhos das disputas fronteiriças com pequenas guerras de alargamento territoriais, circunscritas aos seus vizinhos ou aos locais próximos mais cobiçados.

Tendo sido bem-sucedidos nos primeiros passos dessa insensata ousadia, guiados por ambições desmedidas e apoiados pela força das armas, os detentores do poder, rodeados de fiéis e submissos seguidores, lançaram-se na conquista de impérios, sem se importarem de semear as rotas, percorridas pelos seus soldados, de sangue das vítimas inocentes e gritos de aflição de infelizes moribundos.

A marcha dos acontecimentos históricos tem evidenciado que o líder, glorificado como vencedor e contemplado como autêntico deus, e as chefias do núcleo central dos seus guerreiros impiedosos, lançados na expansão territorial e na conquista das terras de outrem, só se contentavam quando alcançavam o maior domínio existente na face do planeta, até então por eles conhecido.

A ambição suprema acalentada por aquelas mentes doentias era o domínio do mundo, nem sempre expresso de forma transparente, como aconteceu nas pretensões hitlerianas do século passado, apoiadas pela loucura colectiva da maior parte do povo alemão, completamente rendido à sua liderança.

Assim, umas vezes de forma aberta e outras de maneira capciosa, foram nascendo, nos tempos idos e também nas épocas mais recentes, os grandes impérios na Ásia, na Europa e na América do Sul que se esfumaram ao longo do tempo.

Guiados pela loucura desenfreada de alcançarem a primazia, os líderes do império mongol, dos séculos XIII e XIV, bem podiam afirmar que criaram o maior império de terras contíguas do mundo, apenas perdendo em área para o império britânico.

Nessa lógica da vã glória imperial, nos tempos conturbados em que vivemos, onde os combates entre russos e ucranianos nos apresentam horrores diários, e não dão mostras de parar, os amantes da paz necessitam de estar mais atentos do que nunca, desconfiar de tudo e de todos, concorrendo para não fazer soar os tambores da guerra global e impedindo a escalada da violência, por que jamais podemos esquecer, como dizia José Saramago depois de analisar as lápides do cemitério em Bragança: “O homem é vaidoso mesmo quando não tem nenhuma razão para continuar a sê-lo” (in Viagem a Portugal, Porto Editora, 2021, p. 60).

Não há guerras limpas, são todas sujas, só que, umas deixam expostas mais sujeira do que as outras. No jogo de poderes em que se arrostam, esperemos que os russos ,americanos e chineses, sozinhos ou acompanhados, não nos arrastem nos seus sonhos megalómanos, – às vezes cuidadosamente escondidos e disfarçados -, e nos lancem numa guerra sem tréguas, com a ilusão da vitória pois, caso isso aconteça, talvez ninguém viva para poder contá-la.

Historiador

Diário de Notícias
Valentino Viegas
13 Abril 2022 — 18:24


Pelas vítimas do genocídio praticado
pela União Soviética na Ucrânia