873: Precisamos de ver cadáveres na televisão?

– Quando as atrocidades cometidas por assassinos, psicopatas, acéfalos e Companhia não são mostrados na sua plenitude de destruição, por muito que se pretenda desculpar psicologicamente esses factos, não é possível. Esconder as atrocidades, os assassínios, os mortos de uma carnificina perpetrada pela União Soviética, na pessoa directa de Putin e seus acólitos imperialistas, é esconder o cancro que estes animais representam para a Humanidade.

OPINIÃO

As imagens e testemunhos da invasão russa na Ucrânia entram-nos pela casa adentro todos os dias, a todas as horas e em todos os canais de informação. É fundamental informar, esclarecer e sensibilizar, é certo. Mas precisamos de ver cadáveres na televisão? Que impacto pode ter esta sobre-exposição a imagens de guerra chocantes e potencialmente traumáticas?

Dar notícias sobre a guerra não é fácil. Porque se, por um lado, é importante que todos tenhamos acesso à informação, por outro é igualmente importante que essa mesma informação seja objectiva, rigorosa e não-sensacionalista. Assim, qual o potencial impacto de sermos expostos repetidamente a imagens fortes de tamanha agressividade?

“Terão elas [as crianças] os mesmos recursos e ferramentas para gerir as emoções e lidar com esta situação? Claro que não.”

Talvez possamos começar pelo conceito de vitimização vicariante, que diz respeito a uma forma mais indirecta ou secundária de vitimização – ou seja, a pessoa não é vítima directa de violência (seja ela física, psicológica, sexual ou outra), mas assiste ou presencia essa mesma violência junto de outros. E o que sabemos sobre este fenómeno?

Sabemos que tem um forte impacto negativo no bem-estar de quem o experiencia, potenciando sentimentos de insegurança e de medo e aumentando a sensação de vulnerabilidade e de imprevisibilidade. Falamos, assim, de pessoas que, não sendo vítimas directas da guerra, podem experienciar alterações emocionais ou de comportamento muito significativas, com quadros ansiosos ou depressivos, reacções agudas de stress ou outras.

Temos ainda de pensar que, muitas vezes, temos as crianças na sala ou na cozinha a assistirem a este tipo de notícias. E terão elas os mesmos recursos e ferramentas para gerir as emoções e lidar com esta situação? Claro que não.

Por outro lado, corremos um risco muito preocupante – o risco da habituação. O que significa que, quando expostos de forma repetida a determinados estímulos, por mais dissonantes e perturbadores que possam ser, corre-se o risco de ocorrer um processo de dessensibilização. E aquilo que, numa fase inicial, nos fazia experienciar emoções muito intensas e chorar, por exemplo, acaba progressivamente por tornar-se algo mais neutro e menos impressionante.

Queremos isto? Queremos que as imagens e notícias da guerra activem medo, ansiedade e reacções de stress ou, pelo contrário, que nos façam sentir anestesiados e adormecidos face ao sofrimento alheio?

Não queremos uma coisa nem outra.

Neste contexto, importa sensibilizar os órgãos de comunicação social para alguns aspectos devidamente sistematizados no recente documento da Ordem dos Psicólogos Portugueses (https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/opp_darnoticiassobreaguerra_v1.pdf) que salienta as boas práticas que devem ser seguidas.

É necessário informar de forma clara, equilibrada e precisa, com uma linguagem imparcial e procurando humanizar todos os envolvidos, evitando a dicotomia “bons” e maus”, salientando o impacto menos visível da violência e protegendo os mais novos de determinadas imagens.

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

Diário de Notícias
Rute Agulhas
07 Abril 2022 — 00:13

 



 

“Uma bofetada não magoa ninguém”

– Realmente uma bofetada não magoa ninguém, quando esse alguém nos ofende directamente, em público. Também não sou adepto da violência – basta aquela em que participei OBRIGATORIAMENTE quando estive dois anos na guerra do Ultramar-, mas existem situações em que o(s) ofendido(s) – Will Smith – não se contêm e a única maneira de demonstrarem essa ofensa (Chris Rock), é a tal bofetada que não magoa ninguém. Gostava que a cronista dissesse, se o mesmo se passasse com um familiar dela, em público e transmitido para milhões de espectadores, se a sua reacção seria passiva. Claro que este tipo de reacções variam de pessoa para pessoa, umas contêm-se, outras disparam de imediato apenas porque a ofensa é assumida como tal. Acho até que esta bofetada foi suave de mais para o que o parvalhão do apresentador Chris Rock disse.

OPINIÃO

Em directo, na cerimónia de entrega dos óscares, assistimos a um episódio de agressão física que, para muitos, foi justificado pela natureza da piada feita. Para além de que, dizem outros, uma bofetada não magoa ninguém e pode ser uma boa forma de resolver problemas. E assistimos ainda a uma plateia inteira que, se num primeiro momento pareceu reagir com surpresa ou choque, ficando em absoluto silêncio, pouco tempo depois aplaudia o agressor.

E foi assim, em menos de nada e com direito a transmissão para todo o mundo, que pudemos assistir a um episódio de violência que espelha aquilo que ocorre de uma forma geral, em tantas outras situações. Segundo o agressor, “bati por amor”, “mereceste apanhar” e “a culpa foi tua”, ideias que legitimam a violência pelo comportamento da vítima e desculpabilizam quem agride. E para quem assiste, “foi apenas uma bofetada” e “é melhor não nos metermos porque não tem nada a ver connosco”, ideias que banalizam a violência e a legitimam pela necessidade da privacidade familiar.

Estamos perante um conjunto de crenças que legitimam a violência e que são muito frequentes no contexto das relações de intimidade, e não só. Crenças que levam a que a violência seja entendida como necessária e desejável e, ainda, que apenas diz respeito a quem está directamente envolvido. Desta forma, quem observa faz apenas isso mesmo, acreditando que a responsabilidade se dilui por todos aqueles que assistem, acabando por manter um comportamento passivo.

Falamos de crenças transversais a todos os níveis sociais e económicos e que, contrariamente ao que possamos pensar, não são do tempo dos nossos avós, quando se enchia a boca para dizer que entre marido e mulher não se mete a colher. São, infelizmente, ideias que ainda persistem e que se traduzem na perpetuação dos ciclos de violência.

E quanto à inacção e à passividade de quem assiste, meros observadores numa primeira fase e, logo depois, agentes de reforço da violência (afinal de contas, “bater foi um ato de amor”), traduz bem a sociedade tolerante e egoísta em que ainda vivemos, que vira a cara e finge que nada se passou.

Pois que esta situação nos permita reflectir sobre o que pensamos e fazemos e, ainda, sobre os modelos que estamos a transmitir aos mais novos. Ouvi já alguns jovens comentarem que o seu ídolo é um verdadeiro macho, defendendo o seu amor com unhas e dentes.

Que quem levou merecia levar e que ninguém tem nada que se meter com o que se passa na vida das outras pessoas. Crianças e jovens que começam a acreditar nisto apresentam, necessariamente, maior probabilidade de recorrerem à violência ou de a aceitarem como algo normal. E pergunto-me: é isto que queremos?

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

Diário de Notícias
Rute Agulhas
01 Abril 2022 — 00:09

 



 

742: O pai actual é provedor e cuidador

OPINIÃO

A pouco tempo do Dia do Pai, e porque teimamos em enaltecer as mães e minimizar o papel dos homens, importa falar sobre o pai dos dias de hoje. Não o pai meramente provedor que pouca atenção dá aos seus filhos, mas o pai cuidador, presente e competente, capaz de reconhecer e satisfazer todas as necessidade dos seus filhos. Felizmente, cada vez mais o pai com que nos deparamos.

A mãe é vista, tradicionalmente, como quem cuida dos filhos e o pai como quem assegura o sustento da família. Uma visão tradicional que deixou de corresponder, há já algum tempo, à realidade do nosso país, e não só. Nos dias de hoje, pais e mães trabalham e cuidam dos filhos, reclamando a sua participação na esfera pública e privada, e procurando equilibrar papéis que se desejam complementares. E se, na esfera pública, são as mulheres as principais vítimas de desigualdades várias, é na esfera privada que os homens se sentem mais discriminados.

O pai actual é provedor e cuidador. Trabalha e ganha dinheiro, ao mesmo tempo que troca fraldas e dá biberões, acompanhando o crescimento dos seus filhos de uma forma muito presente.

Falamos do conceito de envolvimento parental, que remete para os vários elementos compreendidos no desempenho quotidiano da maternidade e da paternidade: o tempo vivido com os filhos; as actividades parentais (cuidar; ensinar e educar; acompanhar, dar apoio e afecto; brincar e partilhar lazeres; estar junto; levar/buscar à escola; desempenhar tarefas domésticas; gerir a vida quotidiana da criança, etc.); a articulação trabalho-família; as responsabilidades sobre as necessidades da criança (físicas, psicológicas, afectivas, emocionais, sociais e materiais); e o relacionamento com a criança e entre os pais.

Naturalmente, são as crianças que saem a ganhar com o envolvimento de ambos os pais, motivo pelo qual, e cada vez mais, em situações de separação ou divórcio os regimes de convívios entre pais e filhos procuram assegurar uma distribuição de tempo tendencialmente equitativa – só desta forma podem ser mantidos os laços afectivos e garantir o envolvimento de ambos os progenitores na vida dos filhos. Um pai que apenas convive quatro dias por mês com o seu filho não conseguirá, jamais, manter-se envolvido na vida deste.

Não obstante as numerosas evidências empíricas que corroboram a importância do envolvimento de ambos os pais no bem-estar e segurança afectiva da criança, contribuindo para o estabelecimento de relações de vinculação seguras, são ainda muitas as decisões judiciais que, por defeito, valorizam o papel materno e minimizam o paterno. E só esta assimetria na forma de entender os papéis parentais pode justificar o facto de ainda existirem bebés que veem o pai uma hora por semana e crianças de idade pré-escolar que estão privadas de pernoitar com o pai.

A maternidade e a paternidade são hoje vivenciadas de um modo que se tem afastado progressivamente das concepções mais tradicionais. E se a mãe de hoje é cuidadora e provedora, o pai de hoje é provedor e cuidador. E a criança precisa de ambos.

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

Diário de Notícias
Rute Agulhas
17 Março 2022 — 00:46

 



 

494: A depressão mata

OPINIÃO

A advogada e vencedora de um concurso de beleza norte-americano, Cheslie Kryst, faleceu há dias, vítima daquilo que se acredita ter sido um suicídio. O que nos leva a reflectir sobre o quão importante é cuidarmos da saúde psicológica, parte integrante do nosso bem-estar mais geral.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 700 mil pessoas morrem todos os anos por suicídio, sendo que muitas mais o tentam cometer. O suicídio é a quarta causa de morte entre os jovens de idades compreendidas entre os 15 e os 19 anos de idade, revelando-se um problema de saúde pública bastante significativo.

Os pensamentos e as tentativas de suicídio surgem frequentemente associados à perturbação depressiva, que se caracteriza por um humor deprimido a maior parte do dia, quase todos os dias, perda de interesse ou prazer em todas ou quase todas as actividades e alterações nos padrões alimentares e de sono. A pessoa deprimida apresenta ainda, com frequência, agitação ou lentificação psicomotora, fadiga, sentimentos de desvalia ou de culpa excessiva ou inadequada, bem como dificuldades de concentração. Falamos, assim, de um estado emocional desagradável em que o sujeito se sente triste, apático e infeliz, mostrando desinteresse pelas suas actividades habituais. Nas crianças, os sinais e sintomas podem ser um pouco diferentes, sendo frequente a agressividade mascarar um humor mais depressivo.

É fundamental perceber a diferença entre a tristeza considerada normal e a tristeza patológica, dois extremos de um continuum com diferentes estados intermédios. Se a chamada tristeza normal é proporcionada, circunscrita a determinadas situações, esporádica, adaptativa, breve e pouco intensa, a tristeza mais patológica revela-se desproporcionada, invasiva, persistente, intensa, desadaptada e desorganizadora. A tristeza patológica surge habitualmente de mãos dadas com alterações físicas, sociais, pessoais e espirituais, sinais de alerta que devem ser valorizados de modo a procurar-se ajuda especializada.

Ignorar ou minimizar aquilo que se sente, acreditando que passa com o tempo ou que é apenas um estado passageiro, pode fazer a diferença entre pedir ajuda de forma atempada ou perceber-se, depois, que as ideias de morte começam a ser difíceis de controlar. Os pensamentos suicidas atravessam várias fases que se agravam de forma gradual, pelo que a intervenção precoce é a melhor forma de impedir essa escalada.

A depressão nem sempre é visível de uma forma muito clara e esconde-se, muitas vezes, por trás de um sorriso. É fundamental estarmos atentos aos sinais e pedir ajuda o quanto antes.

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

Diário de Notícias
Rute Agulhas
03 Fevereiro 2022 — 00:11


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384: Jovem agredido na escola: quando os espectadores nada fazem

OPINIÃO

Um jovem de 12 anos foi nesta semana agredido por um colega de 14, em Matosinhos. Uma situação de extrema violência filmada pelos colegas e depois publicada nas redes sociais. Colegas que nada fizeram para proteger a vítima, deram palco e acabaram por reforçar o comportamento agressivo.

Esta situação de violência exige da parte de todos nós uma reflexão séria sobre um conjunto de situações. Em primeiro lugar, temos um agressor e uma vítima, mas temos também numerosos espectadores que não apenas não fazem nada como ainda reforçam o comportamento que deveriam tentar eliminar, filmando-o e permitindo que o mesmo seja partilhado no mundo virtual, recebendo mais atenção.

Estamos perante o chamado “efeito espectador” – em face de uma situação de emergência (em que alguém é vítima de alguma forma de violência), quem assiste tem menos probabilidade de ajudar quando está na presença (real ou imaginada) de outras pessoas do que quando está sozinho. Estas pessoas, os observadores ou by-standers, ficam apáticos e sem acção, e não intervêm. Mesmo filmando a situação de violência, mantêm um comportamento passivo.

Este efeito relaciona-se ainda com a difusão da responsabilidade – a responsabilidade em ajudar o outro deixa de estar centrada apenas numa pessoa (quem assiste), mas dilui-se por todos os que assistem. Esta difusão da responsabilidade tende a minimizar a culpa individual – “todos podiam ter ajudado, logo, eu não tenho culpa por não ter feito nada”. “Como a responsabilidade é de todos, não é de ninguém.”

Em segundo lugar, percebemos que esta situação decorre na escola e uma questão desde logo se coloca: qual foi e qual poderá ser o papel da escola neste tipo de situações? Que tipo de medidas adoptou e, talvez ainda mais importante, o que tem feito no sentido de as prevenir? Não apenas esta escola em concreto, mas todas as escolas do nosso país.

“É apenas uma briga entre miúdos” e “quem é que nunca andou à bulha?”, dizem alguns. Pois quando os miúdos resolvem os seus problemas, sejam eles quais forem, à pancada, acreditando que a violência é uma forma aceitável, legítima e até mesmo necessária para essa resolução, temos um grave problema. Porque temos miúdos que crescem com este tipo de crenças que se traduzem, depois, em comportamentos mais agressivos. Padrões que tendem a enraizar-se e a rigidificar-se, perpetuando-se ao longo do tempo.

Enquanto pais, professores, profissionais ou cidadãos, temos de parar para pensar. Estamos a educar as nossas crianças no sentido de recorrerem à violência como forma legítima de resolverem os seus conflitos? Permitimos que assistam passivamente à dor e ao sofrimento alheio, mais centradas em si do que nos outros? Não queremos, antes, promover a empatia e o altruísmo? E se sim, o que podemos fazer nesse sentido? O que pode e deve fazer a família, a escola e toda a comunidade?

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

Diário de Notícias
Rute Agulhas
13 Janeiro 2022 — 00:49




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354: Como definir um plano de mudança para este novo ano

OPINIÃO

Sempre que um novo ano se inicia, temos a sensação de virar a página de um livro e de poder escrever um novo capítulo. De ter à nossa frente uma enorme quantidade de páginas em branco onde podemos escrever o que entendermos, ajudando-nos a ter alguma sensação de controlo. Mas poucos dias depois invade-nos uma outra sensação, tão bem conhecida, de que afinal tudo é mais do mesmo. As rotinas, o trabalho, as relações, tudo parece estranhamente igual. E, na espuma dos dias, vamos vivendo mais um ano que de novo parece ter muito pouco.

Se queremos, de facto, que algo se altere, não são os números do calendário que têm de mudar. Nem tão-pouco as outras pessoas, cuja motivação para a mudança pode existir, ou não.

Se queremos algum tipo de mudança, somos nós que temos de mudar.

E o primeiro passo para qualquer processo de mudança implica parar e tentar identificar o problema. Seja fumar, trabalhar demasiado, ter uma vida pouco saudável ou estar envolvido numa relação tóxica, a identificação clara da situação ajuda-nos a definir, depois, objectivos de mudança. O que gostaríamos que acontecesse? Quais são as metas que gostaríamos de alcançar?

Mas atenção! Os objectivos de mudança devem ser definidos de forma realista e concreta, um de cada vez, evitando estabelecer metas praticamente inatingíveis ou demasiado exigentes, que mais não fazem do que aumentar a probabilidade de frustração. Os objectivos não devem, assim, ser confundidos com os nossos sonhos, tantas vezes vagos e difusos. Pensemos antes que os objectivos podem ser um modo de dar forma aos sonhos.

Ao mesmo tempo, devemos pensar na mudança como um processo que é feito de pequenos passos. Pensar desta forma, ao invés de estarmos focados apenas no grande objectivo final, ajuda-nos a manter a motivação e o empenho, reduzindo a probabilidade de desistência.

Está agora na hora de definir um plano de acção, antecipando possíveis obstáculos e, ainda, estratégias para lidar com os mesmos. Ao fazê-lo, estaremos a munir-nos de um conjunto de ferramentas que nos ajudam a sentir mais preparados para enfrentar as dificuldades que são, no fundo, uma parte inerente a qualquer processo de mudança.

Dicas para facilitar um processo de mudança. Coloque a si mesmo estas questões:

1. O que gostaria que mudasse na minha vida? Qual é o meu problema?

2. Quais são as metas intermédias que posso definir, pensando num passo de cada vez?

3. Qual é o meu plano de acção? O que vou fazer? Como? Quando?

4. Que dificuldades poderei encontrar pela frente? Face às mesmas, o que posso fazer?

5. E a quem posso pedir ajuda?

Mudar nem sempre é fácil, mas é possível. E será seguramente mais fácil se definirmos metas realistas e concretas, pensarmos de forma positiva e encararmos os obstáculos como desafios, ao mesmo tempo que activamos a nossa rede de apoio social. Vamos tentar?

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

Diário de Notícias
Rute Agulhas
06 Janeiro 2022 — 00:07




 

261: Sou uma criança e tenho o direito a conviver com os meus avós!

OPINIÃO

Muitas crianças são injustamente afastadas do convívio com os avós, fruto de separações e divórcios conflituosos em que os pais, os principais responsáveis por esta situação, se centram apenas nos seus interesses e descuram aquele que é o interesse da criança.

Os casais discutem, separam-se e cada um segue o seu caminho. Pois bem, mas que o façam sem violar aquele que é um direito da criança – o direito a conviver com os seus familiares, nomeadamente, os avós.

Na nossa legislação, este direito ao convívio está previsto no artigo 1887.º-A do Código Civil, no qual pode ler-se que “os pais não podem injustificadamente privar os filhos do convívio com os irmãos e ascendentes”. Alguns acórdãos do Tribunal da Relação de Lisboa consideram ainda que este direito é aplicável a avós biológicos e avós afectivos, salientando a importância dos afectos na vida da criança.

Se os pais não podem, injustificadamente, privar a criança do convívio com os avós significa, então, que incumbe ao progenitor que pretende impedir estes contactos o ónus de prova de que este convívio é prejudicial.

Quando é pedida uma avaliação pericial psicológica neste contexto importa, assim, partir do pressuposto de que este convívio permite a integração da criança numa família mais alargada, potenciando sentimentos de pertença e laços afectivos indispensáveis para o seu harmonioso desenvolvimento. Os avós constituem-se, ainda, como fontes riquíssimas de conhecimento e transmissão de informação, deixando um legado de cultura, valores e rituais de gerações anteriores que sedimentam a noção de família.

Depois, é necessário avaliar a qualidade da relação afectiva entre avós e netos, prévia e actual, e perceber em que medida um corte relacional poderá impactar negativamente no bem-estar destes últimos. Pois apenas nos casos em que esta relação seja manifestamente danosa para a criança pode equacionar-se um afastamento, temporário ou de natureza mais definitiva.

Muitos avós desconhecem que o direito ao convívio com os seus netos é ponderado desta forma e acomodam-se passivamente a uma decisão unilateral por parte de um progenitor, que impede esses mesmos convívios. Pensando no interesse da criança, e apenas neste, é importante que os avós saibam que podem e devem requerer contactos evitando, dessa forma, que os seus netos cresçam amputados na sua história e herança familiar.

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

Diário de Notícias
Rute Agulhas
18 Novembro 2021 — 00:13

 

227: Já viram a agenda das nossas crianças?

OPINIÃO

Posso ter consulta ao domingo à tarde? É quando tenho tempo livre”, diz-me uma criança de 9 anos. A outra criança perguntei recentemente como se sentia o seu corpo numa determinada situação que relatava, ao que me respondeu que “não tenho tempo para parar e ouvir o que sente o meu corpo”.

Os dias destas crianças começam bem cedo com as aulas, que duram grande parte do dia. Depois, seguem-se as explicações ou o atelier de tempos livres (que de livres têm muito pouco) e as mil e uma actividades extra-curriculares, entrando pela noite dentro. Banho, jantar e cama. Chega o fim de semana e o cenário repete-se. Sobra o domingo à tarde ou ainda menos do que isso.

A agenda sobrelotada destas crianças é o retrato fiel das agendas de milhares de outras crianças que, semana após semana, mês após mês e ano após ano, correm pela vida sem tempo para parar e descansar. As suas agendas estruturadas não o permitem.

O artigo 31.º da Convenção sobre os Direitos da Criança é muito claro quando sublinha o direito ao repouso e aos tempos livres, o direito de participar em jogos e actividades recreativas próprias da sua idade e de participar livremente na vida cultural e artística. Parece, assim, que estamos a dar mais atenção à segunda parte deste direito, focada na participação em actividades diversas, do que à primeira, relativa ao descanso e ao tempo livre.

Um processo de crescimento saudável implica a satisfação de todas as necessidades da criança, e o repouso é uma delas. Não é moleza, preguiça ou tempo “morto”, abrindo caminho ao ócio e à não produtividade. É, pelo contrário, um tempo muito vivo e cheio de oportunidades para criar e (re)inventar. “Não ter nada para fazer” é fantástico do ponto de vista da estimulação da criatividade da criança, ajudando-a, ao mesmo tempo, a parar para pensar e para sentir. E se, para a criança habituada à correria, não ter nada para fazer gera algum desconforto, pois é hora de aprender a lidar com essa frustração e a encontrar estratégias adequadas para a superar.

Proponho que olhemos para as agendas dos nossos filhos à luz deste direito. Uma semana tem 168 horas. Destas, quantas são passadas em aulas e actividades? E quantas são passadas a dormir? E será este tempo suficiente para um sono reparador? Quantas horas sobram e o que é feito nesse tempo? Existe verdadeiro tempo livre?

Sugiro, assim, um processo de reflexão, se possível envolvendo os filhos de forma activa, que possa ajudar a uma eventual mudança e reajustamento dos tempos e agendas das nossas crianças, reservando tempo para não fazer nada.

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

Diário de Notícias
Rute Agulhas
28 Outubro 2021 — 00:03

 

207: O que devem fazer as escolas perante uma suspeita de abuso sexual?

OPINIÃO

Quando a criança evidencia alterações físicas ou comportamentais que sugerem uma possível situação de abuso sexual, ou verbaliza algo nesse sentido, o que deve fazer a escola? E o que não deve fazer?

O abuso sexual é uma forma de maltrato que se caracteriza pelo segredo, potenciado pela culpa, pelo medo e pela vergonha. As crianças sentem muita dificuldade em revelar e, quando o fazem, escolhem pessoas de confiança que são, muito frequentemente, os profissionais da área da educação, que nem sempre sabem como reagir ou o que fazer. Qual é, então, o papel das escolas nestas situações?

Em primeiro lugar, importa salientar que o abuso sexual não é uma doença e, como tal, não tem um conjunto de sinais e sintomas específicos. As vítimas de violência sexual são um grupo muito heterogéneo, variando entre vítimas assintomáticas (sem qualquer alteração observável) e outras que evidenciam diferentes tipos de sequelas de severidade variáveis. Falamos do chamado dano primário da violência sexual, que pode envolver efeitos físicos, psicológicos ou comportamentais, com alguns padrões específicos em função das diferentes etapas do desenvolvimento.

Perante uma suspeita/revelação de abuso sexual, o que não deve fazer a escola?

– Entrar em pânico, não acreditar ou culpabilizar a criança.

– Dar-lhe banho, deitar fora a fralda ou lavar as suas roupas.

– Manter o silêncio.

– Sinalizar a suspeita junto do psicólogo da escola, da comissão de protecção de crianças e jovens, da PSP ou da GNR. Mesmo que venha a ser necessária a intervenção da CPCJ, esta não é a porta de entrada para uma sinalização desta natureza.

O que deve fazer a escola?

– Manter a calma e uma postura empática.

– Escutar a criança sem juízos de valor, dizendo-lhe que acredita nela.

– Dizer à criança que não é culpada.

– Escrever aquilo que a criança disse, usando as suas palavras exactas.

– Dizer à criança que se pretende ajudar e que, para isso, é necessário partilhar esta informação.

– Pedir ajuda junto de uma entidade com competência na matéria – encaminhar de imediato a criança para os serviços de saúde ou para quem tem a competência exclusiva de investigação deste tipo de crimes – a Polícia Judiciária.

É na escola que muitas crianças dão sinais ou revelam uma situação de abuso sexual, e é fundamental que a escola conheça os procedimentos a adoptar e os implemente de forma célere e correta.

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

Diário de Notícias
Rute Agulhas
21 Outubro 2021 — 00:09

 

178: O que esconde uma criança agressiva?

OPINIÃO

Muitas crianças exibem comportamentos agressivos, verbais, físicos ou sexuais. E com o mundo digital à distância de um clique, estas agressões podem assumir contornos muito diversos, como o envio de mensagens violentas ou insultuosas, a difamação, o assédio ou a publicação de conteúdos privados sobre alguém.

Estamos em Outubro, o mês dedicado à sensibilização e à prevenção do bullying, para que possamos aprender a prevenir, identificar e agir. Competências que implicam necessariamente uma intervenção articulada entre a família, a escola e a comunidade, enquadrada por medidas políticas e legais concretas e baseadas em evidências.

Hoje falamos de bullying ou cyberbullying, não na perspectiva das vítimas ou dos observadores, mas sim de quem agride. Os chamados bullies.

As crianças agressoras são muitas vezes populares e podem ter amigos, ainda que as suas amizades sejam baseadas no medo, e não no respeito. Algumas características frequentes são a irritabilidade, a manipulação, a impulsividade e a baixa tolerância à frustração. Evidenciam dificuldade em cumprir regras, intimidam e gabam-se da sua superioridade (real ou imaginária) sobre as outras crianças.

No fundo, falamos de crianças pouco empáticas que subestimam a sua agressividade e minimizam o sofrimento da vítima, com uma enorme necessidade em exercer poder e controlo. Manifestam ainda formas distorcidas de ler a realidade, acreditando que “estão todos contra mim”, que “o mundo tem de ser como eu quero” e que qualquer contrariedade “é horrível e insuportável”. Estas crianças revelam competências deficitárias a vários níveis, desde a forma como rotulam e gerem as suas emoções, até ao modo como resolvem problemas e regulam o seu comportamento.

É difícil, ou mesmo impossível, estabelecer uma relação de causa-efeito e identificar a origem deste tipo de comportamentos. Sabemos, no entanto, que existem diversos factores de risco, individuais (por exemplo, temperamento, auto-estima), familiares (por exemplo, práticas punitivas, negligência, violência doméstica) e sociais (por exemplo, valorização da violência, pressão do grupo de pares).

Neste contexto, mais do que pensar-se numa qualquer punição para a criança agressora, é fundamental tentar compreender o seu funcionamento e envolvê-la num processo de ajuda, que exige o envolvimento activo da família e da escola.

Para ajudar estas crianças, é importante não negar o problema nem a sua gravidade, orientando-as no sentido de assumir a sua responsabilidade. Encorajar a empatia e desenvolver um sistema de regras claro em que os comportamentos adequados são reforçados e os comportamentos desadequados têm consequências negativas. Procurar ainda soluções de restituição, com acções concretas que ajudem as vítimas a sentirem-se melhor e a serem compensadas, de alguma forma, pelos danos sofridos.

O comportamento agressivo mascara muitas vezes um sem-número de fragilidades e dificuldades que requerem um processo de ajuda especializada. Por isso, é preciso passar tempo com a criança, dar-lhe atenção, vê-la e escutar aquilo que diz e que não diz. Olhando-a como alguém que também sofre e que precisa de auxílio.

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

Diário de Notícias
Rute Agulhas
07 Outubro 2021 — 00:19