186: Bocetas de Pandora cheias de Cavalos de Tróia

OPINIÃO

O momento mais divertido em toda a cobertura televisiva dedicada aos Pandora Papers aconteceu na TVI. Não quando Morais Sarmento passou catorze minutos a explicar porque é que a sua utilização de uma offshore para investir num hotel foi um heróico acto de resistência contra a burocracia moçambicana, mas num segmento posterior, em que entrevistaram João Paulo Batalha. Depois de triunfantemente revelados os nomes dos “três portugueses” que constam descarga de documentos, a entrevistadora tentou ir ao fundo do problema: “Estamos a falar de pessoas que foram titulares de cargos públicos, não há aqui uma… questão ética em jogo?

No geral, as televisões nacionais tentaram, pelo menos no primeiro dia, tratar o assunto com a devida reverência, e portanto foram forjando o seu próprio entusiasmo, recorrendo aos recursos hiperbólicos mais fiáveis: a frase “A Maior Investigação Jornalística de Sempre” foi repetida em pelo menos dois canais. Mas foi-se instalando um certo ennui, talvez mais depressa do que é costume, com procissões de convidados repetidamente interrompidos com um “para as pessoas lá em casa perceberem”, e segmentos de dois minutos encerrados por “falta de tempo”.

A pergunta sobre “haver uma questão ética em jogo” é caracteristicamente cómica não apenas pelo hesitante decoro (seria como perguntar sobre um incêndio se “não há aqui uma questão de combustão em jogo?”), mas também por deslocar a ênfase para o sítio errado. O sub-texto promovido por este tipo de enquadramento nunca pode ser a corrupção no seu sentido sistémico (de algo que existe em sistemas que acções ou inacções políticas ajudaram a construir e perpetuar), ou material (de aquisição de vantagens indevidas), ou sequer uma ideia geral de “impunidade”. O que se procura é o titilar de nervos mais remotos, instintos mais atávicos, e hábitos de consumo de informação moldados em parte pela ficção: uma narrativa assente em juízos individuais sobre a virtude pessoal dos envolvidos – os protagonistas.

Em muitos aspectos, os Pandora Papers são um artefacto saudosista, daí ser natural o impulso para tratar a cobertura noticiosa como um fenómeno de revivalismo. Para começar, por ser uma repetição, na forma, conteúdo e método de baptismo, de outras revelações recentes (Panama Papers, LuxLeaks, Luanda Leaks, Malta Files, etc.). Mais do que isso, é um lembrete de outro fenómeno historicamente específico, que entretanto deixou de funcionar da mesma maneira, mas cuja pegada cultural ainda tem força suficiente para manter algum apelo emocional: o da “notícia bombástica” que revela uma verdade escandalosa até aí escondida e que (por conseguinte) vai ter consequências imediatas – um pedido de desculpas, uma demissão, uma impugnação, etc.

Nesse período, inevitavelmente recordado com nostalgia por quem ainda se dedica à actividade, uma das funções da comunicação social era precisamente fazer esta mediação entre causas e consequências – determinar o itinerário dos “titulares de cargos públicos” desde o momento em que eram “apanhados” até o momento em que sofriam uma sanção. A forma como cada uma destas “revelações” contemporâneas é processada mantém não apenas a crença fervorosa da imprensa nesta ideia exaltada da sua própria importância, mas também numa espécie de sebastianismo do “documento”, em que a exposição colectiva a dossiers repletos de Verdade funciona como uma cura.

Num dos bons exemplares da série de filmes dos anos 70 informalmente chamados “thrillers paranóicos”, Os Três Dias do Condor, o desenlace é quase uma paródia desta convicção. O filme termina com o protagonista a garantir as mais importantes das consequências materiais – a denúncia da conspiração e a sua própria segurança física – através de um simples expediente: contar tudo o que sabe ao New York Times. Um agente da CIA implicado na conspiração intercepta-o à porta do jornal, e tenta incutir nele (e no espectador) uma dúvida: “quem te garante que eles vão publicar a notícia?”. Ou seja, a única diferença imaginável é entre um mundo em que a verdade é conhecida por todos, ou um mundo em que ela permanece encoberta. O corolário é óbvio: o poder depende da capacidade para operar em segredo, e a exposição desse segredo é condição suficiente para o inviabilizar.

A crença persistente nas propriedades magicamente higiénicas da “investigação jornalística” e da “exposição da verdade” é, como muitas outras vagas convicções públicas, o resquício contemporâneo de algumas coisas ocorridas algumas décadas antes, reverencialmente elevadas a verdades abstractas. No caso em questão, é uma categoria de idealismo assente na mitificação póstuma da única vez em que o modelo funcionou exactamente assim (o escândalo Watergate), e que precisa de esquecer a facilidade com que muitos casos posteriores foram absorvidos, integrados na atmosfera, ou instantaneamente esquecidos, excepto como modelos de sufixação para o escândalo seguinte.

Os thrillers “paranóicos”, tal como as histórias de espiões e a ficção detectivesca em geral, sofreram óbvias dores de adaptação ao mundo digital, não apenas porque a gramática de gestos investigativos se tornou mais reduzida (e mais chata de filmar e observar), mas também porque o momento de estar no limiar da revelação se tornou muito mais banal. A sensação de estar prestes a saber algo chocante, que a boa ficção desses géneros se especializava em instrumentalizar, é indistinguível da sensação de passar algumas horas por dia na Internet. Não é que o momento exacto em que se unem as pontas soltas tenha deixado de existir, é que agora parece acontecer constantemente.

Por uma série de razões, umas orgânicas, outras ideológicas, e algumas acidentais, o tipo de enquadramento que a informação televisiva costuma dar a estas colossais descargas de informação acaba por ser semelhante tanto ao enquadramento retórico que o discurso populista gosta de dar ao tema genérico da “corrupção”, como ao funcionamento das discussões conspirativas online: a sensação titilante de descoberta, arrastada ao longo de vários “episódios” em espaços monetizáveis, em que a “informação” é reduzida a oráculos berrantes sobre quem foi, vai ser, ou ainda não foi “apanhado”. A “notícia explosiva” torna-se num gesto quase intransitivo – uma revelação auto-contida que nada inicia, nada conclui e nada modifica a não ser a sua importantíssima auto-suficiência.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

Diário de Notícias
Rogério Casanova
10 Outubro 2021 — 00:04

 

93: A história mais aborrecida do mundo

OPINIÃO

Porque é que não há mais escritores sérios a escrever sobre a chuva e o calor?” é uma pergunta para qual talvez nunca tenha havido hora certa, mas 2016 foi uma data especialmente mal escolhida. Foi nesse ano que Amitav Ghosh publicou The Great Derrangement, cuja tese central (ou pelo menos mais superficialmente resumível) é que a ficção literária tem mostrado uma notável relutância em abordar o tema das alterações climáticas. Foi também por volta dessa altura que a enxurrada de romances sobre alterações climáticas se tornou tão torrencial que o jornalismo cultural foi obrigado a inventar uma classificação nova (uma das suas actividades preferidas): climate fiction, ou cli-fi.

Como sucede com qualquer narrativa de síntese cultural artilhada por conveniência, Ghosh teve de se dedicar a muita arrumação selectiva para se safar com aquela intrigante asserção – muitas redefinições táctivas, muitas supressões estratégicas. A principal foi a redução da sua categoria operacional ao mainstream literário e a consequente exclusão de todos os géneros especulativos, uma manobra que tem a vantagem de confirmar tautologicamente aquilo que quer confirmar. Primeiro define-se a “ficção literária” como ficção exclusivamente preocupada com o quotidiano, depois lamenta-se a sua incapacidade em especular sobre o futuro: logo, qualquer ficção que imagine especulativamente o futuro não pertence à categoria. Xeque-mate.

A ideia que fica é a de um queixume sobre as limitações intrínsecas da sub-categoria mais restrita do naturalismo burguês contemporâneo que acaba por aceitar muitos dos seus pressupostos: é como se, para satisfazer a exigência de Ghosh, bastassem quatro, ou cinco, ou dez romances anuais nos quais o protagonista – um professor de Literatura de meia-idade a viver em Nova Iorque – passasse 280 páginas a reflectir em discurso indirecto livre sobre as calotas polares em vez de sobre o adultério. Tratando-se de um tema sobre o qual se parece achar que a manifestação individual de ansiedade constitui uma resposta política viável, talvez não seja estranho haver quem acredite que também constitui uma resposta estética relevante.

A verdade é que várias modalidades de ficção especulativa andam há pelo menos cinco décadas a fazer aquilo que Ghosh acusa a ficção contemporânea de não fazer: extrapolar possibilidades futuras a partir das condições do presente. Muitos desses exercícios tendem para a distopia, ou mesmo para o desastre total e irreversível, mas até aí há excepções. Kim Stanley Robinson, que se popularizou na ficção científica com uma trilogia sobre as várias ramificações – ecológicas, económicas, políticas e culturais – da terraformação de Marte, passou grande parte da última década e meia a imaginar cenários em que as alterações climáticas ficam, por mérito colectivo, aquém do pesadelo.

A sua obra mais recente, The Ministry for the Future, é o tipo de romance ao qual se atrela invariavelmente um adjectivo oficial assim que sai do prelo ( um romance “importante”), mas em tema e execução não se afasta muito da trilogia Science in the Capital (os três volumes foram publicados entre 2004 e 2007) nem de New York 2140 (publicado em 2018): todos postulam futuros próximos em que as coisas mudam para pior, todos são hinos à imaginação tecnocrata, todos são repositórios de informação rigorosamente pesquisada, todos são esqueletos narrativos de filme-catástrofe aos quais todo o entretenimento foi subtraído, e todos foram escritos por alguém que, entre vários defeitos e virtudes, tem uma característica dominante rara em qualquer tipo de ficção – a absoluta ausência de medo do ridículo.

The Ministry for the Future começa com o seu capítulo mais convencional, mais sólido, e mais enganador: trinta páginas narradas na terceira pessoa que descrevem uma onda de calor no norte da Índia que vitima vinte milhões de pessoas. O capítulo é enganador apenas porque o registo usado e o impacto emocional que provoca praticamente não se repetem no resto do livro, que reverte para território mais familiar na obra de Robinson. Pouquíssimos escritores terão obrigado o leitor a passar tanto tempo numa sala de reuniões: como em livros anteriores, muita da acção não é dramatizada, mas relatada – em comissões, em conferências, em conversas de corredor no intervalo de conferências, etc.

Várias personagens (ou melhor, vários detentores de cargos relevantes) discutem várias possibilidades e as consequências exactas de cada uma. Adicionalmente, há capítulos que recolhem uma espécie de história oral da catástrofe, com depoimentos anónimos inventados, há capítulos que consistem em listas de empresas que estão a fazer “um bom trabalho”, há um capítulo que começa com a frase “Os impostos são interessantes”. Outros são apresentados na forma de diálogos socráticos para explicar conceitos (desde créditos de carbono a projectos de geo-engenharia), ou então de adivinhas do género “o que sou eu?”, cuja solução é apresentada no final, com resultados invariavelmente cómicos, quase de certeza por acidente (“sou um átomo”, “sou a História”, “sou o blockchain“).

Há momentos em que pergunta “porque é que tudo isto teve de ser um romance, em vez de uma colecção de ensaios ou discursos?” não parece inteiramente descabida, mas é uma pergunta que acaba por ser tão categoricamente redutora dos modos literários como a objecção de Ghosh. The Ministry for the Future é um livro com uma relação muito peculiar com as convenções dos géneros mais amplos a que pertence, e o leitor vai percebendo que aquilo que tenta ousadamente redefinir são conceitos tão centralmente ocultos na apreciação estética como “interessante” ou “aborrecido”: quão desejáveis são essas propriedades numa história, e em que proporções.

Avaliado por critérios razoáveis, é um livro aborrecido, mas trata-se de um aborrecimento distinto, em género e grau, do tipo específico de tédio provocado pela ficção medíocre ou até pela ficção inocuamente competente. O tédio aqui é praticamente um efeito colateral do condicionamento prévio, pois resulta da inversão deliberada de quase todas as expectativas legítimas sobre o tipo de história que conta.

Na não-ficção que se vai produzindo sobre o clima e o futuro da espécie, é comum ler-se a ideia de que precisamos de “melhores histórias”, uma exigência em que as “histórias” são vistas essencialmente como um mecanismo de persuasão, algo que possa contribuir para melhorar a qualidade das opiniões colectivas e incentivar a consequente acção eficaz. Mas quando traduzidas para entretenimento, a maioria das histórias acaba por regredir às mesmas fórmulas: o aquecimento global reduzido a um contratempo que impede uma família de passar o feriado junta, ou a efeitos especiais que o protagonista pode derrotar correndo muito depressa.

The Ministry for the Future sabe que está a ser lido por pessoas que já foram expostas a várias versões dessa história, e o argumento temático embebido nas suas escolhas de organização é essencialmente sobre a necessidade de uma forma alternativa de a contar: uma prescrição de paciência para lidar com uma emergência. Muita da caracterização mais tradicional do livro (a caracterização psicológica reservada para os protagonistas) é dissipada em personagens passivas ou ineficazes.

Muito do que propõem pode ou não funcionar. O desastre – aquele que chegaria depois dos vinte milhões de mortos – é evitado: não à última hora, graças aos actos heróicos de um número reduzido de músculos abdominais, mas sim graças a reuniões entre bancos centrais, empreitadas de engenharia, progressos acidentais, e outras acções colectivas tão arrastadas e penosas como processos geológicos. The Ministry for the Future foi o vigésimo romance de Kim Stanley Robinson. Nenhum deles foi adaptado ao cinema ou à televisão, e suspeita-se que o autor seria o primeiro a achar secretamente que o cinema e a televisão têm toda a razão.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

Diário de Notícias
Rogério Casanova
15 Agosto 2021 — 00:17