194: O capitão Kirk chorou. E o turismo espacial ainda nos vai salvar*

OPINIÃO

*O fenómeno tem um nome: “overview effect”, que muda para sempre uma pessoa. Quantas mais puderem experimentá-lo, melhor para todos nós.

“Levou-me às lágrimas”. Foi desta forma que William Shatner descreveu à revista Time ter visto o Planeta Terra do espaço.

A emoção do canadiano de 90 anos, que para sempre será o Capitão Kirk da nave espacial Enterprise, da série Star Trek, foi bem visível no momento em que saiu da cápsula que o levou 100 quilómetros acima do nível do mar, mas ainda mais durante os momentos que esteve “lá em cima”.

Shatner nunca foi propriamente conhecido por uma forma contida de actuar, mas não houve espaço para dúvidas de que o seu comportamento, tanto no espaço como em Terra, nas imagens que correram mundo, foi genuíno.

Até porque está longe de ser o único a ter uma reacção semelhante. Ver o planeta de longe muda até o mais profissional especialista.

Michael Collins, o “astronauta esquecido” da Apollo 11, que morreu neste ano, afirmou ainda em 2019: “A coisa que mais me surpreendeu foi o facto de a Terra projectar um aspecto de tal fragilidade. E porquê, não sei, até hoje. A sensação com que fiquei é de que é pequenina, é brilhante, é linda, é a nossa casa e é frágil”.

Também o astronauta Scott Kelly, que ficou famoso por ter passado um ano na Estação Espacial Internacional, fez questão de dizer à CBS, em 2015, enquanto estava em órbita: “Aqui podemos ver os continentes e os países sem fronteiras políticas. Isso dá-nos a impressão de que estamos todos juntos nesta coisa chamada humanidade”.

Até porque, convém lembrar, do espaço não há qualquer construção humana visível. É um mito aquela ideia de que se pode ver a Grande Muralha da China (que provavelmente nem deve ter sido começado por chineses…)

Esta maneira de começar a olhar para a realidade de uma forma diferente depois de passar um período em órbita é descrita por dezenas de astronautas e cosmonautas, tendo dado origem, em 1987, ao livro The Overview Effect – Space Exploration and Human Evolution, de Frank White, cujo título acabou por ficar como a definição do fenómeno — overview effect ou, traduzindo, efeito de visão geral.

Aparentemente, para a maioria das pessoas, é abissal a diferença entre experimentar essa visão da curvatura do planeta com o negro do espaço em fundo, em “gravidade zero”, e simplesmente ver imagens ou vídeos do mesmo.

Só assim se consegue o tal resultado “transformador”.

Ao regressar à Terra, após descer as curtas escadas da New Shepard 18, Shatner afirmou. “Toda a gente no mundo precisa de fazer isto. Toda a gente no mundo precisa de ver isto. (…) E eis ali a mãe Terra e o nosso conforto. E ali…. E há ali morte? Não sei [o que dizer].”

Tem razão. Quanto mais gente puder fazê-lo — de preferência pessoas com poder de decisão em todas as áreas –, mais pessoas se preocuparão em proteger o planeta. De uma forma realista e sólida, com aposta séria na tecnologia.

Diário de Notícias
Ricardo Simões Ferreira
15 Outubro 2021 — 21:03

 

Os talibãs conquistaram o Afeganistão via… WhatsApp?!*

OPINIÃO

*E não deixa de ser incrível como Joe Biden, que aparentemente não ouviu ninguém, continua a passar relativamente incólume por uma retirada realizada de forma absolutamente incompetente por culpa, quase exclusivamente, sua.

“The buck stops here”. A antiquada expressão idiomática é uma das preferidas de Joe Biden e o actual inquilino da Casa Branca fez questão de a repetir na segunda-feira ao vir publicamente reiterar a sua convicção de que tomou a atitude certa ao mandar retirar as tropas americanas do Afeganistão nesta altura.

Ficar-lhe-ia bem este total assumir de responsabilidades, se fosse mesmo para levar a sério. Sim, o único responsável pelo que está a acontecer no Afeganistão tem um nome: Joe Biden. Não é a CIA, o seu director ou os agentes em Langley ou no terreno; não é o Pentágono, nem muito menos os soldados em Cabul ou estacionados no teatro de guerra. É o homem que, sozinho — e, segundo os dados mais recentes conhecidos, sem ouvir verdadeiramente os seus conselheiros (“being his own advisor” foi a expressão usada por uma fonte da ABC) decidiu esta retirada militar neste prazo totalmente arbitrário, de forma a que ocorresse antes do 11 de Setembro.

O resultado está à vista. Em especial nas imagens das mães a passar os filhos bebés sobre o arame farpado aos soldados, tentando dar-lhes um melhor futuro do que aquele que elas têm pela frente.

Esta sexta-feira, o Presidente americano voltou a falar à nação sobre a retirada. Foi, para ser simpático, fraco. Sendo mais rigoroso: foi redundante. Esta é uma das operações “mais difíceis da história”? Culpa de quem, senhor Presidente? Não pode garantir o “resultado final” da operação de retirada? Pois…

Com isto, a administração americana ficou colocada entre a espada de reconhecer que tinha conhecimento de que algo deste género poderia acontecer, mas não quis saber, porque o Presidente já tinha metido na cabeça que era para vir embora custasse o que custasse; e a parede de admitir a total incompetência dos serviços secretos, que nunca teriam previsto a capacidade de os talibãs tomarem o país em 11 dias.

Optou pela segunda.

Já aqui escrevi que me custa a acreditar tal ser verdade. Nos últimos dias, ainda por cima, mais alguns elementos vieram a público.

Escreve a revista online Vice que estes “Talibãs 2.0”, como lhes chamam, não são de todo adversos a utilizar novas tecnologias, muito pelo contrário. E que usaram as redes sociais — nomeadamente o WhatsApp — de uma forma que se revelou instrumental para permitir o seu rápido avanço pelo país fora.

Essencialmente, uns dias antes de desatarem aos tiros, começam a disparar mensagens com promessas de que vai correr tudo bem se não houver resistência. Sendo que isto ocorria, semanas ou meses antes, preparado com muita propaganda pelos mesmos meios. E muitas vezes os territórios simplesmente rendiam-se.

Nesta parte, Biden teve toda a razão, no discurso de segunda-feira: os americanos não podem “dar aos afegãos a vontade de combater” que eles não têm.

Mas os serviços secretos no local não sabiam disso?

Ou já nem sequer havia serviços secretos no terreno? A CIA confia exclusivamente já de tal forma nos satélites e análises de dados digitais que retirou o elemento humano do solo?!

(Se é esse o caso, então façam de vez um outsourcing para o MI6 ou a Mossad, por favor…)

Mas mesmo os serviços de “escuta” digitais deveriam ter interceptado essas comunicações dos talibãs. Não instalaram o Pegasus em nenhum talibã?

Aliás, ainda esta sexta-feira, o general David Patraeus, agora retirado, mas que durante 40 anos serviu no Pentágono e que, ainda sob a administração Obama geriu a situação no Afeganistão, em entrevista à revista The New Yorker, defendia as tropas afegãs e culpabilizava a pressa da retirada dos militares americanos.

Além disso, afirmava mesmo, desmentindo o seu Presidente quando, na segunda-feira, este dizia que os afegãos não tinham “vontade de combater os talibãs”:

“So to say that the Afghans won”t fight for their country needs an asterisk. And it should say the Afghans will fight for their country if they are confident someone has their back and will provide reinforcements of ammunition, food, medical supplies, will provide emergency medical evacuation, and, most important, will provide close air support to get them out of a tough fight. Keep in mind, again, that the Taliban could mass anywhere on what were some isolated outposts.

Traduzindo: “Por isso, dizer que os afegãos não lutarão pelo seu país precisa de um asterisco. E deve dizer-se que os afegãos lutarão pelo seu país se eles se sentirem confiantes de que alguém os apoia e lhes fornece reforços e munições, mantimentos, medicamentos, evacuação médica de emergência e, mais importante de tudo, que lhes fornecerá o apoio aéreo para os retirar de um combate feroz. Tenha em mente, mais uma vez, que os talibãs podem aglomerar-se em qualquer lugar, no que eram postos isolados.”

De um momento para o outro, literalmente, este apoio desapareceu. E o moral das tropas também, diz Patraeus. Ninguém consegue lutar assim.

Mas não, ninguém estava à espera, querem convencer-nos. Porque estamos todos parvos!

Mas já que de facto a carapuça nos serve a todos, os talibãs apressam-se a dar conferências de imprensa e entrevistas (a mulheres e tudo!) garantindo que estão diferentes.

Para no dia seguinte a ONU revelar que há buscas porta a porta à procura de colaboracionistas…

E relatos de que no meio de todo o material que os EUA deixaram para trás, além de armamento, ficaram bases de dados digitais e sistemas biométricos que os tais “Talibãs 2.0”, se já não sabem usar facilmente, poderão aprender a manusear…

…Até porque há no Irão, na Rússia e na China quem saiba usá-las. E os serviços secretos destes, que se saiba, ainda vão funcionando.

Parabéns sr. Biden. Foi tudo uma excelente opção. Mas pelo menos a sua consciência está tranquila. A imagem do seu filho a ir combater (e morrer) numa guerra que não é a sua não volta a acontecer.

O que, obviamente, não é maneira de dirigir um país, uma empresa, ou sequer uma agremiação da esquina. Mas isso agora não interessa nada.

Leia-se os muitos editoriais ex-culpatórios ao Presidente e logo se percebe que aquele é um argumento recorrente para justificar a decisão. De facto, uma imprensa amiga não tem preço e esta assim continuará, que mais não seja por memória do que foi Trump, pelo menos até ao primeiro grande massacre em Cabul.

Diário de Notícias
Ricardo Simões Ferreira
21 Agosto 2021 — 17:55

 

73: Parecer da DGS para quê? Afinal quem decide são os pais, diz Marcelo!*

OPINIÃO

*E na Madeira é o Governo Regional que tem boa ciência. Que é como quem diz, aquela que estabelece o que dá jeito aos políticos.

Começo com uma espécie de declaração de interesses: sou totalmente a favor da vacinação (seja ela qual for, desde que aprovada pelas autoridades competentes); estou eu próprio vacinado contra a covid-19 (vacina da Moderna); de tudo o que já li sobre o assunto, as vacinas de RNA mensageiro (como as da Pfizer e da Moderna) são uma maravilha científica com um potencial de aplicações que ainda agora começámos a explorar no combate a várias doenças.

Dito isto…

É absolutamente inacreditável o que se está a passar na Madeira com a vacinação aos adolescentes.

E é incrível ouvir o Presidente da República afirmar que cabe aos pais decidirem se os seus filhos com menos de 16 anos devem ou não ser vacinados com estes inoculantes.

Não que nada disto verdadeiramente surpreenda. Afinal, depois de o primeiro-ministro ter afirmado, preto no branco, durante o debate do Estado da Nação, no Parlamento, que a vacinação destes jovens iria mesmo ter lugar, pouca gente duvidou que tal não aconteceria. Isto independentemente do que dissesse a Direcção Geral da Saúde — e a ciência na qual os seus pareceres (supostamente) se baseiam.

Apesar de tudo, na sexta-feira, a declaração de Graça Freitas foi bem mais cautelosa do que cheguei a prever: recomenda as vacinas para os jovens apenas quando estes sofram de doenças graves, desaconselhando para todos os outros.

A directora-geral da Saúde, aliás, reconheceu que são “precisos mais dados” para que seja tomada uma decisão mais definitiva.

Dito de outra forma, a ciência pura e simplesmente não sabe ainda dar boa resposta a esta questão. Os jovens de 12 anos estão em crescimento, o seu sistema imunológico está em evolução e existe um risco (muito provavelmente reduzido) de a vacina, ao mexer no seu ADN relacionado com esta área, ter efeitos ainda imprevisíveis a longo prazo.

Tendo em conta o baixo risco de doença grave de covid deste grupo etário (a não ser que o indivíduo em causa tenha uma doença grave associada), a vacina não é — pelo menos até ver — aconselhada. Faz sentido, é de elementar bom-senso.

Este sábado, no Brasil, Marcelo Rebelo de Sousa, do alto da sua sapiência científica adquirida nas cadeiras de Direito, virou o argumento ao contrário: a DGS não proibiu, logo é permitido.

Assim, cabe aos pais decidirem se querem que os seus filhos sejam ou não vacinados, disse o sr. Presidente. Porque, como é claro de ver, os pais sabem muito mais de ciência e de medicina do que os técnicos da DGS que emitiram o parecer — e do que todos os pediatras que têm vindo a mostrar reservas nas últimas semanas sobre a vacinação massiva de crianças nesta altura, tendo em conta o que se sabe!

Entretanto, os mesmos pais veem o Arquipélago da Madeira simplesmente a ignorar a DGS e a avançar com as vacinas para os miúdos. E com muitos elogios pelo “sinal de maturidade” que estes deram por terem ido à pica.

Ok, vamos lá ser sérios…

Quase de certeza que não vai nascer nenhum terceiro olhinho na testa ou coisa que o valha a estes jovens por levarem a vacina da covid.

Mas na realidade ninguém sabe exactamente que consequências a 10 ou 20 anos este fármaco pode ter na vida deles. São necessários mais testes, é preciso mais tempo.

O que eu sei é que não são os políticos que podem tomar estas decisões, e muito menos os pais, ouvindo aqueles.

E também sei que Marcelo Rebelo de Sousa e a maioria dos responsáveis madeirenses que agora assim decidiram já não estarão cá para ver se alguma coisa vier de facto a correr mal com os jovens vacinados. Mas é pena. Porque caso haja um grande azar, deveriam poder ser julgados pelas decisões de hoje.

Diário de Notícias
Ricardo Simões Ferreira
01 Agosto 2021 — 11:16

 

50: Churchill o vice-almirante não é. E era o que precisávamos*

OPINIÃO

*O trabalho de Gouveia e Melo é bom, ninguém lhe tira isso — viva o vice-almirante por ser competente. Mas situações excepcionais precisam de pessoas excepcionais. E Portugal está tão mal habituado que confunde simples competência com brilhantismo.

Já vou às vacinas. Começo por uma coisa antiga, peço-lhe um pouco de paciência…

Nos idos anos 60 havia um programa de TV chamado Zip Zip. Era uma espécie de talk show, chamar-lhe-íamos hoje, com Fialho Gouveia, Carlos Cruz e Raúl Solnado.

No verão de 1969, depois de a NASA ter levado pela primeira vez seres humanos à Lua, o programa de uma dessas noites foi, naturalmente, dedicado ao evento histórico. Eu ainda não era nascido, mas o meu tio Manuel tinha a gravação áudio e, uns dez anos depois, pôs-me a ouvir e nunca me esqueci.

A dada altura, na rábula revisteira — como foi todo o humor em Portugal até Herman José… — Carlos Cruz pergunta a Raúl Solnado: “Então e o que é que acha da chegada do homem à Lua?”

“Acho que foi uma afronta!”, responde este.

“Aos russos?”

“Não, à CP!”

“Como assim, à CP?”

“Então”, prossegue Solnado, “os americanos saíram daqui à tabela, chegaram à Lua à tabela, vieram-se embora à tabela, e a gente tenta apanhar um comboio e nem para chegar a Sete Rios à tabela consegue, homem!”

A piada, avisei, é revisteira. Francamente, não sei se ainda me faz rir pela recordação da minha juventude (1) ou se porque tem mesmo graça, mas trago-a para aqui por aquilo que significa, ainda hoje, para o que esperamos dos serviços públicos.

Nada, absolutamente nada, que seja gerido pelo Estado funciona como deve ser. Tudo é lento, os horários são meramente indicativos ou, na melhor das hipóteses, só servem para sabermos quanto tempo as coisas estão atrasadas. E há que ter paciência.

Era assim há 50 anos.

Continua a ser assim hoje.

Aquilo a que assistimos actualmente nas filas para as vacinas é mais um exemplo. Esta semana, estive mais de duas horas sob um sol abrasador, apesar de ter hora marcada pelos serviços, para apanhar a segunda dose da vacina para a covid.

A desorganização foi tal que a dada altura deixaram formar duas filas — a segunda das quais com pessoas chegadas há muito menos tempo do que as da primeira — e só não se gerou um pequeno motim porque, apesar de tudo, as pessoas são pacíficas e minimamente educadas.

Da parte de quem (des)organizava as coisas no local, um evidente cansaço — claro que não estão com capacidade de resposta, são humanos –, mas uma enorme incapacidade patente para fazer melhor, que mais não seja por falta de efectivos.

Apenas a dada altura me disseram, simplesmente, que as horas marcadas “já não serviam para nada”. E nem um pedido de desculpas.

Apesar de tudo, tive sorte. Estive “só” pouco mais de duas horas ao sol (três e picos ao todo, com o tempo de espera lá dentro, mais a meia hora de recobro….)

Um colega esteve três. A filha de uma colega esteve cinco. E os casos noticiados deste género sucedem-se.

No entanto, ainda nesta quinta-feira a task force da vacinação emitia um comunicado em que embandeirava em arco com números recorde e, pelo meio, dizia: “Continuam a chegar ao conhecimento (…) comportamentos, amiúde, menos correctos de alguns utentes para com os muitos profissionais que se encontram nos diversos Centro de Vacinação Covid. Por esta razão, volta-se a reforçar o apelo ao respeito e consideração pelos muitos profissionais que dão diariamente o seu melhor para garantir a segurança e qualidade do processo de vacinação.”

Ah, pois, porque ao fim de três, quatro ou cinco horas de espera, com filas desorganizadas, tudo ao monte, a serem passadas à frente e sem ninguém para as orientar, não é natural que as pessoas percam a paciência.

Pois, se as coisas correm mal é por culpa dos cidadãos. Este é, aliás, todo o programa deste governo relativamente à pandemia — como o é, na verdade, relativamente a quase tudo, porque por exemplo quanto aos incêndios e etc. faz exactamente o mesmo, mas deixemos isso para outra altura.

Isto porque, em Portugal, a partir do momento em que entramos na máquina do sistema público, seja ele qual for (saúde, transportes, emissão do cartão do cidadão, you name it…) deixamos de ser clientes e passamos a ser “utentes”. Essa palavra mágica transforma-nos numa espécie de “menos pessoa” que tem de se sujeitar às regras do nivelamento estabelecidas algures pelos diplomas emanados pelo poder todo-sapiente e indiscutível.

Nunca vigorou em Portugal o conceito do contribuinte-pagador, que como tal tem direito a um Estado que existe para o servir. A um governo composto por pessoas cujo poder decorre exclusivamente da confiança nelas depositada pelas suas acções e omissões, não pelo simples facto de estarem no lugar.

Não. Continuamos a viver numa sociedade que aceita como normal que um primeiro-ministro aconselhe às pessoas a que vão fazer filhos… em 2022.

Ou uma ministra que vá fazer política de Saúde para o Programa da Júlia, ao escolher ser lá que anuncia que há, aparentemente, planos para incluir as vacinas da covid no Programa Nacional de Vacinação.

E quanto a Eduardo Cabrita…. mantenho e reforço tudo o que escrevi AQUI.

Agora ficamos a saber que podemos ir jantar à noite aos restaurantes com certificado ou teste, mas só ao fim de semana, porque à semana o “bicho não pega”. Só que afinal os estabelecimentos continuam com horários reduzidos e as discotecas continuam a ser centros de pecado à mesma?!

Ó meus senhores, mas habia nechechidade?

No meio disto tudo, a competência do vice-almirante Gouveia e Melo parece de facto uma luz imensa.

Só que…

Sim, Gouveia e Melo está a fazer bem o trabalho que lhe foi incumbido. Mas não é exactamente isso que cada um de nós é suposto fazer? Bem o trabalho que nos é incumbido?

O grande problema é que alguém, nesta fase, tinha de fazer um trabalho EXTRAORDINÁRIO contra a pandemia — e que nem deveria seria o de Gouveia e Melo.

Lembro que a 24 de Junho Gouveia e Melo rejeitou liminarmente a estratégia de acelerar a vacinação nos concelhos mais afectados. E depois teve de acelerar tudo. E agora os serviços estão com dificuldades de resposta.

Lembro ainda que há vários meses que muita gente já perguntava por que razão não se tinham aberto as reservas — quando os laboratórios já se tinham comprometido a entregar as doses contratualizadas, mais do que resolvidos os problemas de produção iniciais. Só nesta semana Gouveia e Melo anunciou essa abertura…

Lembro que Lisboa e Vale do Tejo (a região mais afectada) mantém-se permanentemente com a taxa de vacinação mais baixa do país, e isso não se tem conseguido resolver.

Lembro que a opção de centralizar a vacinação nos serviços públicos, deixando de fora farmácias ou hospitais privados, por exemplo, foi uma opção exclusivamente política. O resultado está bem à vista: filas de “utentes” sem outra opção.

Gouveia e Melo está a fazer o seu trabalho de forma competente. Mas Gouveia e Melo é um militar. É isso que se espera dele. Pensamento criativo não estará nos seus genes.

Para não perder a II Guerra Mundial, e enquanto tentava convencer Roosevelt a entrar activamente no conflito, Winston Churchill fez frente a praticamente todos os seus generais. Deslocou a maioria deles dos seus postos, promoveu subalternos. Arriscou e venceu.

Era o que precisávamos neste momento para sairmos disto um bocadinho menos chamuscados.

Não vai acontecer. Nem com duas bazucas, quanto mais com uma.

(1)Nota: Só para que fique completa, já agora, esta rábula (tenho quase a certeza de que é do mesmo programa; estou a citar tudo de memória) tem uma segunda parte:

Fialho Gouveia: “Então mas tira alguma conclusão desse feito dos americanos? Sabe que isto de pôr um homem num foguetão é muito caro!”

Solnado: “Sabe que no outro dia tive de ir ao médico e ele teve de me receitar uns supositórios. E cheguei à conclusão de que se pôr um homem num foguetão é muito caro, pois que pôr um foguetão num homem também não é nada barato!”

Diário de Notícias
Ricardo Simões Ferreira
10 Julho 2021 — 18:35

 

33: A mamã dá licença? Sim, mas quero-te em casa às 11 da noite!*

OPINIÃO

*Uma vez que as vacinas não evitam o contágio, apenas a doença grave, achar que vamos erradicar a covid em poucos meses é no mínimo ridículo. Se não é nisto que o governo acredita, pelo menos parece.

Não é apenas o ar maternal e bem-intencionado da ministra Mariana Vieira da Silva, nas conferências de imprensa após as reuniões do Conselho de Ministros, que sugere o título. É mesmo o jogo que o governo está fazer com os portugueses nos últimos meses em nome da nossa saúde.

A cada duas semanas a governante vem dizer-nos que afinal vamos ficar mais um bocadinho confinados, ou que o comércio vai fechar mais um bocadinho, ou que temos de ir mais cedo para casa…. Qual prepotente “mamã” do recreio que mandava dar dois passos à caranguejo e punha o contrariado miúdo a andar para trás, deixando-o mais longe da linha final.

Entretanto, o comércio e todos nós assim vamos ficando… mais longe de qualquer possibilidade de recuperarmos de uma crise que vai tomando proporções astronómicas.

É indesmentível que o número de infectados está a aumentar, mas se calhar convém (muito) olhar para o número de casos graves e (essencialmente) para o número de mortes.

É preciso aprender a viver com a covid, porque a cura ou erradicação não se divisa no horizonte. Se é um facto que vacinação não impede o contágio, apenas a doença grave (por isso o PM foi mandado ficar em isolamento apesar de estar “duplamente vacinado”), então mude-se o chip.

Relativamente ao comércio, sim, imponha-se distanciamento e medidas de protecção, fiscalize-se lotações máximas mas, por favor, deixe-se os negócios trabalhar nos seus horários plenos.

O que está em causa é a vida de pessoas que apenas querem, precisam, de trabalhar para viver. Que precisam de ganhar o seu sustento.

E por falar em sustento — e isto não é nada de novo, mas convém referir uma e outra vez — que esta fiscalização chegue também aos transportes, pois o governo está sempre tão preocupado em mandar fechar os espaços privados, mas pouco ou nada faz para resolver os problemas dos comboios e autocarros (a maioria públicos) que andam sobrelotados por quem não pode, simplesmente, fazer o “obrigatório” teletrabalho.

Curiosamente, a partir desta sexta-feira às 11 da noite, o automóvel privado com uma única pessoa lá dentro — do tipo que só quer dar uma volta para espairecer a tola por estar enclausurado — está “proibido” de circular, enquanto o comboio da linha de Sintra empacotado das 6h30 já não tem qualquer problema…

Mas claro que está tudo certo. Assim é tudo mais simples: andamo-nos a vacinar e, no fim, ficamos todos de portas fechadas e em recolhimento obrigatório à mesma.

Isto faz algum sentido?

Diário de Notícias
Ricardo Simões Ferreira
01 Julho 2021 — 19:27