111: Al-Qaeda 2021, à procura de um Messias!

OPINIÃO

Ponto prévio e esclarecedor, na tentativa de evitar mal-entendidos ao longo do texto, a Al-Qaeda nada tem a ver com os talibãs. No entanto, o que aconteceu durante um considerável período de tempo, equivalente também ao período mais florescente de ambas as organizações/entidades (1994-2001), foi uma sintonia total entre lideranças. Mullah Omar, líder dos talibãs, e Ossama Bin Laden (OBL), líder da Al-Qaeda. Assim, começando pelo fim, à Al-Qaeda 2021 só falta um líder da dimensão de OBL para esta se reagrupar e de forma ainda mais organizada.

Al-Qaeda é geralmente traduzido por “a base”, enquanto geografia de “sede”, de código postal. Tive um professor de Relações Internacionais que inteligentemente colocava a dúvida nesta literalidade e extensivamente via mais uma “base de dados” móvel, de meter no bolso, com os contactos de todos os mujahideens vivos e de férias na terra. A chave para a sobrevivência do grupo ainda está nessa pen! E está também neste exemplo aquilo que hoje podemos considerar o primeiro upgrade de um movimento islamista de cariz violento que, fruto dos acontecimentos, decide passar ao patamar seguinte.

E sobre acontecimentos abro aqui um breve parágrafo. Ao antigo primeiro-ministro britânico Macmillan (1957/63) foi um dia perguntado “qual a maior ameaça que um político pode(rá) enfrentar?”, ao que respondeu: “Events, dear boy, events!” E o Presidente Lincoln escreveu um dia: “Assumo não ter controlado os acontecimentos mas antes ter sido controlado por estes.” Acontecimentos que nos foram moldando e adaptando ao longo das últimas duas décadas. E a Al-Qaeda adaptou-se num movimento apátrida que clarifica o pós-guerra com os soviéticos. Mudjahideens afegãos para os talibãs e os outros para a primeira “internacional terrorista jihadista” dos tempos modernos. O jihad regressava ao léxico popular e Deus volta a estar em alta.

Comparativamente ao upgrade posterior, com o surgimento do Estado Islâmico (EI), o qual traz a novidade da territorialização no Sham, no Levante (sírio), que teve Raka como capital, a Al-Qaeda, ultrapassada, mais parecia um povo sem terra a pregar o penúltimo takfirismo – acto de apontar o dedo ao outro, corrigindo-o sobre o que pode e o que não pode fazer!

São também os mais recentes acontecimentos no Afeganistão que trarão um novo e desconhecido upgrade à causa militante islâmica. No entanto, os mesmos acontecimentos parecem não afectar as percepções americanas da realidade. O Presidente Biden, numa das inúmeras conferências de imprensa que tem dado sobre a retirada americana, tentou colocar a objectividade e o realismo perante a plateia de jornalistas e disse: “Vejamos quais são os interesses actuais americanos no Afeganistão.

A Al-Qaeda está derrotada, o Bin Laden foi apanhado. Que interesse mais é que temos em ali estar?”. Percepção errada, a mesma que percepcionava que os talibãs também tinham desaparecido na força e na mobilização após 20 anos de reeducação.

Onde está a Al-Qaeda hoje?

A Al-Qaeda está, se quiser, onde estiver um muçulmano, pelo espírito desterritorializado da causa, equivalente ao sentimento de fé que não faz só dos sauditas ávidos por Meca e fiéis depositários da tradição islâmica em toda a sua dimensão. É neste também sentimento de “despaisamento” que a causa aparece mais apelativa ao emigrado que resiste à aculturação e, achando-se no gueto do vazio emocional, decide a fuga para a frente.

Porquê? Porque a Al-Qaeda ainda funciona, aos olhos do “sem-referência”, como um farol de luta pela justiça. Um farol de coragem, personificada por um milionário que escolheu o lado da cama menos confortável. Tendo ainda OBL enquanto figura omnipresente, reforça a aura de se tratar de um grupo de justos, sempre aos olhos do “sem-referência”, entenda-se!

Na geografia, os números de telefone dos últimos sobreviventes com capacidade para alavancarem uma eventual ressurreição do grupo deverão andar distribuídos não fora dos seus espaços de surgimento enquanto sucursais de confiança.

A Al-Qaeda da Península Árabe (AQPA), em 2014 a sucursal do grupo que maior ameaça representava para os Estados Unidos da América (EUA), viu o esplendor do advento da guerra dos drones versus bombistas-engenhocas. Mataram-nos todos, mas foram os danos colaterais que ganharam a guerra da propaganda. As sementes da vingança aqui ficaram entre tribos desavindas que ganharam motivo para se unirem, entre si e com os terroristas que, apesar de mortos, deixaram descendência e estórias inspiradoras para serem contadas e recontadas numa sociedade em que o oral se sobrepõe à escrita.

Mais próximo de nós, o bloco Norte de África, Sahel e África Ocidental viu na Al-Qaeda no Magrebe Islâmico (AQMI) também um upgrade regional, em sintonia com o operado no Afeganistão, já que esta sucursal do grupo trata-se de uma reciclagem do Grupo Salafista para a Pregação e Combate (GSPC), cisão do Grupo Islâmico Armado, da Argélia. Os argelinos e os franceses são os feitores deste espaço e esta reciclagem foi o mal menor encontrado por ambos para manter estes fora-da-lei minimamente enquadrados e controlados.

O Sahel, entretanto órfão de outro grande feitor regional, o coronel Kadhafi, viu no desaparecimento deste a pulverização em conflitos da paz social que o ditador líbio pagava. Assim se adensou um tecido social ainda mais permeável ao conflito, ao recrutamento e à escolha de um dos lados.

Infiltrado desde o 11 de Setembro de 2001 por famílias fugitivas de toda a espécie e de todos os lugares, o vazio no Sahel foi sendo preenchido por células terroristas que, apesar de adormecidas, tiveram de mudar de endereço para poderem continuar em liberdade. Foram estes fugitivos que através de casamentos com jovens locais se foram diluindo nas famílias e comunidades que os acolheram. Há 20 anos a fazerem filhos, parece-me seguro dizer que a próxima geração AQMI está garantida.

Particularidade que aconteceu no contexto AQMI, após o início da Operação Serval (2013), liderada pelos franceses, um mal-estar no seio do AQMI eram os mauritanianos que já não suportavam estarem sob as ordens de superiores argelinos. Em 2015, o AQMI anuncia a criação de uma nova célula, o Al-Mourabitoune, os mauritanianos, exclusiva destes, sanando assim um irritante interno. Esta flexibilidade de estrutura e cada sucursal poder estabelecer a sua agenda e prioridades foi a principal adaptação ao escrutínio a que a Al-Qaeda ficou sujeita após o 11 de Setembro de 2001. Cabendo, por exemplo, à AQPA assegurar comunicação com a “toca do leão” e depois desmultiplicar os comunicados/decisões/sugestões para as diferentes sucursais.

Ainda em África, o Boko Haram, na Nigéria, mais agarrado à terra e menos internacionalista, mas sempre colaborante com a jihad internacional. As acções transfronteiriças e condicionalismos deste grupo afectam também os acontecimentos no Mali, Níger, Chade e Camarões.

Na África Oriental, o Shabab parece já ter descido até Cabo Delgado, provando que não são meras fronteiras que os deterão. E em Moçambique, o terreno fértil que o grupo, ou outros fazendo-se passar pelos somalis, encontrou junto de certa população forte aceitação no apelo feito às armas e à insurreição, provando a existência de uma narrativa de justiça islâmica que ao longo do século XXI tem pautado as conversas de família à hora do chá. Ora essa ideia de justiça islâmica é personificada na Al-Qaeda, com OBL à cabeça.

E na Síria será que a Frente Al-Nusra, a Al-Qaeda na Síria que combatia o EI, foi totalmente eliminada, ou antes adormecida e remetida para outra base de dados até momento conveniente? Pela proximidade com a Europa e número de refugiados sírios no continente e ilhas, esta seria a minha prioridade, mas os americanos insistem na derrota do grupo de Bin Laden.

Do Atlântico ao Índico, do Mediterrâneo ao Paquistão, aí estão os herdeiros dos fundadores da Federação “Terroristas de Todo o Mundo (islâmico) uni-vos”. Precisamente unidade é o que falta a estes órfãos pulverizados. A descentralização do pós-11 de Setembro deu espaço aos egos regionais, tendo no Sahel exemplo máximo das desconsiderações a Ayman al-Zawahiri, já líder após a morte de Bin Laden, quando várias das suas directrizes foram ignoradas, levando a cisões dentro do grupo no grande Sahara. Uma dessas directivas visava a proibição de matarem muçulmanos nas acções desenvolvidas. Tal unidade só poderá voltar a ser atingida com uma liderança carismática, ao nível de um milionário religioso que largue tudo para defender os descamisados, comendo e dormindo com eles.

A Al-Qaeda procura, assim, o seu Messias, que, tal qual o Profeta Maomé, foi conciliador entre as tribos desavindas, criando uma Arábia unida, exerça influência conciliadora entre estes pólos adormecidos e sem missão definida. A não concentração territorial dificulta o seu combate e continua a permitir autonomia, o que ajuda a uma negociação com as várias tentativas que se ensaiarão para a retoma desta empresa com cada vez mais nómadas digitais. Outra vantagem, estes “filhos de” serão ainda mais tecnológicos e ardilosos e em honra dos mártires.

Ou seja, o caldo para uma justificação colectiva de salvação da honra da família está cá toda e muito importam os acontecimentos que levaram em 10 dias os talibãs de volta ao poder. Não serão os rústicos talibãs a personificarem o próximo upgrade jihadista, mas esta ascensão meteórica 20 anos depois será certamente inspiradora para a próxima geração de virtuosos islamistas. E esses, os que serão o próximo produto, têm desde já a vida facilitada, no sentido em que há todo um arquivo de imagens, discursos e outras referências disponíveis para todos os “sem-referência” que se impressionam com uma boa explosão.

Esse farol inspirador chama-se Al-Qaeda e irá travar as próximas guerras sempre em espaços com boa cobertura de rede, porque também não quererá fugir à tradição dos antigos, que cometeram a proeza de atacar directamente em solo de Golias, não perdendo o foco e ganhando cada vez mais mentes e corações. Por momentos, a Al-Qaeda esteve por cima, marcou a agenda e tirou-nos o sono. Prevejo um regresso para breve ainda mais nebuloso e organizado, faltando apenas perceber que tipo de rotinas e adaptações a pandemia provocou no dia-a-dia de um operacional jihadista.

Politólogo/arabista. www.maghreb-machrek.pt.

Escreve de acordo com a antiga ortografia.

Diário de Notícias
Raul M. Braga Pires
29 Agosto 2021 — 00:11