620: A globalização está a morrer?

– O Pedro Tadeu tem excelentes artigos de opinião mas quando toca a defender a sua ideologia comunista (PCP), alicerçada no antigo regime soviético leninista/stalinista, a coisa muda de figura. O partido dele (PCP), aliou-se à direita e à extrema-direita para derrubar a governança do Costa, chumbando o OE2022 e agora andam a choramingar pelos quatro cantos que a culpa é do PS para tudo e mais alguma coisa, numa tentativa de se desresponsabilizarem da merda que fizeram. Pois é Pedro, se não tivesses – e todos os teus camaradas – palas nos olhos, quando toca a opinar sobre a ideologia pró-soviética do teu partido (PCP), talvez não tivessem perdido tantos eleitores nas eleições recentes, sendo ultrapassados por um partido da extrema-direita ultra-fascista. E quando assim é… nada a fazer. Se eu não concordo com a política externa americana e dos seus fiéis seguidores, muito menos concordo com as ditaduras social-fascistas da China, Rússia, Coreia do Norte, Cuba e afins. Salazar e o seu Estado Novo fascista, defendido pela PIDE/DGS, foi um anjinho como ditador em comparação com os actuais lideres das potências comunistas. É deixar correr até à derrocada final.

OPINIÃO

Uma das promessas não cumpridas pela globalização foi a paz. Se pensarmos no Iraque, na Síria, na Líbia, no Afeganistão, na Al-Qaeda, no Estado islâmico, na Jugoslávia, na Chechénia, na Somália, em vários outros conflitos em África, mais alguns noutras paragens da Ásia, percebemos que o fim da Guerra Fria e a consequente disseminação do neoliberalismo económico não garantiu a paz no mundo, nada disso.

A argumentação, já teorizada há 40 anos, foi milhares de vezes replicada pela propaganda ideológica dominante desde o início deste século: dizia que com a interdependência económica entre as grandes nações, acelerada pela revolução tecnológica, as razões para sustentar guerras, fossem regionais, fossem planetárias, cairiam pela base face às consequências económicas desastrosas para todos os envolvidos.

As grandes empresas tecnológicas, transnacionais sem pátria, estariam sempre contra a guerra porque perderiam fortunas.

Os mercados financeiros, a grande banca com capitais em todo o lado, estariam sempre contra a guerra porque perderiam fortunas.

As grandes indústrias, que vendem produtos com componentes fabricados em vários pontos do planeta, estariam sempre contra a guerra porque perderiam fortunas.

A expansão do capitalismo, a quebra de barreiras alfandegárias, a internacionalização dos fluxos de capitais, a padronização ideológica, a uniformização cultural, tudo isso era um caminho para a paz… pelo menos as grandes potências não podiam guerrear-se entre si, pois os senhores do dinheiro não o permitiriam, jurava-se.

Um dia os Estados Unidos da América perceberam que com a globalização a China ia ser, rapidamente, mais forte economicamente do que eles.

O primeiro tiro na globalização foi dado aí: os governos norte-americanos começaram a impor limitações aos negócios com os chineses, a impedir a entrada de capitais de Pequim em empresas norte-americanas, a exigir à União Europeia e a outros países a mesma atitude, prenderam até gestores chineses em solo norte-americano. Hong-Kong e Taiwan voltaram a ser problemas políticos.

A China percebeu que o seu plano de expansão económica no mundo tinha de mudar.

A União Europeia ficou entalada entre as divisões internas, a dependência económica dos países que voltaram, de repente, a ser “inimigos do ocidente” e a pressão de Washington.

A Grã-Bretanha tentou aproveitar a indecisão europeia e faz de cão-de-fila dos Estados Unidos.

A Rússia, acossada pela expansão da NATO para leste, viu que podia tentar utilizar em seu benefício a desorientação geral e a estupidez de Joe Biden em não se comprometer com a recusa da entrada da Ucrânia na Aliança Atlântica.

E assim chegamos ao que pode ser uma guerra de grandes dimensões que, a acontecer, custará em poucos meses muitos milhares de vidas e pode escalar, rapidamente, para uma dimensão mundial.

Vladimir Putin e Xi Jinping estiveram juntos no passado dia 5 de Fevereiro para institucionalizar uma “parceria estratégica abrangente” entre os dois países. É uma parceria que o presidente russo, num artigo publicado na agência de noticias chinesa Xinhua, diz incluir o fortalecimento de laços comerciais, o uso mais frequente das moedas nacionais nas transacções entre os dois países (em prejuízo do dólar, presume-se), a construção de centrais nucleares, o fornecimento de gás, a concretização de grandes investimentos chineses em muitas regiões da Rússia, o reforço da influência dos dois países junto dos BRICS, o “namoro” à Índia (hoje em dia pro-americana) e a outras potências asiáticas. Até no desporto parecem estar a desenhar um caminho comum. Parece a divisão do mercado mundial em dois.

Rússia e China, nos últimos 10 anos, construíram redes e serviços informáticos alternativos ao ocidente: por exemplo, cada um tem a sua versão de Facebook, de WhatsApp ou de Google, popularíssimas nos seus países, e já li notícias que garantiam estarem ambos os países a estudar a forma de se isolarem informaticamente do ocidente.

Este conflito em torno da Ucrânia pode, por isso, ser de facto o ponto de partida para uma nova ordem mundial, com, novamente, duas partes do planeta de costas voltadas.

Se nos próximos dias a China vier apoiar claramente a Rússia, a reacção pavloviana ocidental será de retaliação. A crise agravar-se-á e a globalização entrará em coma.

Jornalista

Diário de Notícias
Pedro Tadeu
23 Fevereiro 2022 — 00:30



 

588: Repetir as eleições não é um desastre?

OPINIÃO

Recebi agora a notícia de que as eleições legislativas do mês passado vão ser repetidas no círculo da Europa no dia 27 de Fevereiro. Proponho-me um exercício mental: sem consultar nenhum catrapázio, sem ajuda da Internet, vou listar 10 consequências negativas da anulação das eleições do passado dia 30 de Janeiro nesses locais. Cá vai:

1 – O raro emigrante que faça o sacrifício de voltar a tentar votar nestas eleições, depois de saber que o seu empenho democrático anterior foi burocraticamente destruído, tem certamente uma alma caridosa e merece um lugar no Céu. Porém, uma boa parte destes emigrantes, pessoas normais, depois de se sentirem gozados pelo Estado português, nunca mais votará. O círculo Fora da Europa, já tradicionalmente muito abstencionista, corre o risco de passar a mobilizar, no futuro, apenas meia-dúzia de eleitores.

2 – Os votantes do dia 27 de Fevereiro serão influenciados pelos resultados reais já conhecidos nos restantes círculos eleitorais. Isto cria uma base de raciocínio que leva a uma decisão do voto substancialmente diferente em relação à base de que partiram os eleitores do dia 30 de Janeiro. É uma desigualdade subjectiva, mas sentida.

3 – Como os dois deputados que o círculo da Europa elege não vão influenciar substantivamente a formação de grupos parlamentares ou a composição de maiorias, a percepção junto da opinião pública é que este ato eleitoral é pueril. Isto contribui para a degradação do prestígio do ato eleitoral em si, para o aumento da descrença nos procedimentos democráticos, para mais uma acha para a fogueira do cepticismo geral na democracia.

4 – Como esta decisão do Tribunal Constitucional decorre de um erro burocrático generalizado, que invalidou 157 mil votos, outra das consequências negativas deste acontecimento é o reforço na opinião pública da incompetência endémica do Estado, da sua incapacidade em fazer bem as coisas mais simples – um belo serviço aos ideólogos da destruição do papel Estado na sociedade.

5 – Outra componente do Estado que sai ferida nesta ocorrência é a da Justiça: dado o que se passou com os erros no processo eleitoral é formalmente justo mandar repetir estas eleições mas, contraditoriamente, a imagem que sai para o cidadão comum é a de que o Tribunal Constitucional mandou fazer uma eleições que não servem para nada, resultando num desperdício de tempo e de dinheiro.

6 – A nova Assembleia da República vai tomar posse mais tarde e a normalidade política tarda a voltar. Estamos num limbo.

7 – O atraso que a decisão do Tribunal Constitucional vai provocar na tomada de posse do novo Governo – dizem as notícias que será só lá para meio de Março – implica também que a aprovação de um Orçamento do Estado para o resto do ano acabe por ter efeitos práticos apenas lá para Junho.

8 – A gestão dos dinheiros públicos vai ser gerida em duodécimos durante mais tempo e isso vai ter consequências práticas na tesouraria das instituições da Saúde, da Educação, da Segurança, etc. Muitos fornecedores e muitos trabalhadores a recibo verde que prestam serviço ao Estado correm o risco de receber pagamentos com atrasos ainda maiores.

9 – As actualizações das pensões de mais de 2 milhões de pessoas, o anunciado aumento extra de 10 euros, podem também atrasar-se ainda mais. Provavelmente só lá para Junho.

10 – O governo que ainda está em exercício agoniza e vai empurrar com a barriga decisões importantes ou vai tomar decisões inopinadas que deveria passar ao governo seguinte.

Não foi difícil perceber algumas das consequências graves deste fiasco no processo eleitoral, o que me leva a concluir que elas eram facilmente previsíveis. Se estudasse a questão com mais tempo, certamente encontraria mais e piores.

Quem decidiu repetir as eleições pensou nos prejuízos que ela acarreta para a sociedade? Os interesses conflituantes, que a boa justiça deve sempre avaliar, foram todos ponderados? E quem provocou politicamente esta situação está de consciência tranquila? E a Administração Pública, que falhou, já encontrou alguém responsável por este desastre?

Jornalista

Diário de Notícias
Pedro Tadeu
16 Fevereiro 2022 — 00:13



 

538: Diogo Pacheco de Amorim é uma vítima?

OPINIÃO

Eis um rápido perfil político de Diogo Pacheco de Amorim, candidato anunciado pelo partido Chega a vice-presidente da Assembleia da República, instituição de representação democrática do povo português, criada na sequência da Revolução dos Cravos, iniciada em 1974:

– Foi membro do MDLP, um movimento criado em 1975 que promoveu centenas de atentados bombistas e assaltos a sedes de partidos, dos quais resultaram várias mortes. Pacheco de Amorim nega envolvimento nos atentados, afirma ter feito “apenas” parte do braço político da estrutura liderada por António de Spínola.

– Foi militante do MIRN (1979), do neo-salazarista Kaúlza de Arriaga, partido que concorreu coligado com duas outras formações de extrema-direita às eleições de 1980. Recebeu 0,4% dos votos.

– Foi assessor do vice-primeiro-ministro Diogo Freitas do Amaral (CDS) no primeiro governo da AD (1980-1981).

– Foi chefe de gabinete do grupo parlamentar do CDS-PP (1995-1997), durante a fase “popular” do partido, liderado por Manuel Monteiro.

– Foi dirigente do Partido da Nova Democracia (PND), também liderado por Manuel Monteiro (2003).

– Funda, com André Ventura, o Chega, em 2019.

Que conclusões tiro daqui?

1. Pacheco de Amorim não gostou do 25 de Abril de 1974 e ajudou quem tentou ou pretendeu liquidar a Revolução dos Cravos que criou o actual regime político português. Fê-lo com Spínola, fê-lo com Kaúlza.

2. Pacheco de Amorim não se importou, logo em 1980, de deixar os grupúsculos da extrema-direita e foi trabalhar para a direita que aceitara o regime democrático. Fê-lo com Freitas do Amaral, fê-lo com Manuel Monteiro.

3. Essa direita, dita moderada, muitas vezes auto-apresentada como sendo de “centro-direita”, também não se importou nada em receber o contributo e a companhia do anteriormente “extremista” e “reaccionário” Pacheco de Amorim.

4. Pacheco de Amorim saiu politicamente derrotado com o MDLP, saiu derrotado com o MIRN, saiu derrotado com as parcerias com Manuel Monteiro. Foram, até à fundação do Chega, 45 anos de derrotas políticas.

5. Pacheco de Amorim é dirigente de um partido cujo programa eleitoral ostenta esta frase, provavelmente de sua autoria: o Chega “filia-se à tradição judaico-cristã e greco-romana contra o regime que, desde 1974, subverteu a ordem moral da tradição secular portuguesa”.

Eu, na minha santa ignorância sobre o pensamento filosófico da extrema-direita portuguesa, não sei bem qual é a “ordem moral da tradição secular portuguesa”, mas sei que esta frase é, explicitamente, uma declaração de guerra política à actual democracia portuguesa, que a Assembleia da República representa e que a Revolução dos Cravos construiu.

Pacheco de Amorim pretende agora, prestes a chegar à Assembleia da República, ser institucionalizado, entronizado e honrado com a entrada directa na estrutura de direcção do parlamento. Talvez um dia, admito eu, queira mesmo ser medalhado pelo regime que no passado quis e que no presente quer destruir.

A democracia portuguesa tem a obrigação de tratar Pacheco de Amorim com o respeito que qualquer deputado eleito pelo povo deve merecer. A sua candidatura a vice-presidente do parlamento saído da Revolução dos Cravos é, por isso, totalmente legítima.

Porém, seria um atentado à liberdade dos outros deputados, uma violação da sua consciência política, obrigá-los todos a votarem a favor dessa candidatura, como parece pretender o Chega. Excluir Pacheco Amorim da candidatura é antidemocrático, obrigar 230 deputados a aceitar automaticamente a sua eleição é ainda mais antidemocrático.

Se a maioria dos deputados, todos também democraticamente eleitos pelo povo, vier de facto a rejeitar a candidatura de Pacheco de Amorim para vice-presidente da Assembleia da República, a culpa só pode ser assacada ao próprio Pacheco de Amorim, ao seu percurso político, às ideias que desde os tempos do MDLP defendeu e às ideias contra o regime, cuja sede é naquela casa, que defende no partido Chega.

Numa democracia o voto de deputados eleitos não vitima Pacheco de Amorim. Se o rejeitarem para a liderança da AR, ele será apenas vítima de si próprio e do seu inequívoco currículo político.

Aliás, ver Pacheco de Amorim a querer receber a caridade de ser “vice” do parlamento do regime criado pela Revolução dos Cravos que, há quase meio século, tenta derrubar, é mesmo assistir a um patético exercício de incoerência.

Jornalista

Diário de Notícias
Pedro Tadeu
09 Fevereiro 2022 — 00:07


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472: Marcelo Rebelo de Sousa perdeu as eleições?

– Marcelo foi o único perdedor das eleições que ele próprio cavou, na convicção de poder ter o seu partido na governança de Portugal. Saiu-lhe o tiro pela culatra. As bazófias proclamadas pelo Rui D.Sebastião Rio, não passaram disso mesmo. Embora não tenha batido palmas ao PS pelas razões que já aqui mencionei em artigos anteriores, continuo na expectativa que a continuação da política de carregar sobre os mais pobres, todos aqueles que têm rendimentos mensais inferiores ao SMN e são objecto de carga fiscal desmesurada, vai continuar, nomeadamente nos escalões do IRS e na perspectiva risível do quem menos ganha, mais paga.

OPINIÃO

O medo de um governo de direita, que as inúmeras sondagens anteriores às eleições tornaram, erradamente, uma possibilidade viável na cabeça de muitos eleitores, levaram a uma concentração de votos da população de esquerda no Partido Socialista, com sacrifício do Bloco e da CDU, e originaram uma grande vitória pessoal de António Costa.

O PS está livre para formar o governo que quiser.

É uma vitória ao PSD, é uma vitória aos partidos da geringonça, é uma vitória à direita liberal, é uma vitória à direita nacionalista, e é, finalmente, uma vitória ao Presidente da República.

Na verdade, a vitória eleitoral de António Costa é politicamente tão forte e tão surpreendente que qualquer intenção do Presidente da República em influenciar a formação do próximo governo, o seu programa, as suas opções estratégicas, os parceiros a incluir ou a excluir de acordos de governação, toda a matemática no espaço que o estratega Marcelo Rebelo de Sousa certamente esteve a construir nos últimos meses, se esfumou na decisão emanada ontem dos boletins de voto.

O Presidente da República, ao contrário do que seria de esperar, parece condenado a ter um resto de segundo mandato em que tem de se confrontar com duas opções, face a um António Costa praticamente com as mãos livres para fazer quase tudo o que quiser.

A primeira é o Presidente da República começar a comportar-se com António Costa, em contraste com a convivência simpática anterior, como Mário Soares, no seu segundo mandato, fez com Cavaco Silva, que criticava frequentemente as opções do governo, solidarizava-se com os que se queixavam do primeiro-ministro, parecendo quase um líder da oposição.

A segunda é Marcelo Rebelo de Sousa conformar-se, pelo menos nos próximos tempos, a uma palidez política, a uma secundarização do seu papel, ofuscado pelo aumento de poder de António Costa, à espera de uma qualquer crise que volte a equilibrar para o seu lado a balança da capacidade de decidir os destinos do país, correndo o risco de que isso não aconteça até ao fim do seu mandato.

Qualquer das opções implica, de qualquer forma, que nos próximos tempos o homem que decidiu, glosando o seu discurso de sábado sobre estas legislativas, pela primeira vez na nossa história, que o chumbo de um Orçamento do Estado implicava a convocação de novas eleições, é também um dos castigados por essa antecipação do ato eleitoral.

Esta vitória do primeiro-ministro derrota também uma parte do próprio PS, que parecia estar a deixar de acreditar nele: uns criticavam-no pela sua opção de fazer acordos à esquerda, outros denunciaram a sua responsabilidade pelo fim da geringonça. Agora clamam, todos juntos, vitória.

Isto significa que, a partir de agora, o poder acrescido que António Costa conquistou o tornou igualmente um político mais isolado: todas as decisões que daqui em diante tomar vão-lhe ser imputadas, ninguém mais as atribuirá, para o bem ou para o mal, à necessidade de compromisso, a resultados de duras negociações, a cedências necessárias para manter a estabilidade governativa, que serão, obviamente, marginais. Esse tempo acabou.

Este é, portanto, o tempo para finalmente avaliar o carácter ideológico de António Costa: praticamente sem outros freios que não sejam os das limitações impostas pela União Europeia, livre de oposição interna, livre da influência de Marcelo, iremos ver no poder um homem de esquerda ou um homem de centro?

Jornalista

Diário de Notícias
Pedro Tadeu
31 Janeiro 2022 — 02:22


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E o acidente de Eduardo Cabrita?…

OPINIÃO

Há cinco meses, a 18 de Junho, um acidente de viação numa autoestrada com um carro oficial onde seguia o ministro da Administração Interna tirou a vida a Nuno Santos, um trabalhador que integrava uma equipa de uma empresa subcontratada pela Brisa para fazer trabalhos de manutenção na A6.

O INEM abriu inquérito interno para saber se o socorro dado na altura foi bem prestado – mas, até agora, não se conhecem resultados nem explicações oficiais para o facto de a ambulância enviada ao local ter chegado, segundo testemunhos, mais de uma hora depois de ter sido chamada.

A GNR começou a investigar a culpa do acidente, mas não explicou o que andou a fazer – em 3 de Setembro, três meses depois, a revista Visão escreveu que uma pergunta sobre isso foi respondida desta maneira: a Guarda Nacional Republicana “desenvolveu e encontra-se a desenvolver, nos termos da lei, todas as diligências inerentes a um processo de investigação de um acidente de viação com vítimas mortais”, o que é o mesmo que não responder.

Informações sobre o conteúdo dessas “diligências”… nada! Mas uma fonte anónima disse ao site Observador que, um mês antes, em Agosto, a GNR interrogara a mulher da vítima mortal. Motivo? Queria saber se Nuno Santos era uma pessoa com personalidade e comportamento “responsável”.

O Ministério Público abrira entretanto inquérito, mas assim que o fez decretou segredo de justiça ao processo de investigação.

Não consigo perceber porquê. Que interesse se pretende proteger para impor esta excepção à lei que determina que só excepcionalmente se pode aplicar o segredo de justiça? Porque nunca houve uma explicação para isso?

A Procuradoria-Geral da República foi interrogada pelos jornalistas sobre esse tema e, tanto quanto se sabe, não respondeu. O Jornal de Notícias, por exemplo, noticia a 18 de Outubro que fez isso, que mandou perguntar, que esperou duas semanas por uma elucidação e que não teve sucesso…

Também nesse dia o jornal i publicou declarações do advogado da mulher e das duas filhas de Nuno Santos, que foram aceites como assistentes no processo, o que lhes daria direito a ter acesso a alguma informação, mas nessa altura, quatro meses depois do desastre, elas nem sabiam se fora feita uma autópsia ao corpo do falecido, o que é espantoso e desumano.

O advogado delas, entretanto, disse nos jornais que vai pedir uma indemnização de um milhão de euros e que vai pedir em tribunal a responsabilização do ministro Eduardo Cabrita pelo acidente, apesar de não ser ele o condutor.

O Chega quis logo aproveitar para poder gritar para as câmaras a palavra “vergonha!”, numa tentativa de aproveitamento político absolutamente cruel, e propôs uma comissão de inquérito no parlamento, entretanto rejeitada pela maioria dos outros partidos – mas esta demora em tornar públicos dados concretos e oficiais sobre o ocorrido está a fazer um grande favor a André Ventura…

Amanhã passarão então cinco meses sobre a data deste acidente mortal. Acho melhor não deixar cair este assunto, e por isso fiz a recapitulação antecedente. Não o faço para acusar ou defender qualquer um dos envolvidos no sinistro – o meu ponto é outro.

Não se trata aqui de uma investigação complexa: não há offshores nem esquemas financeiros subterrâneos envolvidos.

Não se trata aqui de um tipo de apuramento que as nossas autoridades não saibam fazer: repetem-no centenas de vezes todos os anos, sempre que há um acidente mortal – em 2020 fizeram-no em 390 ocasiões.

Não se trata aqui de uma pesquisa em que as nossas polícias não tenham peritos e técnicos capazes de fazer os exames adequados para aclarar o que houver a aclarar.

Não pode ser, portanto, por incapacidade que este silêncio bizarro prevalece.

Esta demora em explicar claramente o que se está a passar é terrível para a família de Nuno Santos, como qualquer um de nós compreenderá, mas também é terrível para Eduardo Cabrita, posto assim sob suspeita de querer abafar o que se passou.

Mais: quando se souber oficialmente alguma coisa sobre a investigação, muita gente desconfiará da credibilidade da informação que então for dada e isso não vitimará apenas Eduardo Cabrita, encherá ainda mais o pote cheio do fel com marca “os poderosos safam-se sempre”, um pote popular e populista que está quase repleto.

A justiça portuguesa está, há anos, a envenenar a democracia. Eis uma normalidade a que não consigo habituar-me.

Jornalista

Diário de Notícias
Pedro Tadeu
17 Novembro 2021 — 00:07

 

223: Quem matou a geringonça?

– … “A geringonça morreu porque António Costa fez por isso, desde há bastante tempo, provavelmente porque acha que vai ganhar com eleições antecipadas. Significa esta morte que a esquerda não vai ser capaz de voltar a fazer um acordo que viabilize um governo? Não.” Pois é Tadeu, a geringonça morreu por culpa exclusiva do teu partido de eleição, o PCP, que não se livra da canga estalinista/leninista e o BE que não passa de um partido da burguesia urbana. E não, não defendo esta governança que me anda a ROUBAR no IRS há mais de cinco anos (menor rendimento, maior imposto), tenho é plena consciência que não desejo um novo governo PaF de triste e má memória ou governado por choldra com raízes no Estado Novo salazarista! E que vocês, PCP + o vosso satélite PEV + BE, apoiaram aquando da não aprovação do PEC4 por motivos puramente ideológicos e sem terem respeito pelos Portugueses e por Portugal. Tens artigos de opinião excelentes e este publico porque não sendo anti-comunista mas anti-estalinista/leninista, é bom que se conheçam as variantes que existem em política, quando aplicadas em artigos de opinião.

OPINIÃO

Quando em 2019 o governo de António Costa aprovou alterações ao Código do Trabalho e passou o período experimental de 90 para 180 dias (mas em que planeta é preciso seis meses para verificar se um trabalhador é competente?!…) deu um tiro de pistola na geringonça.

Quando, nesse mesmo Código do Trabalho, reforçou as possibilidades do patronato ficar livre das regras da contratação colectiva, ao ampliar os motivos para a caducidade dos acordos feitos entre sindicatos e patrões, prejudicando a capacidade de negociação dos trabalhadores, deu um tiro de espingarda na geringonça.

Quando em todos estes seis anos o ministério das Finanças usou, de forma sistemática, excessiva e arbitrária, a cativações de verbas e eliminou na prática o financiamento atempado de muitas medidas que tinham sido acordadas com os partidos que viabilizavam o governo de minoria, deu rajadas de metralhadora na geringonça.

Quando António Costa, ao longo de seis anos, permitiu que o financiamento do Serviço Nacional de Saúde (SNS) resultasse numa constante subcontratação de serviços ao sector privado, social e farmácias, que ronda já os 2 mil e 800 milhões de euros por ano, em vez de contratar mais pessoal e mais equipamento, lançou uma granada sobre a geringonça.

Quando em plena pandemia por Covid-19 o governo começou a contratar mais enfermeiros a prazo, dispensando-os logo a seguir, deu um disparo de morteiro na geringonça.

Quando na campanha eleitoral para as autárquicas António Costa acusou a GALP de “irresponsabilidade social” pelo fecho da refinaria em Matosinhos, que atirou directamente 400 pessoas para o desemprego, depois de meses e meses de complacência do seu governo com esse processo desencadeado pela empresa, fez explodir uma mina terrestre no caminho da geringonça.

Quando na discussão do orçamento para 2020 António Costa não aceitou comprometer-se claramente em pagar mais 50% de salário aos médicos que desejem ficar em exclusivo no Serviço Nacional de Saúde, detonou um explosivo na geringonça.

Quando na discussão deste Orçamento do Estado o governo apresenta um documento que nem PCP nem Bloco de Esquerda têm condições de aceitar, por não garantir a aplicação imediata de inúmeras propostas em discussão, como as creches gratuitas para todas as crianças, o aumento extraordinário e abrangente de pensões, o baixar o IVA da electricidade, entre muitas outras, liquidou a negociação. Este foi o tiro de bazuca que matou, de vez, a geringonça.

Quando o secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro, Tiago Antunes, mente na televisão ao dizer que o PCP exigiu, sem cedências, a subida do salário mínimo para 850 euros já em Janeiro, quando na verdade aceitou 705 euros no início do ano e apenas 800 euros no final de 2022, fez de coveiro da então já falecida geringonça.

A geringonça morreu porque António Costa fez por isso, desde há bastante tempo, provavelmente porque acha que vai ganhar com eleições antecipadas.

Significa esta morte que a esquerda não vai ser capaz de voltar a fazer um acordo que viabilize um governo? Não.

Na verdade, o tempo político que vivemos, com a pandemia aparentemente numa fase de controlo e com um reforço do financiamento europeu garantido, convida a repensar profundamente a forma como se elaboram orçamentos e como estes se articulam com outras medidas exteriores a esse documento. É uma oportunidade que não se repetirá tão cedo. Foi isso que o PCP pôs em cima da mesa.

Seja na discussão deste documento, seja com outra solução encontrada ainda neste parlamento, seja após eleições antecipadas, a esquerda acabaria por concluir que tinha mesmo de matar a geringonça, pois com ela o PS já só geria a contabilidade do Estado com a calculadora do receio nacional de eleições antecipadas. A esquerda terá de pensar se vale a pena avançar para outro patamar de relação.

A direita, se precisar, não hesitará em aliar-se toda ao Chega, sejam quem forem os líderes dos outros partidos e, por isso, já tem implícita uma proposta política para os portugueses apreciarem numas eventuais eleições antecipadas: tirar o PS do governo.

Morta a geringonça, a esquerda ou vai para a separação de águas entre os seus partidos ou para o aprofundamento da relação. O medo da direita é a segunda hipótese. O medo da esquerda é, também, a segunda hipótese.

Diário de Notícias
Pedro Tadeu
27 Outubro 2021 — 00:53

 

204: A direita cria mais riqueza do que a esquerda?

OPINIÃO

Frase da semana: “Se o Orçamento Geral do Estado não for aprovado, a culpa será do PCP e do Bloco.”

Porquê?…

O eventual chumbo do OE não será, em primeiro lugar, culpa do governo, por não ter feito um documento que pudesse ser votado por algum dos outros partidos parlamentares? À esquerda ou à direita? Porque é que se fez um Orçamento que só agrada ao primeiro-ministro?

E o PSD, a IL, o CDS e o Chega também não são responsáveis perante o povo português? Ao votarem contra o Orçamento por mero posicionamento político, sem sequer discutirem seriamente o seu conteúdo, não são igualmente responsabilizáveis por esse chumbo?

E o PAN e os Verdes, se não votarem a favor do Orçamento, estão fora desta frase feita porquê?

Frase da quinzena: “Se o Orçamento Geral do Estado não for aprovado, haverá uma crise política e convocar-se-ão eleições.”

Porquê?…

O chumbo de um Orçamento Geral do Estado implica, apenas, que a classe política que lidera o país trate de elaborar outro Orçamento. Para isso não precisa necessariamente de novo governo, nem de nova legislatura, nem de convocar eleições.

Caso o Orçamento chumbe o documento em debate, o que é que impede, no actual parlamento, antes de eventuais eleições antecipadas, promover-se uma nova negociação para um novo Orçamento ou até para um novo governo? Porque é preciso, a meio da legislatura, ir logo para novas eleições antes de se esgotarem outras possibilidades – ainda por cima correndo o sério risco de a relação de forças parlamentar, no essencial, após a votação popular, ficar na mesma?

Não é isso irresponsável e prejudicial para o país? Porque é que o Presidente da República prefere saltar logo para eleições?

Frase do mês: “A esquerda só sabe distribuir a riqueza do país, não sabe aumentar essa riqueza”?

Porquê?…

Conto, desde os governos de Cavaco Silva (1985), os anos em que o crescimento do PIB de Portugal foi negativo: aconteceu em quatro anos de governo PSD e em três anos de governo PS (ver nota).

Nos 11 anos de Cavaco Silva a média anual de crescimento do PIB foi de 3,9%.

Na era Guterres foi de 3,3%.

Durão teve uma média de 0,43% e Santana Lopes 0,78%.

Sócrates teve um valor médio de crescimento do PIB de 0,23% e Passos de -0,6%.

António Costa tem um valor médio de crescimento do PIB de 0,4%, mas se tirarmos 2020, o ano da pandemia, a conta subiria para 2,76%.

Como se vê, não é por o PS ou o PSD estarem no poder que os valores de “criação da riqueza” diferem: quando havia muitos fundos europeus os valores foram quase sempre razoáveis. Mesmo assim, Cavaco Silva, o principal beneficiário dessa época, teve um ano com valor negativo.

Quando entrámos no euro (2002), os valores do PIB passaram a ser muito débeis e, pelo meio, houve a crise financeira, houve a troika, houve o aumento da dívida pública e houve as falências bancárias que estamos a pagar, o que só agravou o problema do fraco crescimento da nossa economia – mas isso deve-se a políticas ditas “de direita” que dominaram estes anos todos, e não a políticas de distribuição de riqueza, à moda da esquerda.

Por acaso os melhores valores do PIB português do pós-euro dão-se durante o período da geringonça. Por exemplo: o crescimento de 3,51% do PIB em 2017 é o melhor valor português desde o ano 2000, ainda governava Guterres e ainda havia escudos na rua.

Ou seja, é quando finalmente PCP e Bloco conseguem meter a mão no Orçamento Geral do Estado, quando impõem ao PS, por exemplo, medidas de distribuição de rendimentos, que a riqueza geral do país aumenta para lá dos habituais valores muito baixos dos últimos 20 anos: antes da pandemia, a média do PIB dos governos de Costa é a melhor desde 2002 e mesmo com a pandemia é melhor do que a média de Passos Coelho e de José Sócrates.

Como é que se pode dizer, face a esta estatística, que as políticas económicas da esquerda prejudicam o crescimento económico? E Costa, não percebe que este caminho orçamental, já testado, deve mesmo ser aprofundado e que boa parte das reivindicações de PCP e Bloco para o novo Orçamento são, afinal, medidas de bom senso, apoiadas numa experiência que deu sinais positivos?

Porque é que continuamos a ser acríticos a frases feitas?

Nota – Em 1993 o valor de crescimento do PIB português foi de -0,69% (Cavaco era primeiro-ministro – PSD). Em 2003 foi de -0,93% (Durão Barroso – PSD). Em 2009 foi de -3,12% (Sócrates – PS). Em 2011 foi -1,7% (Sócrates – PS). Em 2012, -4,06% (Passos Coelho – PSD). Em 2013 foi -0,92% (Passos Coelho – PSD). Prevê-se que em 2020 ronde os -8.9% (António Costa – PS).

Jornalista

Diário de Notícias
Pedro Tadeu
20 Outubro 2021 — 00:11

 

191: Raquel Varela é importante?

OPINIÃO

Raquel Varela, habitual comentadora política e historiadora, está a ser acossada – imputações de multiplicação indevida de artigos científicos no currículo, provas de repetição de largos excertos de textos em trabalhos diferentes (“auto-plágio”, definem os acusadores), queixas de abuso de poder e de assédio moral a bolseiros e, até, presunções de manipulação de concursos.

Os jornais Público, Diário de Notícias, Observador, I e a revista Sábado das últimas semanas têm longos textos sobre Raquel Varela. Entre notícias, artigos de opinião e até editoriais alusivos, o tom apaixonado e adjectivado com que a matéria é tratada faz parecer o valor do currículo da professora da Universidade Nova ter mais importância para o país do que a aprovação do Orçamento Geral do Estado.

Nas redes sociais, Raquel Varela defende-se com textos gigantescos a tentar desmontar a argumentação dos acusadores, a detalhar a sua interpretação das regras do jogo da conquista do pódio académico, a contra-atacar com insultos e suspeitas sobre a idoneidade dos jornalistas que se atreveram a colocá-la em causa, a promover abaixo-assinados em defesa do seu próprio bom nome.

Tudo isto atrai centenas, milhares de partilhas, comentários, reacções e audiências – na verdade, o currículo académico de Raquel Varela é, no momento em que escrevo, um tema mais debatido que o escândalo da fuga global ao Fisco mostrado pelos Pandora Papers, a crise na energia, a fuga de João Rendeiro à justiça, a saída de Armando Vara da prisão, o início das terceiras doses de vacinas contra a covid-19, a atribuição dos Prémios Nobel, a luta interna no CDS e no PSD ou as eleições do Benfica.

Lá fui ver o que era, então, o “caso Raquel Varela”…

Percebi: a luta por um lugar ao sol na universidade transformou-a num campo de batalha sem regras.

Percebi: é mais importante, para se ser alguém numa universidade, publicar muitos artigos científicos do que publicar bons artigos científicos.

Percebi: se o rigor da argumentação usada pelos intervenientes nesta polémica reflete o rigor habitual dos textos académicos, muita desta gente não devia, simplesmente, publicar artigos rotulados de “científicos”.

Percebi: o negócio das publicações científicas está globalizado e muito poucas editoras do género dominam todo o mercado mundial, que vale milhões, muitos milhões – e os autores são os que menos ganham com isso.

Percebi: muitos investigadores universitários transformaram-se numa espécie de directores comerciais, à procura de formas de financiamento e “inventando” investigações “à medida do cliente”.

Percebi: a hierarquia numa universidade transforma os que estão na base da pirâmide social interna em verdadeiros escravos dos que estão acima. Quem está no meio, sabuja para cima e tiraniza para baixo.

Percebi: a universidade e os universitários acham que só devem ser escrutinados por si próprios e que o resto da sociedade nada tem a ver com isso.

Percebi: boa parte das acusações sobre Raquel Varela incidem sobre práticas banais no mundo académico, dizem muitos dos envolvidos. Se são ética ou legalmente reprováveis, então o mundo académico precisa de uma revolução e muitas cabeças deviam cair.

Percebi: a polémica sobre Raquel Varela é importante para ela, é importante para as pessoas que a denunciam, é importante para os locais onde ela trabalha, mas só tem um único valor para a sociedade em geral – demonstra que a universidade (cá e lá fora) está doente e precisa de ser salva de si própria…

… Eu começava por moderar a visão mercantilista do saber.

Jornalista

Diário de Notícias
Pedro Tadeu
13 Outubro 2021 — 00:07

 

176: Marcelo empurra Costa para a demissão?

– O célito gosta muito de “empurrar”… especialmente para a direita…

OPINIÃO

No semanário Expresso de 1 de Abril passado o Presidente da República disse isto: “É muito importante que os partidos criem condições para levar o Plano de Recuperação sem sobressaltos até 2023, o que implica garantir a aprovação de dois Orçamentos do Estado, o do próximo ano e o seguinte.”

A meio de maio voltou a recomendar a aprovação do Orçamento do Estado pelos partidos à esquerda, porque se o PSD o fizesse não podia “liderar uma alternativa” ao governo.

À Antena 1, numa entrevista à jornalista Maria Flor Pedroso a 21 de maio, tentou voltar a condicionar os partidos: à esquerda “é fundamental que haja na área do poder mais diálogo entre os partidos que estão vocacionados para levar até ao fim a legislatura, para além das suas divergências”, e à direita “a alternativa reforce a capacidade de o ser, de forma crescente, porque isso é bom para a democracia portuguesa”.

Em Julho interveio numa conferência empresarial onde declarou: o sector privado deve “prosseguir o seu empenho ou, se quiser, a sua luta, para ter protagonistas institucionais, políticos e outros, mais fortes, para ter discurso político com mais eco nos momentos de decisão popular e eleitoral”, falando a seguir do descontentamento que disse ter ouvido por parte dos empresários em relação à aplicação do dinheiro da “bazuca” financeira: como se sabe, eles queixam-se de ir haver muito investimento do Estado e pouco dinheiro para eles. A direita adorou.

Nesta semana, depois de na anterior ter trocado as voltas ao governo na mudança do chefe de Estado-Maior da Armada, apareceu a dizer que “até às legislativas, para mim é uma evidência que deve haver estabilidade política governativa”, que o Orçamento do Estado para 2022 deve ser aprovado.

Marcelo garantiu mesmo que tentará o acordo à esquerda que viabilize o Orçamento “até ao limite dos seus poderes”, opinou que uma vez que “as autárquicas têm sempre uma leitura nacional”, será natural que os partidos à esquerda do PS ponderem, de agora em diante, entre “reforçar a prazo a base de poder ou enfraquecê-la”.

Por outro lado, deixou este recado à direita: a formação de uma “alternativa plausível e forte” não é tanto uma questão de “liderança”, mas sim de “estratégia”. E rematou: “Aquilo que às vezes provoca maior instabilidade é não haver alternativas fortes.”

Todas estas citações de frases públicas do nosso Presidente da República, desde a sua reeleição em Janeiro até agora (recusei, deliberadamente, citar “recados” que certos jornais e comentadores frequentemente reproduzem), servem para comprovar duas coisas que me parecem claras.

Por um lado, Marcelo pretende que o governo minoritário de António Costa cumpra a legislatura até ao fim, até às eleições de 2023, mesmo que isso implique o “sacrifício” eleitoral dos partidos à esquerda do PS.

Por outro lado, o Presidente gostaria que as coisas andassem de modo que a direita possa vencer essas legislativas.

Admito que na cabeça de Marcelo Rebelo de Sousa seja normal pensar que a um ciclo de governos do PS se deva seguir outro ciclo de governos do PSD ou de coligações à direita, para garantir alternâncias no governo. Não concordo, mas admito que o Presidente só veja essa saída de mudança de pessoal político no executivo e que a ache necessária.

O problema, porém, é que com tanto aviso e com tanta explicação, com tanta “magistratura de influência”, Marcelo está a empurrar António Costa para… a crise política.

O que é que impede António Costa – com as sondagens a darem-lhe larga vantagem, com a chegada dos dinheiros europeus e com o fim da pandemia a criarem um novo ciclo político que não corresponde ao ciclo eleitoral – de aproveitar as negociações do Orçamento deste ano para inventar um pretexto que leve à queda do governo e fique sossegado mais quatro anos?

Não é melhor para ele, do que agonizar dois anos, enquanto a direita recupera eleitorado? Não é fácil provocar as eleições? Não lhe basta, por exemplo, definir uma meta de défice ou outra limitação financeira qualquer, que, em nome das “contas certas”, inviabilize reivindicações de investimento público do PCP e do Bloco, levando até a direita a ter de concordar com ele? O que é que Costa tinha a perder com isso?… Nada.

Quanto mais Marcelo tenta condicionar os partidos e o governo ao seu plano político, mais os empurra para a crise política e para eleições antecipadas.

Jornalista

Diário de Notícias
Pedro Tadeu
06 Outubro 2021 — 00:07

 

167: O PCP está a suicidar-se?

– Publico neste Blogue muitos textos do Pedro Tadeu que sei ser militante do PCP, como publico textos do José Ribeiro e Castro ex-líder do CDS. Campos e ideologias opostos, sem qualquer dúvida. Cada um defendendo a sua “dama” ideologicamente expressando as suas teses. Neste artigo de opinião, apenas tenho a lembrar ao Pedro que se o PCP está a “suicidar-se”, não é por ter apoiado o PS na glamorosa “geringonça” de Outubro de 2015. É por o PCP continuar a seguir a doutrina stalinista/leninista, desajustada aos tempos modernos, apoiando países comunistas de parido único e ditatoriais (Coreia do Norte, China, Rússia, Cuba, etc.). E, se o PCP algum dia governasse Portugal, a doutrina ditatorial desses países seria a mesma utilizada aqui. E caro Pedro, em meu entender, ditaduras sejam elas de direita ou de esquerda, não entram na minha agenda. São ditaduras, que representam tudo aquilo que diariamente lemos na C.S.: assassínios, prisões, campos de concentração de quem tenta opor-se ao regime de partido único.

OPINIÃO

Na noite de 4 de Outubro de 2015 em que Jerónimo de Sousa abriu a possibilidade de o PCP, após negociação, apoiar no Parlamento os orçamentos de Estado que um governo formado pelo PS viesse a apresentar, tirou o tapete à direita política do país e afastou-a do poder executivo.

Depois desse dia já houve outra eleição para a Assembleia da República, em 2019. Em quatro anos a CDU, a coligação onde o PCP concorre, perdeu 113 mil votos, mais de 25% do eleitorado que tinha.

Depois desse dia já houve uma eleição europeia. Em relação ao sufrágio anterior, de 2014, a CDU perdeu 188 mil votos, uma enorme queda de 45% do total de votantes.

Depois desse dia já houve duas autárquicas. Em 2017 a CDU perdeu 63 mil votos, uma queda de 11,5% em relação a 2013. Em 2021 perdeu mais 78 mil votos, 16% em relação a 2017.

Não me parece ser necessário dizer muito mais para assegurar factualmente que, do ponto de vista eleitoral, a declaração histórica do líder do PCP, que permitiu a António Costa ser primeiro-ministro, foi uma desgraça para o partido – até porque este ciclo de quedas eleitorais se segue a outro de subidas: 13 mil votos mais das autárquicas de 2009 para 2012, quatro mil votos das legislativas de 2011 para 2015 e 36 mil votos das europeias de 2009 para 2014.

O que é que ganhou o PCP em 2015? Algo muito relevante para o partido e para a democracia portuguesa: Jerónimo de Sousa, numa frase, acabou com o conceito de “arco da governação” onde, 40 anos antes, desde 25 de Novembro de 1975, só cabiam PS, PSD e CDS. Até o Bloco de Esquerda beneficiou desse tiro ao preconceito ideológico.

O PCP também ganhou capacidade para impor medidas orçamentais que favoreceram os mais desprotegidos da sociedade e foi decisivo em muitos momentos legislativos na Assembleia da República onde, de longe, venceu o campeonato da sensatez, da visão humanitária da vida, da defesa da liberdade individual ou colectiva e da coragem política.

Os ganhos para o país do aumento de influência política do PCP parecem-me evidentes, mas os castigos sistemáticos e repetidos do eleitorado demonstram que boa parte desse país que encarava a CDU como uma opção séria de voto deixou de o fazer – e a tendência estatística desse abandono acentua-se, de eleição para eleição.

Perda de deputados, perda de presidentes de câmara, perda de eleitos autárquicos significa perda de poder na alta política, significa perda de influência no poder mais próximo das populações mas, também, perda de capacidade de liderança em outros sectores da sociedade: por exemplo, no mundo sindical é inevitável que estes maus resultados sistemáticos não tenham reflexos indirectos sérios.

A emigração, a pandemia, o voto útil anti-comunista, a abstenção, as mudanças sócio-demográficas, o tratamento discriminatório por parte da comunicação social, a “campanha negra” contra o PCP estão muito longe de explicar esta erosão.

Quando um autarca de excelência como Bernardino Soares perde em Loures para um candidato do PS, repetindo o fenómeno ocorrido com Joaquim Judas em Almada em 2017, há certamente alguma coisa que estas explicações habituais não estão a contemplar.

Quando vejo um dirigente de topo do PCP, na noite eleitoral de domingo, a acusar uma jovem repórter da SIC de ter – ela, individualmente – uma “agenda política” escondida por detrás de uma pergunta banal sobre os maus resultados eleitorais da CDU, leio uma desorientação comunicacional e um descontrolo emocional preocupantes e, receio, significativos.

Quando olho para a propaganda CDU, analógica ou digital, nas várias eleições, quase sempre fria, rotineira, sem calor humano, sem foco, sem mensagem política, sem risco, sem rasgo, com muito passado glorioso mas sem mostrar futuro, com as mesmas palavras de ordem de há 40 anos – “Trabalho, Honestidade e Competência” ou “Com Toda a Confiança” – espanto-me por já ninguém no PCP ler os textos de Lenine sobre propaganda.

Quando vejo protestos institucionais do PCP, aparentemente inconsequentes, sobre o incumprimento por parte do PS dos acordos orçamentais em vigor, da degradação de quadros e meios técnicos no Serviço Nacional de Saúde, ou sobre as normas mais lesivas do novo Código do Trabalho, verifico uma ineficácia nesses protestos que é claramente auto-destruidora, suicida – se o PCP não ganha ou, pelo menos, não “rasga as vestes” em batalhas destas, serve para quê?

Desde a primeira hora que no PCP se tinha a noção que o apoio a um governo minoritário do PS teria graves custos eleitorais – mas a medida desse custo começa a ser, parece-me evidente, demasiado alto para as possibilidades políticas do partido.

É preciso, pensa este militante do PCP, sensatamente, revolucionar isto.

Jornalista

Diário de Notícias
Pedro Tadeu
29 Setembro 2021 — 00:24