1350: Adoecer em Portugal

… “os médicos dedicavam-se aos seus consultórios e clínicas onde atendiam quem podia pagar e o povo tinha direito às Caixas de Previdência onde eram atendidos um pouco como sardinha em lata.” … “Era difícil adoecer em Portugal há cinquenta anos.”… Eu sou do tempo (1960) dos Postos da Caixa de Previdência e nunca observei que o povo era atendido como sardinha em lata! E ser difícil adoecer em Portugal há 50 anos, tanto era difícil nesses tempos idos como actualmente, embora hoje existam mais formas de enfrentar as doenças que nos afligem! Aliás, naquele tempo, o posto da Caixa de Previdência a que pertencia, tinha várias especialidades a saber: estomatologia, cardiologia, psiquiatria, medicina, enfermagem e radiologia, especialidades que hoje encontram-se nos hospitais… Além disto, quando o utente estava doente e incapacitado de ir ao Posto por estado febril, o médico vinha a casa, passava a receita e a “baixa” caso fosse necessário… E não existiam “taxas moderadoras”… Ou o colunista não viveu esse tempo ou está muito mal informado!

OPINIÃO

Adoecer em Portugal era difícil há cerca de 50 anos, quando a frase:” a medicina é a primeira das ciências enquanto a saúde for o primeiro dos bens”era habitual nos corredores da Faculdade de Medicina, dita com muita presunção e água-benta , mais para aborrecer os amigos não estudantes de Medicina, do que a convicção com que era dita quereria demonstrar.

Na realidade, até podemos aceitar que a medicina pode não ser uma ciência em si, mas sim um conjunto de ciências que promovem o conhecimento e que, devidamente agregadas, se transformam em Medicina.

A Química, a Física, a Biologia, a Fisiologia, a Matemática, a Farmacologia, a Matemática, todas as ciências ditas exactas promovem o conhecimento através da experiência, da tentativa e erro, de mais experiência uma e outra vez, até chegar a um resultado final seguro, enquanto a Medicina é, talvez, uma filosofia que une o conhecimento gerado pelas chamadas Ciências Exactas a uma base filosófica, com o serviço ao próximo, aos que sofrem, a ser o aglutinador e catalisador dessa união de conhecimentos.

A Medicina em si não é sinónimo de Saúde, mas contribui para a Saúde. Esta é definida pela Organização Mundial de Saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades”.

A saúde não é um bem individual; é um valor colectivo, um bem de todos, devendo cada um gozá-la individualmente, sem prejuízo de outrem e, solidariamente, com todos, tal como a Medicina e a Enfermagem e todas as áreas Especializadas que comungam as mesmas finalidades são uma união de conhecimentos vindos de muita áreas distintas.

Por isso, falar de Saúde como mais um artigo de jogo político vai enviesar conhecimentos, pois as abordagens políticas não são, habitualmente, baseadas em conhecimento científico e sim, também habitualmente, em convicções de ordem pessoal que não passaram pelo crivo da experimentação, da hipótese conducente a uma tese testada e re-testada até um resultado seguro e fiável.

A Saúde vai muito além dos espaços físicos onde, convergindo para um bem estar comum, as várias vertentes dos cuidados a ela conducentes, desde o primeiro acto administrativo até à consulta médica e seu respectivo seguimento, se juntam.

Assim, todos os actos interligados, administrativos, de enfermagem, de exames auxiliares de diagnóstico, de consulta médica, necessitam de um espaço físico para se poderem efectivar. Um consultório, um centro de saúde, um hospital personificam esse espaço físico, sem o qual os cuidados necessários para que a Saúde se possa desenvolver não terão capacidade de resposta eficaz.

Mas, sendo, também, uma abordagem filosófica de convergência de conhecimentos, deve, por isso mesmo, ser esse o ponto de partida para uma abordagem global.

Podemos ter um hospital, um centro de saúde, um consultório muito bem acabados e muito bem equipados que se lá não morar um conceito, de nada vale. Quer dizer, far-se-ão consultas e exames, mas não terão bons cuidados de saúde como resultado final.

Para que o resultado final seja eficiente e satisfatório, é necessária a conjugação de esforços de todos os intervenientes, incluindo o respeito pelo espaço de cada um, sem atropelos, em cooperação. A relação inter-pares é fundamental para a satisfação final do doente (utente em termos mais actuais e mais politicamente correcto), bem como de todos quantos são chamados a colaborar para essa finalidade.

A motivação traz a satisfação, a desmotivação carrega a insatisfação.

A insatisfação dos profissionais que em conjunto trabalham para que a Saúde seja eficaz, conduz, inevitavelmente, à insatisfação do doente (utente).

E não é por ser novo que passa a ser melhor.

Podemos ir num Mercedes topo de gama com 120000 km ou num FIAT 500 novo (passem as publicidades) de Lisboa até Bragança que levaremos, cumprindo as regras de boa condução, sensivelmente o mesmo tempo, mas provavelmente iremos mais confortáveis no primeiro. Isto é, não é por ser novo que é melhor. Só é melhor se o conteúdo for melhor.

Era difícil adoecer em Portugal há cinquenta anos.

Não havia hospitais em quantidade e qualidade, os médicos dedicavam-se aos seus consultórios e clínicas onde atendiam quem podia pagar e o povo tinha direito às Caixas de Previdência onde eram atendidos um pouco como sardinha em lata.

Com o advento da função social do Estado fruto da revolução de 25 de Abril foi criado o Serviço Nacional de Saúde, um pouco à imagem dos serviços semelhantes existentes no Reino Unido e países nórdicos onde era o Estado a prover as necessidades em termos de cuidados de saúde às populações, independentemente do seu estrato social e económico. Implementou-se também nas Faculdades de Medicina um forte sentido de dever público que levou alguns milhares de jovens médicos a aderir sem reservas ao Serviço Nacional de Saúde.

Foram definidas carreiras e, apesar do ordenado não ser muito aliciante, garantia emprego para o futuro. Nos primórdios do SNS, não havia muita preocupação com os horários nem com as horas extraordinárias não contabilizadas, já que o que mais interessava era o serviço que era prestado.

Mas o SNS nasceu enviesado, com uma forte base de hospitalocracia, isto é, baseava a sua estrutura nos hospitais, que eram a parte fundamental do sistema, secundarizando a importância dos cuidados primários, esquecendo que a relação cuidados primários/cuidados hospitalares deveria ser a base da pirâmide, já que os doentes (depois apelidados de utentes) devem ir dos primeiros para os segundos e não destes para aqueles como tantas vezes acontece.

E esta relação interpares deve ser personalizada, de médico a médico e não impessoal de serviço hospitalar para centro de saúde ou vice-versa, perdendo-se assim a relação directa de confiança que tem de existir entre pares do mesmo ofício que tratam do mesmo paciente.

Entretanto foram aparecendo, em contraponto às estruturas públicas, os hospitais privados que foram ganhando espaço devido à ineficiente (e inexistente) mudança de mentalidades indispensável para que se tornasse atractivo o sentido de “dever” público, isto é, trabalhar para quem mais necessita. A atracção por melhores remunerações em actividade privada fez com que muitos jovens optassem por esta em detrimento daquela, e assim chegámos onde estamos agora.

E estamos, mais uma vez a tentar cativar os jovens médicos com acréscimos de ordenado, sem qualquer acréscimo de motivação. Os jovens médicos carecem de motivação na altura da sua formação enquanto pré-especialistas, e essa motivação não pode passar somente pelo salário que vão levar para casa no fim do mês. Precisam de mais, de muito mais, precisam de se sentirem acarinhados por um sistema que aparentemente só os quer para taparem uns buracos nos serviços públicos.

A motivação tem de ser baseada na qualidade de formação, na ligação interpares, fundamental para o desenvolvimento do conhecimento científico, na ligação às Universidades e à investigação.

Há muito a fazer e muito a desbravar para cativar os jovens médicos antes de lhes acenarem com salários mais chorudos, factor importante sem dúvida, mas que não deverá ser primordial.

Muitas vezes, o “primeiro dos bens” já referido, serve para, também muitas vezes, captar atenções, precisamente por ser um bem essencial ao bem estar físico, mental e social. Uma estrutura nova pode ser uma forma de cuidados paliativos para uma mentalidade velha.

Há que olhar para a pirâmide, tal como Maslow descreveu, de baixo para cima, começando pela base, e não de cima para baixo, só para satisfazer egos, transversais a todos quantos querem fazer sua “a primeira das ciências” (que já vimos não o ser) só porque necessitam de “satisfazer” o primeiro dos bens de tantos quantos depositam votos de quando em vez.

Podemos, devemos, sabemos fazer melhor.

Mas, para isso, é indispensável mudar paradigmas e mentalidades, a começar pelas dos responsáveis políticos, que parece tudo fazerem para que continue a ser difícil adoecer em Portugal em 2022.

Diário de Notícias
Pedro Melvill Araújo
04 Julho 2022 — 00:01

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717: Back in the U.S.S.R.

OPINIÃO

Uma pequena história contada a partir de títulos de canções dos The Beatles:

O último soviético com poder, anseia por “Yesterday”.

Por motivos que só ele sabe e que ninguém consegue descortinar direito, resolveu fazer uma “Revolution” para ir “Back in the U.S.S.R.”

Começou há muitos com um suave “Get Back”, e dizendo”I Want to Hold Your Hand”, lá foi convidando para um “Magical Mystery Tour” cheio de promessas do género “Got to Get You Into My Life!” a sua aliada e vizinha Bielorrússia, que como sabemos não é flôr que se cheire.

Seguidamente tentou a outra vizinha, mais independente e senhora do seu nariz dizendo que “We Can Work It Out” e que a vida daí em diante seria um infindável passeio nuns aprazíveis “Strawberry Fields Forever”.

A vizinha, bem conhecedora do “The Fool on the Hill”,pensou – “Help!”!

E se pensou, melhor o fez para que tudo não fosse mais do que um inconsequente “Let It Be”, julgando que “With a Little Help from My Friends” conseguiria “Carry ThatWeight”.

“Dear Prudence”, escreveu ela a uma amiga, ou melhor, a um grupo de amigas, que apesar de recentes, sempre lhe manifestaram o quanto a apreciavam, dizendo-lhes que o que é mais indispensável agora é que vocês “Don’t Let Me Down”!

Mal sabia que a sua desdita ir-se-ia transformar numa “Long and Winding Road” e que a sua esperança que pudessem “Come Together” não passaria de “Something”que lhe diriam com os desejos de “All My Loving ” e pouco mais.

Ficou com a sensação de “I’m a Loser”!

“Tomorrow Never Knows”, disse ela às amigas, o amanhã é desconhecido.

E “From Me to You”, “What You”re Doing”? indagou sem perceber a indiferença grassante.

“All You Need Is Love” responderam-lhe numa primeira apreciação às solicitações da amiga distante.

“She Came in Through the Bathroom Window”, ela entrou pela porta dos fundos e vocês não se aperceberam. Já está cá dentro e “Not a Second Time” será o que estará destinado à ameaçada nova amiga que terá, mais uma vez de se contentar com um “You”ve Got to Hide Your LoveAway”, como o tinha feito durante décadas e décadas de opressão imposta pela vizinha que quer voltar ao passado.

Socorri-me de títulos de canções dos Beatles para ilustrar a gravidade do que se passa no oriente da Europa, que já foi distante e agora está ali mesmo ao virar da esquina.

E é particularmente grave porque esta guerra não se iniciou agora, com esta crise e escalada de trocas de acusações.

Esta guerra iniciou-se em 1991 com o desmembramento da União Soviética, tendo-se agudizado mais há cerca de oito anos, em 2014 quando os separatistas ucranianos pró russos começaram as reivindicações de auto soberania e quando a Rússia anexou a Crimeia (território ucraniano), com todo o ocidente a assobiar para o lado.

Tal como diz a canção, “She came in through the bathroomwindow”, a Rússia comandada pelo “Fool on the hill” foi entrando pela porta dos fundos e foi tomando conta do que muito bem quis, e agora é só apanhar.

No desenvolvimento desta loucura a que estamos colectivamente submetidos às mãos de um maníaco que ainda não se recompôs do divórcio que foi o fim da união soviética, com as sanções a entrarem por um ouvido e a sair pelo outro, o preço dos bens essenciais estão a subir em flecha um pouco por toda a parte.

O melhor exemplo é o aumento quase exponencial dos combustíveis!

Inevitável, dizem os entendidos!

Pois é, mas numa altura em que é pedido ao mundo um esforço, os donos do petróleo embolsam forte!

E quem são os donos do petróleo? São multimilionários que “escondem” o seu dinheiro em grandes fundos internacionais, e nos quais estão todos os que têm, de facto, muito dinheiro, sejam os bilionários ocidentais ou os oligarcas (tradução russa de multi-bilionários) russos, chineses e de outras origens mais ou menos desconhecidas.

Se vamos todos sofrer com a escassez de matérias primas (convém lembrar que a Ucrânia e a Rússia são dos maiores produtores de trigo do mundo), porque é que os governos não começam por “forçar” uma estabilização dos preços das matérias primas essenciais como o petróleo, para que assim o esforço seja repartido por todos, pobres e ricos?

As sanções das grandes companhias, nomeadamente tecnológicas, serão mais eficazes se se mantiver uma economia funcionante em todos os aspectos, sem que o espectro da inflação paire sobre os nossos ombros, causando uma recessão mundial que é pouco bem vinda depois de uma recessão post-epidémica.

O soviético que quer mandar no mundo (o que já vimos disto nos filmes do James Bond…) diz que as sanções impostas por países, grandes e pequenas companhias industriais, de serviços, tecnológicas ao infractor é uma declaração de guerra!

É mesmo!

Uma declaração de guerra contra a prepotência

Uma declaração de guerra contra a intolerância

uma declaração de guerra a favor da democracia

uma declaração de guerra a favor dos que querem somente levar a vida para a frente

uma declaração de guerra contra a loucura que devasta sem olhar às consequências sofridas por quem é inocente

uma declaração de guerra em favor da Paz!

uma declaração de guerra a uma guerra inexplicada e inexplicável.

E se assim é sentida, temos de nos preparar para o que a loucura à solta pode fazer a quem, como nós, só quer manter alguma sanidade nas nossas vidas.

A Paz merece, nós merecemos a tranquilidade que a loucura não sabe incutir, porque por definição loucura é um alheamento da realidade.

É, para além de construir castelos no ar, querer habitá-los!

O soviético já os constrói há décadas e agora quer forçosamente habitá-los.

À custa de todos nós.

E é por isso que sim, é não uma, mas muitas declarações de guerra:

uma por cada cidadão que não quer outra coisa que não seja Paz!

Mas haverá sempre resistência e quem sinta bem dentro do peito a chama da autodeterminação, e porque o orgulho de se sentir nação é mais forte do que o medo da opressão, deixo os últimos versos de uma canção de José Afonso que pode espelhar o sentir de um povo quanto teima em ser independente:

Desde então a bater

No meu peito em segredo

Sinto uma voz dizer

Teima, teima sem medo

E termino com mais dois títulos de canções de um ex-Beatle, John Lennon:

Imagine, (all we are saying is) Give Peace a Chance!

Pedro Melvill Araújo
Médico

Diário de Notícias
Pedro Melvill Araújo
11 Março 2022 — 11:12



 

156: O burro, o tigre e o leão

– É esse o principal defeito dos burros. Não perceberem o que lhes dizem, mesmo que a verdade entre pela burrice adentro!

OPINIÃO

Li uma vez uma história, julgo que de origem tunisina, que reza mais ou menos o que adiante escrevo:

um burro diz a um tigre que a erva é azul! “Não” retorque o tigre, “é verde”! A troca de ideias fica azeda e resolvem recorrer ao Rei Leão para arbitrar a disputa. Bem antes de chegarem à clareira onde o leão descansava, o burro põe-se a gritar – ” Vossa Majestade, a erva é azul, não é azul, a erva, Majestade?” O leão responde-lhe:

– Sim, a erva é azul!

Diz então o burro: “Majestade, o tigre não está de acordo comigo e isso aborrece-me, que castigo lhe darás?”

– O tigre será punido com cinco anos de silêncio, diz então o leão, Rei da Selva.

O burro regozija e, saltando de contentamento, continua o seu caminho repetindo incansavelmente: ” a erva é azul, a erva é azul…”

O tigre aceita a punição, mas pergunta ao leão: “Vossa Alteza porque me pune? Não é verde a erva, afinal?”

Diz-lhe o leão:

– Efectivamente é verde, a erva. “Porque me punis então?” pergunta o tigre.

Explica o leão:

– Isso não tem nada a ver com a questão de saber se a erva é azul ou verde. A tua punição deve-se ao facto de uma criatura corajosa e inteligente como tu tenha perdido o seu tempo a discutir com um louco fanático que não se ajusta à realidade ou à verdade, mas somente à vitória das suas crenças e ilusões. Nunca percas tempo com argumentos que não fazem sentido nenhum. Há pessoas que, quais que sejam as provas que lhes apresentemos, não têm a capacidade de entender o que lhes é dito. E outras há que, cegas pelo ego, pelo ódio e pelo ressentimento, não desejam senão uma coisa: ter razão, mesmo sem a ter.

Ora, quando a ignorância grita, a inteligência cala-se, remata o leão, Rei da Selva.

Artigo originalmente publicado no Diário de Notícias da Madeira.

Diário de Notícias
Pedro Melvill Araújo
22 Setembro 2021 — 11:31