874: Se há crime, há criminoso

OPINIÃO

As imagens chocantes que chegam de Bucha abrem as notícias, enchem as capas, ocupam os nossos pensamentos. São testemunho das atrocidades cometidas pelas forças russas às ordens de Vladimir Putin. Mais de quarenta dias depois de começar, de forma terrível, a guerra na Ucrânia continua a ser o tema do dia.

É verdade que, na sequência da bárbara invasão de um país vizinho, os europeus reajustaram as suas expectativas relativamente à crueldade do Presidente russo. Ainda assim, mesmo já sem a inocência do “mundo de ontem”, a realidade nas ruas de Bucha ainda consegue surpreender: civis executados na berma da estrada, valas comuns com dezenas de vítimas, sinais de tortura e abusos sexuais. Um cenário de crueldade e barbárie. Teme-se que o mesmo se multiplique por outras cidades sob ocupação.

Porque até a guerra tem regras, estes crimes são o expoente máximo de brutalidade. Violam a mais básica dignidade humana; não podem passar impunes.

António Guterres, Secretário-Geral das Nações Unidas, reivindicou a investigação independente dos acontecimentos. A Comissão Europeia anunciou uma equipa para recolher provas e investigar crimes de guerra e crimes contra a humanidade, em conjunto com as forças ucranianas. No horizonte futuro de Vladimir Putin não deve faltar um julgamento no Tribunal Penal Internacional.

No imediato, face ao sucedido em Bucha, a União Europeia tem a responsabilidade de implementar uma nova ronda de sanções. É fundamental que a Rússia sinta que a UE fala a sério quando diz que as acções têm consequências.

Sabemos que as sanções à Rússia terão também impacto na economia europeia. O embargo imediato à compra de petróleo, carvão e combustível nuclear russos, e também ao gás o mais rapidamente possível, terá custos que temos de assumir. É preciso que estejamos dispostos a pagar o preço da liberdade e que entre nós prevaleça o compromisso com a decência, com os princípios democráticos e humanistas, com a solidariedade.

Entretanto, a Ucrânia tem de continuar a defender-se e a UE pode ter um papel nisso. O passo histórico da UE e de vários estados-membros de fornecer de armas, munições e outros equipamentos militares tem de ser continuado para que os ucranianos possam repelir a invasão. Quanto mais rápido o conseguirem fazer, menor o risco de que os crimes de guerra se repitam.

O nosso apoio à Ucrânia tem de se expressar também em termos financeiros. A guerra levou à paralisação da economia ucraniana e o seu Estado está exaurido. Um pacote de ajuda financeira de dimensão substancial permitiria atenuar a dureza das condições de milhões de ucranianos. Em simultâneo, contribuiria para que, aos milhões de refugiados que fogem da violência da guerra, não se some um êxodo maciço provocado pela penúria.

Nestes tempos dramáticos vividos pelos ucranianos, a nossa solidariedade não se pode ficar por palavras bem-intencionadas. É com acções concretas que podemos fazer a diferença. Será o nosso contributo na luta pela liberdade. Hoje é a dos ucranianos; se nada fizermos, amanhã será a nossa.

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valores

Registo de patentes
O registo de patentes portuguesas no Instituto Europeu de Patentes bateu o recorde em 2021. Mais um sinal da alteração do perfil estrutural da economia portuguesa de uma economia baseada em salários baixos para uma baseada em conhecimento e inovação.

Eurodeputado

Diário de Notícias
Pedro Marques
07 Abril 2022 — 00:03

 



 

353: Sintonia entre Rio e Ventura

OPINIÃO

O debate entre Rui Rio e André Ventura deve ter feito muitos dirigentes, militantes e eleitores do PSD corar de vergonha. A prestação de Rui Rio foi má, mas isso não é o mais significativo. Realmente importante, realmente grave, foi a disponibilidade de Rio para negociar com a extrema-direita um acordo para formar governo.

Pressionado pela moderadora a esclarecer se negociará o governo com o Chega, Rui Rio, que se ia refugiando em evasivas e meias-palavras, não conseguiu mais fugir à clarificação: “A negociação não pode chegar nunca a uma situação em que haja uma coligação, em que haja ministros do Chega.”

Ou seja, tal como nos Açores, Rio não quer integrar o Chega no governo, mas dispõe-se a um acordo de base programática.

Essa negociação, aliás, começou logo ali, em directo e ao vivo, relativamente à reintrodução da prisão perpétua – um retrocesso civilizacional de quase 150 anos -, que Rio admitiu poder aceitar, desde que com condições.

A convergência entre os dois em numerosos temas foi tal que André Ventura, com uma pergunta fatal, assinalou o que se ia tornando óbvio: “Então qual é a nossa diferença?” Rui Rio, de forma confrangedora para o PSD, não foi capaz de responder.

O motivo pelo qual o presidente do PSD não quer integrar o Chega num eventual governo seu é por ser um partido “instável”, que num dia quer uma coisa e no dia seguinte quer outra.

Ser um partido racista, xenófobo e que demoniza os beneficiários de subsídios não é problema para Rui Rio. Não é, portanto, uma questão de valores; é apenas uma questão de humores.

Para Rio tudo é possível, tudo é táctica para atingir o poder. Os princípios e os valores nada representam.

Para quem ache que o Chega é apenas um partido um bocado exagerado, um tanto pitoresco, e que André Ventura diz aquelas coisas mas não pensa realmente assim, é bom lembrar a escolha ideológica que o Chega assumiu ao aderir ao grupo ID, a extrema-direita europeia.

Os parceiros europeus do Chega são partidos como a AfD alemã, a extrema-direita com a qual Angela Merkel proibiu qualquer negociação, que levou mesmo à demissão da sua sucessora por ter permitido um acordo com a AfD no estado federado da Turíngia para tirar a esquerda do poder.

Rio, que tanto usa a Alemanha como exemplo, devia compreender as razões para esse comportamento. Negociar com partidos racistas e que instilam a raiva e o ódio é legitimar valores que não podem ser aceites numa democracia.

É por isso que, quando Rui Rio permitiu um acordo semelhante nos Açores, várias personalidades do PSD, incluindo ex-governantes como Poiares Maduro, José Eduardo Martins, Francisco José Viegas ou João Taborda da Gama subscreveram um abaixo-assinado em que se insurgiram contra a aceitação do extremismo. Jorge Moreira da Silva falou de traição aos valores sociais-democratas, Pacheco Pereira e vários outros deixaram clara a sua forte oposição ao acordo.

Agora que Rui Rio, em plena campanha eleitoral, se aproxima do Chega e admite um acordo de incidência parlamentar, a pergunta que se impõe é a que foi colocada por Hugo Soares, ex-líder parlamentar do PSD: “Como é que se trocam convicções por conveniências de poder?”

14 VALORES
Grupo Impresa

Num momento difícil, em que o ataque de piratas informáticos coloca em causa o trabalho de um dos mais importantes grupos de comunicação social – e, consequentemente, a democracia – o Grupo Impresa e os seus trabalhadores merecem a solidariedade e o apoio de todos nós.

Eurodeputado

Diário de Notícias
Pedro Marques
06 Janeiro 2022 — 00:05

Pedro Marques é um eurodeputado socialista.




 

277: Rio parado

– Ultimamente, os ataques à governança e ao partido que o suporta, têm sido sistemáticos e contundentes pelo jornalixo (jornalistas, colunistas & afins) que infelizmente existem na nossa comunicação social merdosa. Não era minha intenção dedicar, no meu blogue pessoal, qualquer referência a este tipo de informação, mas já está a causar-me completo nojo, asco e repulsa, certos artigos de opinião publicados no Diário de Notícias – um jornal que já foi de referência – por esses jornalixos. Assim e sem qualquer tipo de conotação com a governança – sou ATEU PARTIDÁRIO e RELIGIOSO -, passarei a publicar os textos de opinião que considere defensores destes ataques insidiosos.

OPINIÃO

A vitória de Rui Rio nas eleições internas do PSD, além de sintomática do crescente afastamento entre os dirigentes e as bases, é ainda resultado da recomposição política no espaço da direita.

Ao puxar o partido para a direita, Passos Coelho desfez o equilíbrio inclusivo que antes vigorava entre as várias correntes internas. Após a sua saída, já não foi possível conciliá-las.

O resultado mais evidente foi a criação e crescimento de novos partidos no espaço político da direita. Outro foi a balcanização interna do PSD.

Rui Rio teve, assim, de conviver desde sempre com um partido dividido. Mas não é menos verdade que as suas características pessoais e políticas, em vez de contribuírem para resolver, agravaram o problema.

Com um estilo conflituoso e autoritário, nunca se preocupou em unir o partido. Pelo contrário, rodeando-se apenas dos seus mais fiéis, hostilizou todos os que esboçaram a mais pequena crítica e alienou os melhores quadros.

Errático, foi coleccionando contradições.

A sua principal qualidade junto do eleitorado, a espontaneidade, acabou por evidenciar a falta de um pensamento estruturado sobre quase todos os temas. Diz o que pensa, mas pensa coisas diferentes consoante os dias. Sempre com a mesma certeza definitiva.

Se em 2019 dizia taxativamente “temos professores a mais”, no ano seguinte criticava a falta dramática de professores devido à pouca atractividade da carreira. Se em 2019 propunha um método para a subida do salário mínimo até ao final da legislatura, já este ano opunha-se a subidas administrativas do salário mínimo, acrescentando “já o ando a dizer há muitos anos”.

Celebrou um acordo de governação para os Açores – a maior mancha no seu curriculum como líder do PSD – e admitiu negociar com Ventura a nível nacional, para agora dizer que nem pensar, que não admite essa negociação.

Confundindo posicionamento táctico com ideologia, não hesitou em chocar o partido ao defender que o PSD não é de direita, sabendo bem que essa não é a identidade do partido, dos militantes ou sequer do seu eleitorado. Se Rui Rio realmente acredita que a ideologia do PSD é de centro, será apenas porque ficou fixado mentalmente num tempo que há muito passou (e o seu recurso a Sá Carneiro para justificar essa posição apenas o confirma).

Mesmo o seu próprio posicionamento político só por equívoco pode ser colocado ao centro. A sua doutrina personalista é muito mais democrata-cristã do que social-democrata e, não por acaso, faz parte dos princípios do CDS desde a sua fundação.

O PSD que reelegeu Rio não é, por isso, o do centro político, mas o dos militantes mais conservadores, avessos à modernidade e liberalismo que Rangel prometia.

Os dirigentes que estiveram contra ele sabem que pagarão caro. Rui Rio não perdoa. Ficará com um PSD mais paroquial, mas esse é o partido que lhe é leal e que ele realmente representa.

Mas todos os votos valem o mesmo e Rui Rio é, sem dúvida, o legítimo represente da alternativa a António Costa.

Será entre estes dois protagonistas que os portugueses escolherão para conduzir os destinos do país. Porque, por muitas surpresas que a política nos reserve, uma coisa sabemos: um deles será o nosso próximo Primeiro-Ministro.

17 valores – Eduardo Ferro Rodrigues

Despediu-se da política activa.

Iniciou a sua vida política antes do 25 de Abril, destacando-se como líder estudantil.

Terminou-a como Presidente da Assembleia da República, reeleito com votos da esquerda à direita.

Sempre coerente e defensor intransigente da democracia.

É o maior elogio que lhe podemos fazer: um grande democrata.

Eurodeputado (partido Socialista)

Diário de Notícias
Pedro Marques
02 Dezembro 2021 — 00:45