888: E se Putin invadir Paris?

OPINIÃO

Quarenta e poucos dias após o início de um impensável conflito militar em solo europeu, há uma nova nuvem negra a pairar sobre o Velho Continente.

Tem o seu epicentro em Paris, mas pode ter efeitos devastadores em todas as latitudes NATO, traduzindo-se numa tortuosa vitória de Putin e de Moscovo. As eleições presidenciais francesas deste domingo, que antes da guerra pareciam um passeio no parque para Emmanuel Macron, transformaram-se numa séria ameaça não apenas à estabilidade europeia, mas à própria solidez da Aliança Atlântica, face à perigosa aproximação nas sondagens de Marine Le Pen ao presidente-candidato.

De forma algo surpreendente, a extremista que concorre ao Palácio do Eliseu pela terceira vez – e é uma entusiástica apoiante do regime russo, embora mais moderada agora, por conveniência eleitoral – tem conseguido manter a sua popularidade em alta, apesar da toxicidade provocada por qualquer laivo de simpatia para com o todo-poderoso autocrata. De resto, as sondagens sugerem que, numa mais do que provável segunda volta, e caso o eleitorado da Esquerda fique em casa (o que muitos temem que possa acontecer), Le Pen pode ter sérias hipóteses de triunfar.

Sobretudo porque tem usado a sua retórica populista e inflamada junto dos franceses que estão a sofrer economicamente com a invasão da Ucrânia, deixando para um segundo plano medidas mais radicais como as restrições aos imigrantes e a proibição do uso, pelas mulheres, do véu islâmico em solo francês.

Uma vitória de Le Pen poderia significar uma crise na Europa ainda mais profunda do que a causada pelo Brexit e, no actual contexto de alianças militares, seria um abanão estrondoso na coligação pró-ucraniana que vai de Varsóvia a Washington. Putin pode invadir Paris sem disparar um único míssil. Neste domingo, é o ideal europeu que vai a eleições, não apenas a França.

*Director-adjunto

Jornal de Notícias
Pedro Ivo Carvalho
09.04.2022


Pelas vítimas do genocídio praticado
pela União Soviética na Ucrânia



 

80: Vacinação política

OPINIÃO

A insistência do presidente da República em torno da necessidade de as crianças dos 12 aos 15 anos serem vacinadas de forma universal terá, muito provavelmente, o seguinte desfecho: mais semana menos semana, e à imagem do que está a acontecer na Madeira, os menores – os saudáveis e aqueles com comorbilidades – vão engrossar o contingente de inoculados.

Só assim se pode explicar esta vontade indomável de Marcelo Rebelo de Sousa em querer impor o seu entendimento sobre uma decisão que compete às autoridades de saúde, aos cientistas, aos médicos e aos pais. “Aquilo que é bom na Madeira será também bom nos Açores e no Continente”, afirmou o chefe de Estado. Porém, ao fazê-lo desta forma tão vincada, o presidente apenas está a contribuir para aumentar o volume do ruído mediático que tem pautado um debate complexo que não se cinge a pretos e brancos.

É verdade que há razões atendíveis, e cientificamente suportadas, para defender cada um dos cenários, mas esta mistura desbragada entre o que é a validação técnica e a convicção política é inquietante. Sobretudo aos olhos dos destinatários finais: as crianças e os pais, que, num contexto de tão grande dualidade, vão querer aumentar a pressão exercida sobre os médicos.

A Direcção-Geral da Saúde tem-se limitado a reagir aos acontecimentos políticos, numa prova de que está a acusar a pressão. Na realidade, o pior que podia acontecer num tema tão sensível como o da vacinação de menores era que estes dois mundos se misturassem e se contaminassem, alimentando as teorias da desinformação.

A decisão de vacinar crianças é, em primeiro lugar, médica e só depois política. Querer impor uma orientação quase por decreto, à revelia do que defende a DGS, pode ter um elevado significado político, mas ajuda, a prazo, a desacreditar a confiança num processo quase exemplar e que tantas vidas tem salvo.

Director-adjunto

Jornal de Notícias
pedro ivo carvalho
07 Agosto 2021 às 00:01