909: O gesto é (quase) tudo

OPINIÃO

Ursula von der Leyen, primeiro, e Boris Johnson, depois, entraram no comboio da noite para Kiev e foram ter com Zelensky, o novo “herói” ucraniano, o presidente eleito que ainda não despiu a farda desde 24 de Fevereiro e que tem feito o que pode para chamar a atenção da “Europa”, dos “parceiros ocidentais” e do mundo em geral para o que se passa dentro do seu país.

Se é de aplaudir a presidente da Comissão Europeia e o Primeiro Ministro britânico, não só pela coragem física e política, mas também pelo simbolismo do gesto, pelas palavras que deixaram em solo ucraniano, pelo anúncio, por parte da primeira, do convite à Ucrânia para entrada na união e, pelo segundo, por mais ajuda militar para que, no terreno, possa prosseguir com mais meios o combate dos ucranianos a invasão russa, há uma longa lista de outros “altos dignitários” que não se deram ao mesmo trabalho, ao mesmo arrojo, à mesma decência.

A começar pelo Papa Francisco, que há semanas anunciou que estava a ponderar ir a Kiev. Mas que não foi ainda. Beijar uma bandeira ucraniana vinda de uma cidade mártir não chega. Também é simbólico, mas não chega.

Segue-se o secretário-geral das Nações Unidas que, pelas funções que desempenha, já deveria ter ido a Kiev e, depois, a Moscovo, dar um sinal de que a sociedade das nações está atenta ao que se passa entre dois estados-membros, um que agride e outro que é o agredido. E que poderia e deveria ter-se oferecido para mediar, intermediar ou, pelo menos, tentar amenizar o conflito. Nada.

Tal como o Presidente dos Estados Unidos, que esteve “quase” na Ucrânia, mas ficou-se pela Polónia. Ali, em solo seguro, é fácil elogiar os militares ucranianos. Mas, atravessar a fronteira e ir dizer o mesmo aos que defendem o país há 48 dias, parecendo que não, seria um “gesto” importante. Biden não foi. E o gesto, muitas vezes, é quase tudo.

Nem foi o Chanceler alemão – energia oblige – nem Macron, que preside aos destinos da União, nem vários outros dirigentes de outros países, da Europa e fora dela. Que deveriam, na minha perspectiva, demonstrar, com os dois pés assentes na Ucrânia, a repulsa pela invasão russa, pela guerra, pelas vidas destruídas, pelas cidades arrasadas, pelos corpos espalhados pelo chão, pelas valas comuns, pelos milhões de deslocados e refugiados que estão em movimento, com vidas empacotadas dentro de malas; e, já agora a solidariedade para com um exército bravo, corajoso, resiliente, orgulhoso e “patriótico”, que apenas está a defende o direito à existência do seu povo, da sua nação e das suas fronteiras.

A guerra na Ucrânia — a forma como não se previu nem preveniu, como se permitiu que começasse, e que se continua a permitir que não termine — é um dos maiores embaraços políticos e diplomáticos do pós segunda guerra mundial. Mais uma vez, os interesses económicos, geo-estratégicos e políticos sobrepuseram-se ao sofrimento de um povo, à devastação provocada pelo ataque e à incapacidade das organizações, várias, de agirem em tempo, com determinação, coragem e clareza.

Há momentos únicos na vida, na história dos países e dos povos em que temos de tomar parte. Em que ser neutral, utilizar apenas palavras, esperar pela diplomacia, apelar ao bom sendo, aplicar sanções ou prometer julgamentos futuros não chega.

O gesto, sim, é importante. Mas, em determinados momentos, não chega.

Para os ucranianos, gestos e palavras chegaram tarde demais. E não tomar partido acaba por ser uma forma de cumplicidade, ainda que por omissão.

Jornalista

Diário de Notícias
Pedro Cruz
12 Abril 2022 — 00:03


Pelas vítimas do genocídio praticado
pela União Soviética na Ucrânia


 

860: -Slava Ukraini! -Heroiam Slava!

-Glória à Ucrânia! -Glória aos heróis! É esta a tradução de ucraniano parra português do título deste artigo de opinião do Pedro Cruz, jornalista que esteve vários dias na Ucrânia e que viveu, ao vivo e a cores, os horrores praticados pela invasão soviética do Czar Putin, o novo imperador nacionalista nazi soviético.


OPINIÃO

À medida que os russos vão deixando para trás aldeias, vilas e cidades, o mundo dos senhores de fato e gravata descobre, espantado, as atrocidades que estão a ser cometidas. A guerra, ainda que não pareça, tem regras. E, depois, há o direito internacional e as convenções.

As imagens que estão a chocar o mundo e a provocar “reacções” de grande indignação não só eram expectáveis como, pior, já havia há muito relatos de sobreviventes que contavam aquilo a que tinham assistido. A hipocrisia do “ocidente”, da “comunidade internacional” e das “organizações”, que agora abrem a boca de espanto, revela não só uma cobardia imensa, como, até, alguma cumplicidade com o regime de Moscovo, quanto mais não seja pela inacção.

A diplomacia tem, é certo, os seus tempos. Mas durante quase 40 dias, os ucranianos estiveram verdadeiramente sozinhos numa batalha desigual, com “a Europa” a assistir e a dizer que não podia intervir. “Please, close the sky“. Era apenas isto que os ucranianos pediam à NATO, ao “ocidente”, aos “países amigos”. Nada. Nada de NATO, nada de “aviões” da “Europa” a fechar os céus, nenhuma outra nação soberana quis estar ao lado da Ucrânia. E, nessa medida, os que agora procuram encontrar o adjectivo mais forte para classificar o que não tem classificação são, nessa medida, cúmplices.

No fim do dia, a questão é sempre a mesma. Os mais poderosos, podem. Os mais fracos, sofrem. E, além disso, “é a economia, estúpido”. E, sobre isso, estamos conversados. As relações económicas – prefiro chamar-lhe negócios – com um regime de oligarcas, de um ditador que se perpetua no poder através de “eleições” sucessivas; de alterações constitucionais que lhe permitem que se perpetue; de ameaças constantes; de guerras cirúrgicas aos longo dos últimos 20 anos; tudo isto aconteceu debaixo dos olhos “da Europa”, da NATO, da ONU, da União Europeia e dos demais “países ocidentais” que fizeram de conta que Chechénia, a Ossétia, a anexação da Crimeia, o Donbass, a Transnístria, não estavam a acontecer. Porquê? Porque era uma “coisa lá deles”, não estava às portas da Europa e não consta que os deslocados e refugiados desses lugares remotos tivessem entrado em massa pelas fronteiras da UE adentro.

Há muito que muitos vinham avisando para o que estava a acontecer no Leste. E há muito que a desvalorização dos mais variados actos de guerra, ocupação e anexação praticados durante o consulado do imperador Putin tinham por parte do resto do mundo “ocidental” uma vista grossa. Ou, pior, interesseira. Ou, pior ainda, cobarde e cúmplice.

Os negócios, sempre os negócios, a opacidade do regime, a dificuldade em “entender” os mecanismos do pensamento de Putin, a teoria do politicamente correto entre “nações”, a “não ingerência” em assuntos “internos” de “nações soberanas”, o tal direito internacional. Tudo foi servindo de desculpa, de filtro, de véu. Até 24 de Fevereiro.

E, mesmo assim, a invasão, a guerra, a ocupação, a fuga em massa, o êxodo de cinco por centro da população e a deslocação de outros cinco por cento, nada disto fez soar os alarmes para o que estava a acontecer nas ruas de aldeias, vilas e cidades ucranianas.

Os ucranianos resistem. Resistem com uma resiliência, uma coragem, um empenho, uma solidariedade e decência que deveria fazer corar de vergonha os “altos dignitários” dos povos de outros países. As execuções em massa, as valas comuns, o ataque a hospitais, a maternidades e prédios de habitação, a morte indiscriminada de civis, o abate de pessoas desarmadas e de mãos no ar a pedirem clemência. A questão é, para mim, como é que em 2022 foi possível, ao “resto do mundo”, assistir a isto.

Um dia, talvez, os criminosos de guerra venham a ser condenados e, até, presos.

E o que vai acontecer aos que, com o silêncio, apatia, cobardia, inacção e ganância, permitiram estes crimes?

Jornalista

Diário de Notícias
Pedro Cruz
05 Abril 2022 — 00:03

 



 

Diário de Guerra – Dia 5. “Estamos a lutar pela nossa liberdade. Glória à Ucrânia!”

SOCIEDADE/UCRÂNIA

Enviado Pedro Cruz faz o relato, todos os dias, dos acontecimentos na zona do conflito.

Voluntária a trabalhar nas redes de camuflagem que saem do museu
Foto André Luís Alves / Global Imagens

O edifício do Museu de Artes de Lviv tem uma torre de vigia que se destaca por ser antiga, altiva e medieval. A porta é estreita, mas uma vez atravessada, o que vai lá dentro não é a calma ou o silêncio habitual nos museus. Há um corrupio, um formigueiro, um exército de mulheres ucranianas, de todas as idades, que tecem redes de camuflagem que hão de servir para esconder blindados, tanques e trincheiras na linha da frente.

O processo não é complexo, mas tem várias fases – há quem recolha, seleccione e separe tecidos de várias cores e os coloque em diferentes pilhas; a tarefa seguinte é cortar o tecido em tiras longitudinais, tão longas quanto o tecido o permita; depois, essas tiras compridas dão origem a outras, mais pequenas, de um metro. Por fim, dezenas de pares de mãos, sem parar, sem nunca parar, em movimentos enérgicos, rápidos e repetitivos, vão atando os pedaços de tecido a uma rede previamente colocada ao alto.

Cada rede tem dez ou mais pessoas a laborar, todas ao mesmo tempo. Em poucos minutos, a rede que há de chegar “aos rapazes” na linha da frente fica pronta. E não há tempo para parar. Música popular ucraniana toca nas colunas, para dar ânimo e recordar a todas o que estão ali a fazer. São voluntárias. E sempre que alguém se cansa ou para para fumar ou beber água, outra toma o seu lugar e mantém vivo o trabalho.

Museu convertido em linha de montagem de fabrico de redes de camuflagem com dezenas de mulheres a contribuir voluntariamente.
© André Luís Alves / Global Imagens

“Isto é o que podemos fazer. Queremos ajudar, não vamos ficar em casa a ver as notícias em fazer nada”, resume Anasthasia Uvernikova, especialista em tecnologia que, do alto dos seus 24 anos, coordena mais de 200 voluntárias. “As mulheres que aqui estão têm filhos, maridos, pais, irmãos, namorados, na linha da frente do combate. Nós ajudamos desta forma.” Minutos depois, a música baixa e uma jovem eleva a voz diante de todos.

“- Parabéns a todos, acabámos de bater um recorde. Até agora já conseguimos fazer 24 redes de camuflados. Estão prontas e já seguiram para os rapazes.”

A sala para por alguns segundos e todos se aplaudem mutuamente, como se cada um retribuísse a si próprio, e aos outros, o trabalho que tinham acabado de fazer. Entusiasmada, Anasthasia grita:

“- Glória à Ucrânia!”

Os voluntários juntam-se à interpelação. Em coro, “glória à Ucrânia”. E ela prossegue:
“- O Putin que se foda!”

E o coro torna a concordar, sobem o tom, gritam várias vezes em conjunto: “O Putin que se foda!”

A música volta a tocar e todas regressam ao trabalho. Fora da porta, a fila para entregar tecidos continua a crescer.

A dez quilómetros do centro de Lviv, Olena Znak, fotógrafa de viagens, está sentada no chão da sala. Sozinha. Deixou, por estes dias, o apartamento na cidade e regressou para juntos dos pais. Também ela tem sacos de tecido para cortar, primeiro em tiras grandes e depois em pedaços de um metro. Quando enviar a encomenda, quem está a montar a rede de camuflado só precisa de atar o pano à rede. “Temos de ajudar os rapazes.”

Museu convertido em linha de montagem de fabrico de redes de camuflagem com dezenas de mulheres a contribuir voluntariamente
© André Luís Alves / Global Imagens

Uma rede de voluntários disposta a tudo

Saindo do museu, é só virar à esquerda, a rua sobe um pouco, depois corta-se à direita, sempre a subir. Há um portão, aberto, que dá para um pátio não muito grande de terra batida. Outro exército. Aqui, há só homens com mais de 60 e jovens com menos de 18, que dominam os fornos numa divisão minúscula – a cozinha foi pensada para servir uma casa e não uma frente de batalha.

Cozinha comunitária onde são cozinhas refeições e mantimentos para as tropas ucranianas na frente de batalha. Baldes de vareniki, comida típica ucraniana.
© André Luís Alves / Global Imagens

No pátio, divididas em grupos, mulheres de várias idades e estratos sociais, tratam dos legumes. “Agora estou a cortar cebolas e a lutar pela nossa liberdade”, diz Yulia Kardash, 44 anos, professora. Toda a gente sabe que não há exército que funcione de barriga vazia: “Temos de tratar bem dos nossos rapazes, queremos que estejam saudáveis, temos que tomar conta deles e estamos gratas pela forma como estão a tomar conta de nós”.

A mulher que coordena todo o trabalho destas voluntárias fala alto, depressa e em várias direcções. As instruções são claras e precisas. Tem voz de comando. E um objectivo: “A comida tem de chegar depressa para não se estragar.” Só quando vê as panelas a entrar em carrinhas que mal cabem no portão que dá acesso ao pátio de terra batida, é que Ludmyla Kuvaisova, fundadora da “cozinha voluntária”, consegue descansar.

Cozinha comunitária onde são cozinhas refeições e mantimentos para as tropas ucranianas na frente de batalha
© André Luís Alves / Global Imagens

De volta dos alhos está a jornalista Regina Lizogub. Revela-se a mais emocional: “Temos de ajudar os nossos rapazes.” Quanto a ela, garante, está “disposta a tudo”. “Se for preciso pegar numa arma e ir combater, estou pronta. Quero defender o meu país, a nossa liberdade e independência”.

Ah! E “o Putin que se foda”.

Enviado à Ucrânia

Diário de Notícias
Pedro Cruz e André Luís Alves (Fotografia), em Lviv
02 Março 2022 — 00:42



 

“Aguardamos ordens de Moscovo”

OPINIÃO

Tal como no tempo da Guerra Fria, o mundo aguarda ordens de Moscovo.

As ordens que Putin der serão decisivas para a resposta do chamado ocidente. Neste 23 de Fevereiro, dia das Forças Armadas russas, uma tradição herdada da antiga União Soviética, Putin voltou a mostrar a força do regime. E anunciou que o Exército outrora vermelho está renovado, equipado e pronto. Em Kiev, o antigo actor que fez de Presidente na ficção e que agora é mesmo Presidente mobilizou os reservistas – a Ucrânia que fala ucraniano está pronta para resistir. Mais cedo ou mais tarde vai acabar por perceber que ficou sozinha, isolada, entalada geograficamente entre os países da antiga cortina de ferro e a Rússia. Má sorte ter uma nação que faz fronteira com o sonho imperialista de Putin.

A NATO, os Estados Unidos, a União Europeia, todos solidários e dispostos a negociar, todos juntos a condenar (mais uma) anexação russa, a impor sanções e a apelar ao direito internacional, nenhum deles vai por um pé na Ucrânia.

Quando for a sério, os ucranianos vão estar sozinhos, com os seus soldados, reservistas e população. O ocidente não está disposto a sacrificar vidas, a colocar militares no terreno, a responder perante as opiniões públicas porque é que entrou em mais um conflito internacional. Que, depois, abandona.

Bem podem os outros países e organizações entregar armas à Ucrânia, disparar a partir de drones ou de aviões, fazer bluff com as tropas da NATO e as bases militares americanas “na região”. Tal como aconteceu com a Geórgia, a Ossétia e a Crimeia, a Rússia, mesmo com sanções e tensão, ameaças e condenações, está a desenvolver o sonho de retomar o imperialismo da URSS, da qual Putin é um produto de excelência.

E ele precisava disto para voltar a entrar no jogo internacional – a “guerra fria” depois dos anos 1990 passou a ser entre os Estados Unidos e a China. A Rússia ficou apenas como potência regional. Entretanto, passaram 30 anos e o antigo agente do KGB ganhou tempo, espaço e dinheiro. Putin não tem pressa, porque se perpetuará no poder enquanto quiser. E quer deixar um legado imperial.

No tempo da URSS, os partidos comunistas de toda a Europa, quando se perguntava algo sobre política internacional, davam sempre a mesma resposta: “Aguardamos ordens de Moscovo.”

Hoje, a história repete-se – o mundo espera para ver o que Putin vai querer fazer a seguir. E, como sempre, reage em vez de agir, riposta em vez de prevenir, dialoga em vez de exigir.

Entretanto, na Ucrânia, há 40 milhões de cidadãos entalados entre dois mundos.

Como dizem os polacos, má sorte ter calhado neste lugar. “Trocava a minha gloriosa história por uma melhor geografia”, diz um ditado polaco. É mesmo isso.

Sub-director da TSF

Diário de Notícias
Pedro Cruz
23 Fevereiro 2022 — 23:22



 

“Pai, ‘sou’ ministro!”

OPINIÃO

A frase, atribuída a Dias Loureiro, quando aceitou fazer parte do governo de Cavaco Silva, ficou nos anais da história da política em Portugal. Gozada e glosada, vezes sem conta, como se telefonar ao progenitor a dizer que se “é” ministro fosse crime ou cadastro. Dias Loureiro apenas se enganou no verbo. Os ministros não “são” ministros, “estão” ministros, enquanto quiserem ou enquanto o primeiro deles o quiser.

Há, até, uma história que se conta, que relata a prática de determinado primeiro-ministro. Quando acertava os detalhes com os futuros ministros, pedia-lhes, como condição, que assinassem a sua própria carta de demissão, que guardaria e utilizaria quando e se entendesse. A carta estaria em branco e as razões da demissão seriam colocadas depois, conforme a ocasião, o pretexto ou a necessidade do chefe do governo. Quando passavam a estar ministros, os ministros já tinham concordado em deixar de estar, quando e se fosse essa a vontade do líder.

António Costa, preso em casa, infectado com covid, teve, decerto, muito tempo para pensar no futuro governo de maioria absoluta. É de acreditar que na semana que agora acaba, o actual e futuro primeiro-ministro tenha desenhado na sua cabeça o próximo executivo. Já tinha dado algumas indicações durante a campanha e nos debates, mas com a maioria absoluta os planos podem ter de ser alterados.

Costa, recordemos, encomendou um estudo sobre outros governos na Europa, e concluiu, há muito, que um governo em Portugal só deveria ter entre 13 e 15 ministérios. O actual governo tem 19 ministros e 50 secretários de Estado, um recorde absoluto em Portugal. Também prometeu que seria um executivo tipo task force, ou seja, mais ágil, mais próximo, mais resoluto. E, há outra novidade, muitas áreas da governação seriam “transversais”, pelo que os ministros se transformariam em “super-ministros”.

Costa, depois de seis anos com governos de minoria e com entendimentos à esquerda, está finalmente livre de amarras e de chantagens, de imposições e negociações. Pode fazer o que entender, como entender, da forma que acha melhor para o país. A maioria absoluta que lhe foi dada pelos portugueses individualmente considerados na cabina de voto, é um sinal de confiança. E de delegação.

O que o país disse a Costa, basicamente, é que tem de provar quanto vale, agora que não tem desculpas. Não tem a desculpa da troika, não tem a desculpa de ter de negociar orçamentos, não tem a desculpa da instabilidade ou da eventual crise política, não tem a desculpa da oposição ou das “coligações negativas”. Tem liberdade total, ancorada no sufrágio popular e numa eleição que o reforça, que o torna absolutamente maioritário.

Por isso, a cada telefonema que fizer, por estes dias, Costa deve pensar duas vezes. Se é mesmo este o ministro ou a ministra que realmente quer; se, no plano que terá para o país, está a convidar a pessoa certa; se vai escolher os melhores, os mais capazes ou os mais competentes; ou se vai acabar por ceder ao partido, ao aparelho, aos amigos e aos do costume; se fará um governo novo ou se será apenas um novo governo, recauchutado, preenchido com os mesmos de sempre; e, mais uma vez, não tem desculpa – o horizonte de quatro anos de governação dá-lhe mais liberdade de escolha.

Entrevistado há dias pela TSF e pelo DN, o politólogo Pedro Silveira, investigador, que estuda os fenómenos da formação de governos, dizia que “há muito mais recusas do que o que se pensa para os cargos de ministro”. Em Portugal, de há umas décadas para cá, “estar” ministro ou deputado deixou de ser currículo e passou a ser cadastro. A nobre arte da política não é “apetecível”, não é atractiva e não deixa eufóricos os que são “convocados” e aceitam o cargo. Tornou-se uma profissão e não uma missão, um encargo e não um serviço, uma maldição e não um privilégio. É por isso, fundamental, que o próximo governo seja um bom governo.

Se, por estes dias, por acaso lhe acontecer atender o telefone e, do outro lado, estiver António Costa para o convidar para ministro ou secretário de Estado, sinta-se especial. Com este contexto, o primeiro-ministro pode convidar quem quiser. E, se aceitar, pode sempre ligar para o pai ou a mãe, e dizer, com satisfação:

– Pai, estou ministro!

Jornalista

Diário de Notícias
Pedro Cruz
08 Fevereiro 2022 — 00:04


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411: Chamem os bombeiros (e os outros todos)

OPINIÃO

Os bombeiros profissionais deram o primeiro passo e, não sendo voluntários, voluntariaram-se, caso o Estado precise deles, para recolher os votos casa a casa, onde houver gente isolada ou sem possibilidades de sair. Não consta, até ao momento, que tenham obtido qualquer resposta por parte de um Ministério que desapareceu, depois de um ministro que abandonou o cargo demasiado tarde e, por isso, demasiado perto das eleições que, pasme-se, são organizadas por um ministério sem ministro. E sem ministra, que a perninha de Van Dunem na Administração Interna é apenas mais um remendo num ministério que não teve emenda nos últimos seis anos.

A seis dias do voto em mobilidade e a menos de duas semanas da eleição de dia 30, a multiplicação das mesas de voto, que deveria estar decidida há muito, planeada há muito, com escrutinadores e membros das mesas de voto escolhidos, por excesso, há muito, leva a que ainda se discuta, nesta altura, se vamos ter “gente” – leia-se, cidadãos – suficiente para acautelar a totalidade da cobertura do país.

Além, claro, dos votos que terão de ser recolhidos em casa, na prisão, no hospital e noutras circunstâncias a que a pandemia nos obriga e a que, como sempre, não demos importância até… agora. Como se não houvesse pandemia, e dentro dela a Ómicron, a variante mais contagiosa, embora menos perigosa.

Há semanas que os especialistas fizeram contas e estimaram que, à data das eleições, poderia haver entre 600 mil e um milhão de portugueses isolados. As melhores perspectivas, já actualizadas, falam em pelo menos 300 mil. Números que não preocuparam o governo – e, dentro dele, o MAI – e nem os deputados da nação, que poderiam ter alterado a lei eleitoral antes da dissolução e não o fizeram. E não parece preocupar o Presidente da República, que sabe bem dos dados da evolução da pandemia e que não fez, desta vez, suficiente pressão para acautelar a eleição em tempo de grande contágio.

Dizem, em defesa destas eleições, que já houve mais três em pandemia e que “correu tudo bem”. Talvez, por isso mesmo, estas deveriam ter sido mais bem preparadas. Porque nenhuma das anteriores aconteceu no meio de um contágio galopante, com números de infectados (e de contactos directos, já agora) tão alto e exponencial.

Por isso, senhora MAI, sugiro que faça uma requisição civil dos funcionários públicos: do fisco, da segurança social, das direcções regionais várias e de variados ministérios, professores e juízes, magistrados do Ministério Público e funcionários judiciais, forças de segurança, forças armadas e demais servidores públicos, sejam municipais, regionais ou locais; que sejam eles, os que garantem o regular funcionamento do Estado, a dar o primeiro passo e a serem escalados para as mesas de voto. Seria, apenas, mais um dia de serviço aos seus concidadãos, numa nobre missão, que devem ter sempre, de zelar pelo todo, pelo Estado e pela res publica.

Seria, além da resolução de um problema que foi, mais uma vez, passado para as câmaras municipais, a quem compete a “operacionalização” do ato eleitoral, uma prova de que o Estado e os seus servidores também podem, devem e fica-lhes bem dar o corpo ao manifesto quando esse Estado, que somos todos, precisa de ajuda, de braços, de pessoas; e, claro, de “pessoas de bem”, ou não se trate de funcionários do Estado, com idoneidade, probidade e brio.

As palavras devem corresponder aos actos. Se o tempo é de crise, necessidade, urgência e tocar a reunir, então, por uma vez, que seja o Estado e os seus a darem o exemplo aos outros. A todos. Os bombeiros já o fizeram. E muito bem.

Jornalista

Diário de Notícias
Pedro Cruz
18 Janeiro 2022 — 00:03




 

259: Quem quer o bloco central?

OPINIÃO

Há mais de 20 – talvez 30 – anos, que não se ouvia falar tanto da expressão Bloco Central. Até a retórica do PCP – que amiúde recorria à imagem do “bloco central de interesses” quando queria, como quase sempre faz, colocar no mesmo saco PS e PSD – deixou, há muito, de utilizar a metáfora.

Nas últimas semanas, chumbado um orçamento desengonçado, estilhaçada a geringonça informal, que implodiu sozinha sem precisar de ajuda “da direita”, aberta uma crise política e marcadas eleições, os palavrões da retórica voltaram todos. A “governabilidade”, a “estabilidade”, o “interesse nacional”, a necessidade de “entendimentos” para acautelar “o crescimento”. No fundo, a formação de “maiorias”, sejam elas “reforçadas”, “claras” ou “absolutas”. Ou, como disse uma vez António Vitorino, num comício de final de campanha, “uma maioria absolutamente inequívoca”.

Entretanto, os políticos andam entretidos com jogos de palavras, numa disputa entre esquerda/direita, “certo/errado”, público/privado ou na discussão de quem é o maior responsável pela crise política. Ainda dura o passa-culpas do PS a dizer que é do Bloco e do PCP, do PCP a dizer que é do governo e do PS, do Bloco a dizer que é do PCP, do governo e do PS. Em simultâneo, PCP e Bloco já anunciaram disponibilidade para uma nova geringonça, reabertura do diálogo, novos caminhos para a esquerda. A sentença de Catarina é que “a direita não pode ganhar”.

No centro, ou centrão, ou bloco central, discute-se se é possível PS e PSD suportarem governos minoritários um do outro, respeitando, lá está, a vontade dos eleitores.

Rio diz que sim, que suporta um governo minoritário do PS e pergunta se o PS fará o mesmo. Não tem resposta. Rangel deixa claro que não, que não suportará o PS. Costa manda recados por Carlos César e por José Luís Carneiro. E voltamos aos malabarismos feitos com as palavras que servem para tudo e para nada. Mas, nesta fase, são apenas instrumento para enganar tolos e nada dizer. O PS diz que “não rejeita outros entendimentos”, que está em causa a “governabilidade”, a “estabilidade”, “o interesse nacional”.

Onde já ouvimos isto? E quantas vezes?

Mas quanto a clarificação, dizer ao certo o que podem esperar os eleitores, o que farão os partidos se… bem, as respostas também são antigas e sempre as mesmas. Dizem logo que não respondem a cenários, não antecipam resultados, não sabem com o que contar no dia 31 de Janeiro. Bem faz, afinal, Catarina, que já sabe que “a direita não pode ganhar”.

Com dez partidos representados no parlamento, que traduzem fielmente as escolhas feitas em eleições – democráticas, convém recordar -, a pulverização de votos revela uma nova realidade a que o chamado “sistema político” português não estava habituado. Nos primeiros quase 30 anos de democracia a representação dividiu-se por quatro, nos últimos 20, por cinco.

Então, e o bloco central?

Se a solução não foi famosa nem muito apreciada em meados nos anos 1980, e dela nunca mais se voltou a falar, o que leva, agora, ao regresso da narrativa de que só com “entendimentos” entre PS e PSD é possível governar o país?

Para a direita, a razão é simples. Quer PCP e Bloco fora da solução, depois de seis anos de compromisso que acabou numa crise política a meio de uma crise sanitária e económica.

Para o PS, a possibilidade de a “direita” ter de contar com o Chega, seja em que modelo for, faz soar – e bem – as campainhas.

Talvez os eleitores, na sua imensa sabedoria, se tenham encarregado de mandar, através do voto, que é, em democracia, a arma dos povos, o recado de que se calhar vale a pena pensar, de facto, num bloco central. Seja ele mais ou menos formal, de suporte parlamentar ou com um governo a meias. Ou com outras fórmulas mais ou menos criativas, como a que o antigo líder do PSD Marcelo Rebelo de Sousa usou, e já recordou, quando era líder do PSD e Guterres minoritário.

Depois do “a bem da nação”, da ditadura, do “governo de salvação nacional”, do PREC, podemos entrar em 2022, no tempo do “interesse nacional”. Seja lá isso o que for. Porque o conceito é amplo, cabe lá tudo e o seu contrário e pode – e tem sido – ser usado como dá mais jeito ao “interesse” de cada um em cada momento. Ou seja, tem sido mais “interesse” do que “nacional”.

Jornalista

Diário de Notícias
Pedro Cruz
16 Novembro 2021 — 00:07

 

247: 1968 horas

OPINIÃO

Faltam 82 dias para as eleições legislativas. Para o PSD, um pouco menos, porque até meados do próximo mês o partido estará a discutir qual dos seus dois candidatos a primeiro-ministro vai disputar a eleição com o actual primeiro-ministro.

Mas, contando com os 82 dias – menos de três meses, com duas semanas de tréguas algures entre o Natal e o Ano Novo, em que o país se torna “fofinho” – não há muito tempo para o que se convencionou chamar “campanha eleitoral”, que, aliás, já começou no dia do chumbo do Orçamento.

Era fundamental que os partidos – todos – reflectissem na forma como tencionam fazer esta campanha eleitoral em concreto.

Em causa estão três factores que não devem ser descurados, sob pena de o resultado de Janeiro não “agradar” a ninguém.

Primeiro, no tipo de campanhas. As voltinhas ao país, começando de sul para norte, do interior para o litoral, dos jantares para encher o olho às televisões, das arruadas com ruído e cumprimentos repetidos a quem está na sua vida, os almoços-comício em restaurantes pequenos e acanhados, só para cumprir a paragem no concelho para o presidente de câmara exibir o candidato, essa campanha pertence ao passado. Basicamente, os partidos seguem o mesmo modelo do final dos anos 1970, sem perceberem que a sociedade portuguesa se tornou mais exigente, menos passiva, mais escolarizada e menos receptiva a um ritual que está desfasado no tempo e no modo.

Em segundo, e por consequência do primeiro, é preciso apostar forte em reduzir a abstenção, trazer mais eleitores para as urnas, evitar que seja uma minoria a decidir por uma maioria, mais do que silenciosa, indiferente. Os que dizem que não ligam à política, que não percebem nada de política ou não querem saber porque “eles são todos iguais” são hoje uma maioria pesada, distante dos políticos, arredada das decisões e pouco disposta a mudar. Essa mudança, claro, depende da consciência cívica de cada um, mas também das propostas, promessas e intenções dos candidatos.

Falar claro aos eleitores, discutir em vez de proclamar, debater em vez de debitar, estar próximo em vez de, apenas, sorrir, acenar e dar beijinhos em crianças que nem sabem onde estão pode ser um bom começo.

Abrir espaço nas campanhas para o debate cara a cara com os eleitores e não apenas com os correligionários, responder a dúvidas e não apenas discursar, explicar as dificuldades e como se podem contornar em vez de repetir promessas que não se vão concretizar pode ser uma forma de atrair eleitores e levá-los a votar. Não será num jantar com milhares de companheiros ou camaradas de partido. Esses votos já estão garantidos. Falta ir buscar os outros.

Por fim.

Como chegar aos jovens, que não votam nem se interessam? Como fazê-los participar, sentir-se parte, sem ser apenas para agitar bandeiras, bater palmas ou serem moldura nas arruadas? Como explicar que o futuro deles depende do que formos capazes de decidir hoje? Que as eleições são para eleger representantes e não donos do país?

Combinando todos os factores, há muito mais em causa nas eleições de 30 de Janeiro do que escolher “apenas” deputados e um primeiro-ministro.

A democracia e a sua qualidade, o futuro e a sua discussão, o país e o que vamos fazer com ele, a governabilidade ou a falta dela, está tudo em discussão.

Iremos, desta vez, a tempo de, pelo menos, tentar fazer diferente?

Faltam 82 dias.

Jornalista

Diário de Notícias
Pedro Cruz
09 Novembro 2021 — 00:37

 

218: Agora não dava muito jeito…

OPINIÃO

Desde 1985 até hoje – antes disso vivemos quase dez anos em PREC – os sucessivos governos, fossem minoritários, maioritários, de coligação ou de entendimentos parlamentares, sempre garantiram a aprovação de orçamentos. Fosse com abstenções tácticas, como Marcelo líder do PSD fez nos tempos de Guterres, fosse com o queijo limiano, com a ajuda de deputados eleitos pela Madeira ou, simplesmente, com a formação de maiorias de ocasião, negociadas caso a caso.

Costa criou a geringonça, e será a geringonça, ao desfazer-se em três pedaços, que vai criar condições para um eventual e quase certo chumbo do Orçamento amanhã. Mas, se uma “crise política” não assusta, a ideia de um bloqueio e de um impasse depois de novas eleições tem um pouco mais que se lhe diga.

Desavindas as esquerdas que nos últimos cinco anos viabilizaram orçamentos, não tendo a direita, aparentemente, capacidade eleitoral para formar uma maioria, as eleições, e a devolução aos eleitores do poder de decidir, deixa campo aberto para um impasse que nunca aconteceu depois de 1985.

Podemos estar a caminhar para uma “italianização” da política. Ou, pior, uma “belgicanização”. Governos frágeis incapazes de gerar maiorias ou consensos, acordos “inusitados” entre partidos de ideologia oposta, construção de governos que tentam agradar a todos e que acabam por não funcionar ou, pior, que governam mas não conseguem ter um rumo, uma estratégia ou um plano para o país. Ou governos “provisórios” que se arrastam durante meses, ou anos, à espera dos tais acordos firmes ou de maiorias eleitorais que permitam, de facto, governar e não apenas gerir.

Por estes dias, são muitos os que têm dito que nesta altura “não dá muito jeito” que haja eleições. Antes de todos, o Presidente da República, que já antecipava este cenário, mas só daqui a um ano. A precipitação e – a existir – a queda da governo baralha as contas de Marcelo e adianta um ano um calendário que estava anunciado paga o final de 2022.

Se houver eleições, quando houver eleições, com a direita a discutir as lideranças internas e a esquerda a atribuir culpas mútuas pelo chumbo do Orçamento, os eleitores terão de escolher que futuro estão a pedir para o país. Se preferem uma “ditadura da maioria”, como Soares chamou às vitórias de Cavaco Silva, se uma pulverização de votos que torna difícil uma governação com objectivos, programa e mandato.

As maiorias de Cavaco e a de Sócrates deixaram claro que – concorde-se ou não – os dois puderam executar a visão que tinham para o país, sem desvios nem negociações. Puseram em prática a agenda que foi sufragada pelos eleitores. Conseguiram, um e outro, com as devidas diferenças de tempo, fazer reformas estruturais e implementar medidas que achavam certas.

Mas não digam é que agora não dá jeito nenhum ir a votos. Quem pensa assim são uns presidentes de países com “democracias musculadas” que vão adiando eleições porque há sempre uma desculpa, uma contrariedade ou é preciso esperar mais um pouco porque falta sempre qualquer coisa.

Jornalista

Diário de Notícias
Pedro Cruz
26 Outubro 2021 — 00:52

 

202: Quem tem medo de eleições?

OPINIÃO

As constantes, sistemáticas e dramáticas referências a uma eventual crise política e, consequentemente, à convocação de eleições, sempre que a discussão do Orçamento do Estado chega a um impasse – ou, pelo menos, há uma encenação de impasse, que se destina apenas a esticar ao máximo a corda, de forma a que quem tem menos votos possa condicionar o mais possível quem tem mais votos, maior representatividade e responsabilidade – em nome de uma “estabilidade” obviamente desejável, mas não necessariamente útil, encerram em si um anátema sobre a sociedade, os cidadãos e os eleitores.

Se há crise política, se há falta de entendimento, se não há maioria parlamentar que suporte um governo, mandam as regras do regime que se vá para eleições.

E essa escolha, ou inevitabilidade, ou “último recurso” não deve ser encarado como uma tragédia, um desastre nacional ou um trauma. As eleições são o momento em que que se devolve aos cidadãos o poder de escolha, de decisão, de opção por diferentes caminhos, alternativas e programas. É a altura em que a sociedade é chamada a pronunciar-se sobre quem deve governar e quem fica a fazer oposição. Nada mais claro, mais transparente, mais democrático, mais republicano e mais livre.

“Ameaçar” com a convocação de eleições antecipadas faz parecer que votar é mau, que clarificar escolhas é errado, que reforçar – ou corrigir – os destinos da nação é um castigo ao eleitorado. Não é.

Por isso, quem tem medo de eleições? Recordo que, há dois anos, analistas, comentadores e estudiosos do fenómeno político previram, sem excepção, que o actual governo só governaria até este Orçamento. Pelo meio, ano e meio de pandemia suspendeu, por razões óbvias, a política. E a oposição. Agora, com as autárquicas e o regresso da política, o tema volta para cima da mesa, à boleia da discussão do OE e das disputas de liderança nos partidos à direita.

A estabilidade não pode, nem deve, ser conseguida a qualquer preço. Muitas vezes, a factura a pagar por uma estabilidade artificial é bem maior do que o “custo” imediato de uma ruptura ou de “seis meses” de incerteza, entre convocar eleições e haver um novo – ou renovado – governo.

Se devemos ter governos de seis em seis meses, como no PREC, ou eleições de ano a ano? Não. Isso seria instabilidade permanente. Mas se devemos ter eleições quando existe uma paz podre ou quando se percebe que o governo está débil e a sociedade com vontade de mudança? Acho que sim.

Sampaio dissolveu uma assembleia que sustentava um governo, porque entendeu que os sinais que chegavam da sociedade eram suficientes para exigir uma clarificação. Cavaco aceitou a demissão de um primeiro ministro que viu chumbado o famoso PEC4, que não era um Orçamento do Estado mas (mais um) instrumento de austeridade, numa altura em que caminhávamos alegremente para a bancarrota.

Pior do que não ter Orçamento e, portanto, haver eleições, é ter um Orçamento refém de minorias, onde a relação de quem exige e de quem cede é inversamente proporcional aos votos – isso, aos votos – que os editores realmente confiaram a cada uma dessas forças políticas.

Em democracia, não há que temer o voto do “povo”.

Jornalista

Diário de Notícias
Pedro Cruz
19 Outubro 2021 — 00:03