1293: O que estará Deus a pensar?

Deus não pensa! É por isso e por outras coisas que eu sou ateu… O mundo está a entrar em colapso. Desequilibrado socialmente, recursos a esgotarem-se, alterações climáticas aterradoras, um autêntico caos.

OPINIÃO

O mundo está a ficar muito perigoso. Estão de volta os nacionalismos, muitos deles a reclamar o regresso de fronteiras que tínhamos esquecido, e está de volta a intolerância religiosa, alimentada por uma ignorância que é pasto para os fanáticos nas redes sociais e na vida real.

A liberdade de decidir sobre a própria vida e o próprio corpo, até nos aspectos em que essas decisões em nada implicam com a vida dos outros, está a ser posta em causa pelos que não são capazes sequer de distinguir um direito de uma obrigação.

Talvez fosse bom começar por aí. O direito de duas pessoas do mesmo sexo casarem não obriga todos os homossexuais a casar. Nem sequer obriga ninguém a ir ao casamento, caso seja convidado. O direito à eutanásia não obriga todas as pessoas a optarem pelo suicídio medicamente assistido quando adoecem gravemente na velhice.

O direito das pessoas transgénero assumirem uma identidade de género diferente do sexo com que nasceram não as obriga a mudar de sexo. O direito de todas as mulheres, em determinadas circunstâncias, interromperem voluntariamente a gravidez, não as obriga a abortar em nenhuma circunstância.

Os que não são capazes de distinguir as coisas mais básicas, julgam-se capazes de decidir em nome de todos e fazem-no, tantas vezes, em nome de Deus. Estando certos de que Ele existe, arrogam-se o direito de garantir que Ele quer o que eles querem, mesmo quando o que eles querem faz dele um Deus violento, desumano e, portanto, desaconselhável.

Vejamos um exemplo flagrante de desconexão entre as criaturas e o criador. O direito a interromper a gravidez quando ela acontece fruto de uma violação não obriga todas as mulheres violadas a abortar. Mesmo nesta circunstância hedionda, as mulheres têm o direito de levar a gravidez até ao fim se esse for o seu desejo.

Querer obrigar alguém a prolongar a gravidez nestas circunstâncias, como tentou fazer uma juíza no Brasil com uma criança de 11 anos ou querem fazer dirigentes políticos em vários Estados na América, é inaceitável. O que estará Deus a pensar destes crentes, nesta altura? Ninguém tem a resposta, mas eu arrisco dizer que não foi para esta gente que Ele desenhou o paraíso.

É provável que Deus esteja descrente nos seus crentes, divididos pelos profetas em que acreditam, criando a partir daí diferentes religiões monoteístas, onde ao longo dos séculos os homens se tornaram mais importantes que o Deus em que acreditam e, por isso, se subordinam a diferentes chefias. Foi pelos homens e nunca por Deus que os cristãos se dividiram em protestantes, ortodoxos e católicos, ou os muçulmanos distinguem entre xiitas e sunitas.

E é em nome de religiões lideradas toda a vida por homens e que sempre trataram mal as mulheres, e que as remeteram para papéis secundários e submissos, que insistem em querer decidir o que elas podem ou não podem fazer com o seu corpo. O que estará Deus a pensar desta gente?

Jornalista

Diário de Notícias
Paulo Baldaia
27 Junho 2022 — 00:05


 

900: A democracia está a falhar

– O problema dos que votam em fascistas/nazis, emprenham facilmente de ouvido. Dão entrada ao conto do vigário e depois admiram-se…

OPINIÃO

Quando o povo, mesmo que através do voto, dá poder aos antidemocratas, o politicamente correto diz-nos que isso é a democracia a funcionar, mas precisamos de tomar consciência que isso significa exactamente o contrário: a democracia não está a funcionar.

A possibilidade da extrema-direita ganhar as eleições em França, já depois de as ter ganho na Polónia, na Hungria e, antes disso, nos Estados Unidos e no Brasil é um falhanço das democracias liberais. Economias que, ao enriquecerem, produzem sociedades mais desiguais estão, ao mesmo tempo, a produzir exércitos para quem quer vencer pelo medo, pela intolerância, pelo autoritarismo. Mas não se queixem do povo, resolvam-lhe os problemas.

Os partidos racistas e xenófobos como o Chega não crescem apenas com eleitores racistas e xenófobos, crescem também com eleitores que se cansaram de serem espezinhados pelas democracias liberais, eleitores que a única herança que conhecem é a herança da pobreza. São netos de pobres, filhos de pobres e pais de pobres.

E os pobres não estão sozinhos, muitos eleitores da classe média também se sentem descamisados, ao perceberem que num dia lhes abrem a porta do sucesso para no outro dia lhes anunciarem mais uma crise com a falência de milhares de famílias, incapazes de pagar o carro e a casa que julgaram ser seus. Mas sim, também é verdade que existe muito racismo em Portugal.

Lamento dizê-lo, perco muito tempo a discutir com pessoas que dizem sobre os ciganos coisas muito parecidas com as que diz André Ventura. Uns votam Chega, mas outros não. Muitos até votam à esquerda.

Há por aí muito pseudo-democrata que adora as “culpas colectivas”, a começar pela que atribuem aos pobres, “culpados” de serem pobres. Pode demorar mais ou menos tempo a ser assumido mas, para quem não tem nada, uma democracia sem justiça social não é o paraíso na terra. Se nunca tiverem experimentado uma ditadura ou uma autocracia, facilmente são tentados a pensar que o poder num só homem tem mais justiça que uma democracia onde tantos se deixam corromper.

Agora, no momento em que iniciamos as celebrações dos 50 anos do 25 de Abril, convém pôr a mão na consciência. A última crise, na sequência da pandemia, voltou a mostrar que a Democracia está doente. Enquanto cresceu o número de milionários no nosso país, cresceu também o número de pobres.

O 1% dos mais ricos tem 20% da riqueza e compara com os 50% da população menos afortunada que tem apenas 6,5% dessa mesma riqueza. Cinquenta vezes mais pessoas com três vezes menos riqueza distribuída. Entre as 38 democracias da OCDE, somos a quinta que gera mais desigualdade.

Se a Democracia nos trouxe até aqui, é natural que exista muita gente sem perceber para que é que, afinal, ela serve. Por certo, não devia servir para promover a intolerância, o ódio, o racismo, a xenofobia, mas vivemos tempos perigosos em que o poder do voto está a ser usado para corromper a democracia.

Por cá, se pensarmos na forma superior como a segunda figura do Estado mostrou aos racistas com assento parlamentar que o poder do voto não legitima tudo, dá para perceber que ter Augusto Santos Silva a presidir aos trabalhos na Casa da Democracia irá contribuir para a tentar salvar. Saiba o governo fazer mais e melhor do que tem feito e saibamos nós todos construir uma sociedade mais justa, condição sem a qual a Democracia estará sempre mais perto de ceder o lugar a outro tipo de regimes.

Jornalista

Diário de Notícias
Paulo Baldaia
11 Abril 2022 — 00:07


Pelas vítimas do genocídio praticado
pela União Soviética na Ucrânia



 

773: A auto purificação do liberalismo

OPINIÃO

A última virtude que Vladimir Putin encontrou na guerra foi a de permitir uma “auto purificação da Rússia”, pretendendo com esta frase distinguir os patriotas (a favor da invasão) dos traidores (contra). Como é a ideia de uma democracia liberal do ocidente que ele está a combater e como é ele um apoiante dos extremismos que se fortalecem na Europa e nos Estados Unidos, vale a pena tentar perceber se não estamos nós obrigados a regressar à essência do liberalismo. Será que é aqui que é precisa uma auto purificação?

Francis Fukuyama, este fim-de-semana no Expresso, recorda-nos que é preciso fazer alguma coisa. Se queremos, e devemos querer, manter a liberdade, teremos de voltar a ser mais tolerantes com quem pensa diferente de nós e, sobretudo, teremos de ser capazes de impor regras ao capitalismo para reverter o agravamento das desigualdades sociais e económicas. Não podemos continuar a fornecer aos populistas radicais (de direita e de esquerda) o voto de milhões de injustiçados, que pensam encontrar a salvação em líderes autoritários.

Os oligarcas, que Putin tolera e manobra a seu favor, não só gostam destas democracias liberais como foram até agora grandes parceiros deste capitalismo ocidental. A oligarquia russa e o próprio chefe têm uma predilecção pelo imobiliário de luxo em cidades como Londres, Nova Iorque, Paris, Berlim e tantas outras capitais pelo mundo fora.

Acrescentem-se iates, aviões privados e muitos milhares de milhões despejados nos mercados bolsistas como contributos inestimáveis para o sucesso do liberalismo económico, assente num capitalismo sem remorsos, nem vergonha na cara. Não fosse a guerra e tudo continuava como até aqui. E é tão certo que voltará a ser como era, como é certo que continua a fazer-se com os multimilionários chineses ou árabes, de países tão pouco democráticos como a Rússia e de empresários tão alinhados com o poder corrupto como os oligarcas.

Era bom que explicassem aos cidadãos das democracias liberais, por exemplo, para que é que são precisas as offshores. Se a democracia aceita manter em segredo a origem de determinada riqueza e precisa esconder os seus donos, então só é democracia e só é liberal de fachada. Está a dizer aos seus cidadãos que não pretende distinguir o dinheiro legítimo do dinheiro da corrupção, do crime, das autocracias, das ditaduras.

Se o azimute do liberalismo for o de ser cada vez mais rico, não esperem que a maioria das pessoas sinta a obrigação de distinguir o legitimo do ilegítimo, nem que perceba que há limites para a acumulação de riqueza, principalmente quando ela própria é geradora de pobreza. Liberalismo sem ética e sem dar prioridade ao bem comum não promove a igualdade de direitos, nem defende a dignidade dos indivíduos.

Se, na sua essência, como lembra Fukuyama, o liberalismo procura controlar a violência diminuindo as expectativas da política, não é nunca aceitável que o Estado se abstenha de regular as relações económicas e sociais entre os indivíduos. O que a história nos ensina é que a percepção generalizada de que o Estado não existe ou que, existindo, é fraco, termina demasiadas vezes num Estado omnipresente e omnipotente.

Adaptando o que disse Churchill, a democracia liberal não é o menos mau dos sistemas, é mesmo o único aceitável entre todos os que se conhecem. Mas convém que zelemos pela sua existência para lá do título que lhe damos, garantindo que a liberdade se vive com justiça.

Jornalista

Diário de Notícias
Paulo Baldaia
21 Março 2022 — 06:42

 



 

O ‘reality show’ de que se fala

– Também como o colunista, não perdi tempo a ver este reality show, e concordo que este tipo de situações falhadas, não deveriam ter a propaganda mediática que esta teve. Mas o jornalixo existente a todos os níveis, é farto neste tipo de “notícias” e dirige-se a um alvo que adora ver as desgraças alheias…

OPINIÃO

João é o “terrorista” mais famoso de Portugal. Dele se conhece a história de vida que, a avaliar pelos milhões de palavras gastas nas televisões, rádios e jornais, se poderia presumir longa. Mas não é, ainda não chegou aos 19. A aldeia do João, se fosse agora o concurso Aldeias de Portugal, ganharia fácil a eleição. A família do João ficou a ser conhecida de mais portugueses na primeira hora em que as televisões chegaram à aldeia do que em toda a sua longa vida. E nós ficámos a conhecer a família do “terrorista”, mais os amigos, os colegas, a porteira do prédio e quem quer que tivesse aparentado pisar o mesmo chão.

Tivemos uns dias muito preenchidos, porque a nossa maravilhosa Polícia Judiciária quis que nós confirmássemos a sua competência. Foi elogiada em todo o lado e nós vivemos agradecidos. Se não fossem eles a saber o que fazer com a dica do FBI, estávamos todos mortos. Parece, no entanto, que a prazo estaremos mesmo todos mortos. Há muito que um reality show informativo não tinha tanto sucesso.

Acontece que, descendo à terra, foi fácil perceber que houve muito facilitismo no modo como a história estava a ser contada. Corremos a elogiar a PJ, sem cuidar de perceber que a nossa polícia não foi totalmente competente. Sim, terá evitado o que podia ter sido um massacre de estudantes, mas a vaidade é pecado que em nada contribui para a eficácia da sua função. Bem lembrou Cândida Almeida, a procuradora que teve de lidar com verdadeiros terroristas, que actos falhados não devem ser divulgados.

Imaginemos, por um instante que seja, que o João não representava o perigo que aparenta representar. Imaginemos, por um instante que seja, que o João era sobretudo um perigo para si próprio. Dá para voltar atrás no reality show montado e fazer as coisas seguindo as regras do bom jornalismo? Não, já não dá!

Vou confessar uma coisa espantosa. Estou entre os portugueses, imagino que poucos, que não viram nenhum episódio filmado na aldeia do João. Recusei. Ocupei-me a fazer outras coisas sempre que ouvia ou lia a palavra aldeia. E sinto-me melhor assim, não sei o nome da aldeia e de toda a história retive poucas palavras.

Sei que o João se chama João e que conversava numa rede social, que falou das suas intenções a um norte-americano, que as terá denunciado ao FBI, que fez chegar a denúncia à PJ, que devia ter resolvido o assunto e remeter-se ao silêncio e não o fez. O que retiro desta história é que o director da PJ, o mesmo que esteve em todos os canais de televisão no dia em que a polícia sul-africana prendeu João Rendeiro (outro João!), quando se cansar de ser polícia pode ir trabalhar para uma produtora.

Não espero que as coisas, em próxima oportunidade, sejam de maneira diferente, porque a concorrência, que é benéfica em tanta coisa, puxa sempre para baixo quando o tema é a miséria humana. Talvez se pudesse pedir a quem tem responsabilidades políticas que não corra a engraxar as botas de uma polícia que anda demasiado sedenta de protagonismo. Tem tudo para dar asneira.

Jornalista

Diário de Notícias
Paulo Baldaia
14 Fevereiro 2022 — 07:00



 

521: A Democracia não pede o nosso silêncio

OPINIÃO

Estranho pedido este que nos andam a fazer para que nos calemos e não façamos ondas que aproveitem à extrema-direita para crescer. Como se o Chega fosse um daqueles monstros dos filmes de terror, que andam debaixo da terra à procura das nossas vibrações para nos apanhar. A páginas tantas, nos filmes, o silêncio é tão grande que o monstro até consegue ouvir o nosso coração. Talvez queiram que digamos ao coração da Democracia para parar de bater.

O que convém é não alimentar o monstro, estimando-o só porque tem representantes eleitos na casa do povo, fazendo de conta que o seu discurso, tantas vezes racista e xenófobo, profundamente desumanizado, com propostas de prisão perpétua ou castração, não corrói a Democracia.

Querem convencer-nos que a Democracia deve aceitar tudo, até o debate sobre ideias inaceitáveis. Por exemplo, André Ventura acha que há portugueses que não são de bem, onde se incluem os ciganos, para quem o líder do Chega queria confinamentos específicos, tipo guetos proibidos pela Constituição. O que devíamos fazer, segundo os tolerantes, era discutir essa proposta. E, se ela avançasse e o Chega subisse a parada, propondo um regime de apartheid com transportes públicos onde só pudessem andar os portugueses de bem? Passaríamos a discutir e votar a nova proposta porque, nas mentes brilhantes que nos pedem tolerância, esta é a essência da Democracia. E qual era o limite? O que o Chega achasse aceitável.

O mais caricato de tudo isto é que nos dizem que, em nome da democracia, devemos aceitar que o partido que tem um líder racista e xenófobo, diga e faça tudo o que lhe apetece, incluindo insultos racistas já condenados pelo Supremo Tribunal de Justiça, mas nós devemos ficar em silêncio, porque o monstro se alimenta das nossas criticas. Se querem os votos dos outros partidos para ocupar um lugar de vice-presidente no Parlamento, os deputados devem dá-los para cumprir a tradição e para… não alimentar o monstro. Sobre este ponto, façamos aquilo que a democracia nos pede, contemos os votos.

Do Chega podemos contar que copie tudo o que a extrema-direita tem feito nos parlamentos de outros países, como na Alemanha. Com doze deputados, vai boicotar muitos debates, com interrupções constantes, risadas artificiais a toda a hora ou insultos aos outros partidos e deputados. E, depois, vitimizar-se. Façam como na Alemanha, os outros partidos assumem a cerca sanitária à extrema-direita e não legitimam com o seu voto a eleição de dirigentes da AfD. A extrema-direita até já está sob vigilância dos serviços de segurança e informação interna, por representar um perigo para a ordem constitucional da Alemanha.

Era suposto a direita democrática ter aprendido que foram as falinhas mansas e os discursos equívocos, mais a aliança nos Açores, que normalizaram um partido que de normal não tem nada. Se continua a querer agradar a Ventura e aos seus correligionários, fugindo a sete pés do confronto, a direita estará a entregar-lhe a liderança de mão beijada.

Também era suposto que o jornalismo deixasse de olhar para o comportamento aberrante do Chega como um espectáculo que dá audiências. Mas não é de esperar coisa muito diferente do que tivemos até aqui e é fácil antecipar a novela em horário nobre, com o partido de Ventura a dominar todas as atenções, sempre que avançar por caminhos pitorescos, de pura provocação ou mesmo com propostas que pretendem ferir de morte a Constituição Portuguesa.

Jornalista

Diário de Notícias
Paulo Baldaia
07 Fevereiro 2022 — 00:49


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473: Dia triste

– O artigo de opinião infra, é um extracto do artigo integral que pode ser lido no link abaixo e com o qual concordo (extracto), em absoluto, porque seria impensável que ainda existisse uma franja tão grande de fascistas na nossa sociedade.

OPINIÃO

… … Não pode deixar de se assinalar que o povo português tenha eleito como terceira força política um partido racista e xenófobo.

É preciso estar atento a esta realidade e é uma responsabilidade acrescida para o Partido Socialista que, tendo uma maioria para governar, deve ser capaz de melhorar substancialmente a vida dos portugueses para que não existam tantos cidadãos com vontade de votar no Chega.

Não é uma responsabilidade exclusiva de um governo ou de um partido, é uma responsabilidade de todos. Não podemos aceitar como inevitável esta triste história.

Jornalista

Diário de Notícias
Paulo Baldaia
31 Janeiro 2022 — 02:16


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245: 31 de Janeiro

OPINIÃO

Nas eleições de 30 de Janeiro, cada um dos votos que entrar nas urnas será a expressão de uma vontade individual, mas haverá uma vontade colectiva que importa perceber e respeitar. No dia seguinte, convém que a vontade dos portugueses não seja sequestrada pelos directórios partidários, não fique refém de interpretações que servem apenas os interesses individuais dos líderes, não se torne numa vontade exclusiva do homem que ocupa o cargo pelo qual o país luta desde 31 de Janeiro de 1891*. Por ser assim, importa que a política de alianças pós-eleitorais seja tema de debate.

À esquerda, o que se estranha é que o PCP e o Bloco estranhem que António Costa sonhe com uma maioria absoluta. E podem estar descansados porque a democracia portuguesa é muito pouco dada a satisfazer este tipo de desejos. É bem mais importante que nos digam com clareza em que condições aceitam viabilizar novamente um governo minoritário do PS.

Se o caderno de encargos for bom, os eleitores saberão reforçar o peso eleitoral de comunistas e bloquistas e os socialistas saberão ao que vão quando forem de mão estendida pedir a esses partidos que viabilizem orçamentos. De igual forma, ao PAN não bastará propagandear a sua suposta responsabilidade por terem estado disponíveis para evitar a crise. Quanto mais perto estiverem de se transformar nos “Verdes” do Partido Socialista, mais depressa chegarão à irrelevância política.

Da direita, a República necessita que não ceda à agenda divisionista do Chega, mas se a 31 acordarmos com uma ressaca xenófoba e racista, por se ter cumprido a expectativa de um forte crescimento do partido de Ventura, então saberemos que é tempo de voltarmos a ter um governo de salvação nacional, mesmo que isso signifique uma qualquer fórmula de bloco central. Mais ainda se o Chega for o partido charneira para a formação de uma maioria parlamentar, o partido sem o qual, não havendo maioria à esquerda, não se formará uma maioria à direita.

Sobrando poucas hipóteses à direita, teoricamente, uma maioria absoluta do PSD também é possível, embora muito pouco provável. Com o CDS em vias de extinção, a esperança deste bloco reside na possibilidade de haver um voto útil marcadamente de direita, que possa fugir do Chega para a Iniciativa Liberal.

O dia seguinte transporta-nos para uma data que lembra o espírito lutador e republicano do norte de Portugal, para a possibilidade que temos de lutar por aquilo em que acreditamos, para a necessidade de exigência com quem nos governa. Nada nos será dado, tudo tem de ser conquistado.

Não podemos, não devemos, partir derrotados, imaginando que o nosso destino é sair das próximas eleições sem uma solução governativa, ela existe à esquerda e à direita. Aos políticos cabe explicar com clareza o projecto que têm para Portugal, aos eleitores votar em consciência. Afinal de contas, os sargentos saíram à rua em 1891 para que não fosse o sangue real a determinar quem nos governa. Saibamos ser dignos desse sacrifício.

* A revolta do 31 de Janeiro de 1891 foi um levantamento militar que teve lugar na cidade do Porto, visto como a primeira revolta republicana, a primeira tentativa de derrube da monarquia e de implantação da República em Portugal.

Jornalista

Diário de Notícias
Paulo Baldaia
08 Novembro 2021 — 00:11

 

215: Malditos pobres que teimam em ser pobres

“Não, pobre não é quem não quer trabalhar. Pobre não é quem quer, mas quem não consegue deixar de ser.”

OPINIÃO

Um governo que se diz de esquerda e existe há seis anos apoiado por socialistas e comunistas está no seu estertor preso à dura realidade de não ter sido capaz de mudar estruturalmente a vida dos pobres para que os seus descendentes não tenham de continuar a ser pobres. Reduziu-se a taxa de abandono escolar, o que é um óptimo sinal, mas falta conseguir o passo seguinte que é melhorar a qualidade do emprego para pessoas que chegam ao mercado de trabalho com melhores qualificações.

Dez por cento da população trabalhadora vive na pobreza (dados da Pordata referentes a 2019), confirmando ao mesmo tempo uma esquerda incompetente e uma direita intolerante que estigmatiza os pobres, acusando-os de serem responsáveis pela sua própria pobreza, por não quererem trabalhar. Como se vê!!!

Por mais que, ocasionalmente ou acidentalmente, o número de portugueses a viver abaixo do limiar da pobreza baixe, há décadas que, uns pontinhos para baixo ou uns pontinhos para cima, um quinto dos portugueses vivem na pobreza. E não, não insistam na tese liberal de que é preciso primeiro aumentar a riqueza, porque o mesmo estudo da Pordata serve para nos lembrar que fechámos a década anterior aumentando outra vez a desigualdade, sendo que os 20% mais ricos ganharam cinco vezes mais do que os 20% mais pobres.

Os pobres e uma parte da classe média-baixa vive em habitações sem qualidade, casas onde acontece pelo menos uma de três coisas: um telhado que deixa entrar água, paredes/soalhos/fundações húmidos ou apodrecimento dos caixilhos das janelas ou do soalho. O que mais deveria envergonhar esquerda e direita é o facto de nestas casas viverem milhares de crianças que nunca saberão o que é a igualdade de oportunidades. Estão condenadas pela casa onde vivem, pelo apoio familiar que lhes falta, pela impossibilidade de acesso às novas tecnologias, pela falta de uma alimentação saudável e equilibrada.

Se somos incapazes de apontar o dedo a estas crianças, não aceitando imputar-lhes culpa pela sua condição de pobreza, é importante que quando somos confrontados com a pobreza em idade adulta procuremos perceber a sua condição à luz do seu percurso de vida. A discriminação pela pobreza é a mais comum das discriminações. Os que recebem abono para os filhos, RSI, ajuda alimentar de instituições de solidariedade, não ficam ricos com tantas “benesses”, continuam pobres e sem condições de garantir que os seus filhos vão conseguir sair da espiral de pobreza onde também eles foram criados. Não, pobre não é quem não quer trabalhar. Pobre não é quem quer, mas quem não consegue deixar de ser.

A direita que estigmatiza a pobreza, ancorada num discurso extremista e de ódio contra os que necessitam de apoios sociais, ou a esquerda que sequestra os pobres para alimentar a sua agenda política beneficiam da perpetuação da pobreza que alimenta a sua clientela política, parte dos seus eleitores. Não se atrevam a dizer que a culpa é das vítimas. Nada devia envergonhar mais um país que se prepara para celebrar 50 anos de democracia do que este chip que se coloca nos pobres quando nascem e os acompanha ao longo da vida, como quem procura ter a certeza de que a pesada herança vai passar de geração em geração.

Jornalista

Diário de Notícias
Paulo Baldaia
25 Outubro 2021 — 00:07

 

199: Um país refém de uma profecia auto-realizável

OPINIÃO

Tirando o facto de, desta vez, ser exactamente como sempre foi, necessitando de negociações sérias, para que o orçamento seja o compromisso possível entre diferentes formas de ver o país, tirando isso, desta vez, é diferente. Tão diferente que as fontes dos jornalistas estão sempre a dizer-lhes que “desta vez, é diferente”.

Desta vez, o governo não pergunta aos seus parceiros de esquerda o que pretendem para aprovar o orçamento, dizem as fontes mais à esquerda. Desta vez, os parceiros não se contentam com um orçamento de esquerda, queixam-se as fontes do governo. Desta vez, os que não perguntam não obtêm respostas e os que não batem à porta não encontram do outro lado ninguém que a abra.

É tão inverosímil esta ideia de que, desta vez, o orçamento pode ser chumbado, que se estranha a facilidade com que ela é aceite como sendo o cenário mais provável. Quem poderia estar interessado em eleições que acabariam por deixar tudo pior do que está? Se o governo tem margem para negociar a introdução de algumas medidas exigidas pelo PCP ou pelo Bloco como essenciais, por que razão não o faria? Se o governo mostrar essa disponibilidade, por que razão os parceiros da geringonça não estariam disponíveis para viabilizar o orçamento

Entramos numa zona pantanosa, em que já ninguém sabe como sair. Quanto mais vezes o governo repete que já deu muito à esquerda e a esquerda repete que o governo não lhe dá o que ela quer, mais parece igual a nada tudo o que o Executivo ceder. E também sabemos que muitas das medidas que o governo apresenta como cedências à esquerda são medidas já negociadas e anunciadas em orçamentos anteriores.

Pode tudo isto ser explicado apenas por cansaço? Não parece. Há claramente uma encenação em curso que servirá ou para tornar mais cara a viabilização do orçamento ou para atribuir culpas em caso de crise política. Quem já se livrou dessa responsabilidade foi a direita, dispensada pelo primeiro-ministro e pelo Presidente da República da obrigação de defender o melhor para o país, no pressuposto de que ter este orçamento aprovado será o melhor para o país, como argumentam Costa e Marcelo.

Dispensada a direita, e tendo a esquerda a faca e o queijo na mão, é completamente irracional, do ponto de vista partidário, que a esquerda queira ir a votos sabendo que que acabará responsabilizada nas urnas. Estamos claramente a mudar de ciclo político e o que se estranha é esta vertigem que parece estar a levar a esquerda a dar o tal passo em frente, mesmo sabendo que está num equilíbrio muito frágil na berma do precipício. Tanto insistem que acabarão por fazer exactamente o que dizem não desejar, cria-se uma expectativa que, mesmo podendo ser falsa, conduz ao comportamento que a torna verdadeira. Pobre país!

P.S. Poderia haver coisa mais ridícula que uma descida de dois cêntimos no ISP, anunciada na sexta-feira, ser comida por uma subida igual no preço dos combustíveis, anunciada para hoje? E se lhe acrescentarmos a quantidade de vezes que o governo argumentou que descer o ISP era um erro, porque coloca em causa o combate às alterações climáticas, o que pode isto significar? Fica-se com a sensação de que chegaram àquele momento em que, quanto mais se tentam salvar, mais se afundam.

Jornalista

Diário de Notícias
Paulo Baldaia
18 Outubro 2021 — 01:02

 

185: O albergue espanhol, os ciganos e os índios

OPINIÃO

A direita está cada vez mais um albergue espanhol, cabem lá todos e, por isso, mesmo quando são poucos, como é o caso do CDS, as divergências são fortes. Atenuam-se quando é preciso digerir a derrota e agigantam-se quando começa a cheirar a poder. Tanto lá como no PSD, juntam-se os interesses mais divergentes para apear os líderes e a preocupação é imitar os pequenos partidos que lhes roubam eleitorado mais encostado à direita.

Nem Cavaco, que ensaiou a defesa de uma política económica que deveria estar a ser seguida pelo PS, se furtou de tomar partido contra Rio porque a oposição está “desprovida de uma estratégia consistente de denúncia dos erros, omissões e atitudes eticamente reprováveis do governo.” O ex-líder do PSD acredita que o estilo histriónico de Rangel (testado nas europeias) é melhor para a afirmação de uma alternativa. Não aprenderam nada com a vitória de Carlos Moedas em Lisboa, um exemplo de serenidade, recusa de extremismos e resiliência.

No CDS, então, é de bradar aos céus. Um partido que tinha virado à direita com a eleição de Francisco Rodrigues dos Santos admite virar ainda mais à direita, num estilo que, a avaliar pela apresentação da candidatura de Nuno Melo, não fica a dever nada ao Chega de André Ventura. A afirmação de que a lei é para ser cumprida por todos, inclusive “por ciganos e por índios”, é tão absolutamente desnecessária, exactamente porque por ser “para todos” não é preciso estar a nomear ninguém. É gato escondido com o rabo de fora, alimenta a xenofobia e o racismo à procura de votos e faz de conta que trata todos da mesma maneira.

Falamos de uma direita em que até o Presidente da República no activo entende que deve meter estopa, defendendo que a estratégia das coligações foi boa (Paulo Portas pensa o contrário) e deve ser repetida ou reconfirmando a sua preferência por um militante a quem antevê grande futuro. Do que Marcelo não desiste é de tentar evitar o desvio extremista do seu campo político de origem, estando quase permanentemente a lembrar esses perigos populistas e ignorando, sempre que pode, o Chega de Ventura.

Neste albergue, onde cabe igualmente um mínimo grupo parlamentar que, nos últimos 15 dias gastou mais energia a contestar a liderança de Francisco Rodrigues dos Santos do que a fazer oposição ao governo socialista, cresce a convicção de que o regresso ao poder fica naturalmente mais perto à medida que o tempo passa, quem lidera vê o copo meio cheio e quem se opõe vê o copo meio vazio.

Sobra o partido Iniciativa Liberal que necessita de repensar a estratégia de afirmação. Falhou nas autárquicas, não elegendo um único vereador (o Chega elegeu 19), venceu perdido na coligação de Rui Moreira e falhou a vitória de Moedas que quase pôs em causa ao recusar fazer parte da coligação. Há uma arrogância que a leitura dos resultados não sustenta, de quem se julga predestinado a ficar com os votos dos eleitores de direita cansados de anos de PSD e CDS.

Pela direita, o albergue já está sobrelotado, não acrescenta com mais disparates sobre ciganos e índios. O que é absolutamente necessário é crescer ao centro com uma ideia para o país que seja uma alternativa consistente ao que a esquerda tem seguido e que permita. É só isso que a democracia pede. E não é pouco!

Jornalista

Diário de Notícias
Paulo Baldaia
11 Outubro 2021 — 00:28