Exército confirma que excluiu cânticos pelo “baixo efeito das acções de voz”

– Desculpas esfarrapadas sem qualquer cabimento…

POLÍTICA/EXÉRCITO/PÁRA-QUEDISTAS

Depois de ter alegado que não tinha havido qualquer proibição do cântico dos pára-quedistas, o Exército vem agora afirmar que a medida teve “em consideração as restrições em vigor decorrentes da pandemia” aplicadas igualmente noutros eventos que decorreram em 2021

Cânticos, símbolos e tradições fomentam a coesão de grupo.
© Steven Governo/Global Imagens

O Exército confirma que excluiu os cânticos do desfile comemorativo do dia do Ramo por entender que devido às restrições da pandemia e ao baixo número de militares envolvidos as “acções de voz” teriam “baixo efeito”. O DN tinha colocado várias questões durante o dia de ontem, mas a resposta só chegou esta manhã.

“Em 2021, os vários eventos realizados no âmbito do programa de comemorações do Dia do Exército, tiveram em consideração as restrições em vigor decorrentes da pandemia, e a Cerimónia Militar do passado dia 24 de Outubro, não foi excepção.

Ou seja, considerando o contexto e a reduzida dimensão das forças militares envolvidas no desfile, concluiu-se pelo baixo efeito de acções de voz em pequenos efectivos da mesma natureza, portadores de máscaras de protecção e enquadrados por música de banda militar, pelo que aquelas, seja de que natureza, não foram, desde logo, previstas na fase de planeamento e, consequentemente, na fase do desfile”, disse ao DN o gabinete do Chefe de Estado-Maior do Exército (CEME), tenente-general Nunes Fonseca.

Como foi notório o “efeito” acabou por ser muito maior porque foi entoado por centenas de militares que assistiam à cerimónia.

Ao que o DN apurou, a ordem que levou à indignação de milhares de pára-quedistas, porque o pelotão que desfilou não podia entoar o emblemático cântico “Pátria Mãe”, terá sido dada verbalmente pelo próprio CEME, reconduzido este mês no cargo pelo Presidente da República.

De acordo com duas altas patentes, uma no activo outra na reforma, que acompanham a situação, houve uma primeira directiva sobre a comemoração do Dia do Exército, assinada pelo comandante das Forças Terrestres , general Martins Pereira (ex-chefe de gabinete do ministro da Defesa Azeredo Lopes, que ficou conhecido no caso do roubo das armas em Tancos), depois replicada pelas várias unidades.

A directiva terá 15 páginas e indica se vão manter as medidas de protecção sanitária em vigor e a decisão de assegurar que toda as actividades decorrem de acordo com essas normas, não havendo nada especificamente escrito quanto aos cânticos.

Segundo ainda estas fontes, que pediram anonimato, é na directiva da Brigada de Reacção Rápida (BRR), onde estão integradas as unidades de pára-quedistas, assinada pelo brigadeiro-general Gonçalves Soares, “que é referido um telefonema do chefe de gabinete do CEME no qual reafirma a decisão do Chefe de não haver cânticos durante a cerimónia”.

O DN não teve acesso a este documento – impedimento que as fontes justificaram por ser reservado e a sua divulgação estar sujeita a sanções – cujo conteúdo resultou num protesto histórico pelo facto de ter sido a primeira vez que um Chefe de Estado-Maior do Exército foi vaiado por militares.

Os assobios e vaias acabaram por atingir também o ministro da Defesa, cujo gabinete, questionado sobre o DN sobre a sua posição quanto à condução do processo pelo CEME, remete para o Exército.

Contactada pela LUSA domingo, no dia dos protestos, a porta-voz do Exército tinha afirmado desconhecer a proibição ou qualquer ordem interna nesse sentido.

No entanto, durante todo o fim de semana as redes sociais tinham sido incendiadas por vários grupos públicos e privados ligados aos militares a reagir à referida proibição e a mobilizar os antigos pára-quedistas para irem à cerimónia , o que teria permitido ao Exército travar os protestos esclarecendo que não era verdade – o que não fez.

Por outro lado, a declaração da porta-voz do Exército também não batia certo com a de Marcelo Rebelo de Sousa, que veio dizer que “não houve proibição nenhuma, continuará a haver os cânticos, o que houve foi por razões meramente de medida sanitária nesta cerimónia dada uma orientação para que não existisse”. Só depois de instalada a polémica o Exército esclareceu e acertou a resposta com Marcelo.

O facto é que os pára-quedistas partiram para Aveiro mentalizados e inconformados com essa ordem, fosse ela por que motivo fosse e nunca foi desmentida nem clarificada. Também os comandos se viram proibidos de entoar o seu famoso grito guerreiro “mama sume”.

A metáfora do presidente da Protecção Civil

Mas como se chegou a este ponto de ruptura entre estas tropa de elite que Portugal envia para as missões mais arriscadas e o Exército?

Note-se que ainda esta segunda-feira o Estado-Maior-General das Forças Armadas anunciava que a força nacional destacada na República Centro Africana, “maioritariamente constituída por pára-quedistas” tinha sido distinguida com uma medalha da ONU pelos serviços prestados naquele país.

“Há antecedentes longínquos, intermédios, recentes e os últimos que foram a luz verde para estes protestos espontâneos”, sublinha coronel Miguel Machado, fundador da Revista e do blogue militar “Operacional”.

Recorda que as coisas começaram a correr mal desde a transferência das tropas pára-quedistas da Força Aérea para o Exército, em 1994, “sem ter em conta as razões do seu sucesso como organização militar”; depois a “desarticulação“, em 2006, da organização do comando da Brigada Aerotransportada, “destruindo a já limitada autonomia e retirando um comando de oficial-general, fundamental no Exército para se ser ouvido; em 2019 foi a polémica das boinas, com os pára-quedistas da BRR a terem de usar boina preta (comum a todo o Exército) em vez da tradicional boina verde das unidades.

“Foi-se criando a percepção nos antigos pára-quedistas militares que havia a intenção de destruir a sua identidade, a sua história comum. Quem está no activo não se pode expressar publicamente, os que estão “fora” sentem que devem assumir essa indignação. Cresceu muito esse sentimento a partir das medidas de 2019/2020 que atingiram o seu símbolo maior e mais querido, a boina verde”.

Antigo comandante de pára-quedistas e comandos, o presidente da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil, brigadeiro-general Duarte Costa, usou uma metáfora na sua página de Facebook, onde deixa implícito a sua crítica.

Num texto que intitula “Gosto mais de painéis de azulejos do que de “melting pots””, explica porque é importante a diferença e identidades próprias para benefício do todo.

“Em todas as organizações, a questão da identidade tem por base a consciência e o importante valor da pertença e exprime a crença na existência de certas características comuns numa comunidade de que queremos fazer parte. Daí que se possa afirmar que a identidade pressupõe a vontade das pessoas em continuarem juntas ou ligadas a um ideal, a uma tradição e uma simbologia comum”, assinala.

“Da mesma forma, uma identidade nacional é uma alma, uma família espiritual e resulta de um passado, de recordações, de sacrifícios, de glórias, com frequência de batalhas comuns. É um princípio espiritual constituído por um passado e um presente, pelo possuir de um conjunto rico de tradições gerais e particulares que se agregam pelo respeito dos grupos sociais que coabitam na expectativa de que juntos valemos mais do que separados. É o consentimento actual e geral de vivermos juntos com essas mesmas tradições. É ter glórias passadas comuns, ter feito grandes obras no passado e continuar a querer a fazê-las no presente e no futuro. E daí ser tão importante respeitar as tradições, pois mais do que separarem, cimentam a riqueza de uma heterogeneidade cultural de quem continua a querer viver em conjunto”, acrescenta.

“Tal como o sal, o azeite e o vinagre, que isolados são apenas mais um condimento, em conjunto, transformam-se num tempero essencial. (…) Tal como num painel de azulejos, onde individualizando cada azulejo com o seu valor, integramos todos na mesma obra de arte, a beleza e o valor do conjunto resultam da essencial diferença de cada entidade em particular“, conclui.

Símbolos e coesão

E porque é tão importante este cântico para os pára-quedistas ou o “mama sume” para os comandos? Estes cânticos, são vários, são entoados desde o primeiro dia da recruta, sempre no final de cada um dos dois treinos diários. Faz parte da formação para fomentar o espírito de grupo e camaradagem.

A RCA veio ativer esse espírito de novo, pois os pára-quedistas voltaram a estar em missão de combate, o que, tirando algumas excepções na missão no Afeganistão, não acontecia com tanta intensidade desde a guerra colonial.

“Somos uma tropa com provas dadas, temos a nossa tradição e orgulho, uma preparação especial e somos capazes de muitos sacrifícios para conseguirmos levar a cabo a nossa missão arriscada”, defende o General Avelar de Sousa, da União Portuguesa dos Pára-quedistas, que congrega várias associações, e comandou a antiga Brigada Aerotransportada.

Se nos retiram os símbolos, as práticas e as tradições que alimentam a nossa coesão estão a enfraquecer uma das melhores tropas especiais do país. E porquê? Nem custa dinheiro. É esta prática que alimenta o espírito que permite pedir a qualquer um destes militares que cumpra uma missão sabendo que pode morrer”, sublinha.

Explica que “o espírito de corpo e a coragem conseguem-se pelo cultivo de símbolos como os cânticos. Para uma tropa de combate a maior importância que o militar atribui é o conceito em que ele é tido pelos camaradas. A pátria está a olhar para ele, mas é um conceito abstracto, é ao camarada que está ali ao lado que tem de responder. Esse estado de espírito consegue-se pelo cultivo de determinados pequenas coisas que os distinguem. Dizer-lhes que não podem deixar a boina verde ficar mal é levado muito a sério e dão a vida por ela”.

Avelar de Sousa não atribuí responsabilidade pelo que aconteceu ao ministro João Gomes Cravinho e atira contra Nunes Fonseca: “é um assunto exclusivamente militar e um exemplo desastroso de condução das tropas“, afiança.

Alguns dos pára-quedistas que desfilaram acabaram por entoar o “Pátria Mãe” acompanhando as centenas de militares, que já não estão no activo, que assistiam à cerimónia. Soube o DN que podem ser sujeitos a sanções disciplinares, mas o Exército não respondeu à pergunta sobre se tinha instaurado algum processo.

Actualizado às 10h com a resposta do Exército

Diário de Notícias

Valentina Marcelino
26 Outubro 2021 — 00:33

 

214: Marcelo: Não houve proibição mas recomendação sanitária sobre cânticos no Dia do Exército

– Ah! Afinal os páras não entoaram a Pátria Mãe por “razões sanitárias”… Seria por causa dos “gafanhotos” expelidos enquanto cantavam? Remédio: utilização de máscara que não iria impedir que se ouvissem! Pobre país este, tão pequenino em área geográfica e tão pequenino em mentalidades…

POLÍTICA/EXÉRCITO/PÁRA-QUEDISTAS

Presidente foi questionado sobre incidente que levou a que, nas celebrações do Dia do Exército, o ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, tenha sido vaiado e pedida a sua demissão por centenas de ex-pára-quedistas.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, discursa durante a cerimónia de encerramento da Jornada Nacional Memória & Esperança 2021, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa
© TIAGO PETINGA/LUSA

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, disse que “não houve proibição nenhuma” de cânticos nas celebrações deste domingo do Dia do Exército, tendo havido sim “uma orientação” para que não acontecessem por razões sanitárias.

“Não houve proibição nenhuma, continuará a haver os cânticos, o que houve foi por razões meramente de medida sanitária nesta cerimónia dada uma orientação para que não existisse. Mas foi nesta cerimónia, não como regra geral, que eu acharia estranho, não faria sentido e felizmente não ocorreu”, disse Marcelo Rebelo de Sousa aos jornalistas.

O Presidente da República falava à margem da cerimónia no âmbito da Jornada Memória e esperança, que com o plantar de um carvalho nos jardins do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, evocou a memória das vítimas da pandemia de covid-19.

Questionado pelos jornalistas sobre o incidente que levou a que hoje, nas celebrações do Dia do Exército, o ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, tenha sido vaiado e pedida a sua demissão por centenas de ex-pára-quedistas, o Presidente da República, que é também, por inerência de funções, o Comandante Supremo das Forças Armadas, disse ter-se informado imediatamente sobre o sucedido, tendo recebido a informação de que não houve qualquer proibição de cânticos.

Centenas de ex-pára-quedistas vaiaram e pediram este domingo a demissão do ministro da Defesa e do Chefe do Estado Maior do Exército durante a cerimónia militar nas comemorações do Dia do Exército, em Aveiro.

A iniciativa ficou marcada pelo protesto dos ex-pára-quedistas, a que se juntaram antigos comandos, contra a alegada proibição de os militares no activo cantarem o “Pátria Mãe”, o hino dos pára-quedistas, durante o desfile militar.

À chegada à parada, o ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, foi recebido por um coro de assobios que se prolongaram durante os discursos do governante e do Chefe do Estado-Maior do Exército, José Nunes da Fonseca, que também foi vaiado.

Durante praticamente toda a cerimónia ouviram-se gritos de “demissão”, “deixa os homens cantar” e “palhaço”, intervalados com cânticos e o brado dos pára-quedistas.

Diário de Notícias
DN/Lusa
25 Outubro 2021 — 00:52

 

213: “Deixa os homens cantar”. Ex-Pára-quedistas vaiam e pedem demissão do ministro da Defesa

– e ainda dizem que vivemos em “democracia”… “No final da cerimónia, a PSP identificou vários dos antigos militares que se encontravam no protesto.”  Nos tempos do Estado Novo fascista, também se identificavam os opositores ao regime salazarista!

Rodrigo Antunes / Lusa
O ministro da Defesa Nacional, João Gomes Cravinho

Centenas de ex-pára-quedistas vaiaram e pediram hoje a demissão do ministro da Defesa e do Chefe do Estado Maior do Exército durante a cerimónia militar nas comemorações do Dia do Exército, em Aveiro.

A iniciativa, que se realizou esta manhã, ficou marcada pelo protesto dos pára-quedistas, a que se juntaram antigos comandos, contra a alegada proibição de os militares no activo cantarem o “Pátria Mãe”, o hino dos pára-quedistas, durante o desfile militar.

À chegada à parada, o ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, foi recebido por um coro de assobios que se prolongaram durante os discursos do governante e do Chefe do Estado-Maior do Exército, José Nunes da Fonseca, que também foi vaiado.

No final da cerimónia, a PSP identificou vários dos antigos militares que se encontravam no protesto.

Durante praticamente toda a cerimónia ouviram-se gritos de “demissão”, “deixa os homens cantar” e “palhaço”, intervalados com cânticos e o brado dos pára-quedistas.

“Hoje viemos dar um grande apoio à força militar que desfilou aqui, porque proibiram os pára-quedistas que marcharam de fazer o cântico, que é a praxe das tropas pára-quedistas que é o Pátria Mãe, e proibiram também o marchar à pára-quedista porque temos um tipo de marchar especial”, disse à Lusa Joaquim Mesquita, pára-quedista de 1972.

Alguns metros ao lado, Carlos Barbosa, da associação de pára-quedistas de Vale d’Este, de Barcelos, explicava que nas paradas, “toda a gente adorava ver os pára-quedistas pelos cânticos e pela forma de marchar”, lamentando que, agora, tenham retirado isso.

Não podem estar a fazer isto às tropas. Estão a acabar com os pára-quedistas aos bocadinhos”, disse este ex-pára-quedista.

A marcha e o cântico em causa podem ser vistos em inúmeros vídeos disponíveis nas redes sociais, como é o caso do vídeo abaixo, captado em Aveiro em 2018, durante uma marcha do 2.º Batalhão de Infantaria Pára-quedista, do Regimento de Infantaria N.º 10, que foi publicado no canal do Exército Português no YouTube.

Questionado pelos jornalistas, no final da cerimónia, o ministro escusou-se a comentar o protesto, limitando-se a dizer que este foi um “excelente dia de celebração e de agradecimento”.

“Isto foi um ano extraordinário, muito difícil para as forças armadas e para o exército e, portanto, ter aqui hoje esta oportunidade de agradecer ao exército português para mim foi um privilégio”, disse o governante.

Contactada pela Lusa, a porta-voz do Exército disse desconhecer a alegada proibição ou qualquer ordem interna nesse sentido e disse que o Exército não comenta os protestos.

  ZAP // Lusa

Por ZAP
24 Outubro, 2021