604: “Besta crocodilo” vagueou pela Tanzânia há 240 milhões de anos

CIÊNCIA/PALEOBIOLOGIA

(dr) Gabriel Ugueto
Reconstrução do Mambawakale ruhuhu

Um fóssil descoberto nos anos 1960 foi finalmente reconhecido como uma espécie distinta: o Mambawakale ruhuhu passa a ser considerado um dos primeiros membros da família de répteis cujos fósseis eventualmente dariam origem aos crocodilos modernos.

Há cerca de 240 milhões de anos, um arcossauro com “mandíbulas muito poderosas e grandes dentes” vagueou na actual Tanzânia.

Com mais de 5 metros de comprimento, esta criatura recentemente descrita – chamada Mambawakale ruhuhu, que significa “antigo crocodilo da Bacia de Ruhuhu”, em Kiswahili – teria sido um “predador muito grande e bastante aterrador”, quando estava viva durante o período Triássico.

Richard Butler, professor de Paleobiologia na Universidade de Birmingham, no Reino Unido, disse ao Live Science que este predador “é um dos maiores que conhecemos desde o Triássico Médio”.

O fóssil – que inclui a maior parte do crânio, a mandíbula inferior, várias vértebras e uma pata – foi descoberto em 1963, mas foram necessários quase 60 anos para os paleontólogos descreverem devidamente M. ruhuhu.

A grande quantidade de material permitiu aos cientistas identificar várias características que diferem este animal de outros arcossauros. Aliás, há tantas diferenças que, no final, não havia como não reconhecê-lo como uma espécie distinta.

“A nossa análise identificou M. ruhuhu como um dos mais antigos arcossauros conhecidos, além de um membro primário da linhagem que eventualmente iria evoluir para os crocodilos modernos. É uma descoberta empolgante, uma vez que identificar este animal nos ajuda a entender a rápida diversificação dos arcossauros e acrescentar mais um elo na corrente evolucionária dos crocodilos”, especificou Butler.

O artigo científico com a descoberta foi publicado no Royal Society Open Science.

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19 Fevereiro, 2022



 

578: Um passo atrás? Afinal, os cientistas não sabem como eram os megalodontes

CIÊNCIA/PALEONTOLOGIA/PALEOBIOLOGIA

As formas corporais anteriormente propostas para o gigantesco megalodonte permanecem no reino das especulações, concluiu um estudo recente.

Afinal, não há evidências científicas sobre a verdadeira aparência do megalodonte.

“O estudo pode parecer um passo atrás na Ciência, mas o mistério contínuo torna a paleontologia, o estudo da vida pré-histórica, um campo científico fascinante e emocionante”, disse Kenshu Shimada, professor de paleobiologia da Universidade DePaul, nos Estados Unidos, e co-autor do estudo.

O Otodus megalodon é normalmente retratado como sendo parecido com o tubarão-branco, ou Carcharodon carcharias, o maior tubarão predador existente actualmente, pertencente à família dos lamnídeos (Lamnidae).

O megalodonte não pertence a essa família, mas a comunidade científica crê que o animal estava intimamente relacionado com o tubarão-branco. Além disso, destaca o EurekAlert, os cientistas acreditam que era um animal parcialmente de sangue quente, o que lhe permitia, em teoria, ser um predador activo.

É por estes motivos que os investigadores costumam usar os lamnídeos para tentar chegar a uma morfologia aproximada dos megalodontes.

Com base na inferência, um estudo chegou até a utilizar análises da forma geométrica bidimensional das formas corporais dos lamnídeos modernos para propor uma forma corporal inferida dos megalodontes.

A equipa liderada por Phillip Sternes, biólogo da Universidade da Califórnia em Riverside, fez isso mesmo partindo das formas de cinco lamnídeos.

O estudo tinha como objectivo apurar se a abordagem bidimensional pode mesmo diferenciar as formas corporais representadas pelas espécies endotérmicas modernas (de sangue quente) das ectotérmicas modernas (de sangue frio) dentro dos lamniformes.

No entanto, não correu como o esperado: no final da investigação, os cientistas não encontraram padrões, concluindo, assim, que não existe relação entre a termo-fisiologia e a forma corporal nos lamniformes.

“O O. megalodon pode ter-se assemelhado ao grande tubarão-branco moderno ou lamniforme, mas os nossos resultados sugerem que a abordagem bidimensional não permite de forma decisiva a reconstrução da forma corporal do O. megalodon“, disse Jake Wood, co-autor do estudo publicado, este mês, no Historical Biology.

“Todas as formas corporais do Otodus megalodon anteriormente propostas devem ser consideradas como especulações do ponto de vista científico“, acrescentou Sternes.

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15 Fevereiro, 2022



 

420: O anquilossauro era solitário, lento e surdo

CIÊNCIA/PALEOBIOLOGIA

(dr) Fabrizio De Rossi
Struthiosaurus austriacus

Uma equipa internacional de cientistas analisou a base cerebral de um dinossauro da Áustria e encontrou novos detalhes surpreendentes: o Struthiosaurus austriacus era lento e surdo.

Os anquilossauros, criaturas imponentes que podiam atingir os oito metros de comprimento, representam um grupo de dinossauros herbívoros cujos corpos são cobertos por placas ósseas e espinhos.

Enquanto a grande maioria dos dinossauros vivia em grupo, os anquilossauros preferiam uma vida solitária devido ao seu baixo sentido de audição.

Para este estudo, Marco Schade, da Universidade de Greifswald, Cathrin Pfaff, da Universidade de Viena, examinaram uma minúscula caixa craniana de 50 mm para revelar novos detalhes sobre a anatomia e estilo de vida do Struthiosaurus austriacus.

Com estes dados, foi possível aprender mais sobre o seu sentido de equilíbrio e audição, detalha o comunicado da universidade austríaca.

Depois de examinarem a caixa craniana com uma tomografia computorizada de alta resolução com a qual produziram um molde tridimensional digital, os cientistas encontraram aquela que é, até ao momento, a lagena mais curta de um dinossauro.

A lagena é a parte do ouvido interno na qual ocorre a audição e o seu tamanho pode ajudar a inferir a capacidade auditiva de um animal.

Os investigadores descobriram ainda que o cérebro do Struthiosaurus era bastante semelhante ao dos seus parentes próximos. O flóculo, uma antiga parte evolucionária do cérebro, era muito pequeno e tinha um importante papel na fixação dos olhos durante os movimentos de todo corpo, especialmente cabeça e pescoço.

Este detalhe pode ter-lhe sido bastante útil se estivesse a tentar atingir um animal ou a proteger-se de um agressor.

“Comparado com o seu parente norte-americano Euoplocephalus, que tinha uma cauda de taco e um flóculo claro no molde cerebral, o Struthiosaurus astriacus pode ter confiado na sua armadura para protecção”, disse Marco Schade, em comunicado.

Juntamente com os detalhes da forma dos canais semicirculares do ouvido interno, esta descoberta sugere um estilo de vida excepcionalmente lento para o herbívoro austríaco.

O estudo, que proporciona novos conhecimentos sobre a história evolutiva dos dinossauros, foi publicado este mês na Scientific Reports.

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19 Janeiro, 2022