502: Um objecto misterioso diferente de tudo o que os astrónomos já viram

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Aspecto ilustrativo do objecto caso seja um magnetar. Os magnetares são estrelas de neutrões incrivelmente magnéticas, algumas das quais produzem, por vezes, emissões de rádio. Os magnetares conhecidos completam uma volta sob si próprios a cada poucos segundos, mas teoricamente, os “magnetares de período ultra-longo” poderiam girar muito mais lentamente.
Crédito: ICRAR

Uma equipa de mapeamento de ondas de rádio no Universo descobriu algo invulgar que liberta uma enorme explosão de energia três vezes por hora e que é diferente de qualquer coisa que os astrónomos já viram antes.

A equipa que o descobriu pensa que pode ser uma estrela de neutrões ou uma anã branca – núcleos colapsados de estrelas – com um campo magnético ultra-poderoso. Girando no espaço, o estranho objecto envia um feixe de radiação que atravessa a nossa linha de visão e, durante um minuto em cada vinte, é uma das fontes de rádio mais brilhantes do céu.

A Dra. Natasha Hurley-Walker, astrofísica do ICRAR (International Centre for Radio Astronomy Research) na Universidade Curtin, liderou a equipa que fez a descoberta. “Este objecto estava a aparecer e a desaparecer ao longo das nossas horas de observações,” disse. “Isto era completamente inesperado. Foi um pouco assustador para um astrónomo, porque não há nada conhecido no céu que faça isso. E está realmente muito perto de nós – a cerca de 4000 anos-luz de distância. Está no nosso ‘quintal galáctico.'”

O objecto foi descoberto pelo estudante da Universidade Curtin, Tyrone O’Doherty, usando o telescópio MWA (Murchison Widefield Array) no “outback” australiano e uma nova técnica que desenvolveu. “É excitante que a fonte que identifiquei o ano passado se tenha revelado um objecto tão peculiar,” disse O’Doherty, que está agora a tirar o seu doutoramento na mesma universidade. “O amplo campo de visão e a extrema sensibilidade do MWA são perfeitos para vigiar o céu inteiro e para detectar o inesperado.”

Os objectos que se “ligam e desligam” no Universo não são novos para os astrónomos – eles chamam-lhes “transientes”. A Dra. Gemma Anderson, astrofísica também do ICRAR e da Universidade Curtin, disse que “ao estudar os transientes, estamos a assistir à morte de uma estrela massiva ou à actividade dos remanescentes que deixa para trás.”

Os “transientes lentos” – como super-novas – podem aparecer ao longo de alguns dias e desaparecer após alguns meses. Os “transientes rápidos” – como um tipo de estrela de neutrões chamada pulsar – “ligam-se e desligam-se” em milissegundos ou segundos.

Mas a Dra. Anderson disse que encontrar algo que se “ligasse” durante um minuto era realmente estranho. Explicou que o objecto misterioso era incrivelmente brilhante e mais pequeno do que o Sol, emitindo ondas de rádio altamente polarizadas – sugerindo que o objecto tinha um campo magnético extremamente forte.

A Dra. Hurley-Walker disse que as observações correspondem a um objecto astrofísico previsto chamado “magnetar de período ultra-longo. É um tipo de estrela de neutrões com rotação lenta que se previu existir na teoria. Mas ninguém esperava detectar directamente uma como esta, porque não esperávamos que fosse tão brilhante. De alguma forma está a converter energia magnética em ondas de rádio muito mais eficazmente do que qualquer coisa que já tenhamos visto antes.”

A cientista está agora a monitorizar o objecto com o MWA para ver se volta a “ligar-se”. “Se o fizer, existem telescópios espalhados pelo hemisfério sul e mesmo em órbita que podem apontar directamente para ele,” continuou. Ela planeia procurar mais destes objectos invulgares nos vastos arquivos do MWA. “Mais detecções dirão aos astrónomos se este foi um acontecimento raro e único ou uma vasta nova população que nunca tínhamos notado antes,” comentou.

Steven Tingay, director do MWA, disse que o telescópio é um instrumento precursor do SKA (Square Kilometre Array) – uma iniciativa global para construir os maiores radiotelescópios do mundo na Austrália Ocidental e na África do Sul.

“A chave para encontrar este objecto, e estudar as suas propriedades detalhadas, é o facto de termos sido capazes de recolher e armazenar todos os dados que o MWA produz há quase dez anos. Ser capaz de olhar para trás através de um conjunto de dados tão massivo quando se encontra um objecto é bastante único em astronomia,” disse. “Existem, sem dúvida, muitas mais ‘joias’ que o MWA e o SKA vão descobrir nos próximos anos.”

Astronomia On-line
1 de Fevereiro de 2022

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