1291: Pela primeira vez a NASA lança um foguetão de uma base no Outback australiano

CIÊNCIA/NASA/ESPAÇO

Uma base comercial no distante deserto da Austrália permite condições únicas para certos lançamentos.

© ELA/NASA

O primeiro lançamento da NASA de uma base comercial fora dos Estados Unidos foi realizado este domingo na Austrália, um momento “histórico” para a indústria espacial deste país.

Tratou-se do primeiro de três lançamentos planeados do Centro Espacial Arnhem. O foguetão, carregando tecnologia comparável a um mini telescópio Hubble, foi lançado e ascendeu cerca de 350 quilómetros no céu nocturno do Outback australiano.

 

“É um momento importante para nós, como empresa em particular, mas é histórico para a Austrália”, disse à AFP Michael Jones, CEO da Equatorial Launch Australia, pouco antes da descolagem.

Jones, cuja companhia é proprietária e opera uma base de lançamentos no extremo norte da Austrália, descreveu o feito como uma “festa de inauguração” para a indústria espacial do país e ressaltou que a oportunidade de trabalhar com a NASA representava um marco para a indústria espacial comercial australiana.

Após uma série de atrasos por causa das condições climáticas, o foguetão de voo sub-orbital rasgou os céus para estudar os raios X que emanam dos sistemas Alpha Centauri A e B.

Após atingir seu apogeu, a carga útil do lançador deverá captar dados desses sistemas estelares antes de retornar à Terra.

De acordo com a NASA, o lançamento oferece um olhar único sobre esses sistemas distantes e abre uma janela de possibilidades para os cientistas.

“Estamos empolgados de poder lançar missões científicas importantes do hemisfério sul e observar objectos que não podemos dos Estados Unidos”, disse Nicky Fox, director da divisão de heliofísica da NASA, em Washington, no anúncio da missão.

Segundo Michael Jones, a localização única dificultou os preparativos, com anos de trabalho para obter aprovação do governo, existindo ainda a necessidade de transportar os foguetões em barcaças para o local de lançamento, que fica cerca de 28 horas de carro de Darwin, no norte da Austrália.

Este é o primeiro foguetão da NASA lançado da Austrália desde 1995, e o projecto foi aclamado pelo primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, como o início de uma “nova era” para a indústria espacial do país.

Diário de Notícias
DN/AFP
26 Junho 2022 — 18:52


 

1281: Mercúrio: Veja o que a missão BepiColombo nos mostrou agora… imagens incríveis

CIÊNCIA/TECNOLOGIA/UNIVERSO/MERCÚRIO

BepiColombo é uma missão conjunta da Agência Espacial Europeia (ESA) e da Agência Japonesa de Exploração Aerospacial (JAXA) de exploração do planeta Mercúrio. A nave, lançada para o espaço em 2018, captou na manhã desta quinta-feira imagens incríveis da superfície de Mercúrio.

Conforme podemos ver pelas fotos partilhadas, o planeta mais próximo do Sol foi fotografado enquanto a missão sobrevoava Mercúrio para uma manobra de assistência gravitacional, a cerca de 920 km acima da sua superfície.

Mercúrio como nunca o vimos com novas imagens da BepiColombo

A missão europeia-japonesa BepiColombo captou novas imagens de Mercúrio à medida que realiza a sua aproximação à órbita do planeta, uma operação com duração prevista até 2025. Os registos foram divulgados pela Agência Espacial Europeia (ESA) nesta sexta-feira (24).

Dei um murro no ar quando as primeiras imagens chegaram e depois fiquei cada vez mais excitado.

Este foi o comentário de Jack Wright, membro da equipa que gere a missão e que ajudou a planear as fotos no sobrevoo.

A excitação e emoção tomou conta dos cientistas responsáveis pelo projectos. Afinal não é todos os dias que se recebe um “cartão postal” enviado das proximidades de um vizinho no Sistema Solar a milhões de quilómetros de distância. Ainda menos com a clareza e definição das imagens que BepiColombo reenviou na quinta-feira, quando se encontrava a apenas algumas centenas de quilómetros da superfície do planeta, o planeta mais próximo do Sol.

A nave espacial da missão conjunta da ESA e da sua homóloga japonesa JAXA estava a 200 quilómetros de Mercúrio, embora esta marca tenha sido atingida no lado nocturno do planeta.

As primeiras imagens que mostram o nosso vizinho do Sistema Solar iluminado foram tiradas alguns minutos mais tarde, quando a nave espacial já estava a 800 quilómetros de distância.

No total, a BepiColombo filmou o planeta durante aproximadamente 40 minutos enquanto a nave continuava a afastar-se de Mercúrio como parte do seu voo programado.

Nesta operação de captação de imagem, as agências utilizaram as três câmaras de monitorização da nave espacial (MCAMs), que mostram instantâneos a preto e branco com uma resolução de 1024×1024 pixeis, dando uma vista da topografia da cratera de Mercúrio.

Na selecção de imagens partilhadas pela ESA, podem-se ver os 125 quilómetros de Heaney, bem como outras depressões tais como Neruda, Amaral, Beckett, Grainger e Sher-Gil.

Uma das imagens mais marcantes que a BepiColombo deixa para trás é a bacia de Caloris com 1.550 quilómetros de largura, que a nave espacial foi capaz de captar enquanto o Sol brilhava de cima.

Um dos objectivos da BepiColombo é, de facto, compreender melhor a composição das lavas vulcânicas em Caloris e arredores. Os cientistas acreditam que eles formaram cerca de 100 milhões de anos após a própria bacia, um facto que a ESA e a JAXA esperam agora lançar luz.

O voo desta semana é o segundo para a BepiColombo, que planeia completar seis flybys antes de chegar à órbita de Mercúrio em 2025. O próximo será daqui a um ano: está agendado para 20 de Junho de 2023.

A principal missão científica será lançada, se tudo correr de acordo com o plano e o calendário das agências espaciais for cumprido, no início de 2026.

As imagens da primeira passagem foram boas, mas as da segunda são melhores. Destacam muitos dos objectivos científicos que poderemos abordar quando a BepiColombo entrar em órbita. Quero compreender a sua história vulcânica e tectónica.

Explicou David Rothery da Universidade Aberta e chefe do Grupo de Trabalho de Composição e Superfície de Mercúrio da agência europeia.

A missão conjunta da ESA e da JAXA irá expandir os nossos conhecimentos sobre o nosso vizinho mais próximo do Sol, que já conhecemos graças ao programa Messenger da NASA, que orbitou Mercúrio entre 2011 e 2015, e Mariner 10, que também foi activado pela agência espacial americana e sobrevoou o planeta em meados dos anos setenta.

Embora muitos dos instrumentos da BepiColombo ainda não possam ser totalmente operados na actual fase da jornada, estes já revelam informações sobre ambiente magnético, plasma e partículas.

Pplware
Autor: Vítor M.
25 Jun 2022


 

1275: Cientistas identificam possível fonte para a calote vermelha de Caronte

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Cientistas do SwRI (Southwest Research Institute) combinaram dados da missão New Horizons da NASA com novas experiências laboratoriais e modelagem exosférica para revelar a composição provável da calote da lua de Plutão, Caronte, e como esta pode ter sido formada. Novas descobertas sugerem surtos sazonais drásticos na atmosfera fina de Caronte, combinados com a quebra ligeira de geada de metano, podem ser fundamentais para compreender as origens das zonas polares vermelhas de Caronte.
Crédito: NASA/APL de Johns Hopkins/SwRI

Cientistas do SwRI (Southwest Research Institute) combinaram dados da missão New Horizons da NASA com novas experiências laboratoriais e modelagem exosférica para revelar a provável composição da calote avermelhada da lua de Plutão, Caronte, e como esta pode ter sido formada.

Esta primeira descrição da atmosfera dinâmica de metano de Caronte, utilizando novos dados experimentais, fornece um fascinante vislumbre das origens da zona vermelha da lua, como descrita em dois artigos científicos recentes.

“Antes da New Horizons, as melhores imagens Hubble de Plutão revelaram apenas uma mancha difusa de luz refletida,” disse Randy Gladstone do SwRI, membro da equipa científica da sonda New Horizons.

“Para além de todas as características fascinantes descobertas na superfície de Plutão, a passagem rasante revelou uma característica invulgar em Caronte, uma surpreendente região avermelhada centrada no seu pólo norte.”

Logo após o encontro de 2015, os cientistas da New Horizons propuseram que um material avermelhado “semelhante a tolinas” no pólo de Caronte pudesse ser sintetizado por luz ultravioleta, quebrando as moléculas de metano. Estas são capturadas depois de escaparem de Plutão e então congeladas nas regiões polares da lua durante as suas longas noites de inverno.

As tolinas são resíduos orgânicos pegajosos formados por reacções químicas alimentadas pela luz, neste caso o brilho ultravioleta de Lyman-alpha espalhado por átomos de hidrogénio interplanetários.

“As nossas descobertas indicam que os drásticos surtos sazonais na fina atmosfera de Caronte, bem como a luz que decompõe a geada de metano, são fundamentais para compreender as origens da zona polar vermelha de Caronte,” disse o Dr. Ujjwal Raut do SwRI, autor principal do artigo publicado na revista Science Advances. “Este é um dos exemplos mais ilustrativos e marcantes das interacções superfície-atmosfera até agora observadas num corpo planetário.”

A equipa replicou realisticamente as condições da superfície de Caronte no CLASSE (Center for Laboratory Astrophysics and Space Science Experiments) do SwRI para medir a composição e a cor dos hidrocarbonetos produzidos no hemisfério de inverno de Caronte, à medida que o metano congela sob o brilho de Lyman-alpha. A equipa inseriu as medições num novo modelo atmosférico de Caronte para mostrar a decomposição do metano em resíduos na mancha polar norte de Caronte.

“As experiências de ‘fotólise dinâmica’ da nossa equipa proporcionaram novos limites à contribuição de Lyman-alpha interplanetária para a síntese do material vermelho de Caronte,” disse Raut. “A nossa experiência condensou metano numa câmara de vácuo sob exposição a fotões de Lyman-alpha para replicar com alta fidelidade as condições nos pólos de Caronte.”

Os cientistas do SwRI também desenvolveram uma nova simulação de computador para modelar a fina atmosfera de metano de Caronte.

“O modelo aponta para pulsações sazonais ‘explosivas’ na atmosfera de Caronte devido a mudanças extremas nas condições ao longo da grande viagem de Plutão em torno do Sol,” disse o Dr. Ben Teolis, autor principal de um segundo artigo publicado na revista Geophysical Research Letters.

A equipa introduziu os resultados das experiências ultra-realistas do SwRI no modelo atmosférico para estimar a distribuição de hidrocarbonetos complexos emergentes da decomposição do metano sob a influência da luz ultravioleta. O modelo tem zonas polares que geram principalmente etano, um material incolor que não contribui para uma cor avermelhada.

“Nós pensamos que a radiação ionizante do vento solar decompõe a geada polar Lyman-alpha ‘cozida’ para sintetizar materiais cada vez mais complexos e avermelhados responsáveis pelo albedo único nesta lua enigmática,” disse Raut. “O etano é menos volátil do que o metano e permanece congelado à superfície de Caronte muito depois do nascer-do-Sol da primavera.

A exposição ao vento solar pode converter o etano em depósitos persistentes na superfície avermelhada que contribuem para a calote vermelha de Caronte.”

“A equipa está preparada para investigar o papel do vento solar na formação da calote polar avermelhada,” disse o Dr. Josh Kammer do SwRI, que para tal já assegurou financiamento da NASA.

Astronomia On-line
24 de Junho de 2022


 

1269: Sondas Voyager da NASA estão a morrer, depois de quase 45 anos a viajar pelo Universo

CIÊNCIA/ESPAÇO/UNIVERSO/SONDAS

A NASA lançou as sondas Voyager em 1977 e com elas começou um ambicioso programa de descobrimento espacial com o objectivo de conhecer Júpiter e Saturno, assim como as suas respectivas luas. Mais tarde, esta missão foi ampliada com a inclusão das primeiras explorações de Úrano e Neptuno conseguindo mesmo ir mais além no espaço e orbitar Plutão. Em 1990, com os seus objectivos no sistema solar atingidos, iniciou-se um novo programa chamado Missão Interestelar Voyager.

Com quase 45 anos a ir onde nenhum outro elemento humano conseguiu ir, estas sondas estão a perder vapor após a maior aventura de sempre. Estamos perto do fim de uma era.

Corria o ano de 1977 e a NASA colocava no espaço a Voyager 1 e 2. Volvidas estas décadas sabemos hoje que nessa altura a agência espacial norte-americana estava a lançar a maior aventura jamais empreendida por uma sonda espacial não tripulada.

Viajando por todos os planetas exteriores (menos Plutão), as sondas transformaram fundamentalmente o nosso entendimento do sistema solar e de como ele surgiu. Mas a viagem interestelar das icónicas naves – que já dura há quase meio século – está a chegar ao fim.

De acordo com um relatório da Scientific American, está a ser iniciado o processo de desligar os sistemas das naves espaciais.

Nada feito pelos seres humanos viajou tanto quanto estas sondas. E prova que o espaço profundo acena à humanidade para dar os seus próximos passos num universo mais vasto.

Voyager 1 e 2 da NASA estão a ficar sem energia

Lançadas nos finais dos anos 70, as duas sondas empurraram a ambição humana para a exploração do espaço, e têm continuado a fazê-lo desde então. É impossível enfatizar em demasia o quão profundo no espaço estas sondas foram, viajando mais longe do planeta Terra do que qualquer objecto jamais construído pelos humanos.

Como tal, estes viajantes irão provavelmente manter o registo dos mais distantes objectos feitos pelo homem durante décadas, se não mesmo no século.

A decisão de cortar a energia ao mínimo foi tomada para prolongar a vida útil das sondas por mais alguns anos, com um prazo de corte suave estabelecido para 2030, de acordo com o relatório Scientific American. Mas não deve lá chegar!

Fizemos 10 vezes a garantia destas malditas coisas.

Disse o físico Ralph McNutt do Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins no relatório, com referência à longevidade sem precedentes das sondas, que se espera que durem pelo menos mais quatro curtos anos.

Embora incrível, isto não é uma surpresa total. Ambas as sondas são alimentadas com reactores de plutónio radioactivo, que mantêm uma fonte de energia quente para os minúsculos computadores de bordo que funcionam há décadas sem interrupção.

DISCO DE OURO: Cada Voyager leva consigo um disco de ouro (à esquerda) de sons e imagens da Terra no caso da nave ser interceptada por uma civilização extraterrestre. Os engenheiros colocam a tampa no disco da Voyager 1 antes do seu lançamento (à direita). Crédito: NASA/JPL-Caltech

Sondas Voyager são o primeiro passo da humanidade para um Universo mais vasto

Todos os anos, a energia nos sistemas das sondas está a diminuir em cerca de 4 watts, de acordo com o relatório. Isto significa que é necessário desligar progressivamente mais componentes e dispositivos à medida que o fornecimento de energia diminui.

Se tudo correr realmente bem, talvez possamos prolongar as missões até 2030.

Disse Linda Spilker, uma cientista planetária JPL que trabalhou no início das missões da Voyager, em 1977.

Depende apenas da energia. Esse é o ponto limitativo.

Acrescentou Spilker.

A principal missão das sondas era fazer um voo dos gigantes do gás, Júpiter e Saturno – e fizeram-no com cores voadoras (literalmente), enviando as primeiras imagens de perto e detalhadas de Europa, Ganimedes, Titã, e muito mais. Mas talvez a imagem mais significativa tenha levado mais de uma década a concretizar-se.

Em 1990, a Voyager 1 captou uma imagem da Terra, a 4,8 mil milhões de quilómetros de distância do Sol.

PEQUENO ESPECTRO: Entre as últimas fotografias da Voyager 1 estava esta fotografia da Terra vista a 4,8 mil milhões de quilómetros de distância, apelidada de “Pale Blue Dot” pelo cientista da Voyager Carl Sagan. Crédito: NASA/JPL-Caltech

Popularizado pelo falecido astrónomo Carl Sagan, o “ponto azul pálido” serviu para expor quão pequena e frágil é realmente toda a nossa existência – desde as guerras da civilização antiga, a nossa pequena grandeza política, a exploração do ecossistema do planeta, e toda a nossa viagem evolutiva até aos dias de hoje. Estava tudo ali, num pequeno cisco azul num universo aparentemente infinito, negro e indiferente.

Se há uma coisa que devemos pensar nas sondas icónicas, é isto: a raça humana existiu por um piscar de olhos muito pequeno na história do universo, num planeta minúsculo e frágil que não vai ficar aqui por muito tempo. E há todo um universo que nos convida a sair das nossas zonas de conforto de arrogância humana, e a entrar na maior aventura de sempre.

As Voyager 1 e 2 são e serão o nosso primeiro passo provisório para a vida adulta cósmica, como uma população jovem de seres sencientes.

Pplware
Autor: Vítor M
23 Jun 2022


 

1249: Novas imagens, utilizando dados de telescópios aposentados, revelam características ocultas

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

A Grande Nuvem de Magalhães é um satélite da Via Láctea, contendo cerca de 30 mil milhões de estrelas. Vista aqui no infravermelho distante e no rádio, a poeira fria e quente da Grande Nuvem de Magalhães é mostrada a verde e azul, respectivamente, com o gás hidrogénio a vermelho.
Crédito: ESA/NASA/JPL-Caltech/CSIRO/C. Clark (STScI)

Novas imagens utilizando dados de missões da ESA e da NASA mostram a poeira que preenche o espaço entre as estrelas em quatro das galáxias mais próximas da nossa própria Via Láctea. Mais do que impressionantes, as fotos são também um tesouro científico, dando uma ideia de como a densidade das nuvens de poeira pode variar drasticamente dentro de uma galáxia.

Com uma consistência semelhante à do fumo, a poeira é criada por estrelas moribundas e é um dos materiais que formam novas estrelas. As nuvens de poeira observadas pelos telescópios espaciais são constantemente moldadas pela explosão de estrelas, ventos estelares e pelos efeitos da gravidade.

Quase metade de toda a luz das estrelas no Universo é absorvida pela poeira. Muitos dos elementos químicos pesados essenciais à formação de planetas como a Terra estão presos em grãos de poeira no espaço interestelar. Assim, a compreensão da poeira é uma parte essencial da compreensão do nosso Universo.

As novas observações foram possíveis através do trabalho do Observatório Espacial Herschel da ESA, que operou de 2009 a 2013. O JPL da NASA, no sul da Califórnia, EUA, contribuiu com peças-chave de dois instrumentos na nave espacial. Os instrumentos super-frios do Herschel foram capazes de detectar o brilho térmico da poeira, que é emitido como luz infravermelha distante, uma gama de comprimentos de onda mais longos do que o que os olhos humanos conseguem detectar.

As imagens da poeira interestelar, pelo Herschel, fornecem vistas de alta resolução de detalhes finos nestas nuvens, revelando intrincadas subestruturas. Mas a forma como o telescópio espacial foi concebido significava que muitas vezes não conseguia detectar a luz de nuvens mais espalhadas e difusas, especialmente nas regiões exteriores das galáxias, onde o gás e a poeira se tornam esparsos e, portanto, mais ténues.

Para algumas galáxias próximas, isso significava que o Herschel perdia até 30% de toda a luz emitida pela poeira. Com uma lacuna tão significativa, os astrónomos esforçavam-se por utilizar os dados do Herschel para compreender como a poeira e o gás se comportavam nestes ambientes.

Para preencher os mapas de poeira do Herschel, as novas imagens combinam dados de três outras missões: o aposentado Observatório Planck da ESA, juntamente com duas missões da NASA igualmente reformadas, o IRAS (Infrared Astronomical Satellite) e o COBE (Cosmic Background Explorer).

As imagens mostram a Galáxia de Andrómeda, também conhecida como M31; a galáxia do Triângulo, ou M33; e a Grande e Pequena Nuvem de Magalhães – galáxias anãs que orbitam a Via Láctea que não têm a estrutura espiral das galáxias de Andrómeda e do Triângulo. Todas as quatro estão a menos de 3 milhões de anos-luz da Terra.

Nas imagens, o vermelho indica o gás hidrogénio, o elemento mais comum no Universo. Estes dados foram recolhidos utilizando múltiplos radiotelescópios localizados em todo o globo. A imagem da Grande Nuvem de Magalhães mostra uma cauda vermelha a sair em baixo e à esquerda, que foi provavelmente criada quando colidiu com a Pequena Nuvem de Magalhães há cerca de 100 milhões de anos.

As bolhas de espaço vazio indicam regiões onde as estrelas se formaram recentemente, porque ventos intensos das estrelas recém-nascidas sopram a poeira e o gás circundantes. A luz verde à volta das orlas dessas bolhas indica a presença de poeira fria que se acumulou como resultado destes ventos. A poeira mais quente, vista a azul, indica onde as estrelas estão a formar-se ou outros processos que aqueceram a poeira.

Muitos elementos pesados na natureza – incluindo carbono, oxigénio e ferro – podem ficar presos a grãos de poeira e a presença de elementos diferentes muda a forma como a poeira absorve a luz das estrelas. Isto, por sua vez, afecta a visão que os astrónomos têm de eventos como a formação estelar.

Nas nuvens mais densas de poeira, quase todos os elementos pesados podem ficar presos em grãos de poeira, o que aumenta a relação poeira-gás. Mas em regiões menos densas, a radiação destrutiva das estrelas recém-nascidas ou as ondas de choque da explosão de estrelas esmaga os grãos de poeira e devolve alguns desses elementos pesados trancados de volta ao gás, alterando mais uma vez a proporção.

Os cientistas que estudam o espaço interestelar e a formação estelar querem compreender melhor este ciclo contínuo. As imagens do Herschel mostram que a relação poeira-gás pode variar dentro de uma única galáxia até um factor de 20, muito mais do que anteriormente estimado.

“Estas imagens melhoradas do Herschel mostram-nos que os ‘ecossistemas’ de poeira nestas galáxias são muito são muito dinâmicos,” disse Christopher Clark, astrónomo do STScI (Space Telescope Science Institute) em Maryland, que liderou o trabalho de criação das novas imagens.

Astronomia On-line
21 de Junho de 2022


 

1227: Rover da NASA descobriu lixo em Marte

CIÊNCIA/TECNOLOGIA/MARTE

Conforme temos vindo a ser avisados, a Terra está inegavelmente poluída e os milhares de milhões de pessoas do mundo produzem uma quantidade inimaginável de lixo. Aparentemente, não nos ficamos apenas pelo no nosso planeta e também já foram encontrados vestígios em Marte.

Aparentemente, o Perseverance da NASA já deixou a sua marca.

O rover Perseverance da NASA rumou a Marte para descobrir mais acerca do planeta vermelho e, se possível, encontrar evidência sobre vida. No entanto, enquanto procurava vida microbiana, o rover avistou lixo originado pela aterragem de um objecto.

Aparentemente, esse vestígio é material térmico que a NASA usou para proteger o Perseverance de temperaturas extremas enquanto ele viajar para Marte e entrava na atmosfera marciana. Os seres humanos já deixaram, no planeta vermelho, sinais de exploração.

A minha equipa detectou algo inesperado: é um pedaço de cobertor térmico que pensam ter vindo do momento da minha descida, a mochila a jacto movida a foguetes que me fez descer no dia da aterragem em 2021.

Disse a NASA, num tweet feito a partir da conta do Perseverance.

A agência espacial está na dúvida relativamente à trajectória que o lixo percorreu. Isto, porque pode ter aterrado naquele exacto local ou ter chegado lá com a ajuda do vento. Aliás, esta foi uma questão levantada pela própria NASA.

Os vestígios deixados por Marte foram, então, deixados pelo Perseverance, pois, em Fevereiro de 2021, ao descer, a nave que segurava o rover descartou uma panóplia de instrumentos e objectos, incluindo o tal cobertor térmico, um para-quedas supersónico e uma grua que permitiu que o Perseverance pousasse na superfície de Marte. Portanto, este lixo encontrado agora não é de estranhar.

Pplware
Autor: Ana Sofia Neto
17 Jun 2022


 

1193: Rover Curiosity da NASA descobriu formas bizarras em Marte

CIÊNCIA/TECNOLOGIA/MARTE

Marte é um planeta ainda misterioso, pouco conhecido e cheio de locais com muito interesse. Os habitantes do planeta, os robôs da Terra, palmilham lentamente e descobrem formas bizarras que o tempo esculpiu no solo. Há dias vimos uma porta escavada nas rochas e agora o rover da NASA, o Curiosity, descobriu umas formas bizarras, uma escultura em forma de espigões, que acicatam a curiosidade dos investigadores.

Estas novas formas naturais levantam algumas questões que ajudam a perceber o que se passou no planeta, em tempos que se suspeitava ter água em abundância.

Estranhos espigões brotam do solo de Marte

O rover Curiosity da NASA detectou mais formações rochosas estranhas em Marte, desta vez com a forma de caules de plantas sinuosas, de acordo com uma fotografia recente publicada na base de dados de imagens em bruto da missão.

O rover fotografou as esculturas marcianas naturais a 15 de maio, apenas uma semana depois de ter encontrado uma bizarra fractura rochosa que provocou um espanto mediático porque se assemelha a uma porta alienígena.

Os “espigões” estreitos de rocha na nova imagem são provavelmente “os preenchimentos cimentados de fracturas antigas numa rocha sedimentar”, segundo o Search for Extraterrestrial Intelligence (SETI) Institute, uma organização de investigação sem fins lucrativos fundada para caçar vida extraterrestre.

Estes recheios são as últimas partes remanescentes de uma estrutura rochosa maior que tem sofrido erosão ao longo dos anos, disse o instituto num tweet.

NASA: Curiosity continua a sua missão para descobrir o planeta vermelho

A recente inundação de imagens interessantes extraterrestres é um lembrete de que o Curiosity ainda faz novas descobertas à medida que sobe a encosta de uma montanha marciana, quase dez anos depois de ter aterrado no planeta vermelho.

Para além deste rover, Marte é o lar de duas outras missões de superfície operacionais da NASA: Perseverance, outro rover que está actualmente a recolher amostras que, segundo se espera, serão devolvidas à Terra um dia, e o InSight, um terrestre que provavelmente irá morrer em breve.

A China também está a explorar a superfície marciana com o seu rover Zhurong, que também já encontrou a sua quota-parte de rochas estranhas desde que aterrou no planeta no ano passado.

Pplware
Autor: Vítor M.


 

1183: O rover Perseverance da NASA estuda os ventos selvagens da Cratera Jezero

CIÊNCIA/ASTRONOMIA/MARTE

O rover Perseverance da NASA utilizou a sua câmara de navegação para capturar estes diabos de poeira que rodopiam pela Cratera de Jezero a 20 de Julho de 2021, o 148.º dia marciano, ou sol, da missão.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/SSI

Os sensores meteorológicos do rover Perseverance testemunharam redemoinhos diários, e mais, enquanto estudavam o Planeta Vermelho.

Durante o seu primeiro par de centenas de dias na Cratera Jezero, o rover Perseverance da NASA viu alguma da actividade mais intensa de poeira jamais testemunhada por uma missão enviada para a superfície do Planeta Vermelho. Não só o rover detectou centenas de redemoinhos de poeira chamados diabos de poeira, como o Perseverance capturou o primeiro vídeo de rajadas de vento a levantar uma enorme nuvem de poeira marciana.

Um artigo recentemente publicado na revista Science Advances detalha os fenómenos meteorológicos observados nos primeiros 216 dias marcianos, ou sols. Os novos achados permitem aos cientistas compreender melhor os processos de poeira em Marte e contribuir para um corpo de conhecimentos que poderá um dia ajudá-los a prever as tempestades de poeira pelas quais Marte é famoso – e que constituem uma ameaça para os futuros exploradores robóticos e humanos.

“De cada vez que aterramos num novo lugar em Marte, é uma oportunidade de melhor compreender o tempo do planeta,” disse a autora principal do artigo, Claire Newman da Aeolis Research, uma empresa de investigação centrada nas atmosferas planetárias. Ela acrescentou que pode haver meteorologia mais excitante a caminho: “Tivemos uma tempestade de poeira regional mesmo em cima de nós em Janeiro, mas ainda estamos a meio da estação da poeira, por isso é muito provável que vejamos mais tempestades.”

O Perseverance fez estas observações principalmente com as câmaras do rover e um conjunto de sensores pertencentes ao MEDA (Mars Environmental Dynamics Analyzer), um instrumento científico liderado pelo Centro de Astrobiologia da Espanha em colaboração com o Instituto Meteorológico Finlandês e o JPL da NASA no sul da Califórnia. O MEDA inclui sensores de vento, sensores de luz que podem detectar redemoinhos à medida que dispersam luz solar à volta do rover e uma câmara apontada para o céu para captar imagens de poeira e nuvens.

“A Cratera Jezero pode estar numa das fontes de poeira mais activas do planeta,” disse Manuel de la Torre Juarez, investigador principal adjunto do MEDA no JPL. “Tudo o que aprendermos sobre a poeira será útil para futuras missões.”

Redemoinhos frequentes

Os autores do estudo descobriram que pelo menos quatro redemoinhos passam pelo Perseverance num típico dia marciano e que mais de um por hora passa durante um período de pico logo após o meio-dia.

As câmaras do rover também documentaram três ocasiões nas quais rajadas de vento levantaram grandes nuvens de poeira. O maior destes eventos criou uma enorme nuvem cobrindo 4 quilómetros quadrados. O artigo estimou que estas rajadas de vento podem levantar, colectivamente, tanta ou mais poeira do que os redemoinhos, redemoinhos estes que existem em muitos maiores números.

Esta série de imagens de uma câmara de navegação a bordo do rover Perseverance rover da NASA mostra uma rajada de vento a varrer a planície marciana para além dos trilhos do rover no dia 18 de Junho de 2021 (o 117.º sol, ou dia marciano, da missão). A nuvem de poeira neste GIF foi estimada em 4 quilómetros quadrados de tamanho; foi a primeira nuvem de poeira marciana desta escala alguma vez capturada em imagens.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/SSI

“Pensamos que estas rajadas são pouco frequentes, mas podem ser responsáveis por uma grande fracção da poeira de fundo que paira constantemente na atmosfera marciana,” disse Newman.

Porque é que Jezero é diferente?

Embora o vento e a poeira sejam prevalecentes por todo o planeta Marte, o que os investigadores estão a encontrar parece destacar Jezero. Esta maior actividade pode estar ligada ao facto de a cratera estar perto do que Newman descreve como uma “pista de tempestades de poeira” que corre de norte a sul ao longo do planeta, levantando frequentemente poeira durante a época de tempestades de poeira.

Newman acrescentou que a maior actividade em Jezero pode dever-se a factores como a rugosidade da sua superfície, o que pode facilitar com que o vento levante poeira. Esta pode ser uma explicação para que o módulo InSight da NASA – em Elysium Planitia, a cerca de 3452 km de distância da cratera Jezero – ainda esteja à espera que um diabo marciano limpe os seus painéis solares carregados de poeira, enquanto o Perseverance já mediu a remoção de poeira da superfície próxima por vários redemoinhos passageiros.

“O Perseverance é nuclear, mas se tivéssemos ao invés painéis solares, provavelmente não teríamos de nos preocupar com a acumulação de poeira,” disse Newman. “Geralmente há mais levantamento de poeira na Cratera Jezero, embora a velocidade média do vento seja aí mais baixa e a velocidade do vento no pico e a criatividade dos redemoinhos sejam comparáveis a Elysium Planitia.”

Na verdade, o levantamento de poeira em Jezero tem sido mais intenso do que a equipa teria desejado: a areia transportada nos redemoinhos danificou os dois sensores de vento do MEDA. A equipa suspeita que os grãos de areia danificaram os finos fios dos sensores de vento, que se destacam do mastro do Perseverance.

Estes sensores são particularmente vulneráveis porque têm que permanecer expostos ao vento a fim de o medir correctamente. Os grãos de areia soprados pelo vento, e provavelmente transportados em redemoinhos, também danificaram um dos sensores de vento do rover Curiosity (o outro sensor de vento do Curiosity foi danificado por detritos levantados durante a sua aterragem na Cratera Gale).

Tendo em mente os danos do Curiosity, a equipa do Perseverance acrescentou um revestimento protector adicional aos fios do MEDA. No entanto, a meteorologia de Jezero ainda levou a melhor. De la Torre Juarez disse que a equipa está a testar alterações de software que deverão permitir com que os sensores de vento continuem a funcionar.

“Recolhemos muitos dados científicos,” disse de la Torre Juarez. “Os sensores de vento estão gravemente afectados, ironicamente, porque conseguimos obter aquilo que queríamos medir.”

Astronomia On-line
7 de Junho de 2022


 

1179: NASA deu a conhecer os seus novos fatos espaciais de próxima geração

TECNOLOGIA/ESPAÇO/NASA

O ambiente inóspito do espaço exige que aqueles que o visitam estejam altamente equipados, garantindo a sua sobrevivência. Então, a NASA revelou, recentemente, os novos fatos espaciais que serão utilizados pelos seus astronautas.

O equipamento está equipado com tecnologia de próxima geração e foi desenvolvido tendo em mente as futuras missões Artemis e outras à Estação Espacial Internacional (em inglês, ISS).

Os astronautas da NASA vão receber novos fatos espaciais. Com o selo da Axiom Space, uma empresa privada de desenvolvimento de infra-estruturas espaciais, e da Collins Aerospace, um fornecedor de produtos aeroespaciais, os novos fatos de próxima geração garantirão que os tripulantes estão seguros, mas também confortáveis.

Aliás, num comunicado de imprensa divulgado em maio, a NASA exigiu que o vestuário permitisse que os humanos “explorassem a superfície lunar e desbloqueassem novas capacidades de passeios espaciais fora da ISS”. Para a agência espacial americana, esta é “uma parte crítica do avanço da exploração humana no espaço e a demonstração da liderança americana contínua”.

Protótipo de fato espacial apresentado pela NASA, em 2019. Entretanto, devido a questões financeiras, problemas técnicos e outros entraves associados à COVID-19, o seu desenvolvimento foi sendo adiado, até à proposta da NASA, em Abril de 2021, para que empresas privadas desenvolvessem os seus novos fatos espaciais.

A Collins Aerospace revelou que os novos fatos espaciais, que estarão prontos para testes dentro de poucos anos, adoptam uma dinâmica mais moderna e mais desportiva. De acordo com a NASA, estão preparados para acomodar qualquer tipo de corpo.

Quando chegarmos à Lua, teremos a nossa primeira pessoa de cor e a nossa primeira mulher que usará e utilizará estes fatos no espaço.

Disse Vanessa Wyche, directora do Johnson Space Center da NASA, em Houston.

NASA pretende fatos de qualidade para os seus astronautas

A agência espacial americana tem vindo a trabalhar na tecnologia dos fatos espaciais nos últimos 15 anos, tendo investido mais de 420 milhões de dólares no projecto, desde 2021. Esta renovação surge pela necessidade de a NASA renovar os fatos espaciais que “excederam em mais de 25 anos a sua vida útil de concepção”. O investimento milionário justifica-se por ser precisa “manutenção dispendiosa para garantir a segurança dos astronautas”.

A tecnologia dos fatos espaciais, no entanto, aos 40 anos está agora a envelhecer, e por isso gostaríamos de experimentar novas tecnologias.

Disse Dina Centella, gerente de integração de operações da estação espacial da NASA.

Em breve – e servirão também para isso estes novos fatos -, a NASA pretende riscar mais dois objectivos: aterrar a primeira mulher e a primeira pessoa de cor na superfície da Lua.

Pplware
Autor: Ana Sofia Neto
07 Jun 2022


 

1128: Geologia a 50 anos-luz: o Webb prepara-se para estudar mundos rochosos

CIÊNCIA/ASTRONOMIA/GEOLOGIA

Ilustração que mostra como poderia ser o exoplaneta 55 Cancri e, com base no entendimento actual do planeta. 55 Cancri e é um planeta rochoso com um diâmetro quase duas vezes superior ao da Terra orbitando a apenas 0,015 unidades astronómicas da sua estrela parecida com o Sol. Devido à sua órbita íntima, o planeta é extremamente quente, com temperaturas diurnas que atingem cerca de 2400 graus Celsius.
Crédito: NASA, ESA, CSA, Dani Player (STScI)

Com os seus segmentos do espelho totalmente alinhados e os seus instrumentos científicos em calibração, o Telescópio Espacial James Webb da NASA está a poucas semanas de ficar totalmente operacional. Logo após as primeiras observações serem reveladas este verão, terá início a ciência profunda do Webb.

Entre as investigações planeadas para o primeiro ano estão estudos de dois exoplanetas quentes classificados como “super-Terras” pelo seu tamanho e composição rochosa: 55 Cancri e, coberto de lava, e LHS 3844 b. Os investigadores vão treinar os espectrógrafos de alta precisão do Webb nestes planetas com vista a compreender a diversidade geológica dos planetas pela Galáxia e a evolução de planetas rochosos como a Terra.

A super-quente super-Terra 55 Cancri e

55 Cancri e orbita a menos de 2,4 milhões de quilómetros da sua estrela parecida com o Sol (1/25 da distância entre Mercúrio e o Sol), completando uma órbita em menos de 18 horas. Com temperaturas de superfície muito acima do ponto de fusão de minerais típicos que formam rochas, pensa-se que o lado diurno do planeta esteja coberto por oceanos de lava.

Presume-se que os planetas que orbitam tão perto da sua estrela tenham bloqueio de maré, com um lado virado permanentemente para a estrela. Como resultado, o ponto mais quente do planeta deve ser aquele que enfrenta a estrela mais directamente, e a quantidade de calor proveniente do lado diurno não deve mudar muito ao longo do tempo.

Mas este não parece ser o caso. As observações de 55 Cancri e pelo Telescópio Espacial Spitzer da NASA sugerem que a região mais quente não é a parte que enfrenta a estrela mais directamente, enquanto que a quantidade total de calor detectada a partir do lado diurno varia.

Será que 55 Cancri e tem uma atmosfera espessa?

Uma explicação para estas observações é que o planeta tem uma atmosfera dinâmica que move o calor. “55 Cancri e poderia ter uma atmosfera espessa dominada por oxigénio ou azoto,” explicou Renyu Hu do JPL da NASA, no sul do estado norte-americano da Califórnia, que lidera uma equipa que vai utilizar o NIRCam (Near-Infrared Camera) do Webb e o MIRI (Mid-Infrared Instrument) para capturar o espectro de emissões térmicas do lado diurno do planeta. “Se tiver uma atmosfera, [o Webb] tem a sensibilidade e o alcance de comprimento de onda para a detectar e determinar do que é feita,” acrescentou Hu.

Ou será que chove lava à noite em 55 Cancri e?

Outra possibilidade intrigante, no entanto, é que 55 Cancri e não tem bloqueio de maré. Ao invés, pode ser como Mercúrio, girando três vezes por cada duas órbitas (o que é conhecido como uma ressonância 3:2). Como resultado, o planeta teria um ciclo dia-noite.

“Isso poderia explicar porque é que a parte mais quente está deslocada,” explicou Alexis Brandeker, investigador da Universidade de Estocolmo que lidera a outra equipa que estuda o planeta. “Tal como na Terra, levaria tempo para que a superfície aquecesse. A hora mais quente do dia seria à tarde, não ao meio-dia.”

A equipa de Brandeker planeia testar esta hipótese usando o NIRCam para medir o calor emitido pelo lado iluminado de 55 Cancri e durante quatro órbitas diferentes. Se o planeta tiver uma ressonância de 3:2, vão observar cada hemisfério duas vezes e deverão ser capazes de detectar qualquer diferença entre os hemisférios.

Neste cenário, a superfície aqueceria, derreteria e até seria vaporizada durante o dia, formando uma atmosfera muito fina que o Webb poderia detectar. À noite, o vapor arrefeceria e condensar-se-ia para formar gotículas de lava que choveriam de volta para a superfície, tornando-a sólida novamente à medida que a noite cai.

A menos quente super-Terra LHS 3844 b

Ao passo que 55 Cancri e fornecerá informações sobre a geologia exótica de um mundo coberto de lava, LHS 3844 b oferece uma oportunidade única para analisar a rocha sólida numa superfície exoplanetária.

Como 55 Cancri e, LHS 3844 b orbita extremamente perto da sua estrela, completando uma revolução em 11 horas. No entanto, como a sua estrela é relativamente pequena e fria, o planeta não é suficientemente quente para que a superfície esteja derretida. Além disso, as observações do Spitzer indicam que é muito pouco provável que o planeta tenha uma atmosfera substancial.

De que é feita a superfície de LHS 3844 b?

Embora não possamos fotografar a superfície de LHS 3844 b directamente com o Webb, a falta de uma atmosfera obscura torna possível o estudo da superfície com espectroscopia.

“Acontece que diferentes tipos de rochas têm diferentes espectros,” explicou Laura Kreidberg no Instituto Max Planck para Astronomia. “Pode-se ver com os olhos que o granito é de cor mais clara do que o basalto.” Existem diferenças semelhantes na luz infravermelha que as rochas emitem.”

A equipa de Kreidberg vai utilizar o MIRI para capturar o espectro de emissão térmica do lado diurno de LHS 3844 b e depois compará-lo com espectros de rochas conhecidas, como o basalto e o granito, para determinar a sua composição. Se o planeta for vulcanicamente activo, o espectro poderá também revelar a presença de vestígios de gases vulcânicos.

A importância destas observações vai muito além de apenas dois dos mais de 5000 exoplanetas confirmados. “Eles vão dar-nos novas perspectivas fantásticas sobre planetas semelhantes à Terra no geral, ajudando-nos a aprender como poderia ter sido a Terra primitiva quando estava quente como estes planetas estão hoje,” disse Kreidberg.

Estas observações de 55 Cancri e e LHS 3844 b serão realizadas como parte do programa de Observadores Gerais do Ciclo 1 do Webb. Os programas de Observadores Gerais foram seleccionados competitivamente usando um sistema de revisão anónimo, o mesmo sistema usado para atribuir tempo no Hubble.

Astronomia On-line
31 de Maio de 2022