254: A face oculta das redes sociais

OPINIÃO

Em 2018, o Facebook introduziu alterações ao seu algoritmo de recomendação, que selecciona o que vemos nos nossos feeds. Depois disso, revelou uma investigação interna da empresa, a informação publicada passou a chegar a menos pessoas, a não ser que tivesse um tom zangado e enraivecido. A equipa do Facebook que investigou esta situação esteve na Polónia a conversar com os partidos políticos, os quais se referiram a uma “guerra civil social” online, onde não conseguem afirmar-se sem usar linguagem extremista e um tom altamente negativo.

O facto de o Instagram poder causar problemas de saúde mental, relacionados com a imagem corporal e o comportamento alimentar (anorexia, por exemplo) em adolescentes, foi também uma das conclusões da análise interna do Facebook.

Nesta semana, no Parlamento Europeu, tivemos oportunidade de discutir estes e outros problemas com Frances Haugen, que divulgou os chamados Facebook Papers. Assistimos a um bom exemplo de democracia parlamentar: de um lado, deputados bem preparados para questionar e, do outro, uma especialista com conhecimento profundo do assunto para lhes responder.

Os pormenores divulgados por Haugen provam a necessidade de abrir as caixas negras que hoje são as redes sociais, através de auditorias e acesso a dados por parte de investigadores.

Ficou também demonstrado que são precisas regulação e supervisão fortes. As plataformas não corrigem os seus comportamentos actuais por si mesmas. Na verdade, os Facebook Papers mostram que a empresa, que mudou de nome recentemente para Meta, tem um conhecimento extenso sobre os danos individuais e sociais causados pelo seu modelo de negócio, mas não fez nada para os limitar.

Foram ainda aventadas soluções que passam por redes mais lentas, ao ritmo humano para poderem ser mais bem monitorizadas, com mais conteúdos de pessoas próximas e menos alcance de publicações de desconhecidos. Seria também importante que as plataformas realizassem auditorias internas e avaliações de impacto antes de implementarem alterações aos seus produtos, para garantir a segurança dos utilizadores. Tudo isto vem referido nos documentos internos do próprio Facebook agora revelados!

A União Europeia é líder global na regulação dos mercados digitais e dos direitos dos seus utilizadores. Contudo, falta ganhar a batalha da sua efectividade. Haverá, seguramente, uma enorme disputa entre as grandes empresas tecnológicas e os seus reguladores, com desvantagens destes relativamente àquelas.

São as grandes empresas tecnológicas que conhecem os seus produtos, controlam o acesso aos dados gerados pela sua utilização e dispõem dos melhores especialistas, tanto para inovar, como para fazer a chamada “aplicação criativa” da lei, ou seja, para a contornar. Por isso, faz sentido a sugestão de Frances Haugen para que na União se crie um único regulador, centralizado, com recursos capazes de rivalizar com os das big tech, em vez de se fragmentar aplicação dos regulamentos por 27 reguladores nacionais.

“Vejo uma luz no que a UE está a fazer. As plataformas têm demasiado poder para não serem controladas”, afirmou Frances Haugen, e o mundo é hoje demasiado digital para que nele vivamos às escuras. Por isso a face oculta das redes sociais tem de ser iluminada.

Eurodeputada

Diário de Notícias
Maria Manuel Leitão Marques
12 Novembro 2021 — 00:07