“Nunca tivemos um contraste tão grande entre a riqueza de uns e a miséria de muitos outros”

– Um título que demonstra bem a realidade triste deste país… Os pobres andam a encher a pança aos ricos!

ENTREVISTA

“Humanidades para a sustentabilidade” é o título da última palestra do ciclo Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento organizado pelo Instituto de Altos Estudos da Academia das Ciências de Lisboa. A conferência de Maria Fernanda Rollo, professora na Universidade Nova de Lisboa, pode ser vista esta terça-feira por zoom às 18.00 horas.

© Carlos Pimentel/Global Imagens

Está optimista em relação ao cumprimento dos objectivos do desenvolvimento sustentável, apesar de estarmos numa terceira crise global consecutiva, a criada pela guerra na Ucrânia, depois de termos enfrentado a pandemia da covid-19 e a crise financeira?
Os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável representam um enunciado, portador de atributos fundamentais de universalidade e transversalidade, constituindo um instrumento poderoso de consciencialização, inspiração, escrutínio, orientação, compromisso e mesmo de esperança. Como salientava o então secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, “São uma lista das coisas a fazer em nome dos povos e do planeta, e um plano para o sucesso”. Essa lista de coisas tem a assinatura – o compromisso – dos líderes mundiais, e resultou de várias acções que a precederam, frustradas ou bem-sucedidas, e de uma dinâmica de diálogo e convergência, prosseguindo uma metodologia que a reforça. Será, então, de nos perguntarmos se a prossecução dos proclamados objectivos não será um meio no sentido da mitigação, superação ou mesmo de revogação das sucessivas e diversas crises e circunstâncias que refere. De resto, a Agenda diagnostica, traça caminhos, define prioridades, estabelece metas. Na realidade, convocar o propósito de Transformar o nosso mundo é o reconhecimento colectivo da necessidade de mudar algo que estava/está a correr mal. A Agenda comum representa a consciência da interdependência entre as pessoas, os países, entre si e com o planeta que habitam, detendo por isso essa qualidade catalisadora, congregando a simultaneidade do apelo e da consciencialização quanto à gravidade e a universalidade da questão com a formulação de um enunciado positivo, simultaneamente global e individual.

Apesar de tudo, tem havido progressos nas condições de vida da humanidade? A ciência e tecnologia têm ajudado mais que as políticas?
Tem havido muitos progressos, mas é evidente a sua insuficiência e a enorme desigualdade que subsiste devendo salientar-se a generalizada pressão gerada em termos ambientais. A ciência, e todo o ecossistema associado, tem tido uma contribuição determinante e verdadeiramente transversal – devemos à ciência a superação da pandemia da covid-19. É inquestionável a sua relevância e o que poderá proporcionar, designadamente em termos de transição global para a sustentabilidade. Certo, porém, a insuficiência de meios que muitas vezes lhe são atribuídos, sendo indispensável reunir condições estáveis e previsíveis que garantam a sua renovação persistente e tudo isso requer uma articulação eficiente e políticas públicas adequadas. Por outras palavras, é grande a desproporção entre os meios concedidos à ciência e a escala dos desafios globais que só poderão ser superados com a sua contribuição. Refiro-me evidentemente a todas as áreas científicas, importando sublinhar a indispensabilidades das ciências sociais, das humanidades e das artes para interpretar e fazer face aos complexos problemas que em todos os domínios afectam a nossa sociedade e a sua relação com o planeta.

As diferenças de desenvolvimento económico são o maior entrave a uma acção conjunta dos países contra ameaças como o aquecimento global?
As diferenças, e sobretudo a concorrência exacerbada e a natureza das suas ambições. O actual modelo de desenvolvimento económico encerra e tem gerado enormes desequilíbrios. Veja-se como a pandemia veio uma vez mais colocar em evidência assimetrias e desigualdades, expondo as fragilidades do sistema e, pela primeira vez nos tempos mais recentes, ligando crises ecológicas e de saúde. Nunca tivemos uma sociedade com tanta desigualdade e um contraste tão grande entre a riqueza e opulência de uns e a miséria de muitos outros, compreendendo nessa percepção de assimetrias não apenas as dimensões económica, social, cultural, política mas também ambiental ou dos níveis de poluição. Ou seja, simplificando, os mais ricos são realmente os mais poluentes. Data de há muitas décadas essa consciência e são múltiplos os alertas chamando a atenção para os Limites do Crescimento usando o título do livro que em 1972 confrontou as consequências do crescimento rápido da população mundial considerando os recursos naturais limitados. Sucedem-se os alertas, sem esquecer o emblemático Nosso Futuro Comum (Our Common Future) publicado em 1987, coordenado pela então primeira-ministra da Noruega indicando que a pobreza dos países do então designado ‘terceiro mundo’ e o consumismo elevado dos países do ‘primeiro’ eram causas fundamentais que impediam um desenvolvimento igualitário no mundo e, consequentemente, produziam graves crises ambientais. E dava muita informação sobre aquecimento global, chuvas ácidas, perda da biodiversidade. A ONU tem retomado e ampliado essas preocupações, assumindo-as como sua missão global e universal. Na prática tem sido o caminho para a Agenda 2030.

A Europa tem condições para liderar o mundo na busca do desenvolvimento sustentável?
A Europa pode ter um papel muito importante e os sinais para o assumir são muito explícitos. Refira-se a impressionante declaração e as orientações políticas de Ursula von der Leyen, proclamando a ambição de Passarmos a ser o primeiro continente neutro do ponto de vista climático é o maior desafio e a maior oportunidade da nossa era. Para isso, temos de tomar medidas decisivas e imediatas. A Proposta de Recomendação do Conselho sobre aprendizagem para a sustentabilidade ambiental de Janeiro passado é muito assertiva quanto ao diagnóstico da situação e à missão que cumpre à EU enunciando medidas concretas para o seu cumprimento. Palavras fortes, chamando a atenção para o momento crítico que vivemos, e como a acção humana quase nos levou a causar danos irreparáveis ao nosso planeta, a própria fonte da nossa existência e bem-estar. Deixa um enunciado, reclamando acções urgentes, individuais e colectivas e um apelo aos jovens e a importância da formação. Enfim, existem diversos outros testemunhos relativos ao papel que a Europa procura e poderá desempenhar, importando destacar o Pacto Ecológico Europeu e o propósito da integração da sustentabilidade ambiental em todas as políticas, programas e processos de educação e formação. Veremos o que se concretizará. De qualquer forma, a assunção da urgência e o enunciado lançado são auspiciosos.

Muito criticada por, por exemplo, não conseguir parar a invasão russa da Ucrânia, a ONU não deixa de ser o principal motor da cooperação internacional, como nesta questão dos objectivo para o desenvolvimento sustentável?
A gravidade e amplitude dos desafios globais tem mesmo que constituir preocupação e prioridade da ONU. A ONU tem precisamente que responder e actuar perante circunstâncias e fenómenos como os que compõem a Agenda 2030. Tem mesmo que preocupar-se e lutar por soluções ajustadas às questões da pobreza, das desigualdades, dos direitos humanos, da educação, da saúde, da protecção dos ecossistemas sabendo-se bem que requerem diálogos, acções e concertações entre nações. Problemas globais exigem respostas globais. A cooperação internacional é indispensável e determinante – como aliás a pandemia mostrou. Existe um limite cada vez mais instante no que respeita à pressão negativa das interacções entre humanos e meio ambiente, limite que porventura já não poderá ser revertido e que, se não for travado, se reflectirá negativamente no bem-estar da sociedade. Há um limite para a utilização dos recursos naturais, de modo que sejam conservados. Além do mais, sobrevém uma enorme responsabilidade, a humanidade na satisfação das necessidades do presente não pode comprometer a sobrevivência das gerações futuras. A ONU, na sua singularidade, compreendendo a sua história e a sua missão, tem, com certeza, a obrigação de zelar pelas gerações vindouras, mas essa incumbência requer a acção individual de cada um de nós. De outra forma, não seremos bem-sucedidos nem cumpriremos a nossa primeira função, garantir a sobrevivência e o bem-estar dos que nos sucederão.

leonidio.ferreira@dn.pt

Diário de Notícias
Leonídio Paulo Ferreira
31 Maio 2022 — 00:11