882: Salvar a Ucrânia é salvar o mundo livre

OPINIÃO

Em 12 de Março de 1938, Hitler anexou a Áustria e o mundo manteve-se em silêncio. Seis meses depois, Hitler ocupou os Sudetos, que era território checoslovaco, e a Europa não reagiu. No dia 1 de Setembro de 1939, o mesmo Hitler invadiu a Polónia e a mesma Europa agiu apenas diplomaticamente.

As potências da época, Inglaterra e França, fingiram acreditar que a Alemanha iria parar por aí e não quiseram envolver-se nessa guerra, apesar de haver um acordo em que defenderiam a Polónia com a força das armas, caso fosse invadida.

Partindo dessa fraqueza, Hitler conquistou a Dinamarca, a Noruega, a Hungria, a Holanda, a Bélgica, a Grécia, a Lituânia, a Letónia, o Luxemburgo, a Estónia, a Roménia, a Ucrânia e muitos outros países, até mesmo a França, que se acobardou em Setembro de 1939. Tudo isto só terminou 50 milhões de mortos depois.

“Mas hoje em dia isso não pode acontecer”. Aconteceu há pouco mais de 70 anos, no século XX, sem contar com o facto da Alemanha ser na altura um dos países mais civilizados da época. Ainda existem testemunhas vivas daquela guerra. “Mas Hitler era louco”. O que sabemos nós de Putin e das pessoas que o rodeiam? Na escola existe sempre um aluno que gosta de brigas, principalmente de ameaçar os mais fracos, até ao dia em que é ele o agredido e pára de ameaçar os outros. Trata-se de um tipo de pessoa que só acredita na violência, e não no diálogo.

As sanções económicas, como as que os Estados Unidos e a Comunidade Europeia estão a aplicar, ajudam, mas não salvam a Ucrânia e nem impedem a Rússia de seguir com o seu plano expansionista. A Alemanha nazi também sofreu boicotes e foi buscar aos territórios ocupados o que faltava para prosseguir com a guerra, como o aço, o petróleo, a comida e até mesmo os escravos.

A quase a totalidade dos países da ONU condenou a Rússia, vale a pena aqui lembrar o que Estaline disse a Pierre Laval quando este ofereceu o apoio do Papa Pio XII “Quantas divisões tem o papa?”. Putin deve ter perguntado quantas divisões tem a ONU.

Porque é que Putin invadiu a Ucrânia? Porque quis. Ele criou Fake News para justificar a invasão ao dizer que aquele país era uma ameaça à soberania da Rússia. Não havia nenhum sinal de ameaça, nenhum exército a preparar-se nem armas da NATO na Ucrânia. Também não invadiu em busca de energia ou terra fértil, os russos não precisam da Ucrânia para isso. Invadiu porque acredita que tem esse direito e caso não seja travado, vai continuar o seu projecto expansionista. Se não for impedido de conquistar a Ucrânia, vai inventar mais mentiras para continuar a sua expansão e para trazer a Rússia de volta aos tempos dos czares ou da União Soviética.

Um ditador que controla o seu próprio povo com mão de ferro não tem o menor escrúpulo para com os outros povos. Para um ditador só importa o poder e a expansão do seu império, ele quer dominar mais e mais pessoas e satisfazer o seu ego doentio. Foi por isso que invadiu a Ucrânia e engana-se quem acredita, como a Inglaterra e a França acreditaram em 1939, que ele vai ficar satisfeito apenas com a conquista daquele país.

O mundo livre abandonou a Ucrânia à sua própria sorte como abandonou a Polónia em 1939 e pagou um preço elevado por isso. Depois da Ucrânia serão os países Bálticos, depois a Moldávia, a Roménia, a Hungria e assim por diante. Até que o mundo livre caia como um dominó.

Vale a pena lembrar o poema do Eduardo Alves da Costa: “Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada.”

A História repete-se, nem sempre como farsa, muitas vezes como tragédia.

* Escritor e curador do Memorial do Holocausto de São Paulo. Publicou o romance A Alpinista lançado em Portugal pela Gradiva

Diário de Notícias
Marcio Pitliuk
07 Abril 2022 — 18:06

Pelas vítimas do genocídio praticado
pela União Soviética na Ucrânia