1248: A guerra não é um país estrangeiro

OPINIÃO

O mundo ocidental instalou-se na guerra, como se voltasse, com alívio, à essencial natureza das coisas. Os meus colegas indianos, quando lá passei, tinham-me alertado: a força dos países não se mede na sua riqueza, mede-se no seu poder militar, nas suas armas.

Voltámos, na nossa Europa, a viver no mundo hobbesiano da guerra de todos contra todos, mundo donde os nossos irmãos humanos asiáticos e africanos nunca verdadeiramente chegaram a sair, mundo que responde talvez à nossa mais funda natureza.

Um louco que se toma por Pedro o Grande é sempre mais do que um louco que se toma por Pedro o Grande, pois traz consigo mitos e fantasmas que sustentam todas essas mentiras, pintadas em grandes cartões como os que Potemkin oferecia a Catarina II, nos quais se finge a grandeza de uma pátria; um louco é sempre mais que um louco, é aquele que quis grandeza/qual a sorte não dá (Pessoa) e acaba por oferecer ao seu país, como legado, Alcácer Quibir, Waterloo ou o bunker de Berlim.

Putin é esse louco, mas nele o mais profundo de nós ganha existência e alacridade: Na realidade os nossos concidadãos do mundo não caíram tão baixo como nós pensamos, pela simples razão que nunca também se elevaram a um nível tão grande como nós tínhamos imaginado (Freud, Considerações de actualidade sobre a guerra e a morte, 1915).

Pois não vemos dia a dia nas atrocidades da Ucrânia o mesmo filme dos crimes e violências praticados na Segunda Guerra Mundial, nas perseguições e ódios étnicos na Rússia e Ucrânia a reencenação do mecanismo que levou aos massacres na ex-Jugoslávia? Nada novo sobre a terra…

Mas Freud, naquele mesmo ensaio, faz mais um aviso que nos parece essencial: Mas nós verificámos nos nossos concidadãos do mundo um outro sintoma que não nos surpreendeu e assustou menos do que a baixa do seu nível moral.

Refiro-me à sua falta de inteligência, à sua estúpida obstinação, à sua inacessibilidade aos argumentos mais convincentes, à credulidade infantil com que aceitam as afirmações mais contestáveis (…) Os argumentos lógicos nada podem contra os interesses afectivos e por isso a luta por razões é estéril no mundo dos interesses.

O mais perigoso efeito do clima de guerra que vivemos reside nessa “suspensão da inteligência e da racionalidade” que se está mais uma vez a impor ao nosso pensamento.

Quando a ideia de que a Rússia existirá no futuro e de que teremos necessariamente que pensar como viver com ela após a guerra, provoca o horror e o anátema gerais e faz de quem a profere, seja ele um velho político americano na reforma ou o Presidente da República Francesa, um criminoso e um traidor, algo de muito perigoso se está a passar com as nossas faculdades racionais e capacidade de discussão.

Por isso todos os líderes guerreiros são loucos que se tomam por personagens ilustres da História: Napoleão tomava-se por Alexandre da Macedónia, Estaline julgava-se Alexandre Nevsky, Hitler pensava-se como Frederico da Prússia… que nos pode espantar que o louco do Kremlin se tome hoje por Pedro o Grande?

Diplomata e escritor

Diário de Notícias
Luís Castro Mendes
21 Junho 2022 — 00:11


 

908: Considerações pessimistas de um optimista

OPINIÃO

A situação presente inspira um pessimismo, que nenhuma promessa de novidade veio ainda transformar. O clima espiritual antes das guerras foi já descrito por muitos autores e historiadores e em todas elas vimos surgir o mesmo ambiente intelectual e moral que, nas páginas do último Expresso, o comentador Daniel Oliveira descreveu bem como a aproximar-se das águas em que a extrema direita se sente bem: o belicismo e o militarismo, o maniqueísmo, a propaganda, a diabolização do outro e o debate emocional.

Num famoso poema, Brecht lamentava-se: Ai de nós/ que querendo estabelecer as fundações fraternas/não pudemos nós próprios ser fraternos. A agressão de Putin, tão prevista e previsível, pois se desenhava e anunciava desde 2014, e a sua guerra por uma “Grande Rússia”, que nos evoca a “Grande Sérvia” de Milosevic dos anos 90 do século XX, vieram desencadear uma resposta igualmente previsível (embora não tivesse sido prevista pela hubris de Putin…), mas em que nos arriscamos, na justa luta para repelir a invasão e a ameaça, a assumir a estreiteza de espírito e o fanatismo que as grandes guerras trazem consigo.

É curioso lermos as considerações hostis e injuriosas que, por voltas de 1914, grandes escritores e intelectuais franceses elaboraram contra a cultura alemã, em paralelo com as afirmações de superioridade e desprezo que eram feitas ao mesmo tempo por intelectuais alemães contra as culturas francesa e inglesa.

Hoje vemos nalguns lados censurar-se Dostoievski e Tchaikovsky e tirar-se o adjectivo “russo” do nome de obras de arte consagradas, enquanto Putin está em guerra aberta e declarada contra a nossa cultura de laicismo e liberdade, que considera decadente e dissoluta. Reivindica-se o Kremlin do excepcionalismo russo, da missão messiânica de Moscovo como “Terceira Roma” e dos valores mais autoritários e conservadores; mas a resposta não pode passar por imitar o seu modelo, como começa a aparecer aqui e além no nosso espaço público, hoje indissociável da expressão das redes sociais.

Lemos já entre nós ameaças contra a “quinta coluna” e o “inimigo do interior”, chegando, num caso extremo, a apelar-se a “campos de internamento”. A visão de um inimigo interno, que pode ser desenhado ao arbítrio de cada interpretação, constitui uma ameaça séria para as democracias e nada faria melhor o jogo de Putin. A ideia simplista de um mundo dividido pelo confronto entre democracias e autocracias vem esbarrar na evidência, imposta pelo realismo político, de que necessariamente o chamado campo das democracias terá, neste como em qualquer confronto, que fazer bizarras alianças com poderes que estão longe dos valores que proclama.

A lógica dos blocos opostos impõe o surgimento desses que um americano realista (diz-se que Franklin Delano Roosevelt aludindo ao ditador Somoza, mas a veracidade da frase está por apurar) designava como “our sons of a bitch“, os aliados moralmente inconvenientes. E assim, na luta contra a opressão, nós mesmos nos podemos tornar cúmplices de opressores. Como dizia Brecht, no mesmo poema: E contudo sabemos/que também o ódio contra a injustiça/nos endurece a voz. É que as alianças com o diabo podem às vezes fazer falta, mas não nos deixam incólumes…

Putin conseguiu, com a sua odiosa agressão, reforçar e consolidar o sentimento nacional do povo ucraniano. Evitemos que ele consiga outro paradoxal sucesso: a transformação do nosso mundo, que ele vê (e vou citá-lo) como “decadente e sem valores morais”, num mundo de “disciplina apaixonada”, semelhante ao que ele sonha para a Rússia. Como democratas, cabe-nos lutar pelo debate racional e pelo permanente confronto de ideias e de projectos políticos, contra todas as disciplinas apaixonadas que vemos perfilarem-se no horizonte. E não podemos esquecer que vivemos num mundo complexo, multipolar e diverso, que não pode ser reduzido a uma querela entre “good guys” e “bad guys“…

Opor hoje ao discurso redentor da “Terceira Roma” moscovita um outro discurso de redenção e sacrifício representa uma ameaça às nossas sociedades, menos visível que os criminosos massacres na Ucrânia, mas não menos latente nas promessas do futuro próximo.

Diplomata e escritor

Diário de Notícias
Luís Castro Mendes
12 Abril 2022 — 00:21


Pelas vítimas do genocídio praticado
pela União Soviética na Ucrânia


 

862: Contra a barbárie

OPINIÃO

Cada homem tem apenas para dar um horizonte de cidades bombardeadas.

Eugénio de Andrade

Quando cheguei à Índia como embaixador, surpreendeu-me a percepção diferente que os meus interlocutores tinham das relações de força no mundo. Quando lhes repetia que a Alemanha era a mais forte potência dentro da Europa (o que eu na altura acreditava) sorriam os diplomatas indianos e respondiam que só havia duas verdadeiras potências na União Europeia, o Reino Unido e a França, porque só elas dispunham de armas nucleares. Era antes do Brexit e da invasão da Crimeia…

Hoje compreendo como o nosso arreigado eurocentrismo nos levou a dar por adquirido e inultrapassável o equilíbrio de paz no nosso continente, apesar das lições que deveríamos ter aprendido com as guerras na ex-Jugoslávia. Os países extra-europeus vêm o mundo com mais realismo do que nós.

A força das armas continua a assegurar mais poder do que a riqueza da economia e do que as próprias relações de interdependência criadas pela globalização. As mentes dos homens vivem noutros territórios, nos sonhos e mitos em que foram educados e no quadro de concepções do mundo que, com alguma ingenuidade, considerávamos ultrapassadas.

A reencenação actual da Guerra Fria tem-se desenrolado para a alegria e o conforto intelectual, tanto dos saudosos de um poder derruído e irremediavelmente decadente (Putin) como dos saudosos de um confronto claro e dicotómico entre o Bem e o Mal, que permita desenhar sobre um mundo de crescente complexidade e multi-polaridade um quadro simples e a preto e branco de Democracia versus Autocracia.

Não que o ato de força brutal e criminoso, ao arrepio de todas as regras aceites e acordos firmados, que constituiu a invasão da Ucrânia pela Rússia, não deva encontrar a nossa firme resistência e a nossa solidariedade plena com os agredidos. Mas a mentalidade de Guerra Fria e o maniqueísmo moral em vias de se reconstituir, nas relações internacionais como nas opiniões públicas internas, não vão favorecer a Europa e a Democracia, na minha opinião.

O nosso ideal utópico de paz perpétua kantiana veio estilhaçar-se contra esta realidade, que Freud há muito nos lembrou nas suas Considerações sobre a Guerra e a Morte: a guerra e a pulsão de morte vivem em nós para sempre e o mais que podemos fazer é resistir-lhes com todos os nossos instintos de vida e a com a lúcida impiedade da cultura – mas jamais seremos capazes de as conter para sempre.

Estas reflexões melancólicas acompanham para mim um tempo de lutos e de perdas, que nos vem lembrar que a nossa geração está a chegar ao seu fim. Os 50 anos do 25 de Abril vão ser comemorados mais pelos nossos irmãos mais novos e pelos nossos filhos do que por nós próprios. Cada geração reinventa o mundo e se reinventa a si própria.

Por isso, sem transigir nos princípios fundamentais da decência, da liberdade, da solidariedade social e do respeito pelos outros, devemos nós, os da geração daquele Abril, aceitar que o mundo mudou, porque todo o mundo é composto de mudança, e que o olhar sobre nós próprios e sobre a Revolução que nós vivemos possa hoje ser outro, ser diferente e às vezes até nos poder chocar.

Podemos sentir-nos deslocados de uma época para outra, como se fôssemos embaixadores de um outro século junto deste em que vivemos. Uma viagem no tempo com que terminamos as nossas viagens na terra. Um último posto no estrangeiro, diria eu, por deformação profissional.

Mas de nada vale uma velhice azeda e ressentida face ao renovar das gentes da terra e das estações do ano. É com alegria que devemos olhar para as mudanças e com abertura e curiosidade que devemos encarar e confrontar-nos com perspectivas diferentes das nossas. Os 50 anos do 25 de Abril, que começámos este ano a comemorar, são um sinal de esperança e uma luz a acender-se contra a barbárie do mundo. Mantenhamos essa luz a brilhar teimosamente contra o horizonte de cidades bombardeadas que alastra sobre nós.

Diplomata e escritor

Diário de Notícias
Luís Castro Mendes
05 Abril 2022 — 00:08

 



 

693: A guerra na Europa e as casas de Kashan

OPINIÃO

Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na Cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo

Ricardo Reis, Odes

Antigamente, as casas grandes dos ricos comerciantes persas de Kashan, revestidas do mesmo adobe vulgar, não se distinguiam das casas mais pobres e comuns: era abaixo do nível da rua, dissimuladas por muros e atrás de pesadas portas de madeira, que se abriam os pátios, os quartos e os jardins onde as famílias endinheiradas escondiam a sua vida do olhar dos outros. Uma cidade que parece um feio e uniforme muro de adobe revela-se, atrás dos muros, em labirintos de corredores que se prolongam ao infinito por espelhos, em jardins por onde circula a água rara, em quartos que se abrem para pátios luminosos.

Todas as guerras passaram por esta cidade, a morte e a rapina vieram também aqui cobrar os seus negros tributos: mas estes ricos fabricantes de tapetes, como aqueles jogadores de xadrez que Omar Khayyam inspirou a Fernando Pessoa/Ricardo Reis, persistiam em viver escondidos nos seus palácios sob a terra, cercados de altos muros, a gozar a delicadeza das rosas, os reflexos coados pelos vitrais e a frescura da água nas cisternas e dos ventos nas torres.

Foi em Kashan, no Irão, que me chegaram as primeiras notícias da guerra da Ucrânia. Não, a nós não será permitido, como àqueles mercadores de tapetes da antiga Kashan ou aos imperturbáveis jogadores de xadrez de Khayyam e Pessoa, ignorar ou pretender ignorar o tumulto de morte e de miséria que se abeira de nós.

A minha geração viveu a angústia de ser chamada a uma guerra injusta e anacrónica para defender um império insustentável. Mas o fantasma de uma guerra generalizada a nível mundial, que nos aflorou sem se concretizar em 1962, quando da crise de Cuba, e nos anos 1980, por altura da crise dos mísseis na Europa, esse tivemo-lo sempre por remoto e inviável. As guerras passavam-se em países longe da Europa, no Médio Oriente, no Afeganistão, por essa Ásia, a que nos sentíamos (tão erradamente) alheios, antes de a China acordar e nos acordar. E antes de a Jugoslávia nos lembrar, há 30 anos, que a Europa não estava imune à guerra.

Como diz o poema que em 1918 o grande poeta russo Alexandre Blok dedicou à Europa: “A Rússia é uma esfinge/ela olha para ti com amor e com raiva.” Essa relação da Rússia com a Europa, nunca resolvida, volta hoje para nós o seu olhar mais terrível e devastador. O amor deles é, como diz o poeta, mortal e devorador. E, tal como o czar Nicolau I apoiou durante o século XIX as mais retrógradas monarquias absolutas da Europa, hoje Putin sustenta e estimula a extrema-direita autoritária e racista no nosso continente.

Não podemos esconder-nos dentro dos pátios interiores das nossas casas de adobe, nem, como no filme Pátio das Cantigas, abrigarmo-nos da balbúrdia do mundo sob uma bandeirola com o nome de Salazar. Europeus somos e é também para nós que hoje olha a Rússia, que é uma vez mais a terrível esfinge do nosso futuro.

Talvez por fim aprendamos, com surpresa, que a vida não se esgota no crescimento maior ou menor do PIB. Talvez ganhemos consciência de que as paixões nacionais e nacionalistas vão desafiar a Europa até ao seu âmago e a nossa vida democrática até ao seu limite. Talvez entendamos que se compromete a democracia quando se torna a economia surda às necessidades sociais. Talvez a União Europeia comece agora a querer verdadeiramente existir.

Diplomata e escritor

Diário de Notícias
Luís Castro Mendes
08 Março 2022 — 00:17



 

528: Carta ao polvo do capitalismo

OPINIÃO

Estimado e ilustre polvo

Do mesmo modo que o meu colega de profissão (já que nas letras estou abaixo da sombra dos calcanhares dele) Eça de Queiroz se dirigiu um dia, familiarmente, à “hidra da anarquia”, dirijo-me eu a si, caro polvo do capitalismo, para lhe explicar por que razão as forças conjugadas em redor dos seus poderosos tentáculos não lograram impor ao meu país um governo de direita.

Bem sei que as suas múltiplas ventosas pelo mundo fora lhe evitam maiores males e, por ora, mais crise, menos crise (a serem pagas pelos tansos do costume), nada de muito grave lhe irá acontecer. Ainda assim, mereceria uma explicação, que a nossa direita nunca lhe conseguirá dar, da razão de não ter obtido esse rebuçado em cima do bolo da Europa, que seria uma mudança de governo em Portugal.

E a culpa, meu estimado polvo, não está nos agentes políticos. Todos se comportaram impecavelmente para os seus desígnios, as esquerdas dilacerando-se e dando tiros furiosos nos pés, que custam a entender a um ser racional, as direitas dividindo sabiamente as suas forças numa ala moderada, afável e dialogante (para não cometer o erro daquele seu passado líder que assumia com candura que o objectivo era empobrecer os portugueses – essas coisas fazem-se, não se dizem), uma ala doutrinária, bem-educada e bem falante, e uma ala de grunhos, que também fazem falta. Não, todos eles estiveram (não acredite no que lhe dizem os seus partidários ressabiados) bem e dignos do seu papel.

O que falhou, meu caro polvo, foi a comunicação social. Sim, os jornalistas, os comentadores, essa tropa entusiasta de amigos e admiradores dos polvos, que, por excesso de zelo e falta de cabeça, fizeram ruir os seus planos.

Depois de terem convencido previamente o povo que da parte da direita toda a moderação seria maldita, assumiram como herói e paladino de todas as direitas o mesmo que, por candura e, diria até sinceramente, honestidade, assumiu publicamente no passado recente o empobrecimento dos pobres e o enriquecimento dos ricos como objectivo do seu governo. Acontece que este povo não tem vocação masoquista, o que é talvez lamentável se compararmos com outros povos, mas é assim, e tem uma relutância bizarra a empobrecer, ficar sem serviços públicos e outras maravilhas do paraíso liberal.

Finalmente, essa mesma comunicação social, que vive de costas voltadas para o que a sociedade real pensa e sente, assumiu no final da campanha eleitoral um triunfalismo que aterrou todos aqueles que não estavam inteiramente convencidos de que empobrecer, ficar sem hospital de graça, confinar ciganos e instalar a prisão perpétua fosse a solução dos seus problemas.

Falta de masoquismo deste povo, digo-lhe eu (agora diz-se resiliência). Como sempre, se de um lado nos dizem “está no papo”, os que gostam sentem alívio e vão gozar a praia ao domingo, os que não gostam vão em massa para as urnas para votar em quem os possa defender.

Meu caro polvo, a culpa desta vez não esteve nos políticos, apesar da honestidade cândida do passado líder, quando os portugueses estavam pior para que Portugal estivesse melhor. Como lhe expliquei, cada um cumpriu a sua função e todos fizeram o seu melhor. Infelizmente, prova-se aqui uma vez mais que o óptimo é inimigo do bom: ter uma comunicação social enrouquecida, num coro em forma de mantra, a favor de um dos lados não criou o clima de confiança de que os seus adoradores precisariam para fazer passar bem as mensagens.

Ensurdecidos por uma monocórdica bateria de comentadores a tocar interminavelmente o “samba de uma nota só”, os cidadãos escolheram, com a manhosa prudência de um povo habituado a ser pobre, não ir por esse caminho, como aconselhava José Régio. “Blame it on the press”, bom e estimado polvo, e aceite os melhores cumprimentos deste seu amigo e admirador.

Diplomata e escritor

Diário de Notícias
Luís Castro Mendes
08 Fevereiro 2022 — 00:05


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483: O salto

OPINIÃO

Vemo-los nas fotografias de Gérard Bloncourt, datadas dos anos 1960: viviam nos bidonvilles à volta das cidades de França, em condições miseráveis, trabalhavam como pedreiros e mulheres-a-dias nessa França dos “trinta gloriosos” anos de crescimento económico (1945-1975), um país que se reconstruia e transformava dia a dia. Eles eram os peões e os párias nessa sociedade e eram desprezados com o fino desdém que a França reserva aos metecos.

Em duas ou três gerações mudaram, como o seu país de origem mudou. Essas transformações nem sempre foram mutuamente percebidas. Na escola pública em Paris, ainda em 1990, um menino português garantia às minhas filhas que em Portugal não existiam cinemas nem supermercados, apenas aldeias perdidas nas serras, numa das quais ele se aborrecia perdidamente durante as férias.

Hoje tal imagem não existe nem poderia existir, porque os jovens portugueses de França conhecem o seu país e dele se orgulham ou simplesmente o consideram um país europeu como os outros. Os portugueses deixaram de ser metecos em terras de França (continuando os magrebinos nessa condição) e a cultura francesa abre-se à nossa cultura, como a excelente Temporada Cruzada de manifestações culturais portuguesas em França e francesas em Portugal irá neste ano uma vez mais demonstrar.

A comunidade portuguesa em França, essa que descende das heróicas figuras que Bloncourt retratou, teve a sua origem num movimento migratório com início nos anos 60 do século passado, a que se deu o nome de “O Salto”.

Eles agrupavam-se, vindos em táxis ou em camionetas, nos pontos indicados pelos passadores e esperavam. Às vezes juntavam-se a eles os desertores, os foragidos políticos, com o sonho noutros horizontes, os da Revolução. Juntavam-se e esperavam, vindos de muitos lugares e de muitas vidas.

E por vezes acontecia o que eles mais temiam: em lugar do passador aparecia a polícia, por denúncia de informadores. Emigrar era um crime, a força de trabalho tinha de ficar disponível a preço vil e sair para ir trabalhar por melhor salário era uma traição equiparável a desertar da luta pela África Portuguesa ou a combater a política de Salazar, que nos garantia a todos a guerra e a miséria.

Sucedeu que uma vez alguns desses criminosos, apanhados de malas na mão perto da linha da fronteira, foram conduzidos a um juiz da comarca de Chaves, que proferiu na altura um despacho escandaloso:

Considerando que se trata de cidadãos portugueses que se encontravam em território nacional, não considero provado o crime de emigração clandestina, uma vez que estes cidadãos nunca saíram do país e é mera conjectura a sua intenção de emigrar, pelo que os mando ir em paz.

A princípio tentaram as autoridades uma aproximação tolerante e construtiva, que evitasse o escândalo. Uma delegação de funcionários superiores da PIDE pediu para ser recebida por esse juiz e solicitou-lhe, com bons modos, que alterasse para o futuro a sua jurisprudência.

O magistrado respondeu-lhes com a ideia obstinada da independência dos tribunais e convidou-os, com modos um pouco mais ásperos, a saírem do seu gabinete. A brandura dos nossos costumes e o medo do escândalo levou a que a única consequência para esse juiz tivesse sido a sua imediata transferência para uma outra comarca, bem longe da raia.

Assim, o contingente seguinte de emigrantes clandestinos apanhados do lado de cá da fronteira foi cumprir a sua merecida pena de prisão, que para os pobres não havia brandura de costumes que valesse. Era esta a independência da justiça antes do 25 de Abril, essa de que alguns hoje sentem saudades…

Aquele juiz era meu pai.

Dedicado à comunidade portuguesa e de origem portuguesa em França

Diplomata e escritor

Diário de Notícias
Luís Castro Mendes
01 Fevereiro 2022 — 00:59


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373: Uma campanha triste

OPINIÃO

O verdadeiro entusiasmo dirige-se sempre a alguma coisa ideal e, para dizer a verdade, de ordem puramente moral

Kant, O Conflito das Faculdades

Mais ou menos confinados em casa, obcecados com testes e vacinas, atentos a sintomas com um rigor hipocondríaco, alarmados e carentes de informação, encontramo-nos frente a uma triste e cinzenta campanha eleitoral, em que qualquer entusiasmo ou alegria colectiva são coartados por debates de 25 minutos, analisados depois durante horas por comentadores tudo menos independentes e por redes sociais que apenas nos confirmam nas nossas certezas.

Uma campanha centrada, também por vontade dos jornalistas, em questões tão urgentes para o nosso futuro colectivo como a pena de prisão perpétua ou as vantagens da castração química. Uma campanha onde se esquecem os milhões subtraídos na evasão fiscal para se investir com fúria contra desgraçados que recebem um parco subsídio de inserção.

Uma campanha defensiva, onde o debate que se quereria ouvir entre socialismo e liberalismo se perde nas tautologias e petições de princípio do dirigente da Iniciativa Liberal e acabamos por ouvir do líder do maior partido da oposição, de quem esperávamos maior bom senso centrista e social-democrata, a defesa simultânea das teses mais contraditórias, com o entusiasmo de quem joga aos heterónimos. Alguns socialistas, entretanto, que nunca gostaram da geringonça, vêm a terreiro defender que o Partido Socialista volte a andar com a direita ao colo, como nos tempos da “abstenção violenta”, ou, invocando Mário Soares, sonham-se numa Alameda onde nunca estiveram, como se o tempo tivesse parado em 1975.

Na cerimónia do lançamento do primeiro volume das obras de Mário Soares, editadas pela Imprensa Nacional, José Manuel dos Santos recordou-nos que, já em 1993, o ainda Presidente Soares escreveu: “…desaparecida a União Soviética, destruído o projecto comunista à escala planetária e desfeito o espantalho do ‘perigo vermelho’, os comunistas hoje formam um partido como outro qualquer, sem haver razão para exclusões, desconfianças particulares ou discriminações, no espectro pluripartidário de uma sociedade aberta e livre, como a nossa.”

Soares, ao contrário dos que hoje o invocam junto a uma mesa de pé-de-galo, nunca se enganou na definição do inimigo principal. Como Melo Antunes que, logo a seguir ao 25 de Novembro (que a nossa direita quer agora comemorar, enquanto não chega o tempo do 28 de Maio), defendeu com vigor e coragem a necessidade do Partido Comunista para a nossa democracia.

Na verdade, a esquerda e a direita existirão sempre. Podemos (e devemos) ter um centro-esquerda e um centro-direita e capacidade de diálogo democrático entre eles, mas os “centristas pragmáticos”, fardados ou não, acabaram sempre por se revelar meros avatares da direita.

A melhor maneira de fazer, por um lado, crescer e prosperar a extrema-direita, por outro, dar força e apoio popular àquela esquerda à esquerda do PS que deu fim ao que restava da geringonça, será entregar o partido dos socialistas ao “beijo de morte” com a direita, a que as posições recentemente assumidas por alguns parecem almejar. Não desejo isso nem para o Partido Socialista nem para o meu país.

Uma campanha triste, mas uma campanha necessária, que deveria ser de esclarecimento de posições e de apresentação de alternativas na resolução dos problemas reais e não de repetição de mantras ideológicos, como num moinho de orações tibetano, ou de apuramento dos killer instincts dos contendores, para gozo e satisfação dos jornalistas. A isto estamos condenados pelas tecnologias do nosso tempo? Troquemos-lhes as voltas, porque o dia é uma criança, como nos cantava José Mário Branco. Para que voltemos a ver o entusiasmo na política.

Diplomata e escritor

Diário de Notícias
Luís Castro Mendes
11 Janeiro 2022 — 00:35