“Estes 5 rostos tiveram vontade de mudar o país politicamente”

A minha opinião – quer se goste ou não dela por quem a ler – depois de 48 anos de uma pseudo mudança política em Portugal pós 25’Abr’74 e em ordem aos nomes citados nesta notícia: dos cinco homens que mudaram Portugal, apenas o General Ramalho Eanes demonstrou servir fielmente Portugal e os Portugueses. Os restantes – Freitas do Amaral e Sá Carneiro, aterraram na democracia em construção, vindos da União Nacional do Estado Novo salazarista; Mário Soares que andou pela França gozando um “exílio” dourado, enganou muitos portugueses (eu incluído), com a ideologia marxista de Friedrich Engels e Karl Marx, que foram dois dos principais teóricos, tanto no âmbito da filosofia, como da sociologia, que influíram grande parte das forças partidárias políticas de esquerda. Ambos germânicos, deram origem a uma série de tratados, ensaios, e obras sobre as forças opressores, e as classes subjugadas pelas mesmas, estando ambas relacionadas através dos meios de produção, e da produção propriamente dita. Em circulação, está o capital, recurso detido por poucos e carecido por muitos. Foi na tentativa de subverter essa situação, pouco depois do estalar da Revolução Industrial, que estes dois teóricos uniram esforços e ideologias, e redigiram algumas obras cruciais na definição daquilo que seria a abolição das classes após a luta destas; Álvaro Cunhal foi sempre o porta-voz e a K7 da U.R.S.S. (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) stalinista/leninista, vibrando exacerbadamente com a ditadura do proletariado; finalmente, o General Ramalho Eanes foi o único dos visados que mereceu o respeito, a consideração e a simpatia dos Portugueses que viram nele a esperança para uma mudança para Portugal depois de penosos 50 anos de fascismo salazarista mas que infelizmente não se concretizou.

48 ANOS DE ABRIL

A dois anos do cinquentenário do 25 de Abril, é lançado Os 5 Homens que Mudaram Portugal para Sempre, que retrata, em partes, pontos da vida em comum dos rostos que fizeram a transição para a democracia. “Foram homens magníficos, quer se goste ou não”, diz a autora.

Isabel Nery é jornalista e já publicou uma biografia de Sophia de Mello Breyner Andresen.
© Paulo Spranger / Global Imagens

Diogo Freitas do Amaral, Francisco Sá Carneiro, Mário Soares, Álvaro Cunhal e António Ramalho Eanes foram “os políticos responsáveis pela transição para a democracia”. E, por isso, foram os cinco rostos escolhidos por Isabel Nery, jornalista e investigadora, para escrever o livro que agora é editado.

“Não são biografias de cada um”, começa por esclarecer, “mas o objectivo foi focar-me entre 1974 e 1976 e olhar para estas cinco pessoas e perceber onde todos se cruzaram”, começa por explicar a autora, que acrescenta: “Foi preciso fazer uma investigação muito específica sobre cada um deles, foi um bocadinho uma loucura.”

O livro, editado pela Dom Quixote, surge a dois anos do cinquentenário do 25 de Abril. Algo que, garante, é apenas coincidência. “Na verdade, o livro já era para ter saído antes. Começámos [Isabel e o editor Francisco Camacho] a pensar nisto ainda durante a pandemia.

Fazer uma biografia é muito difícil, o objecto de estudo são pessoas e tem de estar tudo muito bem justificado, e isso leva tempo“, e por isso, explica a autora: “Aquilo que quero dar ao meu leitor é uma coisa ritmada, não podem ser só datas atrás de datas.”

Num “período riquíssimo do ponto de vista histórico e político”, escolher cinco rostos importantes podia não ser tarefa fácil. “Havia tantas outras hipóteses, podia ser também o Otelo Saraiva de Carvalho, o Vasco Lourenço ou até o próprio Salgueiro Maia.”

Mas a escolha acabou por recair apenas sobre políticos, porque, considera Isabel Nery, “os militares tiveram um papel importante, sim, até para travar uma eventual guerra civil, mas os políticos, bem ou mal, acabaram por fazer a transição para o regime democrático, em que há ali um período em que os militares são importantes. Isto não significa que não haja outras pessoas com importância nesta altura. Não faltariam rostos sobre os quais falar, mas isso seria outro livro”.

Cunhal e Soares deixaram uma marca histórica muito patente ainda nos dias de hoje.

Apesar de estes cinco homens estarem em lados políticos diferentes (Freitas do Amaral e Sá Carneiro à direita, Soares e Cunhal à esquerda, Ramalho Eanes mais neutro), todos acabaram por ter um papel activo na transição entre o Estado Novo e a democracia.

E, segundo Isabel Nery, o país saiu a ganhar com isso: “Uma das coisas mais interessantes que consegui perceber ao escrever o livro foi que, apesar de tudo, Portugal teve alguma sorte em conseguir a conjugação destas pessoas naquele período de tempo. As probabilidades de as coisas correrem mal eram bastante grandes.” Isto porque, afirma, “estes homens tiveram, acima de tudo, vontade de mudar o país politicamente, apesar de terem percepções diferentes sobre o que devia ou não acontecer. Houve uma convergência e um aliar de vontades que hoje se vê pouco”.

E exemplifica: “Sá Carneiro vinha da ala liberal, ainda do antigo regime, zanga-se e, depois de ver que não ia haver qualquer mudança de rumo, sai para tentar um regime mais democratizado.” Além disso, segundo a escritora, à excepção de Ramalho Eanes, todos tinham antecedentes familiares de posses. A família de Mário Soares, por exemplo, “era uma família de uma classe média alta, de uma certa burguesia”.

O livro é editado esta terça-feira.
© DR

Mas, ainda que tenha sido na madrugada de 25 de Abril que o Estado Novo caiu, a luta começou a ser travada muito antes, conta Isabel Nery: “Uma coisa que percebi e me impressionou muito no caso de Mário Soares, foi que esteve preso mais vezes do que Cunhal – ainda que em períodos mais curtos – e esteve 30 anos a batalhar por uma democracia em Portugal, persistindo e acabando até por perder algumas regalias, e acho que não há muito nessa noção histórica”, e, fruto dessa luta, “Cunhal e Soares deixaram uma marca histórica muito patente ainda nos dias de hoje”.

Por outro lado, a luta acabou por ser “um bocadinho inesperada”, se for vista por outro prisma: o de Freitas do Amaral, fundador do CDS-PP. Como explana Isabel Nery, “era amigo e foi aluno de Marcello Caetano, chegou a ser convidado para fazer parte dos governos, foi sempre associado, numa fase inicial, ao fascismo e ao antigo regime, mas recusou-se sempre. Acho até que isto é mais significativo e inesperado, porque mostra a vontade em mudar o rumo do regime político”.

Aos olhos da escritora, “todos foram homens magníficos, quer se goste ou não, eram homens extremamente bem preparados – uns melhor que outros -, mas todos com uma vontade enorme.”

Com o livro a chegar às bancas por estes dias, falar de outro volume em breve ainda não é assunto na mente de Isabel Nery, mas não fecha a porta a uma eventual publicação.

“Uma biografia de cada um deles não é propriamente lógico, mas um livro sobre este período da história em concreto posso vir a explorar”, isto porque, conforme ela, “é só pegar num dia e há imensos acontecimentos. Não vou fazer um livro sobre isso, mas o 25 de Novembro e o 11 de Março são bons exemplos”, rematou.

rui.godinho@dn.pt

Diário de Notícias
Rui Miguel Godinho
28 Junho 2022 — 00:17


 

D. João VI foi “astucioso” ao mudar a corte para o Brasil e desafiar Napoleão

UM POUCO DA HISTÓRIA DE PORTUGAL

1821. O Regresso do Rei, de Armando Seixas Ferreira, é publicado quando passam 200 anos do regresso da corte a Portugal, e um ano antes dos 200 anos da independência do Brasil (1822), “um país que D. João VI amou de verdade”.

O rei D. João VI foi “astucioso” quando empreendeu a ida da corte portuguesa para o Brasil, evitando a prisão da família real, face à iminente invasão napoleónica em 1807, escreve Armando Seixas Ferreira num novo livro.

A obra 1821. O Regresso do Rei é apresentada pelo vice-almirante Henrique Gouveia e Melo, no dia 12, às 18:00, na sala D. Luís do Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa.

O jornalista Seixas Ferreira realça que, ao escapar das tropas napoleónicas, João VI, que assumira a regência devido aos problemas psicológicos da sua mãe, a rainha Maria I, “desempenhou um papel crucial quando a soberania do reino foi ameaçada e o país corria o risco de desaparecer”.

“Ao transferir a sede da monarquia para o hemisfério sul, o regente dava uma lição de estratégia a Bonaparte” e teve “o descaramento e a coragem para desafiar o terrível Napoleão”, contrastando com a imagem de “um príncipe medroso, como era tratado pelos jornais franceses”.

Armando Seixas Ferreira partilha da opinião do historiador Oliveira Lima que afirmou que o filho de Maria I “agiu com o único objectivo de garantir a sobrevivência do reino”, não se deixando “aprisionar mantendo viva a nação portuguesa do outro lado do Atlântico” e sublinha que “é muito mais justo considerar a trasladação da corte para o Rio de Janeiro como uma inteligente manobra política de que uma deserção cobarde”.

A corte partiu de Lisboa nos inícios de Novembro de 1801, enfrentou o oceano, “debaixo de uma tempestade”, e mesmo escoltada por navios britânicos foi um risco: “Se a esquadra naufragasse, seria o fim da dinastia e, possivelmente, de Portugal, como hoje o conhecemos”.

Com a família real, além de muitos materiais, jóias, ouro e até alguma maquinaria, seguiram 15.000 pessoas, que enfrentaram ventos adversos, mas chegaram “aclamados” a terras brasileiras.

Quando exilado na ilha de Santa Helena, Napoleão reconheceu que foi com o desastre na Península Ibérica “que se perdeu”, “até à capitulação [em 1815] em Waterloo”, na actual Bélgica.

Após a morte de Maria I, em Março de 1816, João VI, em Fevereiro de 1818, tornou-se o primeiro monarca europeu a subir ao trono no continente americano, numa “espectacular cerimónia”.

Apesar do descontentamento dos portugueses pela ausência do monarca, João VI foi “protelando” a partida do Brasil, porque “sabia que a viagem podia significar a separação dos dois Estados”, como veio a acontecer 1822, mas como dissera ao seu primogénito, primeiro imperador do Brasil e rei Pedro IV de Portugal, preferia que essa separação fosse sob a égide da Casa de Bragança e que a coroa ficasse com o seu filho “do que vê-la passar para as mãos de um aventureiro”.

A obra de Seixas Ferreira centra-se essencialmente na viagem de regresso, iniciada em Abril de 1821, um rei que regressava “vitorioso mas carregado de apreensões”.

Em Agosto desse ano eclodiria no Porto a revolução liberal e ao monarca ia-lhe ser imposta uma Constituição, que retirava o poder absoluto ao rei, decidindo a divisão de poderes legislativo, executivo e judicial.

Como antecipa o autor no prólogo, “além do relato da jornada”, nesta obra são “analisados os episódios mais marcantes do atribulado reinado de D. João VI [que termina com a sua morte em Março de 1826], com especial destaque para a sua permanência no Brasil”.

A obra de Armando Seixas Ferreira, jornalista na RTP, contou com a consulta de fontes documentais inéditas, nomeadamente os manuscritos da nau de João VI, que transportava o monarca, e “uma bibliografia com testemunhos dos principais intervenientes”, além de uma atenta leitura dos diários de bordo, nomeadamente do brigue “Reino Unido” e da corveta “Voador”, que escoltavam a esquadra portuguesa.

1821. O Regresso do Rei, de Seixas Ferreira, é publicado quando passam 200 anos do regresso da corte a Portugal, e um ano antes dos 200 anos da independência do Brasil (1822), “um país que D. João VI amou de verdade”.

Diário de Notícias
DN/Lusa
07 Outubro 2021 — 11:22

 

“Assistimos a situações de profunda cobardia e de deserção humana à conta da pandemia”

LIVROS/MIGUEL SOUSA TAVARES/ÚLTIMO OLHAR

O personagem principal do novo romance de Miguel Sousa Tavares recusa ser um “estorvo” só porque é velho. O retrato de um crime social a que se assistiu há poucos meses em Portugal e noutros países, quando as autoridades puseram os idosos fora da lista dos prioritários para a vacinação em nome de uma eutanásia etária. Um personagem que já vivera a Guerra Civil espanhola e estivera nos campos de concentração alemães, tragédias a que sobreviveu.

Miguel Sousa Tavares estava há sete anos sem escrever um romance mas a pandemia obrigou-o a voltar à ficção com Último Olhar
© Diana Quintela / Global Imagens

“Daqui a uns anos, não sei se seremos capazes de lembrar aquilo porque passámos nestes últimos meses de tão surreal que é: as máscaras, a distância social, as pessoas trancadas em casa, os filhos sem poderem ir à escola, o teletrabalho, o não nos cumprimentarmos nem abraçarmos.” Quem o diz é Miguel Sousa Tavares, que acaba de publicar um novo romance, Último Olhar, onde a pandemia é a personagem principal, rodeada de outras que constroem com as suas vidas um retrato de uma situação mundial que surgiu de forma inesperada. Por isso mesmo afirma: “As verdadeiras tragédias vêm sempre sem aviso.”

Logo à primeira página está a origem do romance: “O veneno da China”. Para o autor não é difícil concluir: “Se não fosse a covid, este livro não existia. Foi um “romance imprevisto”, afinal há sete anos que não publicava um.” Revela que tem dois ou três encravados: “Não consigo planear romances, mas neste fui como que obrigado a escrever a partir do momento em que percebi que era mais do que uma epidemia sanitária, que era também moral. Achei que um romance ia mais directo ao coração das pessoas do que outro registo.” Além do vírus e dos seus efeitos sobre a sociedade, o protagonista é Pablo. Um “velho” que atravessou a Guerra Civil de Espanha, esteve num campo de concentração durante a II Guerra Mundial, e que leva os leitores do princípio ao fim com a sua história de vida. Pelo meio, meia dúzia de personagens desenham o que a humanidade tem assistido e vivido desde há ano e meio.

Há uma particularidade narrativa que se destaca na segunda metade de Último Olhar, as passagens onde o sexo são um cenário frequente. Para Sousa Tavares, que recusa caracterizar essas páginas como eróticas mas sim de sexo mesmo, a resposta é simples: “Aconteceu naturalmente e acho que o sexo também é um sinal de vida. Além de que vinha a propósito, fazia sentido e humanizava. Se não viesse, não punha.” Justifica: “O livro tem muita coisa sobre morte.” Em sua defesa recorda as palavras de Millôr Fernandes quando escreveu uma crítica sobre o Equador e questionava os escritores brasileiros dizendo “O Miguel escreve sobre sexo sem medo porque na vida também há sexo”. A situação mais inesperada, confessa, é a “cena de sexo no campo de concentração, de que nunca ninguém se lembraria”. Como “veio a propósito”, a pergunta que fez foi “porque não?”

É um romance que se passa em Espanha. Quis distanciar-se da nossa realidade?
Não foi esse o caso, antes porque o detonador do romance é um acontecimento passado em Espanha: o apedrejamento de um autocarro que levava idosos infectados pela covid. A partir daí senti necessidade de o situar de forma correta.

A covid será o segundo grande acontecimento deste início de século a seguir ao 11 de Setembro de 2001?
Sim, sem dúvida, o 11 de Setembro e a covid serão os dois momentos disruptores deste milénio. Eu comecei a escrever o romance em Março de 2020, no início da pandemia, e esse acontecimento em Espanha veio ao encontro daquilo que antevi: que os velhos iriam ser as grandes vítimas e que a sociedade estava pronta a descartá-los. Foi essa percepção que me fez pensar que existe um lado de instinto de sobrevivência que estabelece uma fronteira muito ténue com a barbárie. Que foi muito nítido nesta pandemia e mesmo em Portugal, pois após o Presidente e o primeiro-ministro terem falado sobre a questão, foi preciso que o almirante das vacinas se impusesse para que os velhos passassem à frente de todas as corporações que estavam a ser vacinadas antes: polícias, bombeiros, militares, magistrados, etc.. Foi preciso que alguém dissesse “não” e que o primeiro critério deveria ser o de salvar vidas e, portanto, aqueles que mais morriam por causa do vírus: os velhos.

Uma situação impensável?
Sim. Foi estabelecido tacitamente que os velhos não iam para os hospitais ocupar camas necessárias porque vão morrer de qualquer maneira e também não iam ser vacinados porque há poucas vacinas e temos de começar pelos que têm mais hipótese de sobreviver. Foi a partir desse momento que pensei: “então a nossa sociedade investiu tanto em prolongar a vida das pessoas e chega a um ponto em que descarta os mais velhos e só quer que fiquem trancados em casa ou nos lares, sem acesso aos filhos e netos, porque se saírem à rua são um perigo público?” Que raio de sociedade é esta que construímos?

Pode-se dizer que há uma vontade de apagar a memória e de poupar na Segurança Social?
Não sei, mas é interessante que 2020 é o primeiro ano em que a idade da reforma em Portugal baixou em vez de aumentar por causa da diminuição da esperança de vida. A mortalidade sénior foi de tal maneira forte que é a primeira vez em que as pessoas se reformam mais cedo do que no ano anterior. Na Bélgica, a mortalidade dos mais velhos foi de 70%, de tal maneira que a Amnistia Internacional chegou a acusar o país de genocídio. No entanto, o livro não é apenas sobre isto, entram outros personagens que não são necessariamente velhos.

Em Portugal também houve um princípio de genocídio?
Não direi um genocídio consciente, mas houve claramente uma política inicial que foi de deixar para trás os velhos e tratar dos outros. Não foi como disse o Marquês de Pombal, “enterrar os mortos e cuidar dos vivos”, mas vamos cuidar dos que têm mais esperança de vida e abandonar os outros. Isso foi claro e óbvio.

A eutanásia está bem presente no romance. Esperava que esse critério médico acontecesse em Portugal?
Eu conto a experiência de um médico italiano que refere “a eutanásia pratica-se todos os dias no hospital”. Há um momento em que é preciso desligar as máquinas ou em que o médico tem de fazer escolhas se não existe equipamento para toda a gente. Só que a escolha não deve ser feita em função da idade mas de quem tem mais esperança de vida. Isso será normal e adequado, porque a medicina não permite a imortalidade nem temos o direito de ao entrar num hospital estar à espera dela, apenas de aguardar pelo melhor tratamento possível e em igualdade de circunstâncias – não em função da idade. Esse foi o critério que se quebrou com esta pandemia. A idade passou a ser um critério e essa foi a grande subversão moral que aconteceu; não estava à espera de ver essa frieza. Isso ouviu-se em declarações claras de pessoas no sentido de que era preciso abandonar os velhos, o que se verificou realmente.

“Quando o personagem se revolta e diz “espanhóis de merda” é por achar que não deviam ser assim, é no sentido de que se querem guerra, façam-na a sério e não a apedrejar velhos indefesos.”

Em Portugal ou noutros países?
A nível nacional e internacional, tanto que o Papa se pronunciou sobre a situação várias vezes, tal como outras pessoas, como Tolentino Mendonça quando diz que “os velhos foram transformados numa periferia da sociedade”. O que diz muito sobre os critérios morais de um tempo em que nos preocupamos com tantas minorias e a desigualdade de direitos entre aqueles e outros e, de repente, a minoria dos velhos são abandonados e passam a ter menos direitos que os outros. Entre isto e o tratamento que se dava dantes aos leprosos e tuberculosos não vai uma grande diferença.

Se as farmacêuticas não tivessem “inventado” uma vacina tão rapidamente, esse critério ter-se-ia imposto de uma forma mais dura?
Com certeza, teríamos assistido a uma mortandade brutal entre os velhos. É muito chocante e questiono qual é o sentido de tentar prolongar a vida por todos os meios químicos e outros se no fim estamos diante de farrapos humanos que a sociedade não sabe o que quer fazer com eles. Tornam-se um estorvo para as famílias e as sociedades. O meu personagem central é alguém que recusa isso, ser um estorvo.

O Holocausto surge neste romance e espanta-se porque não houve uma rebelião entre os prisioneiros dos campos de concentração. Quis fazer uma comparação com os velhos vítimas da pandemia?
O espanto é mais por tantos judeus marcharem tão docilmente para a morte naqueles comboios! O que me lembra o que Pasternak dizia sobre os russos e a sua “maldita capacidade da resistência ao sofrimento”. Acho que não são apenas os russos, pois o ser humano tem essa imensa capacidade de não acreditar na fatalidade das coisas. Ou seja, há um optimismo e uma esperança que nunca morre, mesmo quando a evidência da tragédia está diante dos olhos como aconteceu com seis milhões de judeus ao embarcarem docilmente nos comboios com destino aos campos de concentração, imaginando que nunca seria tão mau como o que era óbvio. Isso é que me espanta. Como é que dez ou vinte soldados alemães conseguiam enfiar mil adultos nas carruagens? Mesmo antes, as perseguições e os pogroms aconteceram docilmente… foram muito poucos os que anteciparam o que iria acontecer e fugiram a tempo.

Também tivemos em Portugal autocarros que levavam imigrantes e foram precisos muito poucos polícias para os manter no interior do veículo…
A reacção do ser humano perante a adversidade extrema e o perigo de morte é sempre muito estranha. Na guerra é mata ou morre, não há terceira saída, enquanto nestas situações existe sempre uma vontade estúpida de acreditar na bondade do carcereiro e de que está entre seres humanos. Nessa cena do apedrejamento, o motorista do autocarro pergunta “estes são seres humanos ou animais?” e alguém responde “são seres humanos, os animais não se comportam assim!”. Essa interrogação vai perdurar para sempre e a pandemia pôs isso muito em causa. Todos assistimos a situações de profunda cobardia e de deserção humana à conta da pandemia. As pessoas acharam muito engraçado o primeiro mês do confinamento, as experiências novas e os diários que escreviam, depois isso acabou. No meu caso, fiquei muito marcado. Não estava à espera de escrever este romance e só lhe dei início porque o mundo estava às avessas.

Teve a ficção “facilitada” com esta realidade tão impressionante?
É verdade, precisava apenas tentar explicar a realidade e construir os personagens dentro do que ia vendo e torná-los testemunhas e intérpretes. Esse é o ofício de cada romance.

Pretende que Último Olhar seja uma memória destes tempos?
Alguns personagens são deste tempo, como a médica e o marido, que têm uma vida confortável em Madrid e, subitamente, ela é interpelada pelo que está a acontecer devido à covid. O médico italiano é alguém meio perdido que encontra um caminho e uma missão na luta contra a pandemia e é um daqueles heróis que são sem o saber. Por norma, o herói não é aquele que está preparado para o ser mas o que se revela no momento. Todos eles, contudo, são personagens que se não existiram poderia ter existido neste tempo. Há outros ainda, oportunistas e os que se tentam safar.

Estruturou o aparecimento dos personagens ou eles foram surgindo por si?
Fui deixando correr, mas sempre com uma preocupação: ter uma narrativa do ponto de vista masculino e feminino. Eu procuro sempre interpretar a realidade sob o olhar da mulher e do homem, que não são convergentes na maior parte dos casos, antes complementares ou divergentes. Estas duas últimas situações é o que mais me fascina na relação entre os dois sexos. Há uma cena entre a médica e um polícia de que gosto muito, porque são dois desconhecidos que se encontram numa situação trágica e estabelecem uma relação momentânea no meio de uma cidade onde os habitantes praticamente desapareceram.

Há no livro uma tomada de posição constante, no entanto quando se trata da Guerra Civil espanhola diminui em relação a republicanos e nacionalistas…
Acho que até me descuidei pois estou claramente do lado republicano, mas não quis deixar passar em claro o que foram dos dois lados os crimes. Qualquer guerra civil é necessariamente suja e nenhum dos lados sai limpo, pois não há vencedores nem vencidos com glória.

Foi a parte mais difícil do livro?
Não, essa foi mais sobre o campo de concentração de Mauthausen, porque queria fazê-lo de outra maneira após se ter escrito tanto sobre eles. Era um campo onde estiveram muitos prisioneiros da Guerra Civil espanhola, dos primeiros a ser aberto e dos últimos a ser libertado. Foi complicado imaginar como era o dia-a-dia e como é que um miúdo de 15 anos podia sobreviver. Há situações que são verdadeiras, como o fotógrafo ou o amigo de infância.

Usa a expressão “puta da vida” a dado momento. É a melhor definição para o que se passou?
Em muitos casos é, mas acho que o livro tem um lado solar, até do Sul, que é a localização que mais me atrai desde que escrevo. Para mim é o território da esperança e o personagem principal e os cenários do livro são terras do Sul. Sou um grande defensor da civilização do Mediterrâneo e este livro mostra o meu fascínio pelos pátios, os terraços, as oliveiras, os ciprestes, tudo o que significa de encontro de pensamentos, de conversas, de culturas, mesmo de absurdo e de extremos nas formas de viver e de morrer – esse é o lado solar da vida. Por mais puta que seja a vida é que temos e não há outra. No fim de contas, quando o personagem se revolta e diz “espanhóis de merda” é por achar que não deviam ser assim, é no sentido de que se querem guerra, façam-na a sério e não a apedrejar velhos indefesos.

Foi difícil não esquecer tudo o que se viu, como os negacionistas por exemplo?
Eu fui tomando nota de várias situações que achava principais, como a imagem que mais me impressionou, a do papa sozinho na Praça de São Pedro. Tentei pôr tudo o que mais me marcou e que em termos de narrativa fosse essencial para quem um dia ler o livro e não souber o que foi a pandemia. O Último Olhar pode, na minha opinião, dar-lhe uma ideia.

Receou ser infectado?
Em todos nós houve sempre um momento em que pensámos que podíamos apanhar covid. No Natal, o meu filho apanhou e fiquei fechado com ele 14 dias, sozinhos. Fiz de enfermeiro e a qualquer momento podia infectar-me. Andei sempre a rasar, mas nunca deixei de trabalhar.

dnot@dn.pt

Miguel Sousa Tavares
Porto Editora
311 páginas

Diário de Notícias
João Céu e Silva
13 Setembro 2021 — 00:14