638: Exoplaneta parecido com Tatooine avistado por telescópio terrestre

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Ilustração do telescópio de 193 cm no Observatório de Haute-Provence que foi utilizado para esta investigação. Este foi o telescópio que descobriu o primeiro exoplaneta, 51 Pegasi b, que levou ao Prémio Nobel da Física em 2019. No céu está representado o sistema planetário Kepler-16, juntamente com uma representação do campo de visão da nave espacial Kepler da NASA.
Crédito: Amanda Smith, Universidade de Birmingham

Um raro exoplaneta que orbita em torno de duas estrelas ao mesmo tempo foi detectado utilizando um telescópio terrestre por uma equipa liderada pela Universidade de Birmingham.

O planeta, chamado Kepler-16b, até agora só tinha sido visto utilizando o telescópio espacial Kepler. Orbita duas estrelas, duas estrelas essas que também se orbitam uma à outra, formando um sistema binário. Kepler-16b está localizado a cerca de 245 anos-luz da Terra e, tal como o planeta natal de Luke Skywalker, Tatooine da saga Guerra das Estrelas, teria dois pores-do-Sol se se pudesse estar à sua superfície.

O telescópio de 193 cm usado na nova observação encontra-se no Observatório de Haute-Provence, na França. A equipa foi capaz de detectar o planeta utilizando o método da velocidade radial, no qual os astrónomos observam uma mudança na velocidade de uma estrela enquanto um planeta orbita à sua volta.

A detecção de Kepler-16b usando o método da velocidade radial é uma importante demonstração de que é possível detectar planetas circumbinários usando métodos mais tradicionais, com maior eficiência e menor custo do que através da utilização de naves espaciais.

É importante notar que o método da velocidade radial é também mais sensível a planetas adicionais num sistema e pode também medir a massa de um planeta – a sua propriedade mais fundamental.

Tendo demonstrado o método usando Kepler-16b, a equipa planeia continuar à procura de planetas circumbinários anteriormente desconhecidos e ajudar a responder a perguntas sobre o modo como os planetas são formados. Normalmente, pensa-se que a formação planetária tem lugar dentro de um disco protoplanetário – uma massa de poeira e gás que envolve uma estrela jovem. No entanto, este processo pode não ser possível dentro de um sistema circumbinário.

O professor Amaury Triaud, da Universidade de Birminghtam, que liderou a equipa, explica: “Usando esta explicação padrão, é difícil compreender como é que os planetas circumbinários podem existir. Isto porque a presença de duas estrelas interfere com o disco protoplanetário, e isto evita que a poeira se aglomere em planetas, um processo chamado acreção.

“O planeta pode ter-se formado longe das duas estrelas, onde a sua influência é mais fraca, e depois ter-se movido para dentro num processo chamado migração impulsionada pelo disco – ou, em alternativa, podemos descobrir que precisamos de rever a nossa compreensão do processo de acreção planetária.”

O Dr. David Martin, da Universidade Estatal do Ohio nos EUA, que contribuiu para a descoberta, explica: “Os planetas circumbinários fornecem uma das pistas mais claras de que a migração impulsionada pelo disco é um processo viável e que acontece regularmente.”

O Dr. Alexandre Santerne, da Universidade de Marselha, colaborador na investigação, acrescenta: “Kepler-16b foi descoberto pela primeira vez há 10 anos pelo satélite Kepler da NASA, utilizando o método de trânsito. Este sistema foi a descoberta mais inesperada feita pelo Kepler. Optámos por virar o nosso telescópio e recuperar Kepler-16 para demonstrar a validade dos nossos métodos de velocidade radial.”

A Dra. Isabelle Boisse, também da Universidade de Marselha, é a cientista responsável pelo instrumento SOPHIE que foi utilizado para recolher os dados. Ela disse: “A nossa descoberta mostra como os telescópios terrestres permanecem inteiramente relevantes para a investigação moderna de exoplanetas e podem ser utilizados para novos e excitantes projectos. Tendo mostrado que podemos detectar Kepler-16b, vamos agora analisar dados obtidos em muitos outros sistemas estelares binários, e procurar novos planetas circumbinários.”

Astronomia On-line
25 de Fevereiro de 2022