767: A arte da propaganda

OPINIÃO

A cartilha dos ditadores é bem conhecida. Autoritarismo, repressão, controlo da comunicação social, propaganda, ameaça, violência, enfim, todo um mosaico de práticas que se repetem nas mais diversas geografias políticas. Personagens como Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, são manuais vivos do exemplar exercício da autocracia, incluindo pérolas como manter os seus próprios programas semanais de televisão, onde brindam os súbditos com requintadas efabulações da realidade.

Existe, contudo, uma elite do clube dos ditadores, que são aqueles que não se satisfazem com a imposição local da sua vontade, ansiando ir além em busca de um império, mais ou menos ideológico, que plasme a sua visão à escala continental. Esses, os imperadores do mal, foram mais longe do que nunca nos seus métodos, esticando a cartilha até aos limites. Vladimir Putin é o mais recente notável deste grupo restrito, e vê-se que leu atentamente o Mein Kampf de Adolf Hitler.

A encenação da passada sexta-feira, em que Putin aparece num estádio de Moscovo, a rebentar pelas costuras, remete-nos para os míticos comícios de Hitler. Naqueles eventos, como agora, o ditador desenvolvia toda uma retórica extremamente eficaz de convencimento e justificação das suas ambições expansionistas, apresentadas como uma questão de autodefesa e sobrevivência.

O evento de Moscovo destinava-se a celebrar o oitavo aniversário da anexação da Crimeia. Putin pretendeu mostrar ao mundo uma validação, em formato de multidão entusiástica, da invasão daquela península Ucraniana. Por maioria de razão, a invasão da Ucrânia, travestida de “operação militar especial”, estaria legitimada aos olhos do mundo e do povo russo.

O número de apoiantes, segundo a polícia moscovita, foi de 200 mil pessoas. Como não há estádio tão grande – a lotação do Luzhniki é de 81 mil -, os restantes 120 mil estariam nas imediações. Bate certo! Entretanto, na boa tradição soviética, soube-se que muitos servidores públicos e estudantes terão recebido convincentes sugestões para aparecer por lá.

“Sabemos o que precisamos fazer, como fazê-lo e a que custo. E cumpriremos absolutamente todos os nossos planos”. Putin não poderia ter sido mais claro. Há um plano, está em marcha e não vai parar. A escolha da música “Made in the USSR“, do saudosista Oleg Gazmanov, ajudou à festa com o seu verso de abertura “Ucrânia e Crimeia, Bielorrússia e Moldávia, esse é o meu país”. A semelhança com a construção do “espaço vital” de Hitler, uma espécie de máquina da História, deverá ser mais do que uma coincidência.

Há uns dias, Putin e Lukashenko mostraram-se às televisões no que parecia ser um concurso de mentiras, alternando as histórias sobre armas químicas com os planos de invasão da Bielorússia, sem qualquer exibição de provas. Agora, no estádio Luzhniki, o presidente russo aproveitou o palco para inventar um genocídio de pessoas de língua russa na Ucrânia, que naturalmente alega justificar a “operação especial”. Seguindo a cartilha à risca, Putin apresentou-se alinhadíssimo com Hitler, quando em Mein Kampf escreveu “o uso correto da propaganda é uma verdadeira arte”.

Benjamin Carter Hett, num estudo recente sobre a ascensão de Hitler ao poder, afirmou que “a chave para entender por que muitos alemães o apoiaram está na rejeição dos nazistas de um mundo racional e factual”. O mundo que lhes foi vendido pela propaganda, digo eu. E deixo a pergunta: será que, no século XXI, da Internet rápida e ubíqua, a propaganda ainda é o que era

Professor catedrático

Diário de Notícias
José Mendes
20 Março 2022 — 00:35

DOIS PSICOPATAS. UM JÁ MORREU O OUTRO AINDA ANDA POR CÁ

 



 

720: Guerra, pandemia e transições gémeas

OPINIÃO

É dos livros. De história. Abalos, disrupções, descontinuidades, chamem-lhe o que quiserem, sempre empurraram a Humanidade para estádios mais avançados da sua existência. De caminho, provaram que a transição impossível era, afinal e quase sempre, possível. Foi também assim com a covid-19 e assim será com a invasão da Ucrânia pela Rússia.

A crise pandémica surpreendeu-nos com os confinamentos. Uma realidade que os mortais que cá andavam nunca tinham experimentado. Era preciso pôr as pessoas a trabalhar a partir de casa. E a consumir também. Toda uma reengenharia da vida, para a qual pensávamos não estar preparados. A McKinsey & Company entrevistou executivos de empresas de todo o mundo para saber qual o tempo que estimavam necessário para esta mudança.

Para tornar possível o trabalho remoto, responderam que a transição demoraria, antes da covid, 454 dias, mas que logo no primeiro confinamento conseguiram fazê-lo em 11 dias, o que dá um factor de aceleração de 43 vezes. Para um aumento substancial das compras online por parte dos seus clientes, estimavam, antes da covid, um período de 585 dias, mas afinal aconteceu em apenas 22 dias, ou seja, 27 vezes mais rápido.

Afinal, o impossível foi possível. Ou, se preferirem, o difícil foi fácil. A primeira das transições gémeas já rola a bom ritmo, no terreno e na cabeça das pessoas. Da mesma forma que a pandemia da covid acelerou supersonicamente a transição digital, a guerra na Ucrânia vai acelerar decisivamente a transição energética. A segunda das gémeas, a que às vezes damos a alcunha de climática.

Quando Putin, o aspirante a czar, resolveu partir a loiça e meter-se com a Ucrânia, terá começado a cavar a sepultura do negócio da energia, aquele que é hoje, em simultâneo, o abono de família do seu país e o euromilhões dos oligarcas seus amigos. Em 2014, aquando da anexação da Crimeia, Angela Merkel disse que Putin era um líder do século XIX a agir no século XXI. Referia-se à invasão de nações soberanas, mas eu estico o argumento ao tema da energia.

A Rússia é um portento dos combustíveis do século XIX, todos fósseis, como o petróleo, o gás e o carvão. Acontece que essas não são as formas de energia do futuro, pelo que a crença na dependência europeia da mãe Rússia é um erro de principiante. O pequeno tirano acaba de nos empurrar, inexoravelmente, para os braços da transição energética.

O que está em jogo não é coisa pouca. Em números redondos, na Europa, 45% do gás natural consumido, 45% das importações de carvão e 25% das importações de petróleo provêm da Rússia. Por outro lado, a Lei Europeia do Clima e a estratégia Fit for 55 fixam, já para 2030, a meta da redução das emissões de CO2 em 55%. Está bom de ver que, para reduzir o carbono, há que reduzir a queima de fósseis e que a primeira vítima vai ser a Rússia, uma vez que à dimensão climática se sobrepôs a dimensão geopolítica e de segurança energética.

Para já, a Comissão Europeia responde com o REPowerEU. Vai avançar com a importação de gás natural liquefeito de outras origens, mas o que vai mesmo acelerar a transição é a produção e importação de hidrogénio verde e de bio-metano renovável, a instalação de painéis fotovoltaicos nos telhados europeus, a adopção em escala das bombas de calor e a expansão do eólico offshore. Acompanhadas das infra-estruturas de distribuição e armazenamento.

Obrigado, Vladimir, pelo impulso. Agora sabemos o que fazer. E quem sai a perder.

Professor catedrático

Diário de Notícias
José Mendes
13 Março 2022 — 00:13



 

516: BE e PCP em vias de extinção

OPINIÃO

Esta crónica é sobre a esquerda à esquerda do PS. Mas começo por falar da direita à direita do PSD. O que aconteceu a 30 de Janeiro mostrou como duas suspeitas se tornaram factos. A primeira é a de que os partidos podem ser extintos, à força das cruzes nos boletins de voto.

Aconteceu com o CDS. A segunda é a de que os vazios criados no espectro partidário são necessariamente preenchidos, e nem sempre para melhor. Aconteceu com o Chega e a IL. Voltando à esquerda, a noite eleitoral do último domingo acelerou a espiral de extinção do PCP e do BE. Também do PAN, mas essas são contas de outro rosário. Perante esta tendência, a pergunta que me ocorre é se será este um caminho definitivo e quem ocupará o vazio criado.

As explicações adiantadas por comunistas e bloquistas para o fracasso eleitoral não colhem. Primeiro, a tese de que o PS fez um orçamento para ser chumbado e ir para eleições à procura da maioria absoluta. Esta ideia bate na trave, porque, a ser assim, porque raio teriam BE e PCP feito a vontade ao PS, votando contra o OE? E bate também no poste, porque dos sete orçamentos apresentados por António Costa, o de 2022 era o mais à esquerda. Digo-o eu que trabalhei na construção dos primeiros seis.

Depois, a desculpa das sondagens e da bipolarização, como se o jogo das respectivas interpretações fosse algo de novo e substituísse a votação. Ironicamente, todas as sondagens apontavam para a forte penalização destes dois partidos, o que de facto aconteceu. Por fim, a pandemia e a rábula do SNS. Os comunistas consideraram-se prejudicados por não poderem fazer uma campanha de proximidade, como se isso tivesse sido uma dificuldade só sua. Os bloquistas insistiram naquilo que pensavam ser o seu porquinho-mealheiro dos votos, que era queixar-se do SNS, quando a esmagadora maioria da população o enalteceu e nele confiou.

Este estado de negação esconde o problema mais profundo das duas forças partidárias, que é o de se terem entrincheirado numa visão do mundo, da sociedade e do país que já não existe e que não está no imaginário dos portugueses. Embora melhor escondido no Bloco, que tem sido mais hábil no exercício de mascarar a sua ideologia, em ambos os casos subsistem ideias, ora ultrapassadas, ora radicais, que não acompanham um país de cultura europeia ocidental.

BE e PCP são, essencialmente, contra. Em todas as suas intervenções jaz uma matriz ideológica inviável e fossilizada. Contra a Europa, o Euro, a OTAN, a OCDE, o FMI, o BCE e a UE. Contra o défice zero, o pagamento da dívida pública e a banca. Contra o capitalismo, as grandes empresas, os patrões e a propriedade privada. Contra as barragens, as torres eólicas, o nuclear, os painéis fotovoltaicos e o lítio.

Esta esquerda à esquerda do PS recusa modernizar-se. As boas intenções de ajudar os pobres e oprimidos, de levar justiça, saúde e educação a todos e de olhar pelos direitos das minorias, nas quais quase todos nos revemos, esbarram na impossibilidade de mobilizar uma caixa de ferramentas políticas, sociais, económicas e ambientais que se integre na sua visão do mundo. Perante isto, o eleitorado tem vindo a acentuar a insolvência desta ala esquerda. Em 2015, comunistas e bloquistas valiam cerca de um milhão de votos; hoje, já valem menos de metade disso.

Para evitar a extinção, não vejo outra saída que não a da refundação desta esquerda mais à esquerda. A sua visão do mundo e o seu perímetro ideológico precisam urgentemente de uma actualização. Se o não fizerem, o vazio será preenchido por outros.

Professor catedrático

Diário de Notícias
José Mendes
06 Fevereiro 2022 — 00:31


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37: Covid sem fim à vista

OPINIÃO

A quarta vaga avança na Europa. Na Índia, em África e no Brasil, o vírus passeia-se sem grande oposição, infectando e matando. No Japão, os Jogos Olímpicos que iam ter público local, afinal poderão decorrer à porta fechada. As medidas reactivas sucedem-se: recolher obrigatório, limitações à circulação, inibição de ajuntamentos e distanciamento social. São necessárias, ponto. Mas há outro ponto, que é o da acção extraordinária à escala global que permita acelerar a vacinação para um patamar que vença quaisquer geografias. E, sobre isto, os líderes mundiais, europeus incluídos, continuam a assobiar para o ar, convencidos de que se vacinarem os seus, então estarão safos. Errado, ponto.

As variantes do vírus resultam de processos de mutação que se têm desenvolvido sobretudo nas geografias onde este encontra menos resistência, normalmente porque a organização da acção sanitária é aí muito deficiente. Apesar de a Organização Mundial de Saúde ter rebaptizado essas variantes, para evitar estigmas regionais, sabemos que só a primeira, a Alfa, veio do Reino Unido. Depois, a Beta, veio da África do Sul, a Gama do Brasil e a mais recente, a Delta, teve origem na Índia. Esta última é claramente a mais contagiosa e tem sido responsável por surtos na Europa. Ou seja, o vírus vai circulando pelo mundo, fintando os anticorpos e prolongando a pandemia, que parece não ter fim à vista.

As assimetrias regionais na administração da vacina trazem à evidência que este processo global de geração de mutações, que se transformam em variantes mais agressivas e que circulam pelo mundo, não vai parar. Um olhar sobre o ritmo de vacinação revela três velocidades: as economias avançadas, bem mais rápidas, que andam já pelos 80% de inoculados; as economias emergentes, a menos de metade desse nível; e as grandes manchas esquecidas, como a África, que ainda só vacinou cerca de 2% da população, sendo que apenas 1% recebeu as duas doses. Se a imunidade de grupo é a solução, então a vacinação tem de escalar.

Aqui entram as farmacêuticas, que continuam focadas na protecção do perímetro do seu negócio, mas com uma eficácia que deixa muito a desejar, ora fazendo anúncios avulsos e erróneos sobre o aumento da produção de vacinas, ora cancelando entregas programadas. Os responsáveis políticos do mundo desenvolvido, por seu lado, continuam obedientemente a alinhar neste jogo, homologando a tese de que um levantamento temporário dos direitos de patente, quer das vacinas, quer das tecnologias para a sua produção, não resultaria numa multiplicação das instalações de produção e, por maioria de razão, num aumento, ainda por cima descentralizado, das vacinas disponíveis. É confrangedor o desfile de meias ou ocas verdades, que disseminam os falsos mitos de que não há matérias-primas nem know how para multiplicar a produção de vacinas. Não, isto não é defender o sistema capitalista, isto é destruir o futuro desse mesmo sistema.

A sucessão de vagas da pandemia está aí, um pouco por todo o mundo, como uma bofetada a castigar a inacção de líderes políticos manietados. Tiveram, desde Janeiro, a oportunidade de serem grandes e de procurar evitar o descalabro de mortes e miséria que se instalou no mundo. Mas não, escolheram ser derrotados por um vírus que, não tendo cérebro, é bem mais empreendedor que eles. E que procura incansavelmente a variante que poderá fintar as actuais vacinas. Esperemos que isso não aconteça, porque aí o julgamento da História não será meigo para muitos.

Deputado PS e professor catedrático

Diário de Notícias
José Mendes
04 Julho 2021 — 00:15