890: #mazelas

OPINIÃO

Soube-se ontem que no, final de Março, eram mais de 1,2 milhões de portugueses sem médico de família.

Eu, que me considero uma sortuda por ter um há 25 anos, não sei o que faria se ficasse sem assistência clínica familiar ou nem tivesse as consultas abertas dos centros de saúde.

O que eu sei é que os números publicados no Portal da Transparência do Ministério da Saúde indicam um agravamento na falta de médicos de família e que são os valores mais altos desde 2014.

Esta poderá ser uma explicação para o aumento de pessoas que recorrem às Urgências hospitalares, numa altura em que persiste a covid lado a lado com gripes.

Falar-se em “falsas urgências” é não saber o que sente quem não tem alternativas nos centros de saúde.

E, mesmo que se trate de uma pequena mazela, será pequena para quem assiste, mas não para quem sofre.

*Jornalista

Jornal de Notícias
Margarida Fonseca
09.04.2022 às 00:06


Pelas vítimas do genocídio praticado
pela União Soviética na Ucrânia



 

889: #casinha

OPINIÃO

A casa, chamemos-lhe assim, é um quadrado acanhado. Uma mini-cozinha e ao lado, sem separação, sanita e chuveiro.

Em frente, a cama e uma mesa com duas cadeiras. Um open space – muito open (não há maior abertura do que cozinhar ao lado da retrete) e pouco space (não há espaço menor quando se está sentado na retrete quase colada ao fogão onde a sopa está ao lume) – que só custa 575 euros por mês.

A pechincha é apenas para uma pessoa. Se for mais alguém para lá morar – na improvável hipótese de ali caber mais um ser humano – o preço sobe. O cubículo fica no Porto, mas em Lisboa é igual.

Há senhorios bons em todo o país. É a mesma gente que se queixa dos impostos, esses malvados que só servem para subir o preço dos combustíveis.

Os lucros das gasolineiras nunca influenciam a factura. Coitadas. Já não há liberais como antigamente.

*Jornalista
Jornal de Notícias

Hugo Silva
09.04.2022 às 00:07


Pelas vítimas do genocídio praticado
pela União Soviética na Ucrânia



 

888: E se Putin invadir Paris?

OPINIÃO

Quarenta e poucos dias após o início de um impensável conflito militar em solo europeu, há uma nova nuvem negra a pairar sobre o Velho Continente.

Tem o seu epicentro em Paris, mas pode ter efeitos devastadores em todas as latitudes NATO, traduzindo-se numa tortuosa vitória de Putin e de Moscovo. As eleições presidenciais francesas deste domingo, que antes da guerra pareciam um passeio no parque para Emmanuel Macron, transformaram-se numa séria ameaça não apenas à estabilidade europeia, mas à própria solidez da Aliança Atlântica, face à perigosa aproximação nas sondagens de Marine Le Pen ao presidente-candidato.

De forma algo surpreendente, a extremista que concorre ao Palácio do Eliseu pela terceira vez – e é uma entusiástica apoiante do regime russo, embora mais moderada agora, por conveniência eleitoral – tem conseguido manter a sua popularidade em alta, apesar da toxicidade provocada por qualquer laivo de simpatia para com o todo-poderoso autocrata. De resto, as sondagens sugerem que, numa mais do que provável segunda volta, e caso o eleitorado da Esquerda fique em casa (o que muitos temem que possa acontecer), Le Pen pode ter sérias hipóteses de triunfar.

Sobretudo porque tem usado a sua retórica populista e inflamada junto dos franceses que estão a sofrer economicamente com a invasão da Ucrânia, deixando para um segundo plano medidas mais radicais como as restrições aos imigrantes e a proibição do uso, pelas mulheres, do véu islâmico em solo francês.

Uma vitória de Le Pen poderia significar uma crise na Europa ainda mais profunda do que a causada pelo Brexit e, no actual contexto de alianças militares, seria um abanão estrondoso na coligação pró-ucraniana que vai de Varsóvia a Washington. Putin pode invadir Paris sem disparar um único míssil. Neste domingo, é o ideal europeu que vai a eleições, não apenas a França.

*Director-adjunto

Jornal de Notícias
Pedro Ivo Carvalho
09.04.2022


Pelas vítimas do genocídio praticado
pela União Soviética na Ucrânia



 

80: Vacinação política

OPINIÃO

A insistência do presidente da República em torno da necessidade de as crianças dos 12 aos 15 anos serem vacinadas de forma universal terá, muito provavelmente, o seguinte desfecho: mais semana menos semana, e à imagem do que está a acontecer na Madeira, os menores – os saudáveis e aqueles com comorbilidades – vão engrossar o contingente de inoculados.

Só assim se pode explicar esta vontade indomável de Marcelo Rebelo de Sousa em querer impor o seu entendimento sobre uma decisão que compete às autoridades de saúde, aos cientistas, aos médicos e aos pais. “Aquilo que é bom na Madeira será também bom nos Açores e no Continente”, afirmou o chefe de Estado. Porém, ao fazê-lo desta forma tão vincada, o presidente apenas está a contribuir para aumentar o volume do ruído mediático que tem pautado um debate complexo que não se cinge a pretos e brancos.

É verdade que há razões atendíveis, e cientificamente suportadas, para defender cada um dos cenários, mas esta mistura desbragada entre o que é a validação técnica e a convicção política é inquietante. Sobretudo aos olhos dos destinatários finais: as crianças e os pais, que, num contexto de tão grande dualidade, vão querer aumentar a pressão exercida sobre os médicos.

A Direcção-Geral da Saúde tem-se limitado a reagir aos acontecimentos políticos, numa prova de que está a acusar a pressão. Na realidade, o pior que podia acontecer num tema tão sensível como o da vacinação de menores era que estes dois mundos se misturassem e se contaminassem, alimentando as teorias da desinformação.

A decisão de vacinar crianças é, em primeiro lugar, médica e só depois política. Querer impor uma orientação quase por decreto, à revelia do que defende a DGS, pode ter um elevado significado político, mas ajuda, a prazo, a desacreditar a confiança num processo quase exemplar e que tantas vidas tem salvo.

Director-adjunto

Jornal de Notícias
pedro ivo carvalho
07 Agosto 2021 às 00:01

 

79: Surtos em lares, outra vez

OPINIÃO

No primeiro ano de pandemia, os surtos em lares foram a maior tragédia a que o Mundo assistiu.

A morte de idosos chegou a representar quase metade da mortalidade total e os casos foram pondo a nu o drama de instituições sobrelotadas e sem recursos técnicos e humanos para oferecer cuidados dignos aos seus utentes.

A vacinação mostrou total eficácia e devolveu a esperança a cuidadores e famílias, mas a dimensão de surtos desta semana repôs razões para o medo. Proença-a-Nova e Almodôvar somam já três vítimas e levantam dúvidas sobre a imunidade entre as populações mais fragilizadas. Depois de uma primeira reacção em que se limitou a afastar, para já, o cenário de uma terceira dose da vacina, o Governo fez o que lhe competia e anunciou um estudo serológico alargado nestas instituições. Se há falta de evidências científicas, procuremo-las com urgência, porque só a ciência poderá guiar respostas acertadas.

O regresso de surtos obriga, além disso, a rever o que possa estar a falhar nos lares. Os negacionistas que esqueçam a tentação de rejeitar a validade da vacina. Não é disso que se trata, porque sem vacinação surtos com mais de uma centena de infectados resultariam em dezenas de mortes. A questão é como reagir aos riscos de uma circulação alargada do vírus, com os efeitos mascarados precisamente pela inoculação.

Não podemos manter os idosos numa redoma e o preço de um ano sem visitas já foi demasiado elevado. Mas seja pela testagem, seja pela monitorização mais atempada de sintomas, têm de ser encontrados mecanismos adequados para se retomar o caminho da prevenção e da contenção de focos de infecção.

As alterações no perfil de contágios e das campanhas de comunicação levaram-nos a desviar o olhar para as camadas mais jovens. Mas é nos nossos mais velhos, como sempre, que a covid mostra o seu lado mais destrutivo. Se depois de tantos meses de estudo sobre o comportamento do vírus ainda não conseguimos protegê-los, alguma coisa estamos a fazer mal.

*Directora

Jornal de Notícias
Inês Cardoso
08/08/2021 às 00:03