737: O desmoronamento da economia russa

OPINIÃO

Após a invasão (a 24 de Fevereiro) da Ucrânia pela Rússia, a UE e o “mundo ocidental” impuseram sanções severas, nomeadamente financeiras. Foram proibidas transacções com sete dos maiores bancos da Rússia; foi proibida a negociação de obrigações soberanas russas nas praças financeiras ocidentais; limitou-se a capacidade de emprestar a algumas grandes empresas russas; bloqueou-se os principais bancos russos do sistema SWIFT; e foram congeladas as reservas cambiais do banco central russo. Com este primeiro conjunto de sanções, a Rússia ficou bloqueada no acesso ao mundo financeiro internacional. Foi ainda proibida a exportação de cerca de metade das principais componentes tecnológicas que a Rússia compra a fornecedores ocidentais. Para além dos principais políticos da Rússia, outras sanções almejaram as elites russas e as suas empresas.

Foram congelados os activos dos principais oligarcas russos, que até recentemente escapavam às sanções, com os seus mega-iates a serem apreendidos. Dada a natureza extraterritorial de muitas destas sanções, nenhuma entidade ocidental se atreverá a interagir com as instituições financeiras russas no devir próximo. Os riscos reputacionais (e a pressão da opinião pública ocidental) levaram centenas de empresas ocidentais respeitáveis a declarar que vão deixar de fazer negócios na ou com a Rússia.

No dia 28 de Fevereiro a economia russa entrou em colapso. Os russos acorreram aos bancos e máquinas multibanco para trocar quanto dinheiro pudessem por divisas fortes; e irromperam por lojas para comprar o que encontrassem antes que os preços disparassem. O rublo caiu 70% e os economistas preveem que o rublo continuará a cair, aproximando-se de uma taxa de câmbio de 200 rublos por dólar norte-americano até ao final do ano (era cerca de 70 rublos antes da guerra de Putin).

Em 8 de Março, o banco central russo decidiu parar de cambiar rublos por moeda estrangeira, tornando o rublo inconvertível. A maior parte das reservas cambiais da Rússia (630 mil milhões de dólares) estão congeladas. As bolsas russas estão fechadas e o valor das 31 acções russas que são negociadas em Londres caiu 98% (a 15 de Fevereiro, as acções do Sberbank no mercado secundário em Londres estavam a 14 dólares, a 13 de Março estavam a 5 cêntimos).

Os mercados de capitais da Rússia estão essencialmente mortos. Todos os activos financeiros russos foram re-classificados para o estatuto de lixo. É provável que a Federação Russa entre brevemente em incumprimento relativamente às suas obrigações de dívida soberana. Não é improvável que a taxa de inflação atinja pelo menos 50%, e que o PIB russo venha a cair pelo menos 10% este ano.

Putin não percebeu que, no domínio financeiro, o mundo ainda não é multipolar.

A catástrofe económica em que a Rússia mergulhou é clara e deverá agravar-se. Ainda as sanções europeias e do “mundo ocidental” estão no início e já a economia, a banca e a finança russas estão a colapsar. Este desmoronamento, produto da imposição de um delírio imperialista, vai provocar miséria social na generalidade da população russa, criar instabilidade social e política e radicalizar uma fuga para a frente da liderança russa. Mas Putin só tem de queixar-se de si próprio.

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Diário de Notícias
Jorge Costa Oliveira
16 Março 2022 — 00:24

 



 

658: Façamos de Putin um exemplo

OPINIÃO

O que considerávamos impensável, sucedeu: o líder da Rússia não apenas jogou a carta militar, como invadiu a Ucrânia com pretextos absurdos e rasgou os acordos de Minsk; de caminho “avisou” a Suécia e a Finlândia e fez ameaças veladas com menção à capacidade nuclear da Rússia. Os argumentos da Federação Russa foram destruídos pela conduta do seu líder, que dissimulou, mentiu, actuou de má-fé e violou flagrantemente o direito internacional.

É hoje claro que o argumentário russo é uma fachada para os delírios imperialistas de Putin, baseados na mentira de que a Ucrânia não é uma nação real, que os ucranianos não são um povo real e que os habitantes de Kiev, Kharkiv, Lviv, Odessa, Mariupol, anseiam fazer parte da Mãe-Rússia. Ora, a Ucrânia é uma nação com mais de mil anos de história, e Kiev já era uma grande metrópole quando Moscovo ainda não era uma vila.

A anexação da Crimeia e a guerra no Donbass em 2014 forjaram uma forte unidade nacionalista ucraniana anti-russa. A liderança russa sabe bem isso. Esse forte sentimento não permitirá que a Ucrânia regresse ao espaço de influência russa e levou a que sucessivos governos ucranianos tenham pedido a adesão à UE e à NATO. Putin reagiu com uma invasão militar brutal que conseguiu fazer “renascer” a NATO, promover a unidade de todos os países da UE e incendiar a opinião pública da Europa.

É agora claro que a interdependência económica não é suficiente para garantir a paz com um país liderado por alguém como Putin. Ele não hesitou em utilizar a carta militar. A Europa não hesitou em impor sanções nos domínios económico, comercial e financeiro. O congelamento de activos dos bancos russos, do Banco da Rússia, e dos fundos soberanos russos, bem como a proibição de utilização do sistema SWIFT por bancos russos, vão provocar danos significativos nos sistemas bancário e financeiro da Rússia e na sua economia em geral.

A obstinação de Putin em esmagar militarmente a Ucrânia conduzirá a que estas sanções sejam reforçadas. Para além da proibição de acesso aos mercados financeiros europeus e americano, deverá ser proibido a pessoas e empresas europeias fazer negócios com empresas do Estado russo ou pertencendo a oligarcas russos.

Em breve uma empresa chinesa ou indiana pode ser forçada a optar se faz negócios com empresas da UE ou da Rússia. A Alemanha anunciou já o reforço em cem mil milhões de euros das suas despesas militares, passando o seu orçamento de defesa para >2% do PIB alemão. Se outros países europeus a seguirem, o conjunto dos orçamentos dos países europeus da NATO deverá subir dos actuais 300 mil milhões para 400 – 500 mil milhões de euros.

O aplauso de Trump à acção de Putin mostra que a Europa não está livre de voltar a ter que lidar com um presidente americano com diferentes prioridades ou vendido a interesses estrangeiros ou simplesmente insano. Devemos a Putin este fortíssimo lembrete que têm de ser os europeus a tratar da segurança europeia.

No rápido caminho para um mundo multipolar, alguns autocratas pensam que podem ser senhores da guerra sem sofrer consequências sérias. É essencial que fique claro que quem violar flagrantemente o direito internacional será sujeito à imposição de sanções económicas, comerciais e financeiras que podem destruí-los. Façamos de Putin um exemplo.

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Diário de Notícias
Jorge Costa Oliveira
02 Março 2022 — 00:15