543: O povo é soberano

OPINIÃO

Em Outubro passado o Orçamento do Estado não foi aprovado na Assembleia da República devido a uma coligação negativa de votos (quando um conjunto de forças contrárias entre si se organizam, por motivos diferentes, para derrotar um terceiro).

Esta coligação negativa levou-nos a um impasse que durará cerca de cinco meses, em que o país se atrasará no cumprimento de alguns objectivos. Essa coligação levou a uma derrota de quase todos os seus intervenientes e não só. À esquerda, PCP e Bloco de Esquerda viram piorar as suas representações parlamentares de forma drástica.

O PEV e o CDS perderam a representação parlamentar. O PAN quase que desaparecia do parlamento, apesar de não ter participado nessa coligação. Os novos partidos da direita, Iniciativa Liberal e Chega, aumentaram de forma assinalável os seus representantes. O PSD não conseguiu melhor do que o que já tinha e o PS ganhou de forma estrondosa as eleições, conseguindo uma maioria absoluta supostamente imprevisível.

Toda esta análise é factual e fácil agora que passaram as eleições. Mas nas duas semanas que antecederam as mesmas, a maioria das empresas de sondagens, dos analistas e muitos jornalistas desdobraram-se na emissão de estudos e opiniões que davam como certo o fim político de António Costa e a ascensão de Rui Rio à liderança do país.

No período de campanha, na tentativa de se auto-convencerem, o Bloco de Esquerda apregoava que continuaria a terceira força política e a CDU que o seu eleitorado continuaria imutável não descendo abaixo dos mínimos; o PAN que seria relevante para a maioria governativa; o Chega que chegaria aos 10%; o PSD que chegaria ao governo; o líder do CDS que seria ministro da Defesa e a Iniciativa Liberal que cantaria vitória com dois deputados.

Passadas quase duas semanas sobre a maioria absoluta de António Costa e a reconfiguração do parlamento, quase nenhum analista se veio retratar nem nenhuma empresa justificou o desaire dos resultados das sondagens divulgadas nas semanas de campanha. Era o mínimo que se exigia em respeito pelos eleitores. Os líderes derrotados, os analistas e os comentadores de rede social acusam o povo de gostar de sofrer, de não ter cabeça e de querer contribuir para a ausência de mudança que acham que o país tanto precisa.

Acontece que o povo é soberano e escolheu a continuidade, reforçando o poder da liderança e afastando, inclusive, os que tanto dizem falar em nome do povo. Os eleitores que vivem nos meios mais urbanos e nos meios desprotegidos dos territórios mais frágeis escolheram dar a António Costa o poder de governar sem ter de ceder a exigências terceiras. E voltaram a não alinhar com os intelectuais que pretendem ser líderes de opinião.

Talvez valha a pena respeitar o povo, esperar que as suas escolhas se revelem as melhores e acreditar que a maioria absoluta pode não ser assim tão negativa. Afinal, Cavaco teve direito a duas seguidas e sobrevivemos, ao ponto de ser premiado com mais duas maiorias enquanto Presidente da República. O povo é soberano e desrespeitar o povo não é bonito.

Presidente do Instituto Politécnico de Coimbra

Diário de Notícias
Jorge Conde
10 Fevereiro 2022 — 00:19


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158: Autárquicas 2021 – esquerda, direita e egos

OPINIÃO

Estamos no final de uma campanha eleitoral que nos trará uma nova (ou velha) arrumação autárquica.

Longe vão os tempos em que as campanhas eleitorais eram feitas à volta de projectos, mais ou menos elaborados, mais ou menos consistentes, mas com uma ideologia subjacente. Mesmo nas eleições autárquicas era possível perceber como ficaria o concelho depois do mandato a que cada um concorria e, mais à esquerda de pensamento ou mais à direita, facilmente se percepcionava uma gestão mais centrada nas pessoas ou mais centrada nas infra-estruturas. Quando centrada nas pessoas, também ainda se compreendia se estávamos a falar de uma ideologia mais social ou de projectos mais transversais ligados à qualidade de vida, à comodidade, às oportunidades de trabalho, etc.

Quando a aposta se direccionava às infra-estruturas, também podia apontar mais para as estruturas sociais e de saúde, por vezes para o ensino, algumas (escassas) vezes para o ensino superior, ou para o desporto (bastantes), ou para as obras “de fachada”, as célebres rotundas e bancos de jardim. Estas escolhas dependiam obviamente do binómio esquerda-direita e muito da forma como o partido concorrente se posicionava ideologicamente.

Há uns anos surgiram os movimentos de cidadãos independentes que poderiam ser uma lufada e ar fresco – e em alguns casos foram – na política autárquica que se quer de proximidade. Foram muitos os casos em que grupos de homens e mulheres sem vida partidária ou actividade política activa se disponibilizaram para fazer melhor pela sua terra e muitas destas iniciativas são louváveis: projectos que, sem subordinação a uma ideologia política, construíram boas dinâmicas territoriais e são verdadeiros exemplos de exercício de poder bem feito.

Mas, salvaguardadas as devidas e honrosas excepções, começaram a aparecer movimentos constituídos pelos excluídos dos partidos convencionais. Quando alguém é afastado da corrida eleitoral pelo seu partido, ou quando não é convidado para o lugar com que sonha, concorre através dos movimentos de cidadãos. Estes movimentos situam-se no mesmo espaço político do ex-partido dos dissidentes e, mais do que combater aqueles que até então foram a sua oposição, combatem o seu próprio espaço político. São estes os que agora até se constituem como “partidos” temporários e regionais, para poderem fazer coligações com os partidos que contestam e aparecerem com mais representatividade nas eleições, criando dinâmicas de pura oposição e de subprodutos dos partidos convencionais.

Afinal a ferramenta que tinha a melhor das intenções – os grupos de cidadãos com vontade de fazer pela sua terra – pode tornar-se num espaço pernicioso de sub-partidos, com os mesmos defeitos que visava contornar. A política faz-se de coragem e a mudança faz-se dentro das organizações (partidos). Mais do que fugir para um movimento “independente”, importa mudar as organizações em que acreditamos por dentro. Talvez no domingo os eleitores escolham votar em projectos e não realizar ajustes de contas pessoais, por esta ou aquela forma de comunicar.

Presidente do Instituto Politécnico de Coimbra

Diário de Notícias
Jorge Conde
23 Setembro 2021 — 00:05