835: O batom na cueca

OPINIÃO

O capelão do navio foi apanhado com uma smoking pistol (pistola a fumegar) na mão”, lê-se em A Aventura do Gloria Scott, conto de 1893 de Arthur Conan Doyle, cujo herói é um jovem Sherlock Holmes.

Foi lá, dizem os especialistas, que nasceu a expressão que é hoje sinónimo, não apenas no mundo criminal, mas também no político, ou no cruzamento entre ambos, de “prova irrefutável de culpa”, na forma, alterada com o tempo, de smoking gun (arma a fumegar).

No Brasil, a locução equivalente à anglo-saxónica smoking gun talvez não seja tão elegante mas é, provavelmente, mais eloquente e, seguramente, mais divertida: batom na cueca. O batom na cueca é a arma que fumega, é o flagrante que, inapelável, denuncia o crime.

Eis um exemplo de batom na cueca ainda a fumegar na imprensa: o jornal O Estado de S. Paulo noticiou dia 22 que dois pastores evangélicos, sem ligação formal ao governo, distribuem verbas milionárias do Ministério da Educação a prefeitos escolhidos a dedo Brasil afora. O batom apareceu na cueca no dia seguinte, nas páginas do concorrente Folha de S. Paulo, num áudio no qual o ministro Milton Ribeiro, também pastor, não só admite o esquema como o atribui a uma ordem de Bolsonaro, em pessoa. Na sequência, mais batom: prefeitos denunciam que os pastores oferecem as tais verbas públicas em troca de dinheiro e de barras de ouro.

Outro exemplo: só meses depois de recusar 70 milhões de doses de vacina da Pfizer a metade do preço, que teriam poupado a vida a milhares de compatriotas, o Presidente decidiu comprar uma vacina; mas o imunizante, indiano, seria adquirido 1000% mais caro do que o preço de mercado de forma a beneficiar intermediários – funcionários do Ministério da Saúde, militares na reserva e pastores (são outros, há muitos). Um deputado bolsonarista soube do crime e denunciou-o ao Presidente, que nada fez. Eles contaram a história – o batom na cueca – na Comissão Parlamentar de Inquérito da covid-19 e Bolsonaro não desmentiu.

Por décadas, Bolsonaro e família desviaram os salários de dezenas de assessores para o bolso, num esquema estimado em 29 milhões de reais. O primogénito Flávio Bolsonaro até comprou uma mansão de seis milhões em dinheiro vivo e a primeira-dama Michelle Bolsonaro recebeu na conta 21 cheques de Fabrício Queiroz, apontado pela polícia como operador do esquema. Walter Ferraz, amigo e colaborador de 30 anos de Bolsonaro, disse à revista Veja no início do ano que era o Presidente quem assinava tudo – “isso é o batom na cueca”, resumiu ele.

O ministro do Turismo continuou no governo mesmo depois de coordenar trapaça milionária com candidaturas femininas falsas, o do Ambiente só saiu após se tornar alvo de inquérito por contrabando de madeira e o da Justiça, considerado até então um modelo de honestidade pela extrema-direita, bateu com a porta acusando, com provas de batom na cueca, o Presidente de aparelhar as polícias para se proteger dos seus crimes.

Houve até o caso, quase literal, de batom na cueca do líder parlamentar bolsonarista, Chico Rodrigues, apanhado pela polícia com 30 mil reais escondidos nas nádegas.

No comício do lançamento da pré-campanha, no entanto, Bolsonaro, ladeado pelo presidente do seu partido, preso por envolvimento no Mensalão até 2019, e por Collor de Mello, cujo cadastro dispensa mais apresentações, manteve que no seu governo “não há corrupção”.

É preciso, para usar outra expressão local, muita cara de pau.

Jornalista, correspondente
em São Paulo

Diário de Notícias
João Almeida Moreira
31 Março 2022 — 00:19

 



 

741: O Dia da Mulher no Bolsonaristão

OPINIÃO

Como é festejado o Dia Internacional da Mulher na República Evangélica do Bolsonaristão, devem perguntar-se os leitores. A resposta vem a seguir.

Arthur do Val, deputado estadual, candidato a governador de São Paulo e cheerleader dos protestos contra Dilma Rousseff em 2015 e 2016, assinou o preâmbulo, no dia 4 de março. No fim de uma “viagem de solidariedade à Ucrânia”, contou aos amigos, em áudio, que “as ucranianas são fáceis por serem pobres” e que equaciona fazer mais digressões ao leste europeu “só para pegar loiras”.

Com a brincadeira, Mamãe Falei (o seu nome de guerra) perdeu a namorada, teve de retirar a candidatura ao governo, deve ser expulso do parlamento, foi largado pelo ídolo, o ex-ministro e pré-candidato à presidência Sergio Moro, e, humilhação das humilhações, acabou tachado de “asqueroso” por ninguém menos do que Jair Bolsonaro.

O mesmo Bolsonaro que afirmou só não violar uma colega parlamentar por ela ser feia e que as mulheres deviam ganhar menos porque engravidam. Aquele para quem a sua filha mais nova, depois de ter sido pai de quatro homens, não passou de uma “fraquejada”. O mesmo que acusou uma jornalista de “dar o furo”, numa piadola de duplo sentido após publicação de notícia incómoda para o bolsonarismo, e que dançou um funk que classifica as mulheres de esquerda como “cadelas” e oferece às feministas “ração na tigela”.

O asco que Bolsonaro diz ter sentido não se deve ao conteúdo das declarações de Mamãe Falei, claro, mas ao facto de o deputado, em 2019, ter deixado de apoiar o governo para ser groupie de Moro. E ao objetivo eleitoreiro de recuperar o voto feminino, hoje maioritariamente nas mãos de Lula da Silva, segundo as sondagens.

Porque o machismo de Bolsonaro continua intacto: no discurso oficial, de gravata rosa, do 8 de março, lembrou que “as mulheres estão praticamente integradas à sociedade” – uma declaração na linha do “cada vez mais, o índio é um ser humano igual a nós”, do ano passado.

A comemoração presidencial do Dia da Mulher não ficou por aí: Bolsonaro discursou num evento sobre a participação feminina na política cujos palestrantes, além dele, foram o ministro da Economia, o ministro da Infraestrutura, o presidente da Câmara dos Deputados e o vice-governador paulista – sim, cinco homens.

Em paralelo, o Ministério da Mulher do governo Bolsonaro entregou às mulheres, no seu dia, o mais baixo orçamento para o setor em quatro anos.

Augusto Aras, o procurador-geral da República escolhido a dedo para blindar o presidente e a família de transtornos jurídicos, também deu a sua contribuição. “Este é um dia de homenagem à mulher no seu sentido mais profundo, da sua individualidade, da sua intimidade, à mulher que tem o prazer de escolher a cor da unha que vai pintar, à mulher que tem o prazer de escolher o sapato que vai calçar”, afirmou Aras, com o prazer de quem vive no século XIX.

E se Mamãe Falei assinou o preâmbulo e Bolsonaro e aliados escreveram o grosso da obra, os deputados anabolizados Daniel Silveira e Rodrigo Amorim encarregaram-se do posfácio do 8 de março no Bolsonaristão: fotografaram-se com uma placa em homenagem a Marielle Franco, assassinada há quatros anos, orgulhosamente partida ao meio pelos dois.

Jornalista, correspondente em São Paulo

Diário de Notícias
João Almeida Moreira
17 Março 2022 — 00:46

 



 

423: No país dos feijões mágicos

OPINIÃO

No mundo, discute-se os movimentos das tropas de Putin e a crescente tensão na Ucrânia, as imagens e os efeitos da erupção do vulcão em Tonga, a personalidade e as ideias da nova presidente do Parlamento Europeu, as festas e o futuro político de Boris Johnson, o resultado do tie break no jogo de Novak Djokovic contra o governo australiano e a ciência, além do impacto e do significado da variante Ómicron do coronavírus.

No Brasil civilizado, todos esses assuntos internacionais, assim como as estratégias, as alianças e as sondagens da pré-campanha das eleições mais tensas da história do país, marcadas para 2 de outubro, também se discutem.

Mas no Bolsonaristão o tema é outro: feijões mágicos podem ou não curar até os casos mais graves de covid-19?

Tudo começou em maio de 2020. O pastor Valdemiro Santiago de Oliveira, milionário líder da Igreja Mundial do Poder de Deus, denominação cristã evangélica especializada em milagres com cerca de 5 mil templos espalhados por 24 países, lançou no momento mais trágico da pandemia um vídeo surpreendente no YouTube.

Segundo o também televangelista, escritor e cantor de 58 anos, até os casos mais graves de covid-19 podem ser curados através de sementes de feijão. Sucede que essas sementes milagrosas estão todas na posse dele e custam o “propósito” (eufemismo usado na Igreja Mundial para dinheiro, grana, massa, pilim, cacau, guito) de mil reais (mais ou menos 160 euros). Quem quiser, no entanto, pode investir apenas 500, 200 ou 100 reais nos feijões convenientemente vendidos com a inscrição “sê tu uma bênção”, o slogan da igreja, e criados no laboratório teológico-farmacêutico de Valdemiro.

Valdemiro, convenhamos, tem um currículo invejável para aquilo – enganar o povo – a que se propôs fazer na vida: foi por 18 anos membro da Igreja Universal do Reino de Deus, de onde saiu em 1998, em rutura com a direção do bispo Edir Macedo, para fundar a Mundial.

Edir, por sua vez, é o dono da TV Record, igreja que frequentemente produz notícias negativas contra o rival Valdemiro, muitas delas assinadas pelo popular jornalista do canal Marcelo Rezende. Quando Rezende foi diagnosticado com um cancro, do qual viria a morrer em 2017, o dono da Mundial regozijou-se. “O demónio está comendo fígado e pâncreas dele, foi castigo de Deus”, disse Valdemiro, o cristão.

O pastor Valdemiro e o bispo Edir estão, porém, de acordo numa coisa: o apoio a Bolsonaro. “Porque é a primeira vez que o Brasil tem um presidente que gosta da obra de Deus”, disse o primeiro, cujas dívidas fiscais vêm sendo perdoadas pelo governo.

O mesmo governo que ainda não se pronunciou oficialmente sobre a eficácia dos feijões mágicos de Valdemiro, mesmo já tendo sido intimado nesse sentido duas vezes – a primeira em 2020, pouco depois do vídeo, e a outra já em 2021 – por juízes de São Paulo após investigação do Ministério Público.

“O juízo determinou que a União [governo do Brasil] informe em site do Ministério da Saúde, em carácter contínuo, de forma cuidadosa e respeitosa, neutra, se há ou não eficácia comprovada do artefacto (sementes de feijão/feijões) no que tange à covid-19″, lê-se na decisão.

O ministério chegou a desmentir a eficácia do feijão em nota mas depois… retirou-a.

Os evangélicos são um dos supostos pilares eleitorais de Bolsonaro, o presidente cuja credibilidade política não vale um feijão.

Jornalista, correspondente em São Paulo

Diário de Notícias
João Almeida Moreira
20 Janeiro 2022 — 00:13

 



 

Viva a “mamata”!

– Um alerta do outro lado do oceano, muito parecido com certos acontecimentos nos últimos anos em Portugal. Por cá, também existe muita “mamata”…

SOCIEDADE/OPINIÃO

Jair Bolsonaro deixou-se fotografar a brincar ao volante de um jet-ski numa praia de Santa Catarina durante mais umas feriazinhas, as terceiras do ano, ao mesmo tempo em que enchentes na Bahia matavam 26 pessoas e desalojavam milhares.

O presidente decidiu não interromper as brincadeiras no suave mar catarinense para se deslocar de imediato ao local das inclementes chuvas baianas, o mínimo exigido a um chefe de Estado adulto, talvez porque a Bahia seja governada pelo Partido dos Trabalhadores. Não se sabe.

Entretanto, este período de descanso presidencial não está ainda contabilizado mas numa viagem semelhante no pior momento da pandemia no país, o governo gastou 2,3 milhões de reais dos contribuintes no transporte, alojamento e gastos do cartão de crédito de Bolsonaro, família, amigos e seguranças em praias do litoral paulista.

Nos intervalos das farras no jet-ski, Bolsonaro “curte” andar de moto aos fins de semana. O presidente, ao lado de manadas de motociclistas, promoveu em 2021 meia dúzia de “motociatas”, como foram batizadas, num custo total de 5 milhões de reais aos cofres públicos, somados os gastos com o cartão presidencial e a segurança do evento.

Até as viagens “oficiais”, como a de novembro a três países do Médio Oriente para “fortalecer laços”, têm um cheirinho de férias – no mesmo dia em que no Brasil se noticiava que cada vez mais cidadãos chupam ossos de galinha das lixeiras para matar a fome, o deputado Eduardo Bolsonaro fotografava-se, de turbante, numa tenda luxuosa, qual xeque. No total, a excursão de Bolsonaro, primeira-dama, dois filhos, seis ministros e o convidado Magno Malta, pastor e vocalista da banda gospel Tempero do Mundo, custou 3,6 milhões de reais, somados aviões, hospedagem, alimentação, aluguer de carros, material de escritório e intérpretes.

Durante a campanha que o elegeu em 2018, Bolsonaro prometeu “acabar com a mamata”, leia-se “tachos”, “cunhas” e outras benesses do poder público.

O ataque a uma lei de financiamento a projetos artísticos era dado como o exemplo supremo do fim da tal “mamata”, até porque, para este governo, cultura é andar de moto em grupo.

Outra bandeira eleitoral era o fim do “foro privilegiado”, a imunidade parlamentar que blinda os políticos de problemas nos tribunais de instâncias menores. “Não quero essa porcaria do foro privilegiado!”, dizia.

Logo que o primogénito Flávio, acusado de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa num esquema milionário de desvio de salários dos assessores, se viu sob tutela de um juiz de primeira instância, imediatamente recorreu ao foro privilegiado, com a bênção paterna, para ir protelando o processo.

À filha mais nova, entretanto, foi permitido ultrapassar pela direita uma multidão de candidatos às vagas no Colégio Militar de Brasília. A pedido do pai, Laura pulou, ao contrário dos comuns brasileiros mortais e com a conivência do comando do exército, o processo seletivo.

Os ministros também deram “carona” a lobistas, pastores evangélicos e parentes em voos pagos pelo bolso dos contribuintes. Até a mãe do ministro da Casa Civil, o elo entre o governo e o Congresso, chegou a encher o depósito do seu jatinho à custa de brasileiros como aqueles que perderam as casas e a vida na Bahia ou andam em busca de almoço no lixo. Bolsonaro não acabou com a “mamata”, institucionalizou-a.

Jornalista, correspondente em São Paulo

Diário de Notícias
João Almeida Moreira
06 Janeiro 2022 — 00:19

– O texto não foi rectificado para português ibérico dado que o autor é um jornalista brasileiro, perseverando assim a sua identidade linguística.



 

179: A revolução dos idiotas

OPINIÃO

À falta de melhor metáfora sobre a tragédia que se abateu sobre o Brasil na eleição presidencial de 2018, visualize-se uma sala de aula onde os piores alunos, em aproveitamento e comportamento, sequestram a professora e assumem o comando.

Na revolta, os idiotas começam por mudar os pontos da matéria, da matemática à sociologia, que não compreendem.

Se não andamos de cabeça para baixo, então a terra é plana; se os cientistas dizem que não há remédio além da máscara, arranjemos nós um, nem que seja mais indicado para gado bovino; se não entendemos todas as complexidades da História, reduzamo-la ao enredo de um filme do Chuck Norris; se os ladrões nos assustam, armemo-nos e matemo-los sem culpa; se não lemos livros, porque havemos de subsidiar a cultura?; se até temos um amigo negro, então o Brasil não é racista; se hoje estamos a respirar tão bem como ontem, não há razão para não derrubarmos uma floresta e construirmos um resort; se há risco de perdermos eleições, a culpa é do sistema de votação; se as contas de dividir são as mais difíceis, somemos, adicionemos, acumulemos; se mais dúvidas surgirem, apelemos a uma patriotada ou a Deus Nosso Senhor para as resolver.

Depois de mudados os pontos da matéria, o passo seguinte é propagá-los. Não pela imprensa tradicional, que nem sempre diz o que o mau aluno quer ouvir, mas pelo meme de WhatsApp, que nunca desilude, ainda para mais na era das legiões de imbecis (para ecoar o Umberto) proporcionadas pela Internet.

Mas além da net, até a imprensa tradicional escorrega na casca de banana: em nome de um pluralismo torto, dá a um prémio Nobel e a um curioso de rede social o mesmo espaço para falar sobre os prós e os contras do Brexit, sobre o muro entre o México e os EUA, sobre a vacina e a hidroxicloroquina, como se num debate a propósito de, digamos, voo em velocidade, um falcão e um hipopótamo merecessem o mesmo tempo de antena.

Entretanto, o que distingue a revolta de 2018 no Brasil é que ela não foi protagonizada pelos excluídos – não são sans-culottes, como na revolução francesa, nem colonos, como na americana, nem o proletariado, como na russa. Não: os revoltosos são uma elite tropical ressentida.

Ressentida com as políticas dos governos de esquerda que, ao incluírem 40 milhões de ex-pobres na sociedade de consumo, lhes tiraram, por exemplo, a exclusividade no acesso a viagens ao estrangeiro.

“Ir a Nova Iorque já teve sua graça, mas, agora, o porteiro do prédio também pode ir, então qual a graça?”, perguntava-se a socialite (e eleitora de Bolsonaro) Danuza Leão, em coluna no jornal Folha de S. Paulo de 2012 (durante os tais governos de esquerda).

“Qual o problema de o dólar estar alto? Antes [durante os tais governos de esquerda] até a porteira já ia à Disneylândia, era uma festa danada! ‘Pera aí! Vão às praias do Nordeste, está cheio de praia bonita lá, vão a Cachoeiro do Itapemirim, ver onde o Roberto Carlos nasceu…”, ordenou no ano passado Paulo Guedes, actual ministro da Economia e outro obcecado por porteiros.

Além dos aeroportos, entretanto, o filho do porteiro passou a ter acesso às salas de aula das universidades, como tão bem é contado no icónico Que Horas Ela Volta, filme de Anna Muylaert. E, nalguns casos, a atirar os filhos da elite tropical ressentida para o estatuto de piores alunos, em comportamento e em aproveitamento, ameaçando, a prazo, o sistema de castas brasileiro em vigor desde 1500. Esse é o mote original desta revolução de idiotas.

Jornalista, correspondente em São Paulo

Diário de Notícias
João Almeida Moreira
07 Outubro 2021 — 00:21

 

72: O fascista e o imprestável

OPINIÃO

O Brasil é presidido por um fascista. E a segunda principal figura do executivo não presta.

Não é o colunista quem o diz – só porque poderia custar um maçador processo – mas os próprios.

Sim, quem afirmou que o presidente do Brasil é fascista foi o político que não presta; e quem chamou a segunda figura do executivo de imprestável foi o chefe de Estado fascista.

“Em relação ao Bolsonaro, eu tenho muita restrição porque ele é um fascista, tem um carácter fascista. É preconceituoso. É muito fácil ir para a televisão dizer que você vai matar bandido, mas isso não é discurso para um presidente da República”, declarava o senador Ciro Nogueira, sobre Jair Bolsonaro, em 2017, à Rede Meio Norte, do Piauí, na pré-campanha das eleições presidenciais do ano seguinte.

Nogueira é, desde esta semana ministro da Casa Civil, uma espécie de primeiro-ministro do presidente “fascista”.

Na mesma pré-campanha, Bolsonaro criticava o adversário Geraldo Alckmin por ter o apoio do “centrão”, conjunto de deputados liderado por Nogueira e outros, cujo foco é parasitar o poder. “Eu quero cumprimentar o Alckmin: ele juntou a alta nata de tudo o que não presta no Brasil ao lado dele”, afirmou. Meses depois, o general Augusto Heleno, capataz de Bolsonaro, cantava em comício “se gritar pega ‘centrão’ [em vez do original ‘ladrão’], não escapa um, meu irmão”.

Bolsonaro convidou para seu braço-direito o representante de tudo o que não presta para, justificou-se, “salvar o governo”.

Fernando Henrique Cardoso, presidente de 1995 a 2002, gastou centenas de páginas das suas memórias, os Diários da Presidência, a lamentar ter sido obrigado a alimentar a rapina do “centrão” da época, para manter o seu governo de pé.

Eleito sob discurso anti-corrupção, com um ano ou dois de Planalto o governo Lula já oferecia um “mensalão” para acalmar a ganância dos deputados. Confrontado com as suas incoerências, Lula disparou: “Se Jesus Cristo fosse presidente do Brasil aliava-se até com Judas.”

Dilma Rousseff decidiu enfrentar o “centrão” em posição de fraqueza – acabou traída por outro dos seus vértices, Michel Temer, e destituída sem piedade.

Mas Bolsonaro, no momento em que deu um cheque em branco a Nogueira, disse mais: “Eu também sou do ‘centrão’…”

Com efeito, ao longo dos 30 anos como parlamentar, o ex-capitão militou em nove partidos, namorou com mais uma meia dúzia, fracassou ao tentar fundar o seu e passou a maior parte do tempo da sua insignificante carreira política no Progressistas (PP), a mesma formação de Ciro Nogueira.

O PP que, diga-se de passagem, é o partido mais visado da Operação Lava-Jato – não, não é o PT, conforme se ouve além-mar de observadores desavisados. São 33 deputados e senadores investigados, entre os quais Nogueira, himself, réu no Supremo Tribunal Federal por organização criminosa, denunciado por corrupção, lavagem de dinheiro e obstrução de justiça e acusado de ter recebido 7,3 milhões de reais de subornos em esquemas da construtora Odebrecht, além de 2,5 milhões de reais para assegurar o seu apoio ao impeachment de Dilma da empresa JBS.

Bolsonaro tinha, pelos vistos, razão ao chamar Nogueira de “alta nata de tudo o que não presta no Brasil”. Mas, cá entre nós, Ciro Nogueira também acertou na mosca na definição de 2017 do hoje presidente.

Jornalista, correspondente em São Paulo

Diário de Notícias
João Almeida Moreira
29 Julho 2021 — 00:19