168: O fumo das sondagens

OPINIÃO

Passada a eleição, fica o fumo da fogueira eleitoral onde, em todos os ciclos políticos, se tentam queimar as sondagens. Faz parte da natureza humana justificar as insuficiências com motivos externos, fora da nossa esfera de acção e responsabilidade. E a humaníssima política não é excepção. Em tempo de eleições, as sondagens são frequentemente apontadas como a raiz de todos os males. Porque sub ou sobre estimaram a intenção de voto. Porque foram manipuladas, se não servem os interesses de determinada facção política. Porque erraram na aferição do resultado final e, portanto, são uma vigarice. A trituradora da simplificação serve muito bem as diferentes agendas políticas, mas erra, deliberada e conscientemente.

A sondagem eleitoral é um indicador de confiança que, a partir de instrumentos validados, afere a intenção de voto de uma população em determinado momento delimitado no tempo. Não é um instrumento de adivinhação, apoiado num algoritmo, e, sobretudo, não constitui nem determina o resultado de uma eleição. Pelo contrário, a sondagem pode ser um indicador essencial para permitir reforçar, corrigir ou mudar a estratégia partidária. Porque a opção política assenta maioritariamente numa avaliação que resulta de três variáveis de teor racional e emocional: o interesse próprio do votante, a filiação ideológica, a percepção sobre a actuação do partido e/ou do político. E a forma como o actor político se comunica determina o que se vê.

O facto de uma sondagem ser negativa para determinado candidato, ao contrário do que muitos gritam, não é uma profecia com realização antecipada. Energizar os apoiantes face a um indicador negativo, mudar estratégia, reforçar instrumentos de comunicação, contribuem para uma alteração da estrutura de sentimento dos votantes. A eleição de Carlos Moedas acabou justamente de o demonstrar.

Não é útil ao sistema democrático, nem é saudável, o debate politiqueiro em torno das sondagens. Casos como a eleição de Donald Trump em 2016, com o falhanço das sondagens à boca das urnas, demonstram sobretudo a incapacidade dos analistas lerem os instrumentos ao seu dispor. Certamente os métodos de sondagem têm-se vindo a adequar às alterações na estrutura comunicativa e às alterações sócio-culturais em curso, porque na verdade os instrumentos lidam com percepções inexactas, emocionais e dadas à mudança. Discutir para melhorar é essencial à saúde democrática. Questionar para justificar a derrota é politiquice indigna.

Reitora Univ. Católica Portuguesa

Diário de Notícias
Isabel Capeloa Gil
29 Setembro 2021 — 00:25

 

69: O país exausto

OPINIÃO

A viver o segundo verão de pandemia, Portugal dá sinais de um cansaço vital, que se estende da política à comunicação, da economia à saúde. Os portugueses estão cansados do vírus, do ziguezague das normas sanitárias, das verdades científicas, das fake news, do elogio e da crítica da tecnologia, do isolamento forçado, do trabalho remoto. O governo demonstra a exaustão decorrente da gestão da maior crise sanitária da época moderna e os cidadãos demonstram uma apatia interrompida apenas por explosões celebratórias – como os festejos do Sporting – ou conflituais – como o vandalismo de Mil Fontes.

Esta exaustão não é novidade na história da humanidade. Não somos, na verdade, assim tão inovadores. Na Idade Média, a acedia cordis designava um estado de letargia e ausência, uma amargura, tristeza e ausência que constituíam uma rejeição da ideia cristã de criação. No ano de Dante, interessa recordar que é a acedia o vício que, na Divina Comédia, leva o poeta ao Inferno. Modulações modernas, como o Weltschmerz dos românticos ou o ennui decadentista do final do século XIX, são construções culturais que têm em comum a necessidade de caracterizar a letargia social, a amargura e o ressentimento em épocas de ausência de ideais. Uma das mais relevantes reflexões sobre o tempo da exaustão é de George Steiner que via justamente nas raízes do ennui novecentista, nesse tempo sem ideais, quando tudo parecia ter sido conseguido, o embrião das explosões bélicas do trágico século XX.

No Portugal de 2021 parece que o tempo se completou. A normalização acrítica da lógica regulatória, a falta de inspecção, tornaram-se uma inevitabilidade da forma suave de ser português. No novo normal, a corrupção é denunciada, mas a lentidão dos tribunais e os enredos legais evitam que se faça justiça. Os centros de decisão são capturados por afinidades, não electivas, mas partidárias, de interesses familiares. Pais e filhos nomeados para as mesmas comissões, maridos, mulheres, tios e sobrinhos, num círculo de roda que indica que o princípio da mulher de César, que não apenas tem de ser, mas também parecer, está definitivamente afastado da forma de governar e gerir em Portugal.

E porque vivemos em tempos de gestão de percepções, importa inspeccionar o papel dos media na criação desta imagem de um país fechado sobre si, desastrosamente desmotivado, com pouco pão, mas muito circo. O Portugal exausto revê-se na redoma televisiva dos infindáveis telejornais das estações generalistas e embriaga-se de falsa energia nas variedades pimba das tardes de sábado e domingo.

O perigo da exaustão é, por um lado, o deixar de acreditar convictamente na possibilidade de reformar, que é essencial a qualquer exercício democrático, e por outro a deriva para falsos ideais cuja força reside no cultivo da divisão ou então na busca de alvoradas revolucionárias requentadas e manifestamente obsoletas. Disso nos avisava Steiner, disso temos abundante evidência nos processos globais de desestabilização dos nossos tempos.

Escrevo esta crónica também exausta de um ano difícil, mas convicta de que sou, como cada um dos leitores, cúmplice deste estado de anomia. Uma sociedade civil forte tem de ser capaz de criar espaços de criação de riqueza e produção de pensamento, modelos de desenvolvimento e propostas políticas que não estejam sob tutela, capturados dos interesses de uns e outros. Exige-se antes de mais que cada um ouse arriscar e pôr-se ao serviço de um Portugal com futuro e sem complexos. Nos limites da minha acção, estou presente e convido-vos a fazer o mesmo.

Reitora Universidade Católica Portuguesa

Diário de Notícias
Isabel Capeloa Gil
28 Julho 2021 — 00:21