615: As mega inundações depois da Idade do Gelo inclinaram a crosta da Terra

CIÊNCIA/GEOLOGIA

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Uma pesquisa dá uma nova perspectiva sobre a formação do deserto Channeled Scablands em Washington, que foi criado pelas enormes inundações de Missoula no fim da última Idade do Gelo.

Um novo estudo publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences resolveu um mistério que intrigava os geólogos há décadas. Na última Idade do Gelo, enormes quantidades de água da Terra transformaram-se em glaciares gigantes, que derreteram e inundaram o planeta.

Os vestígios de um dos maiores destes dilúvios ainda é visível no leste do estado de Washington, num deserto conhecido como Channeled Scablands. Há muito que os cientistas procuravam entender as dinâmicas destas cheias e a pesquisa dá um pista.

Estes glaciares antigos eram tão grandes e pesados que inclinaram a crosta da Terra e quando o peso foi libertado devido ao seu derretimento, o solo mexeu-se também, mudando o curso destas mega inundações, escreve o Science Alert.

Os investigadores usaram modelos das inundações antigas e testaram se o ajuste isostático glacial — deflexões na crosta causadas com a formação e o derretimento de pedaços pesados de gelo — afectaria o fluxo da rota e a erosão dos trilhos proeminentes no Scabland. O objectivo é reconstruir a topografia do deserto em diferentes fases da Idade do Gelo.

Até agora, as reconstruções das rotas das inundações tinham-se focado em como outras variáveis as influenciariam — como a erosão e o movimento dos sedimentos, as mecânicas tridimensionais do ambiente ou como as barragens de gelo se partem.

Estes estudos anteriores também se baseavam em reconstruções da topografia actual, aproximando-as às paisagens passadas. Os geólogos repararam que os efeitos dos derretimento dos glaciares na crosta da Terra também estariam a influenciar a rota e o comportamento destas inundações.

Os glaciares cobriram uma área vasta da América do Norte durante a última Idade do Gelo, mas começaram a derreter há cerca de 20 mil anos. As mega inundações de Missoula ocorreram entre há 18 mil e 15 500 anos. O lago Missoula formou-se quando uma grande parte do glaciar Cordilleran represou o Vale do rio Clark Fork, com a água a acumular-se. Eventualmente, a barragem quebrou-se, dando início à inundação.

Quando a água suficiente tinha corrido, a barragem de gelo voltou a formar-se e a água começou a acumular-se novamente. É provável que este processo tenha ocorrido várias vezes nos milhares de anos seguintes.

A deformação da crosta da Terra devido à expansão e ao contacto dos glaciares teria alterado a elevação da paisagem em centenas de metros durante este período. A pesquisa lembra quão dinâmica a paisagem era, com desfiladeiros íngremes.

Em pesquisas futuras, a equipa quer simular as grandes inundações passadas e ter em conta factores múltiplos que determinam a sua rota.

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ZAP
22 Fevereiro, 2022



 

574: Animais extintos da Idade do Gelo descobertos em Inglaterra: “uma ocorrência rara”

CIÊNCIA/ARQUEOLOGIA

zachi dvira / Wikimedia

Arqueólogos encontraram ossos de um mamute, rinoceronte, lobo, hiena, cavalo, rena, lebre da montanha, raposa vermelha e outros pequenos mamíferos.

Segundo a Smithsonian, arqueólogos descobriram restos de vários animais antigos em Devon, Inglaterra, durante a construção de uma nova cidade chamada Sherford.

A equipa descobriu uma presa, um dente molar e outros ossos de um mamute, um crânio incompleto e um maxilar inferior de um rinoceronte, um esqueleto de lobo praticamente completo e restos parciais de hiena, cavalo, rena, lebre da montanha e raposa vermelha.

Segundo um comunicado da Sherford.org, entidade responsável pelo projecto de construção da nova comunidade, foram também encontrados vários ossos de pequenos mamíferos.

“Encontrar esta variedade de artefactos após tanto tempo é uma ocorrência rara e especial”, diz Rob Bourn, arqueólogo principal do projecto e director-geral da Orion Heritage, na declaração. “Igualmente rara é a presença de animais individuais completos ou semi-completos”.

Os arqueólogos acreditam que os animais viveram entre 30.000 e 60.000 anos atrás, durante a última Idade do Gelo.

Nessa altura, as camadas de gelo cobriam grande parte do norte de Inglaterra, diz Victoria Herridge, perita em elefantes fósseis no Museu de História Natural (NHM) em Londres, que não esteve envolvida na descoberta, numa declaração do museu.

“Devon teria então sido um lugar frio e seco, mesmo no Verão”, referiu a especialista. “Contudo, era também um enorme prado aberto, capaz de suportar vastos rebanhos de animais tolerantes ao frio como o mamute, o rinoceronte e as renas, bem como os grandes carnívoros como hienas e lobos que os atormentavam“.

Não se sabe se todos os fósseis vieram do mesmo período de tempo ou se existiram em alturas diferentes, durante um período de tempo mais longo.

Uma das teorias é que alguns dos animais caíram num poço e morreram, seguidos de carnívoros necrófagos que também morreram, segundo Sherford.

É também possível que os animais tenham morrido noutro local e tenham sido arrastados para aquele onde foram encontrados, ao longo do tempo.

Herridge diz que novas descobertas como esta podem ajudar os cientistas a compreender como era o mundo do passado.

“Isto é conhecimento vital”, sublinha Herridge. “Os cientistas ainda estão a desvendar o papel que o clima e os humanos desempenharam na extinção do mamute e do rinoceronte — e o que podemos aprender com isso para proteger as espécies ameaçadas por ambos hoje”.

Os fósseis em Sherford podem ser a descoberta mais significativa deste género, desde que a caverna Joint Mitnor foi encontrada em Devon, em 1938, diz Danielle Schreve, professora de ciências quaternárias na Royal Holloway University of London, que ajudou a supervisionar o trabalho de recuperação.

Mais de 4.000 ossos de animais, incluindo hienas, bisontes e elefantes, foram encontrados na caverna Joint Mitnor desde os anos 60, segundo a BBC News.

Em 2015, a caverna foi roubada, e os ladrões roubaram um dente de elefante fossilizado de 100.000 anos e outros ossos antigos.

O Consórcio Sherford, que é responsável pelo desenvolvimento da cidade, preservará o espaço subterrâneo onde os restos foram encontrados, e não construirão em cima dele. No entanto, a caverna não será aberta ao público.

Os ossos estão agora a ser objecto de análise académica, de acordo com a declaração de Sherford. Espera-se que sejam devolvidos a Devon e vão para um museu, a poucos quilómetros de onde foram descobertos.

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Alice Carqueja
14 Fevereiro, 2022