670: Os novos explosivos criados numa fábrica militar caseira

SOCIEDADE/INVASÃO RUSSA/UCRÂNIA/

Enviado Pedro Cruz faz o relato, todos os dias, dos acontecimentos na zona do conflito.

Fábrica nos arredores de Lviv onde são produzidos cocktails molotov em massa. 3160 unidades com 200 pessoas trabalhar diariamente por turnos.
Foto André Luís Alves / Global Imagens

Lviv, Ucrânia.
“Tens medo?”
“Não”, respondi eu.
“Então anda, vamos
experimentar!”

Por um momento pensei que Sasha, dono de um restaurante em Lviv, me ia passar para as mãos o que ele chama de “novo cocktail molotov”. Mas não. Estava apenas a convidar-me para assistir ao primeiro arremesso de uma nova bomba artesanal que ele e o amigo Olexandr tinham acabado de construir.

O conceito é o mesmo do “clássico” cocktail molotov, mas sem aquele pedaço de tecido, que serve de rastilho, a espreitar do gargalo. Em vez disso, colada à base da garrafa, há uma mecha feita com uma mistura de esferovite – é fácil de encontrar em qualquer lugar – e óleo de fritar. Uma misturadora, das que se usam nas obras, transforma a esferovite em pó e o pó com óleo numa pasta viscosa e inflamável.

Sasha parece um miúdo com um brinquedo novo. Leva a sua invenção para fora do pátio da carpintaria transformada numa fábrica de guerra. Ou melhor, de resistência. Ao lado, outro voluntário tem um extintor preparado, caso alguma coisa corra mal. Ele agarra na garrafa, cinzenta, que em tempos esteve cheia com gin que servia no restaurante, e atira-a com toda a força contra uns blocos de betão. A bomba explode de imediato e provoca uma chama que se vai alastrando à volta. Ele fica feliz. Afinal, a invenção funciona. Diz que é um objecto mais “leve” e, portanto, pode ser atirado de mais longe. Ou para mais longe, consoante a situação.

Fábrica nos arredores de Lviv onde são produzidos cocktails molotov em massa. 3160 unidades com 200 pessoas trabalhar diariamente por turnos.
© André Luís Alves / Global Imagens

Agora que a ideia passou a projecto, o projecto a protótipo e que a experiência está feita, a linha de montagem no pátio da carpintaria vai dividir-se em duas. Uma trata dos cocktails molotov “tradicionais”, a outra vai produzir em massa a invenção de Sasha.

Duzentos homens e mulheres, nem sempre todos ao mesmo tempo. Mas, quando podem, trabalham numa verdadeira linha de montagem de fabrico de bombas artesanais, os conhecidos cocktails molotov. Há uma mesa com pessoas que colocam a gasolina dentro das garrafas, outra onde se embebem as tiras de pano que vão servir de rastilho, outra ainda onde as garrafas são bem fechadas. Por entre os vários postos de trabalho da “fábrica”, circulam carrinhos que transportam com todo o cuidado as garrafas de um lado para o outro. Quando está pronto, o cocktail é envolto em plástico, colocado em grades e armazenado. Mal seja possível, as 3.200 bombas artesanais que já estão prontas vão seguir para Kiev. É na capital que toda a ajuda faz falta, para evitar a captura da cidade pelo exército russo.

Fábrica nos arredores de Lviv onde são produzidos cocktails molotov em massa. 3160 unidades com 200 pessoas trabalhar diariamente por turnos.
© André Luís Alves / Global Imagens

Mila Yaroshevich trabalha na Rádio Galícia – não, não tem nada que ver com a Galiza, em Espanha, é o nome de uma antiga região autónoma, que começava em Cracóvia, na Polónia, e que se estendia até à parte ocidental da agora Ucrânia – e escreve livros para crianças. Educar e cuidar dos três filhos dá-lhe material suficiente para as suas histórias. “O meu irmão pediu-me ajuda e, como sou boa irmã, aqui estou”, explica, a rir-se. Ela coordena uma grande parte do trabalho desta linha de montagem, para que nada falhe. “É o que posso fazer, ajudar.” As bombas artesanais, como farão para as colocar em Kiev, a quase 500 quilómetros de distância? “Vão nas malas de carros particulares, para não levantar suspeitas”. Hão de lá chegar.

A carpintaria continua a funcionar, mas agora apenas produz, em massa, camas rudimentares para utilizar nos abrigos e nos centros de deslocados. Uma tábua em contraplacado, quatro pernas, está pronta. Noutra zona, um homem, sem parar, transforma tiras de metal numa espécie de ganchos gigantes, pontiagudos. Servirão para colocar na estrada e impedir os camiões do exército russo de avançar. Tudo feito a um ritmo alucinante, sem um queixume, uma lamuria, um reparo.

A cave estava desactivada e entretanto foi limpa, e tem algumas camas, água potável e electricidade. Já albergou 120 pessoas
© André Luís Alves / Global Imagens

“Isto é a resistência, nós vamos vencer.” Mila, tal como os outros todos, acredita que este esforço de guerra vai valer a pena, na luta por uma Ucrânia livre, independente e democrática.

Olexandr levanta a mão direita, punho cerrado, “Glória à Ucrânia!”

Despede-se, volta ao trabalho, ele e Sasha terão agora de ensinar como se fazem os novos cocktails, quem sabe se virão a chamar-se Sasha.

Diário de Notícias
Pedro Cruz e André Luís Alves (Fotografia), em Lviv
03 Março 2022 — 00:13



 

Navalny apela a manifestações contra a guerra e descreve Putin como “czar louco”

– É esta a “liberdade” e as “amplas liberdades democráticas” que os comunistas portugueses (PCP) tanto apregoam e APOIAM, quando um louco assassino, ex-KGB de formação na ex-União Soviética (URSS), nacionalista de gema e fascista convicto, manda matar, num genocídio global, tudo o que seja contra a vontade dele. Putin não é a Rússia, diz com razão Navalny mas infelizmente e enquanto esse assassino não for julgado no Tribunal de Haia por crimes contra a Humanidade, os Ucranianos terão de se defender desta invasão sem precedentes, com ameaças até de confronto nuclear!

SOCIEDADE/UCRÂNIA

O opositor lembrou que está preso e não pode comparecer aos protestos, mas reiterou o seu apelo aos cidadãos para que se manifestem diariamente contra a invasão da Ucrânia.

Alexei Navalny, líder da oposição na Rússia
© Global Imagens

O opositor russo Alexei Navalny, actualmente preso na Rússia, convocou esta quarta-feira os seus compatriotas a saírem às ruas contra a invasão da Ucrânia ordenada pelo Presidente russo, Vladimir Putin, a quem descreveu como um “czar louco”.

“A Rússia quer ser uma nação de paz. Infelizmente, poucas pessoas nos chamariam assim agora. Mas, pelo menos, não nos tornemos num país de pessoas assustadas e silenciosas, de cobardes que fingem não notar a guerra contra a Ucrânia desencadeada pelo nosso, obviamente, czar louco”, escreveu Navalny na rede social Twitter.

“Putin não é a Rússia. E se há algo agora na Rússia do qual nos podemos orgulhar são essas 6.824 pessoas que foram detidas porque — espontaneamente – saíram às ruas com cartazes a dizer: ‘Não à guerra'”, declarou o opositor.

Navalny estava a referir-se aos milhares de pessoas que foram detidas nos últimos dias em várias cidades russas por se manifestarem contra a guerra.

“Não posso, não quero e não vou ficar em silêncio a ver absurdos pseudo-históricos sobre eventos de há 100 anos tornarem-se uma desculpa para os russos matarem os ucranianos e os ucranianos matarem os russos para se defenderem”, afirmou Alexei Navalny, o principal opositor do regime de Putin.

“É a terceira década do século 21 e estamos a ver notícias sobre pessoas a serem queimadas e casas a serem bombardeadas. Estamos a ver ameaças reais do início de uma guerra nuclear em nossas televisões”, acrescentou.

O opositor lembrou que está preso e não pode comparecer aos protestos, mas reiterou o seu apelo aos cidadãos para que se manifestem diariamente contra a invasão da Ucrânia.

“Não podemos esperar mais. Onde quer que esteja, na Rússia, Bielorrússia e mesmo do outro lado do planeta, vá à praça principal da sua cidade todos os dias”, declarou.

“Devemos cerrar os dentes e vencer o medo, sair e exigir o fim da guerra. Cada detido [nas manifestações] deve ser substituído por dois recém-chegados” aos protestos, declarou.

Navalny foi envenenado em Agosto de 2020 com um agente químico de fabricação russa (Novichok) e acusa os serviços secretos russos de tentativa de assassínio.

Depois de retornar à Rússia em Janeiro de 2021, após ter passado vários meses a convalescer na Alemanha, Navalny foi detido e condenado a dois anos e meio de prisão. Desde então, o Ocidente exige insistentemente pela sua libertação.

O opositor russo está a ser julgado novamente por novas acusações de corrupção, que o Ocidente e algumas organizações não-governamentais (ONG) consideram meramente políticas.

A Rússia lançou na quinta-feira de madrugada uma ofensiva militar na Ucrânia, com forças terrestres e bombardeamento de alvos em várias cidades, que já mataram mais de 350 civis, incluindo crianças, segundo Kiev. A ONU deu conta de milhares de deslocados e refugiados ucranianos na Polónia, Hungria, Moldova e Roménia.

O Presidente russo, Vladimir Putin, disse que a “operação militar especial” na Ucrânia visa desmilitarizar o país vizinho e que era a única maneira de a Rússia se defender, precisando o Kremlin que a ofensiva durará o tempo necessário.

O ataque foi condenado pela generalidade da comunidade internacional e a União Europeia e os Estados Unidos, entre outros, responderam com o envio de armas e munições para a Ucrânia e o reforço de sanções para isolar ainda mais Moscovo.

Diário de Notícias
DN/Lusa
02 Março 2022 — 11:45