1257: Epidemias

– O juramento de Hipócrates pelos médicos que terminam o seu curso de medicina, não passa de uma farsa de todo o tamanho. É como os automobilistas e motociclistas que, depois do exame de código, “esquecem-se” das regras – e leis – que têm de cumprir. Será anemia colectiva? Mas como tudo na vida, existem pequenas excepções. Dos vários médicos que tive a infelicidade de me calharem na “rifa”, apenas destaco dois que realmente cumpriram o seu juramento de Hipócrates: Dr. Luís Goes, meu médico estomatologista no antigo posto da Caixa de Previdência e excelente intérprete do fado Coimbra, com vários LP’s gravados e Dra. Zuraida, minha médica (ainda não existiam médicos de família), também do mesmo posto da Caixa de Previdência e, posteriormente, na consulta externa de um hospital de Lisboa.

OPINIÃO

Todos reconhecem que Hipócrates (460 a.C. – 377 a.C.) é a figura mais importante da Medicina. Adquiriu elevado prestígio na Antiguidade Grega. Foi ele o primeiro a atribuir causas naturais às doenças, ao contrário do que até então se julgava. As doenças deixariam de estar associadas a crenças religiosas, à magia ou a teorias filosóficas.

Criou, na ilha de Cós, a lendária Escola para médicos que passou a separar a Medicina da Filosofia. Curiosamente, pouco se sabe sobre a vida de Hipócrates e daquilo que terá escrito. Admite-se que a sua obra, compilada e traduzida na Biblioteca de Alexandria, terá tido muitos dos seus discípulos como autores e não apenas Hipócrates. Ora bem, dois dos famosos livros, editados na época, foram dedicados às EPIDEMIAS.

Na altura, o historiador grego Tucídides (460 a.C. – 400 a.C.), contemporâneo de Hipócrates, presenciou e descreveu a onda epidémica da doença que devastou Atenas durante a guerra contra Esparta, no Século V antes de Cristo. Estranhamente, apesar de contemporâneos, Hipócrates ignorou os minuciosos relatos que Tucídides fez sobre a epidemia de Atenas.*

Muito bem documentada foi, também, na época, a epidemia de papeira (mencionada como inchaço atrás das orelhas por vezes acompanhado de inflamação dos testículos), ocorrida na ilha grega de Thassos, no mar Egeu.

Vocabulário prático popular para leitores de jornais

Cluster: aglomerado de casos de uma mesma infecção com relação temporal e espacial entre eles. O elemento temporal impõe que os casos sejam diagnosticados dentro do período de incubação da doença e a componente espacial refere-se ao local de contágio. É a situação, por exemplo, correspondente à identificação de covid-19 em membros da mesma família, em dias sucessivos, que convivem no mesmo espaço sem medidas de protecção.

Epidemia (do grego epi = sobre; demos = povo): tal como resulta da origem grega da palavra, uma epidemia refere-se unicamente a seres humanos quando uma doença surge em determinada região em excesso face ao habitualmente esperado. Nestes termos, um só caso de raiva humana, em Portugal, poderia constituir uma epidemia.

Pandemia: uma epidemia que se propaga, rápida e simultaneamente, a nível mundial. Apontam-se, como exemplos, a gripe pneumónica de 1918, a gripe asiática de 1957, a sida a partir de 1980 ou, nos tempos de hoje, a covid-19.

Endemia: refere-se à presença habitual de um agente infeccioso ou de doença em determinada região e população (paludismo na Guiné-Bissau).

Epizootia (do grego zoon = animal): doença que atinge animais da mesma espécie e na mesma região. Como, por exemplo, a Doença de Newcastle das aves.

Enzootia: doença de animais que é habitual na mesma região como Monkeypox em macacos em África, tendo roedores como reservatório.

Epifitia (do grego phyton = planta): doença vegetal com carácter infeccioso que se propaga em plantas de uma mesma área. Como referência, a título de exemplo, na Irlanda, na década de 1840, as plantações de batatas foram dizimadas por um fungo (míldio da batateira ou também designada como praga da batata).

Zoonose: doença comum a animais e seres humanos.

*Ainda hoje se ignora a origem da epidemia. Porém, é provável que as descrições correspondam a uma epidemia de gripe. A obra de Tucídides História da Guerra do Peloponeso está disponível em português, publicada pelas Edições Sílabo, em 2008.

Ex-director-geral da Saúde
franciscogeorge@icloud.com

Diário de Notícias
Francisco George
22 Junho 2022 — 00:17


 

1217: Contágios

SAÚDE PÚBLICA

Saber como se transmitem as doenças constituiu, desde sempre, motivo de interesse na perspectiva da prevenção do contágio.

Até ao fim da Idade Média pouco mais se fez além do confinamento das pessoas que apresentavam sinais de uma doença contagiosa. Assim sucedeu com a lepra ou a peste, por exemplo. Na altura, não se conhecia a natureza das doenças e ignorava-se como se transmitiam. A sua identificação era geradora de pânico entre familiares e comunidade.

Foram as pesquisas do cientista francês Louis Pasteur (1822-1895) e do médico alemão Robert Koch (1843-1910) que demonstraram, pela primeira vez, a relação causa efeito entre agentes microbianos e doenças (só em 1876 foi comprovado que o bacilo anthracis* causava o carbúnculo).

Desde então e até hoje, foram muitos os avanços da Medicina que iriam elucidar as diferentes origens das infecções, como se transmitem e como se evitam. São, agora, cada vez menos os segredos por desvendar…

Em linhas gerais, no processo de propagação das infecções (causadas quer por vírus, bactérias ou por protozoários) consideram-se dois modos de transmissão: directa e indirecta.

Precise-se, então.

1 A transmissão directa ocorre através do contacto próximo entre um doente e uma pessoa que, estando saudável nesse momento e sem protecção, irá adquirir essa mesma doença no final do período de incubação. Cada infecção tem a sua forma própria para se transmitir.

No caso da gripe ou da covid-19, por exemplo, acontece quando as gotículas expelidas pelo doente são inaladas por uma pessoa não-protegida a uma distância curta (cerca de 1 metro). A transmissão directa pode, ainda, verificar-se, no contexto de contactos íntimos entre pessoas ou por via sexual (como a gonorreia, a sífilis, a sida…).

É indispensável falar, abertamente, das doenças de transmissão sexual, porque, desde sempre, constituem motivo de vergonha e discriminação injustificadas. Aliás, o silêncio em redor destas infecções, a par do não-tratamento medicamentoso adequado, tem contribuído para contagiar cônjuges ou outros parceiros. Igualmente, é necessário entender que o sexo esporádico ou com múltiplos parceiros, se praticado sem utilização de preservativo, representa um risco que, sublinhe-se, poderia ser facilmente evitável.

A questão do risco de transmissão de infecções através de relações sexuais não pode continuar a ser tabu, até porque é possível eliminá-lo, incluindo no “dia seguinte”.

2 Por outro lado, a transmissão indirecta pode ocorrer (como na covid-19) através do contacto com as mãos em objectos inanimados quando estão contaminados, como sucede em superfícies lisas, nomeadamente maçanetas das portas, corrimãos, botões de elevadores, teclados, mesas, etc.

A transmissão por via hídrica acontecia antes da introdução da desinfecção pelo cloro dos sistemas de abastecimento de água destinados a consumo humano. Nesse tempo, beber água era arriscado porque podia estar contaminada pelos agentes da poliomielite, cólera, hepatite A ou diarreias agudas.

Há a citar, também, a via por alimentos contaminados (causa de diarreia e febre tifóide). E, ainda, quando a infecção é transmitida pela picada de mosca ou mosquito (via vectorial), como acontece com o paludismo, dengue, febre amarela, Zika…

Moral da história: conheça-se o contágio para o evitar.

*Nome devido à cor antracite da bactéria identificada (com a forma de bacilo).

Ex-director-geral da Saúde
franciscogeorge@icloud.com

Diário de Notícias
Francisco George
15 Junho 2022 — 06:31


 

1137: Lembrete sobre varíola e Monkeypox (II)

O vírus monkeypox quando provoca uma infecção humana deve ser designada como DOENÇA DO VÍRUS MONKEYPOX (e não “varíola-dos-macacos” porque nem é varíola nem em macacos). Ó doutor, mas num país de macacos, há que variolar um pouco… 🙂


OPINIÃO

A varíola era uma doença que existiu, mas que já não existe. Em 1980, foi erradicada pela vacinação.

Era uma doença com manifestações cutâneas, quase sempre, muito exuberantes que permitiam o diagnóstico rápido, sobretudo em contexto epidémico. Nem sempre tinha a mesma gravidade, visto que, por vezes, o quadro clínico era mais ligeiro. Em Portugal, esta forma minor foi designada de “alastrim”, enquanto que a erupção intensa era conhecida, em linguagem popular, como “bexigas”.

No tempo antes de 1980, as epidemias de varíola eram devastadoras como causa de morte e de doença, em especial de cegueira, quando as lesões atingiam os tecidos oculares. A par da peste, da cólera e da tuberculose, a varíola integrava o grupo das doenças consideradas como major killers.

A varíola era uma infecção exclusiva de seres humanos, sublinhe-se. Nunca houve varíola em animais, nem sequer em macacos. As próprias pessoas doentes eram o reservatório do vírus. Eram elas que transmitiam a infecção por via respiratória, à distância ou por contacto directo com as lesões.

No mundo de hoje, não há varíola. Persiste, no entanto, em África, uma OUTRA doença, mas animal, em macacos e em roedores que é provocada por um vírus aparentado, do mesmo género, mas com genoma diferente: o vírus da monkeypox ou também designado pela sigla VMPX. Há duas estirpes distintas deste vírus: uma descoberta nos roedores e símios da África Ocidental e outra nas florestas do Congo (ex-Zaire). A primeira é menos agressiva. As estirpes do vírus da monkeypox, bem como a doença animal que causam, ainda permanecem porque, naturalmente, nunca houve vacinação de macacos…

O vírus monkeypox quando provoca uma infecção humana deve ser designada como DOENÇA DO VÍRUS MONKEYPOX (e não “varíola-dos-macacos” porque nem é varíola nem em macacos).

Porém, o vírus da monkeypox pode, em situações raras, transmitir-se a seres humanos em consequência de contacto próximo com animais infectados, sobretudo em pessoas sem a vacina contra a varíola. Uma vez adquirida, a infecção humana por VMPX pode gerar cadeias de transmissão, nomeadamente em pessoas não-protegidas pela vacina antivariólica.

Isto é, nesses casos, a infecção animal foi adquirida por seres humanos. Por isso, é errado designar que determinada pessoa tem “varíola-dos-macacos”. O vírus monkeypox quando provoca uma infecção humana deve ser designada como DOENÇA DO VÍRUS MONKEYPOX (e não “varíola-dos-macacos” porque nem é varíola nem em macacos). Aliás, por analogia, este é o método seguido para designar a infecção humana do Ébola que é uma zoonose*: doença do vírus Ébola, porque Ébola é o nome do vírus e não da doença…

Agora, como noticiado, há um surto da doença do vírus monkeypox, que foi recentemente confirmado, em pessoas sem a vacina contra a varíola, em Portugal e, também, no Reino Unido, Espanha, Suécia, Bélgica e Estados Unidos da América, entre outros países.

Antes de tudo, há a realçar a rapidez do diagnóstico clínico e laboratorial, incluindo, pela primeira vez, a sequenciação do genoma do vírus, alcançada pelos especialistas do Instituto Ricardo Jorge. Um sucesso.

Foram perfeitas as respostas conjuntas, em termos de qualidade e sem demoras, tanto de médicos, enfermeiros, gestores, como de cientistas. Um orgulho.

O ganho para toda a Sociedade é bem evidente quando há boa articulação entre as unidades do Serviço Nacional de Saúde, incluindo DGS e Instituto Ricardo Jorge.

* Zoonose é a expressão dada a doenças comuns a animais e seres humanos.

Ex-director-geral da Saúde
franciscogeorge@icloud.com

Diário de Notícias
Francisco George
01 Junho 2022 — 00:15


 

1098: Lembrete sobre a Varíola (I)

OPINIÃO

A varíola era uma doença infecto-contagiosa provocada por um vírus. Já não existe e, por isso, é aqui relembrada em termos de passado. Era uma doença, mas já não é.

Há que relembrar que a varíola foi, em 1980, a primeira doença a ser eliminada do globo, na sequência da vacinação em massa conduzida em todo o mundo. Antes da declaração oficial de erradicação, o último caso diagnosticado tinha ocorrido três anos antes, em 1977, na Somália.*

A libertação do risco da varíola no planeta representa, seguramente, o maior marco da Medicina que separa dois tempos históricos diferentes: antes e depois de 1980. Muitos consideram que foi a maior das conquistas que a Saúde Pública alcançou a nível mundial. O plano foi criteriosamente concebido, desenvolvido e avaliado pela Organização Mundial da Saúde. Não há palavras para enaltecer o sucesso que envolveu milhares de trabalhadores da saúde. O mundo ficou livre da varíola a um custo total estimado como inferior a um porta-aviões…

Ao longo dos séculos surgia sob a forma de surtos que originavam mortalidade muito elevada (um terço dos doentes morreria). Foram epidemias terríveis que motivaram muitos milhões de mortes. Se bem que a incidência fosse mais elevada entre famílias pobres, a varíola não distinguia classes sociais. Em Portugal, o óbito mais famoso devido à varíola terá sido o príncipe José de Bragança, filho primogénito da rainha Maria I, que morreu aos 27 anos de idade, em 1788.

A libertação do risco da varíola no planeta representa, seguramente, o maior marco da Medicina que separa dois tempos históricos diferentes: antes e depois de 1980.

A varíola, hoje, não subsiste como doença. Porém, o vírus que está na sua origem ainda existe.

Esta equação é importante na perspectiva da clarificação da actual situação.

Ora bem, em 1980, e como o mundo estava dividido em dois blocos políticos distintos, a Organização Mundial da Saúde decidiu armazenar o vírus em laboratórios de alta-segurança nos Estados Unidos da América e na União Soviética, respectivamente em Atlanta e em Novosibirsk, na Sibéria. A ideia inicial era destruir simultaneamente os stocks de vírus depois de terminados os estudos científicos sobre a sua composição genética. Acontece, todavia, que a destruição do vírus tem sido adiada. Ainda bem que assim acontece. Seria um risco para as futuras gerações se o vírus tivesse sido eliminado.

A partir de 1980, perante o cenário de ausência da doença, compreende-se que os governos de todos os países tenham abandonado a vacinação. Assim sendo, todos as pessoas que têm idade inferior a 50 anos não estão protegidas com anticorpos que a vacina teria assegurado. Um risco, portanto.

A varíola transmitia-se por via aérea e tinha um período de incubação que variava de 7 a 17 dias.

Roteiro:

1. Pox: na língua inglesa refere-se à sífilis que tem como manifestações cutâneas manchas grandes.

2. Smallpox: é a designação de varíola em inglês, assim chamada porque as manchas cutâneas eram pequenas (bexigas, em português vulgar).

3. Cowpox: doença bovina provocada por um agente (vaccinia) diferente do vírus da varíola (o produto extraído a partir das lesões é a vacina que assegura protecção cruzada para a varíola).

4. Monkeypox: palavra inglesa que se refere à infecção de macacos por um vírus parecido, mas diferente da varíola; admitiu-se, erradamente, que tinha como reservatório os macacos (mas tem origem em roedores de África).

5. Chickenpox: varicela em inglês.

*O último caso de varíola, em Portugal, foi registado em 1952.

Ex-director-geral da Saúde
franciscogeorge@icloud.com

Diário de Notícias
Francisco George
25 Maio 2022 — 00:13


 

1045: A Grande Ambição

OPINIÃO

Qual é a principal ambição de cada cidadã ou cidadão? Qual a maior das ambições? Qual será a principal pretensão? Qual é o desejo sempre presente no pensamento?

A grande maioria responderia: ter uma vida longa, próspera e com qualidade!

Ora, prolongar a vida, levar o mais possível para diante o seu final e manter a autonomia, produtividade e a saúde, constituem aspirações naturais e inteligentes. Sem dúvida. Diferir o fim de viver é uma justa cobiça. É bom que assim aconteça.

Porém, para tal, será preciso participar activamente. Será preciso estar informado para adquirir mais conhecimentos a fim de permitir fazer opções a favor da própria saúde.

É nesse contexto que se desenvolve a promoção da literacia para a saúde, para todos em geral, mas com foco nos agregados familiares mais vulneráveis.

Há a realçar que estão comprovados, cientificamente, os estilos de vida e os comportamentos que mais influência exercem e que mais favorecerem a conservação da vida saudável e, portanto, que adiam o seu final.

A concretização daquela grande ambição poderá ser conquistada através da observação dos seguintes princípios:

1. Participar no processo de gestão da própria saúde e, quando necessário, na prevenção e terapêutica de doenças, agudas ou crónicas, em função dos conhecimentos adquiridos pela informação (a diabetes é um excelente exemplo, visto que o seu tratamento permanente exige a participação do doente);

2. Praticar exercício físico regular, em todas as etapas da vida, sob qualquer forma, desde a ginástica, à dança, ao andar de bicicleta ou às caminhadas;

3. Assegurar uma alimentação saudável, equilibrada de acordo com a idade e com as calorias necessárias (vigiar o índice de massa corporal), mas, reduzir ao mínimo a ingestão de açúcares e de sal (substituir a sobremesa doce por fruta e o sal por ervas aromáticas, como o cebolinho, por exemplo);

4. Moderar o consumo de álcool, tendo em atenção a graduação da bebida em causa (1 garrafa de cerveja 330 ml = 1 copo de vinho = 12 gramas de álcool puro);

5. Eliminar a exposição ao fumo de tabaco, quer por parte de quem fuma, quer dos fumadores passivos que inalam o fumo dos cigarros de terceiros.

As regras de bom comportamento individual, acima enumeradas, devem ser complementadas, no plano do Estado, por:

1. Benefícios fiscais com normas de concessão de prestações sociais justas, bem geridas, no quadro das políticas públicas para a solidariedade, na perspectiva da redução das desigualdades e iniquidades;

2. Acessibilidade fácil aos serviços de saúde, sem barreiras burocráticas, designadamente às unidades do Serviço Nacional de Saúde (incluindo prevenção primária e secundária);

3. Melhor qualidade ambiental em meio urbano e rural, nomeadamente com menos utilização de combustíveis fósseis.

No Portugal de agora, devem os órgãos de soberania tudo fazer para a formulação e implementação de medidas legislativas e políticas no sentido da obtenção de resultados convergentes para a redução da mortalidade prematura (morte antes dos 70 anos).

Deveria ser natural que todas as pessoas tivessem a mesma oportunidade para poderem festejar, pelo menos, 70 anos de idade. Que não ficassem para trás devido a um cancro diagnosticado tardiamente ou a um enfarte do coração em doente hipertenso mal compensado?

Afinal, a democracia deve garantir igualdade de oportunidades!

Ex-director-geral da Saúde
franciscogeorge@icloud.com

Diário de Notícias
Francisco George
11 Maio 2022 — 00:19


Pelas vítimas do genocídio praticado
pela União Soviética de Putin, na Ucrânia
For the victims of the genocide practiced
by the Soviet Union of Putin, in Ukraine


 

Vacinar & proteger (II)

OPINIÃO

Em Portugal, tal como sucede em outros Estados membros da União Europeia, a introdução de uma nova vacina impõe imenso rigor quer pela própria indústria farmacêutica quer pelas entidades reguladoras. Exactidão como primeira regra. Segurança absoluta. Compreende-se que assim seja visto que a vacina tem como fim prevenir doenças em pessoas sem essa doença.

Não faria qualquer sentido que eventuais efeitos secundários colocassem em risco a saúde de quem é vacinado. Por isso, a demonstração da eficácia e da segurança das vacinas é ainda mais exigente do que a necessária para autorizar a colocação no mercado de novos medicamentos. São competências exclusivas da Agência Europeia de Medicamentos (EMA) e, a nível nacional do Infarmed.

Neste âmbito, importa conhecer e, sobretudo, entender os resultados dos estudos de risco-benefício, na perspectiva de serem socialmente aceites. Para tal, terão de ser apresentados publicamente de forma simples. Em síntese, bem descritos e de modo acessível à generalidade da população. A este respeito, realce-se que a comunicação deve ser rápida e consistente, emitida por fonte geradora de credibilidade inquestionável.

Recentemente, a propósito da vacinação contra a covid-19, em geral e em particular em crianças com idades entre os 5 e os 12 anos, esses princípios não foram inteiramente observados. Comentadores políticos e líderes de partidos, nesta matéria, nem sempre respeitaram o interesse público ao colocarem em dúvida a fundamentação à tomada de decisão.

Algumas vezes falam do que não percebem e com manifesta falta de isenção em prejuízo da saúde pública. Juntam ignorância à demagogia que, por falta de coerência científica, podem originar hesitações aos pais e mães sobre a importância da vacinação dos filhos. Quase se instalou um clima de incerteza.

A comunicação sobre assuntos relacionados com a saúde deve ser precisa e cuidada. Deve ter como finalidade elucidar a população sobre os benefícios em vacinar crianças, uma vez que são muito superiores aos riscos.

O exemplo da balança de dois pratos ajuda a clarificar a metodologia da análise risco-benefício sobre o bónus em vacinar o grupo etário 5-12. Num prato, enumeram-se (calculam-se) os riscos que os ensaios clínicos evidenciaram e no outro o conjunto dos benefícios que a vacinação assegura.

Aqueles demonstraram ser irrelevantes quando comparados com os ganhos traduzidos pela redução de doença, de hospitalizações e de casos graves que, a somar aos resultados pedagógicos e psicossociais, colocam a decisão indiscutível pelos benefícios que a vacinação garante. Aliás, não seria sensato deixar de proteger 640 mil crianças e facilitar, assim, a circulação do vírus num grupo populacional sem defesas.

Como se escreveu em texto anterior, a vacinação protege, visto que previne casos graves de covid-19, reduz a probabilidade de morte causada pela doença, para além de outros benefícios para as crianças, em particular nos planos emocional e escolar.

Se o vírus muda, a vacina terá também de mudar. É isso mesmo que sucede com o vírus da gripe e com a respectiva vacina que nunca é igual à do ano anterior, uma vez que tem composição diferente todos os anos (a actividade gripal está associada às semanas frias do ano em cada hemisfério).

Como o coronavírus não tem essa característica tão dependente da sazonalidade, a questão da vacina para a covid-19 poderá estar adaptada às sucessivas mutações que ocorrem de forma imprevisível e não relacionadas com a estação do ano.

Adaptar a vacina às variantes será o rumo a seguir.

Uma, duas, três, quatro, n doses necessárias para assegurar protecção, desde que essa necessidade seja ditada por razões estrita e comprovadamente científicas.

Ex-director-geral da Saúde

Diário de Notícias
Francisco George
24 Dezembro 2021 — 00:35





 

Vacinar & proteger (I)

OPINIÃO

O prolongamento do tempo de viver a própria vida, conservar a saúde e evitar a doença constituiu sempre, ao longo da história, o principal objectivo de todas as pessoas, famílias e comunidades. Neste processo, há dois acontecimentos marcantes que hoje continuam a ser indiscutíveis pela importância ímpar que representam em saúde pública.

Um deles foi a introdução de cloro nos sistemas de abastecimento de água para impedir a transmissão de doenças, nomeadamente a cólera, a hepatite A, a poliomielite aguda, além de muitas outras, quer de natureza viral quer bacteriana. O outro acontecimento relevante foi a vacinação para proteger as pessoas de determinadas doenças pela imunização induzida (produção de anticorpos específicos, nomeadamente).

É este segundo tema, absolutamente “salva-vidas”, inquestionável no plano científico, que a seguir se trata, sem ignorar os debates actuais sobre a vacina contra a covid-19, tanto em adultos e como em crianças.

Tudo começou há muitos anos, na viragem do século XVIII para o XIX. Então, o médico inglês Edward Jenner (1749-1823) que exercia na província, longe de Londres, constatou que as trabalhadoras dos estábulos que mugiam vacas leiteiras adquiriam, devido ao contacto próximo, lesões cutâneas semelhantes às apresentadas pelas vacas que estavam doentes. Observou que as pessoas portadoras de cicatrizes relacionadas com essas lesões não adoeciam com varíola.

Por outras palavras, quem tinha sinais na pele correspondentes à doença das vacas, passava a estar defendido em relação à varíola. Isto é, estavam imunes. Pensou, por isso, provocar artificialmente a doença das vacas em pessoas saudáveis para, desta maneira, ficarem também protegidas da varíola. Praticar uma alternativa como se todos “estivessem” junto de vacas doentes. Pensamento aparentemente simples, mas genial. Sublime. Ora, como a doença das vacas era designada por vaccinia, Jenner concluiu que era preciso introduzir massivamente a vaccinia em toda a população através do método da escarificação.

E assim sucedeu por sua proposta. Inglaterra e todos os países do mundo adoptaram a escarificação antivariólica com o líquido purificado obtido das vesículas da vaccinia das vacas. Foi assim que nasceu o conceito e a expressão de vacinação.

A vacina de Jenner viria a eliminar (erradicar) a doença do planeta em 1980 (no auge da Guerra Fria) com um custo total, estimado pela OMS, como inferior a um “porta-aviões”…

Outras vacinas foram sucessivamente surgindo, mantendo a mesma expressão, se bem que não tenham qualquer relação nem com vacas nem com a varíola…

Além da BCG para a tuberculose, as vacinas contra tétano, tosse convulsa, difteria, paralisia infantil, hepatites A e B, sarampo, rubéola, papeira, varicela, gripe, febre-amarela, diversas formas de meningite, papiloma humano e muitas outras são cada vez mais seguras e eficazes. A poderosa indústria farmacêutica ocupa-se da investigação, do fabrico e da distribuição de novas vacinas (com lucros extraordinários, sublinhe-se).

A vacinação, em particular na infância, passou a obedecer a um calendário que conjuga a vantagem traduzida na obtenção de defesas para as doenças alvo (em função da frequência e da gravidade) e a oportunidade de reduzir o número de vezes de comparência ao posto de vacinação.

Não são apenas as doenças infecciosas evitadas pela vacinação, visto que o cancro do fígado e o cancro cervical uterino são, também, prevenidos pela vacinação contra a hepatite B e o papiloma humano, respectivamente. As doenças assim prevenidas evitam, comprovadamente, muitos dias de hospitalização e mortes. Muitas situações dramáticas.

A negação e a resistência à vacinação não têm qualquer fundamento científico. São atitudes incompreensíveis devido a má informação. Aliás, já na DGS se dizia que as vacinas iriam ser nas gerações seguintes as maiores inimigas da vacinação porque as mães deixariam de saber o que representa, por exemplo, o sarampo ou a poliomielite das suas crianças. Não acreditam porque não viram…

Nos dias de hoje, faria algum sentido deixar 640 mil crianças dos 5 aos 11 anos sem protecção contra a covid-19?

Em algumas ocasiões, não raramente, comentadores políticos e até titulares de órgãos de soberania (tanto em Portugal como a nível internacional) pronunciam-se sem fundamentar afirmações ou, mesmo, tomam decisões ditadas pela oportunidade política.

Todas as opiniões podem ser expressas, naturalmente. Mas decisões devem ter, necessariamente, fundamentação científica e, por isto mesmo, justificadas publicamente como tal.

Ex-director-geral da Saúde

Diário de Notícias
Francisco George
21 Dezembro 2021 — 00:44




268: Interpretar Linhas Vermelhas para Cuidados Intensivos

OPINIÃO

Os dois principais indicadores para avaliar a evolução da propagação, magnitude e intensidade da Pandemia são a ocupação de camas hospitalares devida a casos de Covid-19 e, muito em especial, o número de doentes admitidos em camas de unidades de cuidados intensivos.

Ora, como se sabe, as decisões tomadas por gestores (e governantes) a nível central e por administradores hospitalares, em cada serviço, resultam da leitura, entre outros, desses dois indicadores que, no conjunto, constituem um “painel de bordo” que assinala as circunstâncias a cada momento.

Tanto a ocupação de camas em cada hospital, como o movimento de admissões e altas em unidades de cuidados intensivos são em permanência monitorizados. Como tal, os sinais, podem traduzir a normalidade esperada para essa unidade ou, pelo contrário, a aproximação a “linhas vermelhas” (previamente definidas) que representa motivo de preocupação. Por isso, a vigilância ininterrupta da capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde é um processo indispensável para, se necessário, serem introduzidas medidas e para tudo ser feito, em tempo útil, a fim de ser evitada a ultrapassagem dessas linhas.

Convém, portanto, saber interpretar este indicador, uma vez que tem sido repetidamente citado pelos epidemiologistas da DGS e do Instituto Ricardo Jorge (nomeadamente por Baltazar Nunes).

Há, para isso, que atender ao número de camas de cuidados intensivos, em pleno funcionamento, para perceber a respectiva movimentação diária de doentes admitidos e altas e, ainda, a comparação com dias ou semanas anteriores.

Ora, o limite “vermelho” é de 255 camas ocupadas por doentes Covid-19. Linha que foi expressamente calculada para o conjunto das cinco regiões do Continente. Menos de 255 doentes em tratamento intensivo traduz uma situação de ausência de pressão e, portanto, da manutenção regular do funcionamento do Sistema. Pelo contrário, um número superior representa “pressão” alarmante e exige (além de comunicação imediata à Ministra da Saúde) a adopção urgente de correcções.

Como se imagina cada cama de cuidados intensivos requer a presença em regime de 24 horas, 7 dias da semana, de médicos intensivistas, enfermeiros e outros técnicos especialistas, além de uma bateria de equipamentos complexos como ventiladores.

Hoje, estas unidades estão disponíveis em todo o País. O Serviço Nacional de Saúde tem conseguido gerir o parque de camas de cuidados intensivos de forma admirável. Um sucesso, reconheça-se. Inúmeros relatos comprovam a indiscutível eficácia, sobretudo para resolver estados graves de insuficiência respiratória. Evitam, muitas vezes, a precipitação do final da vida causada pelo Covid-19, sem discriminação alguma. O acesso é ditado por decisão exclusivamente baseada em critérios clínicos, quer para doentes ricos ou pobres, bem como de todas as nacionalidades, etnias, cor da pele ou confissões religiosas. Inclusão exemplar. Um orgulho.

Porém, sublinha-se que nem sempre assim aconteceu. No plano histórico, a Medicina Intensiva, em Portugal, começou de forma bem diferente. Em 1968, António Oliveira

Salazar foi internado no Hospital da Cruz Vermelha. A gravidade da sua doença levou os médicos a requerem a aquisição no estrangeiro de um ventilador destinado apenas para o então Presidente do Conselho. Rapidamente, um aparelho de origem sueco do último modelo da marca Engstrom chegou, sem barreiras, a Lisboa e logo colocado, directamente, no quarto onde Salazar estava internado (em próximo trabalho o tema irá ser desenvolvido).

Especialista em Saúde Publica

Diário de Notícias
Francisco George
28 Novembro 2021 — 00:03

262: Covid para o Natal?

OPINIÃO

Como diria Russell (já aqui citado em trabalho anterior), “mesmo quando todos os peritos concordam, podem estar enganados” e, logo a seguir, a título de exemplo, “a opinião de Einstein relativa ao grau de curvatura da luz, causada pela gravitação, teria sido rejeitada por todos os peritos 20 anos antes e, no entanto, demonstrou-se correta”.

Estas notáveis palavras sobre peritos, por associação de ideias, fazem reviver os resultados anunciados no final das reuniões do Infarmed sobre a situação epidémica da covid-19, em Portugal. Reuniões que, apesar de informais, contam com a participação do Presidente da República, outros titulares de órgãos de soberania, incluindo membros do governo, além de líderes partidários. São, naturalmente, encontros muito úteis, visto que os peritos podem expor de forma aberta e livre as respectivas opiniões, análises e estimativas baseadas em observações cientificamente validadas. Os políticos ficam, desta forma, devidamente informados e habilitados a poderem fundamentar a adopção de medidas preventivas consideradas adequadas a cada situação. Sempre assim devia suceder.

Propõe-se, agora, em rápido exercício intelectual, repensar a impressão provocada pelos noticiários das estações de televisão e de rádio e a leitura da imprensa dos últimos dias. Concluir-se-ia que a evolução da actividade viral do coronavírus para a próxima época do Natal ou para as semanas seguintes do Novo Ano poderá ser dramática, mas com a oportuna ressalva se esta ou aquela medida não acontecer. E se a taxa de cobertura vacinal não fosse tão elevada, pior seria pela certa.

Todavia, sublinha-se que o consenso de especialistas em torno dos riscos da pandemia para o futuro, mesmo próximo, terá, necessariamente, de incluir reservas, interrogações e cenários com certo grau de dúvida. Ao contrário das previsões meteorológicas, ainda não é possível antecipar acontecimentos em epidemiologia. Apenas probabilidades baseadas em hipóteses “se nada acontecer” ou se “nada for feito” ou, no sentido inverso, se surgir uma variante do vírus não protegida pela imunidade assegurada pela actual vacina já a evolução poderia ser mesmo dramática.

Sublinha-se, porém, que é, hoje, impossível antecipar a evolução de amanhã, nem com “bola de cristal” …

Vem esta questão a propósito de notícias, repetidamente difundidas, sobre a quinta onda pandémica que no final do ano representaria uma ameaça. Alguns insistem que a época festiva que se avizinha será envolvida e maculada por medo, pânico e alarme. Para eles, as camas hospitalares, em geral, e de cuidados intensivos, em particular, que o Serviço Nacional de Saúde dispõe não seriam suficientes. A pressão será imensa e o “desastre” avizinha-se como real. Esquecem-se de que alarme não é alerta. Uma pessoa alarmada é, quase sempre, muito mau sinal. Mas estar em alerta é bom. A primeira ficaria com o pensamento perturbado e a segunda em segurança e com maior capacidade de tomar decisões avisadas.

Então, nesta circunstância, o que há a fazer? Qual o conselho principal?

Antes de tudo, ter acesso a informações regulares de qualidade, como as emanadas a partir de organismos oficiais, nomeadamente dependentes do Ministério da Saúde, como a DGS ou o Instituto Ricardo Jorge. Em relação a outras fontes há que colocar reticências de equilibrado cepticismo, sobretudo em opiniões manifestadas por políticos (candidatos e comentadores). Estas opiniões (naturalmente livres, mas, quase sempre, sem base científica) vão aumentar com a aproximação das eleições legislativas de 30 de Janeiro.

Tristemente, irão ser os não peritos a utilizar a pandemia para críticas eleitoralistas.

Com perplexidade o país irá perceber que Costa, Rangel (ou Rio), Catarina, Jerónimo, Inês, Cotrim ou Ventura não irão ser consensuais em assuntos de prevenção e controlo da covid-19.

Sensato seria que assim não venha a acontecer.

Especialista em saúde pública

Diário de Notícias
Francisco George
20 Novembro 2021 — 00:03

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253: Palavras

– Pois… Palavras…!!! Leva-as ou não o vento segundo exista brisa ou vendaval! É engraçado o conteúdo deste colunista, mencionando apenas a título de exemplo do não cumprimento das promessas por políticos – nesta caso, José Sócrates -, quando TODOS os políticos de TODOS os quadrantes ideológicos fazem o mesmo… Aversão ao PS ou a José Sócrates?

OPINIÃO

A influência que Bertrand Russell (1872-1970) exerceu no pensamento ocidental no século XX é inquestionável. Muito justamente, recebeu o Nobel da Literatura em 1950 em reconhecimento ao pensamento livre que cultivou. As suas obras eram lidas e analisadas com redobrada atenção, em particular em ambiente académico. Tal como as suas indicações e doutrinas, divulgadas em múltiplas conferências que proferiu e em publicações editadas, eram constantemente citadas.

Ora, de entre elas, destacou que a responsabilidade da opinião expressa por um governante, no plano da ética, é mais exigente quando comparada com a palavra dita, por exemplo, por um simples operário. Isto é, para Bertrand Russell, o discurso (a promessa ou compromisso) pronunciado por um membro do governo adquire uma responsabilidade singular na perspectiva do cumprimento da palavra e do seu comportamento individual, mas, igualmente, da percepção colectiva. Por razões políticas que clarificou, há diferenças de responsabilidade em função de quem proclama a palavra. Em suma, para ele, os cidadãos em geral são mais exigentes com a palavra declarada por governantes, manifestada a cada momento. Nem todas as palavras adquirem a mesma dimensão, uma vez que assumem relevância distinta em função do declarante.

Vem esta introdução a propósito de certos políticos em Portugal, muitas vezes, apresentarem promessas programáticas, quase sempre atraentes e, sobretudo, enunciadas em campanhas eleitorais com a agravante de serem proferidas com a convicção, à partida, que não serão, a seguir, cumpridas.

Assim tem repetidamente acontecido e sempre sem consequências visíveis. Estas situações são, quase sempre, moral e eticamente imunes. Mas, apenas aparentemente, visto que a sociedade não aceita esses comportamentos. Imunes, mas não impunes.

Precise-se a título de exemplo.

Não há muitos anos, no tempo de José Sócrates, o programa eleitoral do seu partido manifestava a justa preocupação com as questões associadas à baixa natalidade e ao envelhecimento da população. Anunciava estratégias para o futuro e a adopção de medidas concretas, a fim de favorecerem e estimularem a fecundidade. A promessa baseava-se no compromisso de abrir uma conta com 200 euros no banco público a cada e todas as crianças nascidas a partir da legislatura depois da eleição que se avizinhava. Pois, como se sabe, o partido em causa ganhou e, apesar disso, nenhuma criança recém-nascida ficou com conta aberta na Caixa Geral de Depósitos…

Promessa ignorada, não cumprida, portanto.

O problema ainda é mais grave, além do incumprimento da promessa, na medida em que a questão é estrategicamente prioritária. É necessário implementar, sem adiamentos, iniciativas eficazes para resolver a baixa natalidade do país. É, seguramente, tema principal que deve concentrar a atenção de todos os partidos que agora irão às urnas a 30 de Janeiro próximo.

Todos eles terão de apresentar propostas exequíveis que mais tarde não venham a ser esquecidas nem cativadas pela irresponsabilidade de qualquer ministro das Finanças que venha a ser empossado.

A gravidade do problema é indiscutível. Cada dez mulheres em idade fértil, residentes em Portugal, têm, em média, apenas 14 filhos. Quando para assegurar a sucessão de gerações deviam gerar 21.

A baixa fecundidade actual, a manter-se, vai colocar em risco o futuro de Portugal.

É, agora, o tempo da palavra dos líderes dos partidos candidatos às eleições de 30 de Janeiro.

Ex -director-geral da Saúde

Diário de Notícias
Francisco George
12 Novembro 2021 — 00:15