1251: Astrónomos encontram evidências do mais poderoso pulsar em galáxia distante

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

À medida que a concha de detritos da explosão de super-nova se expande ao longo de algumas décadas, torna-se menos densa e acaba por se tornar suficientemente fina para que as ondas de rádio do interior possam escapar. Isto permitiu observações do VLASS (VLA Sky Survey) para detectar emissões de rádio brilhantes criadas à medida que o poderoso campo magnético da estrela de neutrões que gira rapidamente varre o espaço circundante, acelerando as partículas carregadas. Este fenómeno é chamado uma nebulosa de vento pulsar.
Crédito: Melissa Weiss, NRAO/AUI/NSF

Astrónomos que analisavam dados do VLASS (VLA Sky Survey) descobriram uma das estrelas de neutrões mais jovens conhecidas – o remanescente super-denso de uma estrela massiva que explodiu como uma super-nova. Imagens do VLA (Karl G. Jansky Very Large Array) da NSF (National Science Foundation) indicam que a emissão brilhante de rádio alimentada pelo campo magnético do pulsar giratório só recentemente surgiu por detrás de uma densa concha de detritos da explosão de super-nova.

O objecto, chamado VT 1137-0337, encontra-se numa galáxia anã a 395 milhões de anos-luz da Terra. Apareceu pela primeira vez numa imagem VLASS feita em Janeiro de 2018. Não apareceu numa imagem da mesma região feita pelo levantamento FIRST do VLA em 1998. Continuou a aparecer em observações VLASS posteriores em 2018, 2019, 2020 e 2022.

“O que mais provavelmente estamos a ver é uma nebulosa de vento pulsar”, disse Dillon Dong, estudante no Caltech que vai começar uma bolsa de pós-doutoramento no NRAO (National Radio Astronomy Observatory) no final deste ano. Uma nebulosa de vento pulsar é criada quando o poderoso campo magnético de uma estrela de neutrões em rápida rotação acelera as partículas carregadas em redor até quase à velocidade da luz.

“Com base nas suas características, este é um pulsar muito jovem – possivelmente tão jovem quanto apenas 14 anos, mas não com mais de 60 a 80 anos,” disse Gregg Hallinan, orientador de doutoramento de Dong no Caltech.

Os cientistas relataram as suas descobertas na reunião da Sociedade Astronómica Americana em Pasadena, no estado norte-americano da Califórnia.

Dong e Hallinan descobriram o objecto em dados do VLASS, um projecto do NRAO que começou em 2017 para pesquisar todo o céu visível a partir do VLA – cerca de 80% do céu. Ao longo de um período de sete anos, o VLASS está a realizar um scan completo do céu três vezes, sendo um dos objectivos o de encontrar objectos transitórios. Os astrónomos encontraram VT 1137-0337 na primeira varredura VLASS de 2018.

Comparando esta análise VLASS com dados de um levantamento anterior do VLA, chamado FIRST, revelou 20 objectos transientes particularmente luminosos que poderiam estar associados a galáxias conhecidas.

“Este destacou-se porque a sua galáxia está a passar por um surto de formação estelar e também por causa das características da sua emissão de rádio,” disse Dong. A galáxia, chamada SDSS J113706.18-033737.1, é uma galáxia anã contendo cerca de 100 milhões de vezes a massa do Sol.

Ao estudar as características de VT 1137-0337, os astrónomos consideraram várias explicações possíveis, incluindo uma super-nova, um GRB (“gamma ray burst”, em português explosão de raios-gama) ou um evento de ruptura de maré em que uma estrela é triturada por um buraco negro super-massivo. Eles concluíram que a melhor explicação é uma nebulosa de vento pulsar.

Neste cenário, uma estrela muito mais massiva do que o Sol explodiu como super-nova, deixando para trás uma estrela de neutrões. A maior parte da massa da estrela original foi expelida para fora como uma concha de destroços. A estrela de neutrões gira rapidamente e à medida que o seu poderoso campo magnético varre o espaço circundante, acelera as partículas carregadas, provocando uma forte emissão de rádio.

Inicialmente, a emissão de rádio foi bloqueada pela concha de detritos da explosão. À medida que esse invólucro se expandia, tornou-se progressivamente menos denso até que eventualmente as ondas de rádio da nebulosa de vento pulsar puderam passar através dele.

“Isto aconteceu entre a observação FIRST em 1998 e a observação VLASS em 2018,” disse Hallinan.

Provavelmente o exemplo mais famoso de uma nebulosa de vento pulsar é a Nebulosa do Caranguejo (M1) na direcção da constelação de Touro, o resultado de uma super-nova que brilhou intensamente no ano 1054. M1 é facilmente visível hoje em dia através de telescópios pequenos.

“O objecto que encontrámos parece ser aproximadamente 10.000 vezes mais energético do que a Nebulosa do Caranguejo, com um campo magnético mais forte,” disse Dong. “É provável que seja um ‘super Caranguejo’ emergente”, acrescentou.

Apesar de Dong e Hallinan considerarem VT 1137-0337 como sendo muito provavelmente uma nebulosa de vento pulsar, também é possível que o seu campo magnético seja suficientemente forte para que a estrela de neutrões se qualifique como um magnetar – uma classe de objectos super-magnéticos. Os magnetares são um dos principais candidatos à origem dos misteriosos FRBs (Fast Radio Bursts), agora sob intenso estudo.

“Nesse caso, este seria o primeiro magnetar apanhado no ato de aparecer e isso, também, é extremamente excitante,” disse Dong.

De facto, verificou-se que alguns FRBs foram associados a fontes de rádio persistentes, cuja natureza também é um mistério. Têm fortes semelhanças, nas suas propriedades, com VT 1137-0337, mas não mostraram evidências de uma forte variabilidade.

“A nossa descoberta de uma fonte muito semelhante a ‘ligar-se’ sugere que as fontes de rádio associadas aos FRBs também podem ser nebulosas luminosas de vento pulsar”, disse Dong.

Os astrónomos planeiam fazer observações adicionais para aprender mais sobre o objecto e para monitorizar o seu comportamento ao longo do tempo.

Astronomia On-line
21 de Junho de 2022


 

1156: Estrela de neutrões invulgar descoberta em cemitério estelar

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Impressão de artista do pulsar PSR J0901-4046 (em magenta) em comparação com outras fontes com rotação mais elevada.
Crédito: Daniëlle Futselaar (artsource.nl)

Uma equipa internacional liderada por uma cientista da Universidade de Sidney descobriu um sinal de rádio invulgar emitido por uma estrela de neutrões que gira extremamente devagar, completando uma rotação a cada 76 segundos.

A estrela é única porque reside no “cemitério de estrelas de neutrões”, onde não se esperam pulsações. A descoberta foi feita pela equipa MeerTRAP utilizando o radiotelescópio MeerKAT na África do Sul, e foi publicada na revista Nature Astronomy.

A estrela foi inicialmente detectada a partir de um único pulso. Foi então possível confirmar vários pulsos usando imagens consecutivas do céu com oito segundos de exposição, confirmando a sua posição.

As estrelas de neutrões são remanescentes extremamente densos de explosões de super-nova de estrelas massivas. Os cientistas conhecem cerca de 3000 destas na nossa Galáxia. No entanto, a nova descoberta é diferente de tudo o que se viu até agora. A equipa pensa que poderia pertencer à classe teorizada de magnetares de período ultra-longo – estrelas com campos magnéticos extremamente fortes.

A Dra. Manisha Caleb, líder da investigação, anteriormente da Universidade de Manchester e agora da Universidade de Sidney, disse: “Surpreendentemente só detectamos emissões de rádio a partir desta fonte durante 0,5% do seu período de rotação.

“Isto significa que é uma grande sorte que o feixe de rádio se tenha cruzado com a Terra.

“É, portanto, provável que existam muitas mais destas estrelas de neutrões que giram muito lentamente na Galáxia, o que tem implicações importantes para a compreensão de como as estrelas de neutrões nascem e evoluem.

“A maioria dos levantamentos pulsar não procura períodos tão longos, pelo que não temos ideia de quantas destas estrelas possam existir.”

A estrela de neutrões recentemente descoberta chama-se PSR J0901-4046 e parece ter pelo menos sete tipos de pulsos diferentes, alguns dos quais ocorrem a intervalos regulares. Mostra características de pulsares, magnetares de período ultra-longo e até FRBs (em inglês “fast radio bursts”) – flashes de emissão de rádio em locais aleatórios no céu.

“Este é o início de uma nova classe de estrelas de neutrões. Como ou se se relaciona com outras classes ainda está para ser explorado. É provável que haja muitas mais por aí. Só precisamos de olhar!” disse a Dra. Caleb.

Os colaboradores da investigação incluem a equipa ThunderKat de 77 pessoas, liderada pelas Universidade da Cidade do Cabo e Oxford.

Astronomia On-line
3 de Junho de 2022


 

Um raro binário “viúva negra”, com a órbita mais curta até agora

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Ilustração de um pulsar “viúva negra” e da sua companheira estelar. As emissões de raios-gama do pulsar (magenta) aquecem fortemente o lado frontal da estrela (laranja). O pulsar está gradualmente a evaporar a sua companheira.
Crédito: Centro de Voo Espacial Goddard da NASA/Cruz deWilde

O clarão de uma estrela próxima atraiu os astrónomos do MIT (Massachusetts Institute of Technology) para um novo e misterioso sistema a 3000 anos-luz da Terra. Este estranho objecto estelar parece ser um novo binário “viúva negra” – uma estrela de neutrões com rotação rápida, ou pulsar, que está a circular e a consumir lentamente uma estrela companheira mais pequena, como o homónimo aracnídeo faz ao seu companheiro.

Os astrónomos conhecem cerca de duas dúzias de “binários de viúvas negras” na Via Láctea. Este novo candidato, chamado ZTF J1406+1222, tem o período orbital mais curto até agora identificado, com o pulsar e a estrela companheira a orbitarem-se um ao outro a cada 62 minutos. O sistema é único, na medida em que parece abrigar uma terceira estrela, distante, que orbita em torno das duas estrelas interiores de 10.000 em 10.000 anos.

Esta provável viúva negra tripla está a levantar questões sobre como um tal sistema pode ter sido formado. Com base nas suas observações, a equipa do MIT propõe uma história de origem: tal como a maioria dos binários de viúvas negras, o sistema triplo provavelmente surgiu de uma densa constelação de estrelas velhas conhecida como enxame globular. Este enxame em particular pode ter-se dirigido para o centro da Via Láctea, onde a gravidade do buraco negro central foi suficiente para fragmentar o enxame, deixando intacta a viúva negra tripla.

“É um cenário complicado de nascimento,” diz Kevin Burdge, pós-doutorado no Departamento de Física do MIT. “Este sistema flutua provavelmente na Via Láctea há mais tempo do que o Sol.”

Burdge é o autor de um estudo publicado na revista Nature que detalha a descoberta da equipa. Os investigadores utilizaram uma nova abordagem para detectar o sistema triplo. Enquanto a maioria dos binários de viúvas negras são encontrados através dos raios-gama e raios-X emitidos pelo pulsar central, a equipa utilizou a luz visível, e especificamente o piscar da estrela companheira do binário, para detectar ZTF J1406+1222.

“Este sistema é realmente único até no que toca às viúvas negras, porque encontrámo-lo no visível, e devido à sua ampla companheira e ao facto de ter vindo do Centro Galáctico,” explica Burdge. “Ainda há muito que não compreendemos sobre ele. Mas temos uma nova forma de procurar estes sistemas no céu.”

Os co-autores do estudo são colaboradores de múltiplas instituições, incluindo a Universidade de Warwick, do Caltech, da Universidade de Washington, da Universidade McGill e da Universidade de Maryland.

Dia e noite

Os binários de viúvas negras são alimentados por pulsares – estrelas de neutrões de rotação rápida que são os núcleos colapsados de estrelas massivas. Os pulsares têm um período de rotação vertiginoso, girando a cada poucos milissegundos e emitindo no processo flashes de raios-gama e raios-X altamente energéticos.

Normalmente, os pulsares diminuem a sua rotação e morrem relativamente depressa à medida que queimam uma enorme quantidade de energia. Mas de vez em quando, uma estrela passageira pode dar uma nova vida ao pulsar. Quando uma estrela se aproxima, a gravidade do pulsar retira material da estrela, o que fornece nova energia à sua rotação. O pulsar “reciclado” começa então a reirradiar energia que retira ainda mais material à estrela, eventualmente destruindo-a.

“Estes sistemas são chamados de viúvas negras devido à forma como o pulsar consome o objecto que a reciclou, tal como a aranha come o seu companheiro,” diz Burdge.

Todos os binários de viúvas negras até à data foram detectados através dos flashes de raios-gama e raios-X do pulsar. ZTF J1406+1222 foi o primeiro sistema do género a ser detectado graças ao flash óptico da estrela companheira.

Ao que parece, o lado diurno da estrela companheira – o lado perpetuamente virado para o pulsar – pode ser muitas vezes mais quente do que o seu lado nocturno, devido à constante radiação altamente energética que recebe do pulsar.

“Pensei, em vez de procurar directamente o pulsar, tentar procurar a estrela que este está a ‘cozinhar’,” salientou Burdge.

Ele argumentou que se os astrónomos observassem uma estrela cujo brilho mudava periodicamente em grande quantidade, isso seria um sinal forte de que estava num binário com um pulsar.

Movimento estelar

Para testar esta teoria, Burdge e colegas examinaram dados ópticos obtidos pelo ZTF (Zwicky Transient Facility), um observatório no estado norte-americano da Califórnia que recolhe imagens de campo amplo do céu nocturno. A equipa estudou o brilho das estrelas para ver se alguma estava a mudar dramaticamente por um factor de 10 ou mais, numa escala de tempo de cerca de uma hora ou menos – sinais que indicam a presença de um pulsar em órbita íntima.

A equipa foi capaz de discernir a dúzia de binários de viúvas negras conhecidos, validando a precisão do novo método. Depois avistaram uma estrela cujo brilho mudava por um factor de 13, a cada 62 minutos, indicando que fazia provavelmente parte de um novo binário viúva negra, que rotularam de ZTF J1406+1222.

Procuraram a estrela em observações feitas pelo Gaia, um telescópio espacial operado pela ESA que mantém medições precisas da posição e movimento das estrelas no céu. Analisando medições da estrela para trás no tempo, graças aos dados do SDSS (Sloan Digital Sky Survey), a equipa descobriu que o binário estava a ser seguido por outra estrela distante. A julgar pelos seus cálculos, esta terceira estrela parecia estar a orbitar o binário interior a cada 10.000 anos.

Curiosamente, os astrónomos não detectaram directamente emissões de raios-gama ou raios-X do pulsar no binário, que é a forma típica de confirmação das viúvas negras. ZTF J1406+1222, portanto, é considerado um candidato a binário viúva negra, que a equipa espera confirmar com futuras observações.

“A única coisa que sabemos ao certo é que vemos uma estrela com um lado diurno muito mais quente do que o lado nocturno, orbitando algo a cada 62 minutos,” acrescenta Burdge. “Tudo parece apontar para o facto de ser um binário viúva negra. Mas há aqui algumas coisas estranhas, por isso é possível que seja algo inteiramente novo.”

A equipa planeia continuar a observar o novo sistema, bem como a aplicar a técnica óptica para iluminar mais estrelas de neutrões e viúvas negras no céu.

Astronomia On-line
6 de Maio de 2022


Pelas vítimas do genocídio praticado
pela União Soviética de Putin, na Ucrânia
For the victims of the genocide practiced
by the Soviet Union of Putin, in Ukraine


 

774: “Monstro das bolachas cósmico”. Estrela de neutrões captada a devorar matéria de outra estrela pela primeira vez

CIÊNCIA/ASTROFÍSICA

(dr) University of Michigan

A descoberta é uma das mais importantes no ramo da astrofísica. Foram usados 10 telescópicos e o estudo foi uma colaboração entre 11 investigadores de várias universidades.

Um novo estudo publicado na Nature relata a captura inédita de uma estrela de neutrões a devorar uma outra estrela na sua proximidade. A pesquisa foi levada a cabo na Universidade de Southampton por uma equipa de investigadores de 11 países e exigiu 10 telescópios.

Os cientistas debruçaram-se sobre a erupção do binário raio-X conhecido como Swift J1858, explica o Interesting Engineering. O estudo recorreu a uma grande variedade de telescópios espaciais, como o Hubble da NASA, o XMM-Newton da Agência Espacial Europeia, o Telescópio Muito Grande e o Grande Telescópio das Canárias, do Observatório Europeu do Sul.

“Desta vez tivemos a sorte cósmica do nosso lado e conseguimos coordenar dez telescópios e apontá-los para o J1858 enquanto ele estava totalmente activo. Isto permitiu-nos obter muito mais informação já que podemos usar técnicas diferentes em comprimentos de onda diferentes”, afirma Hernández Santisteban, da Universidade de St. Andrews e co-autor do estudo.

A estrela de neutrões conseguiu consumir tanta matéria da outra estrela porque a sua força gravitacional é tão forte que lhe permite absorver gás de outras estrelas. Mas as estrelas de neutrões não se limitam a sugar este gás, visto que também o enviam pelo Espaço fora a alta velocidade.

Para a co-autora Nathalie Degenaar, da Universidade de Amesterdão, estas estrelas de neutrões são “canibais estelares” e “monstros das bolachas cósmicos” que fazem uma confusão quando comem. A descoberta é uma das mais importantes nos últimos tempos no ramo da astrofísica.

“As erupções como esta são raras e cada uma delas é única. Normalmente são fortemente obscurecidas pelo pó interestelar, o que torna a sua observação muito difícil. Swift J1858 foi especial porque apesar de estar localizada no outro lado da nossa galáxia, a sua obscuração foi pequena o suficiente para permitir um estudo completo com vários comprimentos de onda”, remata Noel Castro Segura, autor principal do estudo e investigador da Universidade de Southampton.

  ZAP //

ZAP
21 Março, 2022

 



 

679: Poderosos ventos quentes vistos a soprar de uma estrela de neutrões ao rasgar a sua companheira

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Impressão de artista do binário de raios-X Swift J1858. Vemos aqui como a estrela de neutrões se alimenta, através de um disco de acreção, do material que retirou da estrela que a acompanha, e como parte desse material é ejectado sob a forma de um vento quente.
Crédito: Gabriel Pérez Díaz, SMM (IAC)

Usando os telescópios mais poderosos da Terra e no espaço, uma equipa de astrónomos encontrou pela primeira vez explosões de ventos quentes, amenos e frios de uma estrela de neutrões enquanto consome matéria de uma estrela próxima. A descoberta proporciona uma nova visão sobre os comportamentos de alguns dos objectos mais extremos do Universo.

Os binários de raios-X de baixa massa são sistemas que contêm uma estrela de neutrões ou um buraco negro. São alimentados por material arrancado de uma estrela vizinha, um processo conhecido como acreção. A maior parte da acreção ocorre durante erupções violentas, onde os sistemas brilham dramaticamente. Ao mesmo tempo, parte do material que entra em espiral é impedido de voltar ao espaço sob a forma de ventos de disco e jactos.

Os sinais mais comuns da saída de material de objectos astronómicos estão associados a gás “ameno”. Apesar disto, apenas ventos de gás “quente” ou “frio” têm sido observados em binários de raios-X transitórios, até agora.

Neste novo estudo, uma equipa de investigadores de onze países, liderada pela Universidade de Southampton, estudou a recente erupção do binário de raios-X conhecido como Swift J1858. Utilizaram uma combinação de telescópios, incluindo o Telescópio Espacial Hubble da NASA, o satélite XMM-Newton da ESA, o VLT (Very Large Telescope) do ESO e o GTC (Gran Telescopio Canarias).

Os resultados, publicados na revista Nature, mostraram assinaturas persistentes de um vento quente em comprimentos de onda ultravioleta ocorrendo ao mesmo tempo que assinaturas de um vento frio em comprimentos de onda ópticos. Esta é a primeira vez que os ventos de um tal sistema são vistos através de diferentes bandas do espectro electromagnético.

O autor principal Dr. Noel Castro Segura, da Universidade de Southampton, afirmou: “Erupções como esta são raras, e cada uma delas é única. Normalmente são fortemente obscurecidas pela poeira interestelar, o que torna a sua observação muito difícil. Swift J1858 foi especial, porque mesmo estando localizado no outro lado da nossa Galáxia, o obscurecimento foi suficientemente pequeno para permitir um estudo de multi-comprimento de onda completo.”

“Apenas um outro sistema – o binário de raios-X com buraco negro, V404 Cyg – tem mostrado propriedades semelhantes. Contudo, a nossa tentativa de realizar a mesma experiência nesse sistema não teve êxito, porque a erupção terminou antes de conseguirmos que os telescópios terrestres e espaciais o observassem simultaneamente,” disse o co-autor Dr. Hernández Santisteban da Universidade de St. Andrews.

Swift J1858 é um evento transitório de raios-X recentemente descoberto que apresenta uma variabilidade extrema através do espectro electromagnético, o que constitui uma oportunidade rara.

“Todos os astrónomos deste campo estavam incrivelmente entusiasmados, ao ponto de combinarmos os nossos esforços para cobrir todo o espectro, desde o rádio aos raios-X usando observatórios de última geração na Terra e no espaço,” continuou o Dr. Castro Segura.

A co-autora Nathalie Degenaar, da Universidade de Amesterdão, acrescentou: “As estrelas de neutrões têm uma atracção gravitacional imensamente forte que lhes permite engolir gás de outras estrelas. As canibais estelares são, no entanto, comedoras desordenadas e muito do gás que as estrelas de neutrões puxam na sua direcção não é consumido, mas atirado para o espaço a alta velocidade. Este comportamento tem um grande impacto tanto sobre a própria estrela de neutrões como sobre o seu ambiente imediato. Neste artigo relatamos uma nova descoberta que fornece informações chave sobre os padrões de alimentação desordenados destes ‘monstros da bolacha’ cósmicos.”

“Desta vez tivemos a sorte cósmica do nosso lado, pois fomos capazes de coordenar dez telescópios e apontá-los para J1858, tudo enquanto este estava totalmente activo. Isto permite-nos obter muito mais informação, uma vez que podemos utilizar diferentes técnicas em diferentes comprimentos de onda,” disse o Dr. Hernández Santisteban.

A Dra. Degenaar acrescentou: “conceber uma campanha de observação tão ambiciosa – construída em redor dos melhores telescópios na Terra e no espaço – foi um enorme desafio. Portanto, é incrivelmente excitante que todo este trabalho tenha compensado e nos tenha permitido fazer uma descoberta chave que de outra forma não teria sido possível.”

Além de descobrir os diferentes tipos de ventos, a equipa foi capaz de estudar a evolução temporal do gás que flui para fora. Descobriram que o vento quente não foi afectado pelas fortes variações de luminosidade do sistema. A ausência de tal resposta tinha sido anteriormente uma previsão teórica não confirmada, baseada em simulações sofisticadas.

“Nesta investigação combinámos as capacidades únicas do Hubble com os melhores telescópios terrestres, tais como o VLT e o GTC, para obter uma imagem completa da dinâmica do gás no sistema, desde os comprimentos de onda no infravermelho próximo até ao ultravioleta. Isto permitiu-nos revelar pela primeira vez a verdadeira natureza destes potentes fluxos,” disse o Dr. Castro Segura.

“Os novos conhecimentos fornecidos pelos nossos resultados são fundamentais para compreender como estes objectos interagem com o seu ambiente. Ao libertarem energia e matéria para a Galáxia, contribuem para a formação de novas gerações de estrelas e para a evolução da própria Galáxia,” concluiu o Dr. Castro Segura.

Astronomia On-line
4 de Março de 2022



 

508: Astrónomos descobrem objecto misterioso que pode ser uma nova classe de estrela

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

CC BY 4.0 / Royal Astronomical Society

O objecto foi inicialmente detectado no início de 2018 e emitiu ondas de rádio a cada 20 minutos, podendo ser um magnetar de período ultra longo, uma classe de estrelas de neutrões com um campo magnético ultra poderoso.

Um novo estudo publicado na revista Nature relata a descoberta de um objecto misterioso que emite um feixe de ondas de rádio a cada 20 minutos. O objecto em questão pode pertencer a uma nova classe de estrela de neutrões rotativa com um campo magnético ultra poderoso, nota o The Guardian.

Os sinais repetitivos foram detectados durante os primeiros três meses de 2018, mas desapareceram logo depois, o que sugere que a sua emissão estava ligada a um evento isolado.

“Foi um bocado assustador para um astrónomo porque não há nada conhecido no céu que faça isso”, revela Natasha Hurley-Walker, que liderou o estudo.

Este mistério alimentou suspeitas de que houvesse extraterrestres por detrás disto, mas a equipa descartou a hipótese depois de determinar que o sinal — uma das fontes de rádio mais brilhantes no céu — era detectável através de um espectro alargado de frequências, o que significa que uma quantidade imensa de energia era precisa para a sua produção. “Definitivamente, não foram aliens“, afirma.

A equipa acredita que a fonte é um objecto rotativo e não uma civilização de extraterrestres com tecnologia avançada que nos esteja a tentar contactar através do cosmos.

O objecto estará a cerca de 4.000 anos luz de distância e coincide com um objecto astronómico previsto chamado um “magnetar de período ultra longo” — uma classe de estrela de neutrões com o campo magnético mais poderoso de qualquer outro objecto conhecido no universo.

“É um tipo de neutrão que gira lentamente que já se previa que existisse, teoricamente. Mas ninguém esperava detectar um directamente assim porque não esperávamos que fossem tão brilhantes“, acrescenta Hurley-Walker.

A estrela de neutrões é o remanescente denso que é deixado para trás depois de uma estrela super-massiva expelir o seu material exterior numa super-nova e entrar no colapso gravitacional. Reduzidas ao tamanho de uma pequena cidade, as estrelas de neutrões, inicialmente giram incrivelmente rápido, sendo assim detectáveis.

Ao longo do tempo, a estrela de neutrões perde energia ou desacelera e deve começar a desaparecer. Por esta razão, os astrónomos ficaram perplexos com esta descoberta, já que, se se confirmar que é se trata de um magnetar, conseguiu emitir energia suficiente para ser detectável entre Janeiro e Março de 2018.

“De alguma forma, está a converter a energia magnética em ondas de rádio muito mais eficazmente do que qualquer outra coisa que tenhamos visto”, revela a autora.

Uma questão continua sem resposta: porque é que o sinal desapareceu? Uma possibilidade é de que os sinais estejam ligados a um evento transitório como um starquake — quando a crosta densa da estrela de neutrões sofre um ajuste repentino, libertando uma enorme quantidade de energia no espaço e, potencialmente, repetindo a emissão de ondas de rádio.

  ZAP //

ZAP
5 Fevereiro, 2022


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