Raquel Duarte: “Nunca tivemos tantos infectados acima dos 80 anos. É muito preocupante o nível de transmissão”

SAÚDE PÚBLICA/PANDEMIA/COVID-19/INFECÇÕES/IDOSOS

A pneumologista considera que não há justificação para medidas obrigatórias, mas que a situação tem de ser vista dia a dia, até porque acredita que o contágio “é muito maior” do que dizem os números. E pede que a comunicação da saúde volte a ser feita à população.

“Sim, a vacina veio para ficar e continuar e, provavelmente, vamos precisar de nos continuar a vacinar ao longo do tempo com uma periodicidade a definir.”
© David Tiago / Global Imagens

Médica pneumologista, especialista em tuberculose e doenças do pulmão, trabalha com frequência no aconselhamento da Direcção-Geral da Saúde. Foi uma das peritas ouvidas nas reuniões do Infarmed para traçar as medidas de contenção da pandemia. Foi secretária de Estado da Saúde. Hoje exerce no Hospital Gaia Espinho e é investigadora do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto e professora do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar. Raquel Duarte, 54 anos, nasceu no Porto.

É falta de voz do Estado, seja do governo ou autoridades de saúde, que está a fazer subir os casos de infecção ou esta sexta vaga deve-se à falta de vontade das pessoas de cumprir regras de protecção?
Diria que é multi-factorial, nós estamos perante uma variante com um poder de transmissão muito grande numa população que estava cansada das medidas de isolamento, de cumprir as medidas restritivas, que tinha percepção de risco baixa e uma série de eventos que são potencialmente de grande transmissão. Tudo isso foram os ingredientes necessários para chegarmos a esta onda, aliados a uma população com alta taxa de cobertura vacinal o que permite reduzir o efeito desta transmissão.

Avaliando as medidas que usámos nos últimos dois anos, devemos continuar a usar máscara?
Nunca deixou de ser recomendada. Deixou de ser obrigatória em determinados espaços, mas continua a ser uma das medidas mais eficazes. É preciso ter percepção de risco, se tivermos num local com muita gente, sem distanciamento, mal ventilado, com pessoas com sintomas, devemos utilizar a máscara a par das outras medidas como a vacinação.

Distanciamento é recomendável?
É. Bem como melhorar a ventilação de espaços interiores e vacinação. Quando verificamos os dados epidemiológicos actuais verificamos que temos a mais alta taxa de incidência entre populações mais velhas. Numa fase inicial, protegemos muito as populações mais vulneráveis, mas a verdade é que, nesta fase, temos muita gente infectada acima dos 80 anos, nunca tivemos tanta gente infectada acima dos 80 anos. O que é que poderá ter acontecido? Por um lado, as pessoas acima dos 80 anos, já cansadas das medidas, relaxaram na protecção e as mais jovens também não têm tido os mesmos cuidados de protecção dos mais vulneráveis. É fundamental manter esses cuidados no sentido de protegermos as pessoas com maior risco de ter formas graves da doença ou até de morrer.

“Não devemos voltar ao passado, tivemos dois anos de aprendizagem, que funcionaram bem no sentido de controlar os piores cenários várias vezes.”

Lavar as mãos e higienizar espaços regularmente é para manter?
Lavagem das mãos é o nosso quotidiano. É fundamental e é para ser mantida, independentemente da pandemia. Nos espaços também, bem como reduzir contactos sociais quando há sintomas. Aquilo que acontecia no passado de estarmos com tosse, febre e ir ter com amigos, colegas de trabalho, avós os pais não pode voltar a acontecer. Há uma série de práticas que aconteciam no passado que não devem ser replicadas e isso não pode ser esquecido. Não devemos voltar ao passado, tivemos dois anos de aprendizagem que funcionaram bem no sentido de controlar os piores cenários várias vezes e, nesta altura, nós não estamos a proteger as populações mais vulneráveis. Isso passa precisamente pela nossa percepção de risco, pela avaliação dos sintomas, como nos protegemos a nós e aos mais vulneráveis, isso aliado ao incentivar forte de todo o processo vacinal que é, claramente, o pilar fundamental, mas sem esquecer o resto.

A evidência científica mantém a necessidade dos isolamentos dos infectados e dos contactos de risco?
O isolamento da pessoa infectada faz parte das medidas de controlo da infecção. Permite cortar a cadeia de transmissão e isso continua a ser uma das medidas que é aplicada não só à covid-19, mas noutros contextos de doença de transmissão inalada.

Começam a surgir dúvidas se são necessários sete dias ou apenas cinco. Há evidência quanto a isso?
Vamos aprendendo. Quantos dias são necessários para reduzir o risco e quantos dias estamos dispostos a reduzir, mesmo com risco residual de transmissão, vamos aprendendo.

O melhor é manter os sete dias?
O melhor, para já, é manter os sete dias até termos evidência necessária e suficiente para ir reduzindo.

“Há dados de estudos de análises a águas residuais que apontam que há uma transmissão, provavelmente, maior do que aquela que nos é dada a ver pelos números.”

Os casos da nova variante, da sexta vaga, representam 21% do total de casos da pandemia e 6% das mortes desde início da pandemia. O que é que isto quer dizer?
É muito preocupante o nível de transmissão. Eu até acredito que o nível de transmissão é muito maior do que nos é dado a ver pelos números, porque temos nesta altura uma forma de doença que é, na grande maioria dos casos, benigna, com poucos sintomas. Há alguns dados de estudos de análises a águas residuais que apontam que há uma transmissão provavelmente maior do que aquela que nos é dada a ver pelos números. Temos uma grande transmissão na comunidade. Sugere que a população, ávida de grandes eventos e ávida de alguma liberdade, assumiu que já não há pandemia. E há outro dado: o facto de haver tantas pessoas mais velhas infectadas sugere que não estamos a protegê-las de forma adequada, isto é há transmissão a decorrer na comunidade e não há uma barreira dessa população para as populações mais velhas, portanto nós estamos a falhar na protecção das populações mais velhas. Como é que as podemos proteger? Vacinando-as, a vacina tem funcionado, mas é preciso lembrar que vai perdendo o poder ao longo do tempo e estas populações, acima de 80 anos, foram as primeiras a ser vacinadas, estão na fase de perder a capacidade de protecção e precisam de ser revacinadas.

“Temos agora um planalto. Já estávamos a reduzir a incidência, mas estamos a ter alguns travões da descida que está a ser mais lenta do que aquilo que seria previsível.”

Temos agora um planalto, já estávamos a reduzir a incidência, mas estamos ter alguns travões da descida que está a ser mais lento do que aquilo que seria previsível e muito provavelmente fruto de uma série de eventos de super-transmissão que têm vindo a ocorrer e confesso que olho com alguma preocupação para os dados epidemiológicos da covid-19 porque nos próximos tempos continuarão a ocorrer uma série de eventos que serão propícios a transmissão, como as festas populares que irão decorrer em breve e um fim de semana prolongado, que já no passado recente deu azo a grande transmissão e mobilidade da população pelo país. Precisamos de ter a noção de que temos conseguido ter a nossa vida normal, mas para que isso aconteça precisamos de começar a reduzir a transmissão e isso passa pelos comportamentos.

Perante isto a máscara deve voltar a ser obrigatória?
As medidas têm de ser proporcionais ao contexto epidemiológico. Se houver um agravamento da transmissão, e sobretudo das consequências, as medidas têm de ser proporcionais. Nesta fase não há muita justificação para que haja medidas obrigatórias. Há uma série de medidas que podem ser tomadas a nível individual sem que sejam obrigatórias.

Se nós não estamos a conseguir conter a transmissão e não estamos a conseguir proteger as populações mais vulneráveis, nós estamos a cometer uma falha como população, como comunidade, não nos estando a proteger a nós próprios com medidas que já conhecemos.

A Organização Mundial de Saúde disse, esta semana, que a evidência global mostra que a imunidade adquirida pelo contágio, somada à vacina, é mais protectora que, que cada uma dessas imunidades, de forma isolada. E que a variante ómicron não gera uma imunidade tão eficaz com as variantes originais. Ou seja, que a vacina, é mais interessante que a doença, para imunizar. É necessário, traçar um plano de vacinação permanente?
Vamos precisar de ser vacinados várias vezes, já tivemos cinco variantes. Se fizermos um paralelismo com a gripe, acabamos por ter uma vacina e uma variante anual, e nesta altura a vacina tem sido eficaz para as diferentes variantes que têm surgido. Perante o passado recente, perante o que temos aprendido, vamos precisar de ter um plano vacinal, efectivamente. Qual é esse plano e a frequência da vacinação? Isso teremos de aprender e teremos de ver exactamente aquilo que está a acontecer. Aquilo que se percebe até agora é que com o tempo há uma perda da imunidade, há uma perda dessa capacidade protectora, portanto, vamos ter de repetir o processo vacinal, vamos ter de ir ajustando a vacina ao longo do tempo. Embora, e apesar de tudo, ainda estejamos com a vacina original e que ainda mantém algum factor de protecção perante as variantes que têm vindo a decorrer. Portanto, sim, a vacina veio para ficar e continuar e, provavelmente, vamos precisar de nos continuar a vacinar ao longo do tempo com uma periodicidade a definir.

No outono teremos todos de ser vacinados? Só os mais vulneráveis?
Aquilo que sabemos de certeza é que temos de preparar o outono e o inverno. Esta preparação vai ter de ser com a vacinação, a vacina será fundamental mais uma vez, sendo prioritário a vacinação das populações mais vulneráveis, as que têm mais consequências e possibilidade de formas graves e de morte. Mas não nos podemos esquecer que, além da vacinação, vamos ter de preparar o inverno melhorando de forma eficaz a ventilação dos espaços interiores.

Antes de chegarmos ao outono-inverno temos de garantir que as populações que ainda não foram vacinadas ou as que estão ainda a fazer a segunda dose de reforço, que façam a vacina para se protegerem. Quando chegar à altura do inverno, as populações que forem definidas com maior risco, façam a vacina para se protegerem.

Quais os efeitos secundários mais duradouros da pandemia?
Há claramente o efeito da saúde mental, o efeito do lockdown, do isolamento, da violência, das alterações da forma como nos comportamos socialmente. Isto vai ter consequências a nível da saúde mental e temos de nos preocupar nos próximos tempos em permitir um diagnóstico e uma acção célere nessa situação. Por outro lado, diria que as consequências imediatas terão a ver com uma série de doenças que terão visto o seu diagnóstico atrasado por uma dificuldade no acesso aos diagnósticos. Houve uma redução dos rastreios, houve uma redução no diagnóstico de uma série de doenças infecciosos, nomeadamente a tuberculose e o VIH, e elas não desapareceram por decreto, simplesmente estiveram camufladas e não foram diagnosticadas. Provavelmente vamos ter algumas alterações em termos de epidemiologia de uma série de doenças e não nos esqueçamos também das consequências do long covid. O long covid existe, penso que ainda não sabemos todas as suas consequências, aquilo que parece é que o long covid foi muito mais frequente e sério com as primeiras variantes, mas penso que ainda teremos muito para aprender sobre as consequências da covid no ser humano. Confesso que são as principais preocupações que tenho quando penso em termos de carga de saúde da população, em consequência da covid-19.

A propósito do long covid, quer dar-nos detalhes?
Mesmo em pessoas que têm formas ligeiras de covid-19, surgem uma série de manifestações clínicas que podem ir do foro respiratório até ao neurológico, e que se manifestam muito além do término da doença aguda. Ainda não se sabe muita coisa sobre o long covid, nomeadamente a sua génese, porque é que acontece, quanto tempo é que dura. Aquilo que sabemos, apesar de tudo, é que era muito mais frequente numa fase inicial da pandemia do que é agora, mas ainda vamos ter muito para saber.

A doença acentua a desigualdade?
A doença acentua a desigualdade, há determinantes sociais e económicos que vão ditar a forma como vivemos, trabalhamos, nos comportamos, os hábitos que temos. Tudo isso vai influenciar bastante a exposição a determinados agentes, quer infecciosos, quer poluentes. Vão aumentar também o risco de determinadas doenças e essas doenças per si, poderão também fazer com que haja um agravamento desses determinantes sociais e económicos. Nomeadamente a covid, em relação às pessoas que vivem e trabalham em sítios de grande densidade populacional, que não puderam ficar em casa isolados. Mesmo nas respostas em saúde, de certa forma, porque houve um grande investimento na tecnologia digital (tele-consulta e tele-monitorização) não terá sido completamente medido o efeito que essas tecnologias digitais poderão ter tido no agravar de alguma iniquidade nas populações desfavorecidas. Devemos olhar com atenção, no sentido de não deixar ninguém para trás.

Mas uma das missões do Serviço Nacional de Saúde, como direito universal, não é precisamente anular essa desigualdade?
Exactamente. E tem de haver ou continuar a haver, têm de ser pensadas alternativas, para que o próprio desenvolvimento da tecnologia digital não seja uma fonte geradora de iniquidade.

Um dia, demitiu-se de uma posição de chefia por falta de condições para fazer o que lhe era pedido. Do conhecimento que tem dos funcionários das unidades de saúde, esse problema mantém-se, agravou-se, é hoje outro ou, pelo contrário, está tudo muito melhor?
É uma boa pergunta. Diria que estamos permanentemente a trabalhar numa situação de recursos limitados e, particularmente numa fase pandémica, com recursos limitados e cansados. Preparamo-nos sistematicamente para as situações, e até para a pandemia, de uma forma muito estanque, pensamos sempre naquilo que chamamos os quatro S: staff, stuff, space e system. Portanto, os recursos humanos, os recursos técnicos, os espaços e os sistemas e como é que eles funcionam. Acabamos por nos preparar só olhando para essas quatro funções, não temos organizações resilientes, as nossas organizações não têm sido capazes de se adaptar rapidamente. Conseguimos adaptar-nos na pandemia, conseguimos encontrar estruturas de integração entre o serviço público, o serviço privado e o serviço social, e isso foi fundamental para conseguirmos dar a resposta necessária. Se bem se lembram, numa fase inicial, não tínhamos gente, não tínhamos ventiladores, não tínhamos espaço, e foi esta integração que nos permitiu dar resposta. Mas mesmo dentro de um hospital ou dentro de uma unidade de saúde, os serviços trabalham de uma forma muito estanque e, durante a pandemia, conseguiram trabalhar em integração e em interligação. É preciso que esta adaptação, isto que aprendemos durante a pandemia, que foi que tivemos capacidade de nos adaptar em resposta a este desafio, o que permitiu atenuar o efeito desta ameaça e que conseguíssemos recuperar mais rapidamente, esta aprendizagem deverá manter-se no futuro. Se vamos ter novas ameaças no futuro? Vamos ter efectivamente, quer sejam de índole infecciosa, de alterações climáticas ou de uma guerra, mas vamos ter novas ameaças no futuro. Não vamos ter recursos humanos a pensar que vamos ter uma catástrofe a seguir, não vamos ter máscaras ou ventiladores a pensar que todas as ameaças serão de índole respiratória, mas temos de ser capazes de ter uma resposta de organização capaz de se adaptar às ameaças que surgirem. E esta adaptação vai ter de funcionar por forma de colaboração entre os diferentes serviços, uma colaboração entre os diferentes sectores de actividade da área da saúde.

Qual é a melhor resposta, qual é a melhor organização? Não tenho uma resposta para si, aliás, não sou a única que não tem uma resposta para si. Há quem já esteja, neste momento, a tentar perceber quais são as características ou as respostas e estratégias das estruturas de saúde, que permita que estas organizações sejam mais resilientes.

E os políticos que estão no poder podem ignorar as recomendações científicas com base em argumentos que são sociais e económicos?
Diria que uma coisa que aprendemos nesta pandemia foi a importância da articulação entre a ciência, a comunidade e o poder político. E conseguimos ver isso a acontecer nas reuniões do Infarmed em que cientistas das várias áreas do saber partilhavam o seu conhecimento com a comunidade e o poder político. Tudo isso era escrutinado e discutido e depois, obviamente, o poder político ouve os cientistas e ainda vai ter de ouvir os seus diferentes parceiros comunitários, sociais, e vai ter de tomar a decisão. A decisão é do poder político, mas é importante que oiçam a comunidade científica e a comunidade em geral. Uma das coisas que acho que foi importante, particularmente no nosso trabalho, foi auscultarmos peritos de diferentes áreas, mas auscultámos também pontos comunitários focais em que incluíamos pessoas mais vulneráveis. Isto para conseguirmos perceber de forma mais real, o efeito que a pandemia estava a ter na comunidade, mas também o efeito que as diferentes medidas tinham. Tínhamos de equilibrar o efeito da pandemia e o efeito das medidas que iam sendo aplicadas ou levantadas nas propostas de desconfinamento. Essa auscultação da comunidade é fundamental, é esta tríade que acho que será de sucesso em termos de compreensão real do que está a acontecer e do impacto das medidas que podem ser tomadas.

“Temos de preparar o outono-inverno, com vacinação, sendo prioritária a dos mais vulneráveis, as que têm mais consequências e possibilidade de formas graves e de morte.”
© David Tiago / Global Imagens

Fez parte do grupo de peritos responsável pela proposta de estratégia de desconfinamento do país e lançou um livro, em co-autoria, com o título Covid-19 em Portugal: a estratégia. Olhando para trás, teria afinado alguns dos pontos dessa estratégia de forma diferente?
Estou a pensar na sua pergunta. Decidimos escrever o livro, precisamente para uma memória futura. Há dois anos, surge-nos um vírus que não conhecíamos, ninguém no mundo estava preparado para ele, e foram tomadas uma série de decisões com base naquilo que se sabia. Avidamente procurávamos tudo o que era publicado sobre o vírus, sobre tudo o que estava a ser feito em termos de vacinas e de tratamentos, sobre diagnósticos, sobre os efeitos das diferentes medidas nos diferentes países. Como sabem, muita coisa publicada que não tinha grande qualidade científica, como foi demonstrado por alguns artigos pseudo-científicos sobre alguns fármacos que não tinham utilidade. Muita coisa não se sabia e foi-se sabendo com o tempo e as decisões iniciais eram baseadas nesse pouco que se sabia e naquilo que estava a acontecer no resto do mundo. Penso que uma das grandes lições foi a nossa humildade em tentar incluir pessoas de várias competências de forma a olhar de maneiras diferentes para o mesmo problema. Penso que isso foi bom, termos no nosso grupo pneumologia, saúde pública, matemática, psicologia, ciências da educação, jornalista, tínhamos vários olhares. Auscultámos pessoas das várias áreas do saber e auscultámos também a comunidade e penso que olharmos para a pandemia em todas as suas facetas, não só na área da saúde, mas também nas suas consequências económicas, sociais, familiares e de saúde mental, foi importante nas propostas que fizemos, sempre na medida da evidência disponível e dos saberes disponíveis. Muitas decisões foram tomadas antes de surgir uma nova variante que era muito mais transmissível, fomos sendo surpreendidos por novas variantes, e isso também tem de servir de aprendizagem. Devemos, de certa forma, olhar o passado e perceber o que correu bem e o que correu mal, e vamos ter de planear o futuro.

E afinaria algumas estratégias?
Diria que precisamos de trabalhar muito bem a comunicação. A comunicação com a população é fundamental, precisamos de ter a população a perceber o que está a acontecer. Foi muito bom ocorrerem as reuniões do Infarmed, porque permitiu que a população percebesse o racional por de trás das decisões, foi muito importante. Era importante também que essa comunicação não tivesse desaparecido com a cessação das reuniões do Infarmed.

E desapareceu?
De certa maneira sim, mas não foi apenas por terem desaparecido as reuniões do Infarmed, a guerra na Ucrânia também passou a ser o assunto de maior relevo.

Com a sexta vaga deveria voltar essa comunicação?
É importante que a comunicação voltasse. Porque o desaparecimento da obrigatoriedade da máscara, que não é igual à cessação da responsabilização e da recomendação de utilização da máscara. Provavelmente, com a grande vontade de largar todas as medidas e o cansaço associado à pandemia, mas houve aqui uma falsa de noção de que deixar de ser obrigatório poderia ser igual à não recomendação, e não é de todo. A pandemia continua, continuamos a ter transmissão comunitária e, portanto, as medidas continuam a ser recomendadas e as pessoas devem ter essa recomendação de utilizar a máscara perante a percepção de risco. Uma coisa que é interessante é que uma das coisas que também fizemos durante estes dois anos, foi estar atentos a uma série de ferramentas, e algumas delas mediam a percepção de risco da população. É interessante perceber que a população percebia bem quando o risco era maior e quando era menor e a resposta a essa percepção de risco traduzia-se, precisamente, na utilização das medidas de protecção individual. Creio que a mensagem em termos desta sexta vaga, desta transmissão, for eficaz como foi no passado, a população facilmente percebe que precisa de usar as medidas de protecção individual. Portanto, esse trabalho, particularmente com a comunicação social, que foi tão importante durante o período da pandemia, e foi extraordinário, porque a noção que tenho é que a comunicação social chamou a si a missão de informar e de apostar na literacia da população. E, de repente, como a covid-19 deixou de ser assunto, penso que terá contribuído para que houvesse este dissociar da percepção de risco face à realidade epidemiológica, coisa que não tinha acontecido no passado. A percepção de risco era muito adequada, a nossa população tinha uma percepção de risco muito adequada e uma adesão às medidas de protecção individual muito adequada. Penso que houve aqui uma quebra da comunicação e, obviamente, essa quebra aliada ao cansaço associado às medidas.

É a DGS que deve voltar a comunicar melhor com a população?
Diria que todos nós temos a responsabilidade de comunicar. Existem produtos de comunicação, mas a comunicação do que está a acontecer, a comunicação de quais são as medidas adequadas, diria que é função de todos nós. É função minha como médica na minha actividade clínica, é função minha como professora na minha actividade lectiva, é minha também aqui quando estou a falar convosco, mas é vossa também no dia a dia. Diria que a Direcção-Geral de Saúde, obviamente, tem a missão de comunicar e de aumentar a literacia da população, mas além da DGS, todos nós temos esse papel no nosso dia a dia, de comunicar e de fazer passar a mensagem mais adequada.

Se fosse chamada de novo a uma missão política aceitaria?
Sou técnica, não sei exactamente o que o futuro me dirá, mas sou técnica, sou médica, sou professora, e estou aqui para trabalhar e para aquilo que for preciso fazer. Nesta altura tenho uma actividade bem preenchida, mas não sei o que o futuro me dirá.

Diário de Notícias
Rosália Amorim e Nuno Domingues (TSF)
03 Junho 2022 — 07:00


 

“Nunca tivemos um contraste tão grande entre a riqueza de uns e a miséria de muitos outros”

– Um título que demonstra bem a realidade triste deste país… Os pobres andam a encher a pança aos ricos!

ENTREVISTA

“Humanidades para a sustentabilidade” é o título da última palestra do ciclo Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento organizado pelo Instituto de Altos Estudos da Academia das Ciências de Lisboa. A conferência de Maria Fernanda Rollo, professora na Universidade Nova de Lisboa, pode ser vista esta terça-feira por zoom às 18.00 horas.

© Carlos Pimentel/Global Imagens

Está optimista em relação ao cumprimento dos objectivos do desenvolvimento sustentável, apesar de estarmos numa terceira crise global consecutiva, a criada pela guerra na Ucrânia, depois de termos enfrentado a pandemia da covid-19 e a crise financeira?
Os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável representam um enunciado, portador de atributos fundamentais de universalidade e transversalidade, constituindo um instrumento poderoso de consciencialização, inspiração, escrutínio, orientação, compromisso e mesmo de esperança. Como salientava o então secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, “São uma lista das coisas a fazer em nome dos povos e do planeta, e um plano para o sucesso”. Essa lista de coisas tem a assinatura – o compromisso – dos líderes mundiais, e resultou de várias acções que a precederam, frustradas ou bem-sucedidas, e de uma dinâmica de diálogo e convergência, prosseguindo uma metodologia que a reforça. Será, então, de nos perguntarmos se a prossecução dos proclamados objectivos não será um meio no sentido da mitigação, superação ou mesmo de revogação das sucessivas e diversas crises e circunstâncias que refere. De resto, a Agenda diagnostica, traça caminhos, define prioridades, estabelece metas. Na realidade, convocar o propósito de Transformar o nosso mundo é o reconhecimento colectivo da necessidade de mudar algo que estava/está a correr mal. A Agenda comum representa a consciência da interdependência entre as pessoas, os países, entre si e com o planeta que habitam, detendo por isso essa qualidade catalisadora, congregando a simultaneidade do apelo e da consciencialização quanto à gravidade e a universalidade da questão com a formulação de um enunciado positivo, simultaneamente global e individual.

Apesar de tudo, tem havido progressos nas condições de vida da humanidade? A ciência e tecnologia têm ajudado mais que as políticas?
Tem havido muitos progressos, mas é evidente a sua insuficiência e a enorme desigualdade que subsiste devendo salientar-se a generalizada pressão gerada em termos ambientais. A ciência, e todo o ecossistema associado, tem tido uma contribuição determinante e verdadeiramente transversal – devemos à ciência a superação da pandemia da covid-19. É inquestionável a sua relevância e o que poderá proporcionar, designadamente em termos de transição global para a sustentabilidade. Certo, porém, a insuficiência de meios que muitas vezes lhe são atribuídos, sendo indispensável reunir condições estáveis e previsíveis que garantam a sua renovação persistente e tudo isso requer uma articulação eficiente e políticas públicas adequadas. Por outras palavras, é grande a desproporção entre os meios concedidos à ciência e a escala dos desafios globais que só poderão ser superados com a sua contribuição. Refiro-me evidentemente a todas as áreas científicas, importando sublinhar a indispensabilidades das ciências sociais, das humanidades e das artes para interpretar e fazer face aos complexos problemas que em todos os domínios afectam a nossa sociedade e a sua relação com o planeta.

As diferenças de desenvolvimento económico são o maior entrave a uma acção conjunta dos países contra ameaças como o aquecimento global?
As diferenças, e sobretudo a concorrência exacerbada e a natureza das suas ambições. O actual modelo de desenvolvimento económico encerra e tem gerado enormes desequilíbrios. Veja-se como a pandemia veio uma vez mais colocar em evidência assimetrias e desigualdades, expondo as fragilidades do sistema e, pela primeira vez nos tempos mais recentes, ligando crises ecológicas e de saúde. Nunca tivemos uma sociedade com tanta desigualdade e um contraste tão grande entre a riqueza e opulência de uns e a miséria de muitos outros, compreendendo nessa percepção de assimetrias não apenas as dimensões económica, social, cultural, política mas também ambiental ou dos níveis de poluição. Ou seja, simplificando, os mais ricos são realmente os mais poluentes. Data de há muitas décadas essa consciência e são múltiplos os alertas chamando a atenção para os Limites do Crescimento usando o título do livro que em 1972 confrontou as consequências do crescimento rápido da população mundial considerando os recursos naturais limitados. Sucedem-se os alertas, sem esquecer o emblemático Nosso Futuro Comum (Our Common Future) publicado em 1987, coordenado pela então primeira-ministra da Noruega indicando que a pobreza dos países do então designado ‘terceiro mundo’ e o consumismo elevado dos países do ‘primeiro’ eram causas fundamentais que impediam um desenvolvimento igualitário no mundo e, consequentemente, produziam graves crises ambientais. E dava muita informação sobre aquecimento global, chuvas ácidas, perda da biodiversidade. A ONU tem retomado e ampliado essas preocupações, assumindo-as como sua missão global e universal. Na prática tem sido o caminho para a Agenda 2030.

A Europa tem condições para liderar o mundo na busca do desenvolvimento sustentável?
A Europa pode ter um papel muito importante e os sinais para o assumir são muito explícitos. Refira-se a impressionante declaração e as orientações políticas de Ursula von der Leyen, proclamando a ambição de Passarmos a ser o primeiro continente neutro do ponto de vista climático é o maior desafio e a maior oportunidade da nossa era. Para isso, temos de tomar medidas decisivas e imediatas. A Proposta de Recomendação do Conselho sobre aprendizagem para a sustentabilidade ambiental de Janeiro passado é muito assertiva quanto ao diagnóstico da situação e à missão que cumpre à EU enunciando medidas concretas para o seu cumprimento. Palavras fortes, chamando a atenção para o momento crítico que vivemos, e como a acção humana quase nos levou a causar danos irreparáveis ao nosso planeta, a própria fonte da nossa existência e bem-estar. Deixa um enunciado, reclamando acções urgentes, individuais e colectivas e um apelo aos jovens e a importância da formação. Enfim, existem diversos outros testemunhos relativos ao papel que a Europa procura e poderá desempenhar, importando destacar o Pacto Ecológico Europeu e o propósito da integração da sustentabilidade ambiental em todas as políticas, programas e processos de educação e formação. Veremos o que se concretizará. De qualquer forma, a assunção da urgência e o enunciado lançado são auspiciosos.

Muito criticada por, por exemplo, não conseguir parar a invasão russa da Ucrânia, a ONU não deixa de ser o principal motor da cooperação internacional, como nesta questão dos objectivo para o desenvolvimento sustentável?
A gravidade e amplitude dos desafios globais tem mesmo que constituir preocupação e prioridade da ONU. A ONU tem precisamente que responder e actuar perante circunstâncias e fenómenos como os que compõem a Agenda 2030. Tem mesmo que preocupar-se e lutar por soluções ajustadas às questões da pobreza, das desigualdades, dos direitos humanos, da educação, da saúde, da protecção dos ecossistemas sabendo-se bem que requerem diálogos, acções e concertações entre nações. Problemas globais exigem respostas globais. A cooperação internacional é indispensável e determinante – como aliás a pandemia mostrou. Existe um limite cada vez mais instante no que respeita à pressão negativa das interacções entre humanos e meio ambiente, limite que porventura já não poderá ser revertido e que, se não for travado, se reflectirá negativamente no bem-estar da sociedade. Há um limite para a utilização dos recursos naturais, de modo que sejam conservados. Além do mais, sobrevém uma enorme responsabilidade, a humanidade na satisfação das necessidades do presente não pode comprometer a sobrevivência das gerações futuras. A ONU, na sua singularidade, compreendendo a sua história e a sua missão, tem, com certeza, a obrigação de zelar pelas gerações vindouras, mas essa incumbência requer a acção individual de cada um de nós. De outra forma, não seremos bem-sucedidos nem cumpriremos a nossa primeira função, garantir a sobrevivência e o bem-estar dos que nos sucederão.

leonidio.ferreira@dn.pt

Diário de Notícias
Leonídio Paulo Ferreira
31 Maio 2022 — 00:11


 

Miguel Guimarães: “Já se deveria estar a tomar medidas para proteger os doentes não covid”

– Esclarecimento: não gosto deste sujeito (Miguel Guimarães) pelas suas opiniões contraditórias, contudo, estou de acordo com a afirmação dele de “Já se deveria estar a tomar medidas para proteger os doentes não covid“. E concordo com ele neste ponto específico, porque já estive o ano passado e estou a passar desde Domingo à tarde, por uma situação de saúde que é grave, enviei e-mails para o Centro de Saúde, médica de família a pedir opinião e a resposta é que tenho de agendar uma consulta. Esta situação, não requer agendamento de espécie alguma mas sim de execução imediata por envolver uma crise renal, início de novo medicamento para a diabetes mellitus 2 por o anterior não estar a produzir efeitos positivos. A “desculpa” da médica é que não têm mãos a medir com os casos covid. E os não-covid, não tem o mesmo direito aos cuidados de saúde?

SAÚDE PÚBLICA

Em entrevista ao DN o bastonário dos médicos, Miguel Guimarães, faz um balanço dos últimos tempos da pandemia. E diz que as medidas tomadas em Dezembro foram as corretas, mas devem ser reavaliadas. Defende ainda que o Estado já deveria ter acordos de colaboração integrada com os sectores privado e social para tratar e acompanhar doentes covid, de forma a libertar os médicos de família para os seus doentes habituais. Quanto às escolas, não concorda em adiar o início do segundo período. “Seria uma mensagem contraditória.”

Bastonário dos médicos critica o facto de ao fim de quase dois anos de pandemia DGS não divulgar dados concretos sobre infectados com doença grave.

Leia o artigo original: https://www.dn.pt/edicao-do-dia/04-jan-2022/miguel-guimaraes-ja-se-deveria-estar-a-tomar-medidas-para-proteger-os-doentes-nao-covid-14457573.html