Em defesa do “português brasileiro”

– Na minha opinião, caro Edson, não existe “português brasileiro”. Existe sim o brasileiro e o português. Antes de ler o post scriptum do D.N. em que afirmava que “A pedido do autor, o jornal não fez qualquer alteração ortográfico-gramatical no texto, a respeito da variante linguística portuguesa utilizada.“, deduzi pelo seu nome que era brasileiro. No fundo, sendo você brasileiro e leccionando em Portugal, continua a escrever na sua língua materna e tem todo o direito para o fazer, pedindo até que “o jornal não fez qualquer alteração ortográfico-gramatical no texto, a respeito da variante linguística portuguesa utilizada.“, assim como eu tenho o pleno direito de rejeitar quaisquer palavras que não façam parte da minha língua materna. Pessoalmente, nada tenho contra os brasileiros ou contra quaisquer outros povos que habitam este Planeta. Sou multirracial. Não posso é admitir que a minha língua materna seja adulterada com termos estrangeiros, sejam eles quais forem e NÃO APROVO o Acordo Ortográfico e todas as suas aberrações linguísticas, porque a maioria das novas palavras têm origem na linguística brasileira. E recuso-me, terminantemente, a adoptar palavras que não as que aprendi na escola básica, nos anos 50. Um facto não é um fato; anónimo não é anônimo; fenómeno não é fenômeno; écran não é tela; património não é patrimônio; produto mediático não é produto midiático, assim como media não é mídia; relva não é grama.
E quando refere que: “Porém, vejo com preocupação o cenário gerado pela notícia anteriormente mencionada, (“Há crianças portuguesas que só falam ‘brasileiro’”) apresentando uma variante idiomática como uma doença a ser contida.”, realmente pode não ser uma doença mas é, de certeza, uma epidemia linguística e eu também estou preocupado pelo facto de as crianças portuguesas adoptarem termos da língua brasileira, que nada têm a ver com o nosso português. O problema começou não com os Youtubers brasileiros mas com as tele-novelas que começaram a ser importadas do Brasil para Portugal, onde muitas narrações não se percebia patavina do que estavam a dizer. E eu vi algumas das primeiras como Gabriela Cravo e Canela e depois desisti.

OPINIÃO

Ouvi pela primeira vez a expressão “brasileiro” como referência à variante do idioma português em conversa com pais que esperavam, como eu, os seus filhos na porta do pré-escolar em Braga, onde vivo. O relato tinha um misto de curiosidade com preocupação sobre o excesso de consumo de conteúdo brasileiro no YouTube e a assimilação de termos estrangeiros pelas crianças portuguesas, tal como reporta a notícia “Há crianças portuguesas que só falam brasileiro”, reportagem do DN de 10 de novembro último.

Como pai, solidarizo-me com todos. Afinal, a linguagem é uma ferramenta essencial para o desenvolvimento cognitivo infantil e para a integração cidadã dos indivíduos. Porém, vejo com preocupação o cenário gerado pela notícia anteriormente mencionada, apresentando uma variante idiomática como uma doença a ser contida. A reportagem não entrega dados suficientes para compreender qual o tamanho do fenômeno ou se este é de nocivo, tal qual os termos “vício”, “tratamento”, “apelativo” e “o problema” do texto sugerem.

Tampouco o relato dos especialistas entrevistados sustenta que haja problemas fonéticos ou educativos às crianças no futuro. O que sim é fato é que a pandemia alterou as rotinas familiares e muitos pais abandonaram seus filhos aos ecrãs, para que eles mesmos se dedicassem ao teletrabalho. Em Portugal, já no primeiro confinamento devido ao covid-19, houve aumento de tráfego de dados na web em 20%. No mesmo período e em nível mundial, o consumo de internet através de dispositivos em casa aumentou em 40,1% (Comscore, 2021).

Nesse contexto, parece-me descabida a atitude de bloquear conteúdo brasileiro no YouTube por conta apenas do idioma, da professora que se impressiona com expressões estrangeiras, da linguista que acredita ser uma moda ou da terapeuta da fala que acha “difícil travar o brasileiro” provindo da web. Afinal, isso não vai impedir que as crianças troquem palavras e expressões nas escolas e em seus grupos, o que acontece de forma saudável e diariamente em Portugal. Imagino que a questão mais urgente é de fato a influência das plataformas sociais digitais na formação das crianças.

O idioma português é um patrimônio coletivo internacional e, como tal, talvez nem devesse ter seu nome atrelado ao de um país. Afinal, se separarmos o “brasileiro” do “português”, o primeiro seria o 7.º idioma mais falado no planeta, enquanto o segundo estaria abaixo do 80.º lugar, entre o zulu e o checo. Se isso importa na criação de nossos filhos, não posso afirmar, mas que na produção cultural tem peso imenso, é inegável. Assim, também é um dos idiomas mais utilizados em produtos midiático-culturais, como vídeos, filmes e séries e, como é de se esperar, na vertente brasileira. Não existem fronteiras nacionais para variantes linguísticas verbais-orais, ainda mais em tempos de plataformas sociais digitais.

O jornalismo precisa intermediar este debate para além do senso comum e dos casos pontuais. Caso contrário, não se diferencia dos comunicadores independentes do YouTube, um dos quais este jornal escolheu como o responsável pelo fenômeno abordado no texto referido, o comunicador Luccas Neto. Curiosamente, o brasileiro, assim como seu irmão, Felipe Neto, tem cidadania portuguesa, graças à sua origem familiar. Enquanto eles entram na casa dos portugueses pelos ecrãs, mais de 150 mil brasileiros vivem em Portugal (SEF), o que torna o idioma vivo e em constante mutação. Ou dito de forma mais simples, como minha filha de 4 anos: “Aqui se diz relva, no Brasil, se diz grama.”

A pedido do autor, o jornal não fez qualquer alteração ortográfico-gramatical no texto, a respeito da variante linguística portuguesa utilizada.

Jornalista, doutor em Comunicação e Cultura e investigador do ICS-CECS sobre jornalismo, participação e media digitais, na Universidade do Minho. Autor de “Panorama da imigração brasileira a Portugal na web”, “Resistência à intermediação pelos ecrãs conectados” e “O medo do consumo solitário: comentários em canais infanto-juvenis de YouTube do Brasil e de Portugal”, artigos disponíveis em http://repositorium.sdum.uminho.pt/

Diário de Notícias

Diário de Notícias
Edson Capoano
12 Novembro 2021 — 22:37