548: Os peixes “falam” (e muito). Agora, podemos ouvir as suas “vozes”

CIÊNCIA/BIOLOGIA/ECOLOGIA

Há 155 milhões de anos, todos os tipos de coaxares, gemidos e ruídos profundos percorrem as águas da Terra, tal como os sons que enchem o ar da floresta.

Os lugares mais surpreendentemente ruidosos são os corais, e os peixes são quem provoca a maior parte desse mesmo ruído.

Citado pelo Science Alert, Aaron Rice, ecologista da Universidade de Cornell, diz saber há muito tempo que alguns peixes fazem sons — mas “os sons dos peixes foram sempre percebidos como odores raros“.

Era expectável que os peixes dependessem principalmente de outros meios de comunicação, desde sinais de cor e linguagem corporal, até à electricidade. Mas  descobertas recentes, no âmbito de um estudo publicado na BioOne, demonstraram que os peixes têm coros ao amanhecer e ao anoitecer, tal como os pássaros.

Segundo Andrew Bass, neuro-cientista evolucionário da Cornell, os peixes foram ignorados porque “não são facilmente ouvidos ou vistos, e a ciência da comunicação acústica subaquática tem-se concentrado principalmente nas baleias e golfinhos.”

“Mas os peixes têm vozes.”

Ao analisar registos de descrições anatómicas, gravações sonoras e relatos vocais, Rice e os colegas identificaram várias características fisiológicas que permitem perceber que os Actinopterygii, grupo de peixes com barbatanas, emitam estes ruídos sem cordas vocais. O grupo tem mais de 34,000 espécies actualmente vivas.

Os peixes “podem ranger os dentes ou fazer barulho de movimento na água”, diz Rice ao Syfy Wire.

“Provavelmente, a adaptação mais comum são os músculos associados às bexigas natatórias. De facto, os músculos da bexiga natatória do sapo são os músculos esqueléticos vertebrados de contracção mais rápida. Estas são adaptações de alto desempenho”, explica Rice.

De 175 famílias de peixes, dois terços comunicam provavelmente com som — há muito mais peixes falantes do que os 20% anteriormente estimados. A análise sugere que estas comunicações vocais podem ter evoluído individualmente pelo menos 33 vezes nos peixes.

Claramente, os peixes têm coisas importantes para dizer.

Além disso, dizem os autores do estudo, a língua dos peixes apareceu há cerca de 155 milhões de anos. Curiosamente, é mais ou menos a mesma altura em que surgiram as primeiras evidências de vocalização de animais terrestres com espinhas dorsais — dos quais acabámos por evoluir.

A equipa de investigação sugere que os resultados dos estudos apoiam fortemente a hipótese de que o “comportamento sonoro é antigo. Juntos, estes resultados realçam a forte pressão de selecção que favorece a evolução deste animal através de linhagens de vertebrados.”

Alguns grupos de peixes são mais faladores do que outros. O peixe-gato, por exemplo, está entre os mais verbosos.

Contudo, Rice e a equipa advertem que a sua análise apenas mostra a presença de peixes com vocalizações e não prova a sua ausência — pode ser que simplesmente ainda não tenhamos ouvido com atenção suficiente os outros grupos.

“Os peixes fazem tudo. Respiram, voam, comem tudo e qualquer coisa.  Nesta altura, nada me surpreenderia sobre os peixes e os sons que eles podem fazer”, conclui Rice.

Mas quando estamos a falar de conversas entre peixes, o que acontece no fundo do mar, fica no fundo do mar.

Inês Costa Macedo
11 Fevereiro, 2022


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510: As alterações climáticas estão a fazer com que as flores desabrochem um mês mais cedo

CIÊNCIA/ECOLOGIA/ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS

yamchild / Flickr
Cidade norte-americana de Lake Elsinore

Cientistas procederam à comparação de informações de centenas de milhares de espécies que constavam numa base de dados comum.

Era uma consequência provável das alterações climáticas e aquecimento do planeta, mas agora está confirmada pela ciência. As flores estão a começar a rebentar mais cedo, cerca de um mês antes da altura normal expectável. Este é um fenómeno que muitos podem apreciar, mas que tem impacto nos ecossistemas, por muito citadino que seja o ambiente em causa. De acordo com investigadores da Universidade de Cambridge, os insectos e os pássaros são as primeiras criaturas a sentir o impacto.

De facto, a chamada desadequação ecológica pode começar a entrar em acção, o que teria um “efeito dramático no funcionamento e produtividade” da natureza e da agricultura, disse Ulf Buntgen, o principal autor de um novo estudo sobre o tema. “O nosso sistema climático está a mudar de uma forma que nos afecta a nós e ao nosso ambiente”, disse ele à BBC News.

A chave parece estar agora na capacidade de as espécies, sejam de plantas ou de animais, se adaptarem às novas condições. É para um desfecho negativo – o da não adaptação – que muitos cientistas alertam, uma vez que com as espécies dessincronizadas as consequências seriam maiores, num cenário de desencontro ecológico.

O pólen, os néctares, as sementes e as frutas são importantes recursos para insectos, pássaros e outros membros da vida selvagem. Caso as flores comecem a desabrochar demasiado cedo, estas podem, por exemplo, ser atingidas por geadas, o que impossibilitaria a colheita de frutos.

O estudo em causa partiu da observação e análise das datas de florescimento de centenas de milhares de árvores nativas, arbustos, trepadeiras e ervas registadas numa base de dados, na qual os cidadãos também podem participar, conhecida como Nature’s Calender e que inclui dados relativos a todo o Reino Unido. Posteriormente, os cientistas compararam as datas das primeiras ocorrências, tendo chegado à conclusão de que existe uma relação entre o florescimento precoce e a subida das temperaturas a nível global.

Para equilibrar o número de observações, os autores do estudo dividiram os dados desde os o seu aparecimento até 1986 e a partir daí em diante, concluindo que, em média, e no período compreendido entre 1987 e 2019, as flores estavam a nascer quase um mês mais cedo, em comparação com o intervalo entre 1753 e 1986. Há ainda casos em que o florescimento acontece 32 dias antes do que era habitual.

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ZAP
5 Fevereiro, 2022


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