A ternura dos “60”

– Uma “achega” a um artigo um pouco desfasado no tempo porque eu próprio “sofri” não na ternura dos 60, mas na ternura dos 40 (o Paco Bandeira tem uma canção com esse título que eu interpretei quando andava pelas músicas). Mas dizia eu que quando tinha 49 anos, quase a entrar na ternura dos 50, se não fosse o Engº. Guterres – na altura primeiro ministro de Portugal -, ter decretado a reforma antecipada a quem tivesse 55 anos e 32 anos de descontos, hoje não sei o que seria de mim. Por isso, estou-lhe eternamente grato. Mesmo assim e durante 6 longos anos, fiz a “travessia no deserto” porque os empregadores da altura – com a mesma mentalidade tacanha dos de hoje -, pretendiam gente nova e 49 anos de idade, para eles, já era considerada idade de “velho”. Mas, em contrapartida, 49 anos para a reforma era considerada idade “jovem”. Não interessava a esses tacanhos empregadores se um “idoso” com 49 anos e a laborar desde os 14 anos de idade, tivesse acumulado um know-how extremamente rico em experiência, sabedoria e qualidade profissionais. Era secundário para eles, ignorando a mais valia dos recursos humanos dos “velhotes” que constiuem uma importante força de aprendizagem e ensinamento para os mais jovens. E, apesar dos meus quase 76 anos de idade, trato a informática, a todos os níveis, por tu com especialização técnica em todas as suas áreas, incluindo a segurança informática e a engenharia de redes e sistemas informáticos.

À medida que o mercado de trabalho se estreita e a contenção obriga a racionalizar cada vez mais os recursos humanos, para além do flagelo do desemprego que tal acarreta, começa a emergir no nosso tecido organizacional uma outra realidade; o que fazer com as pessoas com mais de 60 anos – o(a)s tais, que estão conotado(a)s com o mito de que não gostam de trabalhar à mediada que a idade da reforma se aproxima e que são muito caros para a energia que as organizações nos tempos modernos precisam? Enfim, estereótipos baseados em idade que estão cada vez mais impregnados na nossa sociedade.

É inegável que a renovação é a característica fundamental para alimentar qualquer sistema e o organizacional exige ainda mais, face ao ambiente cada vez mais complexo diversificado e competitivo. Mas para dar respostas sustentadas a estes desafios, as organizações não podem apostar em metas curtas como se de corridas de velocidade se tratasse. É preciso dar resposta a esta nova “era” caracterizada pelas redes de uma forma sólida e consistente como se de uma maratona se tratasse cuidando da passagem de testemunho e para isso, nada melhor que fazer a “gestão de ciclos”, ou seja, garantir que a sabedoria, a inteligência prática, nesta espiral incontornável de que os novos de hoje são os velhos de amanhã, não seja desbaratado e por isso, parece-me vital gerir com “inteligência” o(a)s sessentões (onas) para que os laços entre gerações sejam mais consistente e solidários e tal, passa por evidenciar os seguintes aspectos:

– Mostrar aos mais velho(a)s que o capital de experiência acumulado é devidamente valorizado;

– Aproveitar a capacidade inesgotável do ser humano em “dar” para ensinar os mais novos:

– Incumbir os mais velho(a)s de mentoria às gerações mais novas;

– Transmitir a riqueza dos valores organizacionais às gerações mais novas;

– Ensinar gestão que não se aprende nos bancos das academias:

Se é verdade que a esperança média de vida vai aumentando e o tempo para a reforma tende a dilatar-se, quebremos os preconceitos e é hora para olhar de forma realista e pragmática para as vantagens que estes recursos podem acrescentar e que insofismavelmente são:

– menor propensão em mudar de organização;

– maior lealdade ao empregador;

– maior postura de responsabilidade e ética;

– menor absentismo;

– menor quantidade mas maior qualidade;

– interfaces privilegiados para equipas consultoras.

Paradoxalmente, se olharmos para a realidade civilizacional ocidental em contraste com as tribos africanas, apesar do enorme fosso cultural que as separa, encontramos duas figuras míticas – o ancião e o feiticeiro – que simbolicamente evocam algo em comum, o lugar à sabedoria (inteligência prática e cristalina)! Saibamos tirar proveito desta vantagem competitiva. As estatísticas recentes do IPSS (ISCTE) fornecem dados reveladores; o primeiro, a idade mediana da população portuguesa actual situa-se no 34,5; o índice de dependência dos idosos variou de 1960 (12,4%) para 2020 (34,5%), a taxa bruta de crescimento populacional também tem decrescido e por último, segundo os dados da Portada, o índice de envelhecimento variou de 2000 (98,8) para 2020 (165,1) o que reflete que o problema demográfico em Portugal está a roçar o caminho da “tempestade perfeita” quer na sociedade em geral, quer sobretudo nas Organizações aliás, como os resultados preliminares do Censos 2021 parecem indicar . Dinamizar políticas que de facto permitam o aproveitamento deste capital intelectual do(a)s seniores pode ser uma janela de oportunidade para a transmissão do conhecimento, para o equilíbrio territorial, para facilitar o alinhamento cultural, para o aumento da reputação e para potenciar o comprometimento organizacional e excelente oportunidade da sociedade em geral, ter “curadore (a) s sociais” que ajudem nos processos de inclusão e da mitigação da privação social e material que as estatísticas também apontam um decréscimo preocupante sobretudo, agudizado com o impacto da pandemia.

Nota final: para quem pensa que o(a)s seniores não têm destreza digital é porque não conhece a “tabuada” dos sites e das redes que esta geração tão bem sabe “navegar”.

Docente universitário

Diário de Notícias
Damasceno Dias
04 Agosto 2021 — 00:11