206: Quanto vale 7800% de violência?

OPINIÃO

Vi o primeiro episódio e decidi não continuar. Violência extrema, sangue e muito personagem a morrer atiraram-me para fora do sofá, ao contrário dos 111 milhões de utilizadores que já assistiram a esta série, tornando-se assim no programa mais visto na história da plataforma de streaming Netflix.

Falo de Squid Game, o fenómeno sul-coreano que emergiu nas últimas semanas nas nossas televisões. E que fenómeno!

Podemos fazer o exercício de desmontá-lo sob o ponto de vista pedagógico e equacionar que problemas comportamentais pode trazer aos nossos filhos uma série deste calibre. Sou pai com filhos na idade das descobertas tecnológicas e a sua destreza digital é assustadora de tal forma que não há controlo parental que resista. E estas transferências da ficção para a realidade assustam-me. E muito! Há inclusivamente, noutros pontos do globo, educadores que já alertaram os pais para o crescimento atroz de brincadeiras que copiam o que as crianças veem na televisão.

A cópia para o mundo real é de fácil concretização, pois são jogatanas tradicionais, mas que se inflamam pela violência, pela advertência e pelo castigo. E, neste caso, a palavra castigo é muito mais sinónimo de condenação do que de repreensão, levando o sangue a espirrar dentro do ecrã. Na verdade, a violência televisiva, chamemos-lhe assim, sempre existiu. O problema talvez seja a disponibilidade e a facilidade de se consumir horas e horas de violência sem supervisão, sem controlo, sem rede! Como se os nossos filhos fossem trapezistas a baloiçar por cima de um mar de violência sem qualquer tipo de segurança que os impeça de cair.

A outra forma de desmontar Squid Game, ou qualquer outro fenómeno televisivo do género, é perceber o que estes movimentos de massas podem trazer às marcas. Veja-se por exemplo a Vans, que aumentou as vendas dos ténis brancos que calçam os actores em cerca de 7800%. Leram bem: 7800%!

Segundo a Forbes, no Reino Unido o estudo da língua coreana aumentou 76% no Duolingo, plataforma online de ensino de línguas. Mas isto não fica por aqui. Não!

Os seguidores da actriz Jung Ho-yeon passaram de cerca de 400 mil para 18 milhões, tanto que a actriz é a nova embaixadora da marca Louis Vuitton!

E preparem-se que o Halloween estando à porta… as fatiotas de cor verde ou magenta vão certamente ser o mote da época.

Designer e director do IADE – Faculdade de Design, Tecnologia e Comunicação da Universidade Europeia

Diário de Notícias
Carlos Rosa
20 Outubro 2021 — 00:00

 

154: Load aspas aspas enter: os falhanços também fazem parte da história!

OPINIÃO

Conta-se que John F. Kennedy desmontou a palavra “crise” e constatou que na língua chinesa é composta por apenas dois ideogramas – um representa o perigo, o outro oportunidade. Kennedy pode não ter sido inteiramente correto na sua tradução ideográfica, mas o sentimento é esse mesmo: quando confrontados com uma crise, esta apresenta-se sempre em dois caminhos, ou seja, é uma escolha. E isto é particularmente verdade hoje.

Ao ler um dos relatórios da McKinsey, vê-se que o mundo pós-pandemia está por inventar. A percentagem de empresários que acreditam que as suas cadeias de negócio irão mudar (95%) ou que as necessidades dos seus clientes estão a mudar (85%) é avassaladora.

E esta ideia de inovação, esta necessidade intrínseca que todos nós temos para a criação transporta-me para as décadas de 1970 e 1980. É certo que podíamos falar de Jobs, Musk, Gates e outros. Mas hoje quero atirar-me de cabeça para o portfólio de Clive Sinclair.

O nome não engana, este senhor foi quem nos pôs em frente a um computador. E é nesta criação que Sinclair ganha toda a sua notoriedade, o ZX Spectrum, que nuns míseros 48k de memória ora se jogava ora se programava.

Mas não! Não foi só aí. No início da década de 1970 projectou uma série de calculadoras leves e suficientemente compactas de modo a caberem num bolso das calças. Anos mais tarde, ainda no domínio da tecnologia compacta e acessível a todos, criou um mini-televisor de bolso. Logo após a sua mais bem-sucedida criação, o ZX Spectrum, atirou-se para os carros eléctricos. Sim, leram bem, e pasmem-se: estávamos apenas em 1985.

Sinclair tinha esta capacidade de olhar para o mundo e ver uma oportunidade. Ver num hipotético ponto de ruptura uma escolha. As situações de crise foram antecipadas, foram pensadas e materializadas. Talvez antes do seu tempo, mas factualmente, hoje, vemos televisão a partir de aparelhos que cabem no bolso, temos calculadoras dentro das calças e os carros eléctricos circulam nas cidades tal como os outros com os tradicionais motores de combustão.

O ZX Spectrum foi um marco! E é esta inovação que nos fica na memória. O que é uma injustiça, pois são os falhanços que escrevem a verdadeira história da inovação. São os momentos de crise que nos empurram para uma escolha, mas esses normalmente ficam escritos em letras pequeninas nos recortes cronológicos.

E a Sinclair bastava-lhe uma boa ideia para ficar na história, e ficou! Mas afinal… teve várias!

Designer e director do IADE – Faculdade de Design, Tecnologia e Comunicação da Universidade Europeia

Diário de Notícias
Carlos Rosa
22 Setembro 2021 — 00:27

 

86: Admirável mundo velho

– “As tentativas de me infiltrarem informações através de sons do quotidiano como se eu estivesse num sono profundo são recorrentes. E não, não é do calor!”. Sinto o mesmo! A infiltração de informações contraditórias porque uns dizem uma coisa, outros afirmam outra, na mesma matéria, está a tornar-se preocupante porque já não sei em quem acreditar. Se nuns ou se nos outros… E concordo com o colunista: não é do calor, não!

OPINIÃO

Chegado ao final de Julho, sinto-me insatisfeito, dormente, trôpego, ou outro adjectivo do género, com o meu quotidiano. Tudo isto porque em momentos chego a crer que sou diferente dos que me rodeiam, tal como se sentiu Bernard Marx no Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley, 1932).

O cansaço psicológico ganha ao físico e as dores do Excel superam as dores do ginásio. Não me sinto alvo das tecnologias reprodutivas nem de manipulações tecnológicas, mas a ideia de sleep-learning instala-se gradualmente. Aldous Huxley prevê-o apenas para 2054, mas eu já sinto as suas premonições na pele… As tentativas de me infiltrarem informações através de sons do quotidiano como se eu estivesse num sono profundo são recorrentes. E não, não é do calor!

Embora esta ideia de absorver conhecimento e novas informações durante o sono não tenha sido (ainda) considerada possível, é o que sinto. Mas repare-se que este sono é um sono ambulatório, que circula comigo enquanto estou acordado. E com este sonhar acordado, que me deixa inerte, dou por mim a olhar para quem me olha. Para quem me critica. Para quem me olha, aos olhos do “grande irmão”.

De repente, sou tele-transportado de Huxley para Orwell, com o sentimento de estar cercado no totalitarismo e na arregimentação repressiva dos meus comportamentos e sinto esta oscilação de ser ora Bernard Marx ora Winston Smith, o personagem de 1984 (George Orwell, 1949). Winston ganha preponderância nas minhas acções e apesar de eu ser um trabalhador diligente e habilidoso e muito alinhado com as directivas da chefia, secretamente odeio o “Partido” e sonho com a rebelião.

Estes dias têm o poder de me sugar o dia para uma imensidão de processos, de regras e de sequências sinuosas de coisa nenhuma, e o sentimento é de que tudo o que faço é um crime. Chega a parecer que estou num universo criado por Franz Kafka (O Processo, 1925) e que a qualquer momento vou ser processado por uma entidade inexistente e inacessível por algo que não fiz nem tão-pouco sei o que é!

Mas felizmente entra Agosto e as férias destroem todo este sentimento de inércia, de imensidão de processos e de rebelião. E entre os mergulhos e os desenhos, lá vou eu esboçando os meus mundos para sobreviver a este quotidiano distópico que nos devasta.

Designer e director do IADE – Faculdade de Design, Tecnologia e Comunicação da Universidade Europeia

Diário de Notícias
Carlos Rosa
11 Agosto 2021 — 00:21