Alterações climáticas “empurram” caranguejo-azul para o prato dos portugueses

SOCIEDADE/ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS

Facilmente reconhecível pelas patas azuladas o caranguejo-azul é originário do Atlântico Oeste (América do Norte e Argentina) e foi identificado pela primeira vez em 1978, no estuário do Tejo. É cada vez mais frequente na costa algarvia.

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O caranguejo-azul e o calafate de riscas são espécies pouco conhecidas nas cozinhas portuguesas, mas que podem vir a tornar-se comuns, devido às alterações climáticas no mar, diz à Lusa Francisco Leitão, investigador na Universidade do Algarve.

Francisco Leitão explica que espécies como a “lagosta, enguia e o salmão do Atlântico podem ser cada vez menos frequentes”, uma vez que procuram águas mais frias, a norte, enquanto na costa portuguesa a temperatura do mar sofre alterações devido ao impacto das alterações no clima.

“Mais do que nunca, a gestão das pescas tem de ponderar novas ferramentas que tenham em conta a sustentabilidade”, salientou o investigador.

Francisco Leitão afirma que, apesar das alterações climáticas e de mudanças no mar, desde a temperatura à acidez, a ideia de que no futuro não haverá peixe “deve ser desmistificada”, uma vez que da mesma maneira que há espécies que se afastam da costa à procura de águas mais frias, o inverso também acontece e espécies de águas mais quentes começam a surgir em zonas onde antes eram raras.

Questionado pela Lusa, o Ministério do Mar diz que já há medidas para minorar o impacto das alterações climáticas na pesca, dando o exemplo do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), que “tem vindo a reforçar a monitorização continuada e em tempo real dos parâmetros bióticos e abióticos (influências que os seres vivos podem receber num ecossistema que derivam de aspectos físicos ou químicos do meio ambiente) da zona costeira que inclui diversos observatórios submarinos”.

Ao mesmo tempo, está em curso uma análise para detectar os efeitos das variações da temperatura e acidez do oceano.

“A análise desta informação permite-nos hoje fazer uma melhor gestão dos nossos recursos de pesca”, referiu o Ministério do Mar, numa resposta escrita.

Alterações na condição do oceano, “como o aumento da temperatura, a mudança de direcção das correntes e uma maior acidez da água” são algumas das consequências das alterações climáticas no oceano, apontou Célia Teixeira, investigadora do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE).

As mutações oceânicas, provocadas pelas mudanças no clima, fazem com que haja “efeitos directos na fisionomia e comportamento de vários organismos marinhos, alterando o crescimento, a capacidade reprodutora e pode ter impactos no ecossistema marinho”, referiu.

Uma das preocupações de Célia Teixeira é a subida da temperatura da água do mar, uma vez que um aumento representa um “factor limitativo para o sucesso reprodutivo, maturação e nascimento de espécies”.

O caranguejo azul (‘Callinectes sapidus’) pode atingir 30 centímetros de largura e 700 gramas de peso e é facilmente reconhecível pelas patas azuladas, é originário do Atlântico Oeste (América do Norte e Argentina) e foi identificado pela primeira vez em 1978, no estuário do Tejo.

Segundo o Centro de Ciências do Mar na Universidade do Algarve, a mais recente vaga no sul do país pode ter tido origem no golfo de Cádis, no estuário do Guadalquivir, em Espanha.

O calafate-de-riscas (‘Umbrina cirrosa’) é uma espécie de corvina que se encontra em zonas rochosas e arenosas da costa portuguesa e que é capturado por pesca artesanal, de acordo com o projecto Clima-Pesca, coordenado pela Universidade do Algarve.

As alterações climáticas levam ao aumento dos fenómenos extremos como a seca, cheias, vagas de calor e subida da temperatura média no planeta, incluindo do mar, fenómenos que estão a ser estudados pelos investigadores.

Diário de Notícias
DN/Lusa
12 Fevereiro 2022 — 12:00