“Há crianças portuguesas que só falam ‘brasileiro'”

– Para que conste, nada tenho contra brasileiros. Uma coisa é certa, não renego o meu português de Portugal por nada deste mundo. Aprendi-o na escola primária no ano de 1952 quando entrei para a 1ª. classe e respeitá-lo-ei até morrer. Infelizmente, é por isso que me dou ao trabalho de corrigir TODOS os artigos que insiro em todos os meus Blogues, de brasuquês para português, que encharcam a comunicação social portuguesa. Isto, graças aos acéfalos intelectualóides de merda que aprovaram o “acordo ortográfico” que colonizou a língua de Camões. Tenho muita honra em ser Português e de falar e escrever em Português nativo.

SOCIEDADE/LINGUÍSTICA

Dizem grama em vez de relva, autocarro é ônibus, rebuçado é bala, riscas são listras e leite está na geladeira em vez de no frigorífico. Os educadores notam-no sobretudo depois do confinamento – à conta de muita horas de exposição a conteúdos feitos por youtubers brasileiros. As opiniões de pais, professores e especialistas dividem-se entre a preocupação e os que relativizam, por considerarem tratar-se de uma fase, como aconteceu com as novelas.

0 espectáculo estava classificado como para maiores de 6 anos, mas as crianças a partir dos 3 anos ou mais podiam assistir “desde que com e bilhete e acompanhadas por um adulto”. A informação constava na página do pavilhão Altice Arena desde que (finalmente) foi confirmado o espectáculo de Luccas Neto, o youtuber brasileiro que no último fim de semana esteve em Portugal para delírio dos mais pequenos.

Percebe-se facilmente a indicação. Afinal, são dele os vídeos que a maioria das crianças portuguesas vê nos ecrãs de tablet, computador ou telemóvel. E falamos de crianças que têm precisamente essa idade. Numa altura em que ainda estão a aprender a falar.

Era o caso de Laura, agora com três anos, dois na altura do primeiro confinamento. “Ela chegou lá muito facilmente. Primeiro foi ver o Panda e os Caricas, o Ruca e coisas do género. Mas há muito mais conteúdos brasileiros do que portugueses. Ora, quando acaba o vídeo do Panda, aparece logo outro desses, que é muito mais apelativo para os miúdos. A partir daí é viciante para eles”, conta ao DN o pai, Jaime Pessoa, locutor numa rádio local em Pombal.

Além do confinamento – e do teletrabalho do pai, que facilitou um livre acesso ao telemóvel e aos conteúdos por parte da mais nova -, também o facto de Laura ter uma irmã mais velha, Mariana, agora com 9 anos, acabou por ser um gatilho para aceder a youtubers brasileiros. De resto, metade da família lá estará este fim de semana na Altice Arena, a usufruir de um presente de Natal de há dois anos, uma vez que o espectáculo já foi adiado duas vezes à conta da pandemia.

“Todo o discurso dele é como se fosse brasileiro. Chegámos ao ponto de nos perguntarem se algum de nós era brasileiro, eu ou o pai”, conta ao DN a mãe, Alexandra Patriarca, numa altura em que o pequeno seguidor de Luccas Neto já frequenta sessões de terapia da fala.

Luccas Neto, de 29 anos, é irmão de Felipe Neto, também youtuber, mas esse mais voltado para um público mais velho, de adolescentes e jovens. Embora existam vários produtores de conteúdos similares, é ele o rei das visualizações e o seu canal no Youtube tem 36 milhões de subscritores.

Laura não diz que vê um polícia na rua mas sim um policial, a relva é grama. Come tudinho. Já Iara pediu à mãe uma bala no supermercado e “isso foi um sinal de alarme”, conta ao DN Ana Marques, que no mesmo dia percebeu que “não podia deixá-la sozinha com o tablet, porque apesar de ser muito autónoma, só tinha quatro anos“. António, da mesma idade, começou a dar sinais de alerta há já algum tempo. Ao princípio, a família até achava alguma piada à forma como ele falava, às expressões brasileiras. Mas à medida que o tempo foi passando, a educadora de infância começou a preocupar-se e foi dando sinais, porque o menino não conseguia dizer os r”s nem os l”s.

“Todo o discurso dele é como se fosse brasileiro. Chegámos ao ponto de nos perguntarem se algum de nós era brasileiro, eu ou o pai”, conta ao DN a mãe, Alexandra Patriarca, numa altura em que o pequeno seguidor de Luccas Neto já frequenta sessões de terapia da fala. “Neste momento estamos num processo de tratamento como se fosse um vício. Explicámos-lhe tudo, que ele não podia ver porque isto só o prejudica. E já notamos que está muito melhor. O que tentamos fazer agora é brincar mais com ele, bloqueámos alguns conteúdos, deixámos apenas a Netflix e tudo o que é em português de Portugal”, acrescenta a mãe.

Expressões soltas ou discurso total?

Mas não é fácil chegar aí. A educadora Ana Sofia Alcobia sabe bem disso. Nos 17 anos que leva de profissão não se recorda de um momento profissional tão desafiante como este que agora atravessa, à conta deste duplo impacto: os conteúdos da Internet e o uso da máscara, e os efeitos que terá na aprendizagem da linguagem por parte dos mais novos.

Educadora em Tomar, entre os 22 meninos da sala já teve um cujo discurso era todo ele feito em português do Brasil, “sem ter qualquer familiar brasileiro e sem nunca lá ter ido. É tudo aquilo que absorve na net”, conta ao DN. Ana Sofia notou-o depois do primeiro confinamento, e como se foi agravando nos últimos tempos. “A maioria usa expressões soltas, como “estás a trolar comigo”. Mas aquele menino falava com sotaque e dizia todas as palavras tal e qual como nos vídeos a que assistia na Internet, reproduzindo as expressões”. Algumas, a educadora nem conhecia, mas foi descodificando. “O que sei, e tenho vindo a conversar com as minhas colegas, é que os meninos estão viciados, tal qual como os adolescentes estão com os jogos, por exemplo“, aponta.

Também a terapeuta Bruna Antunes acredita que o problema advém sobretudo do tempo de exposição e consumo dos conteúdos. “Nestas idades muito tenras eles são um diamante em bruto, e por isso é preciso termos em atenção que absorvem tudo com muita intensidade. É muito importante que os pais percebam o que é que eles veem, se é ou não supervisionado. Talvez seja importante começarmos precisamente por aí, por fazermos com as famílias um trabalho de capacitação”, sugere a terapeuta da fala, que aponta casos que muitas vezes “os pais até acham piada, porque é engraçada esta ou aquela expressão, riem-se, e depois é difícil travar”. Neste momento nenhum dos casos que acompanha provém dessa origem, mas recorre ao exemplo precisamente por isso, por já lhe ter passado pelo consultório.

Relativizar é preciso, tal como nas novelas

Pela Escola Superior de Educação e Ciências Sociais (ESECS) do Instituto Politécnico de Leiria já passaram muitos dos professores e educadores que agora que se debatem com estes novos tempos da linguagem dentro das salas de aula e dos recreios das escolas. Catarina Menezes, professora de linguística e coordenadora da licenciatura em comunicação e media, olha para o assunto através de um ângulo que permita um paralelismo com outras situações e com outras épocas, “por forma a podermos desdramatizar um bocadinhos os cenários”.

Porquê? “Quando eu era menina havia o mesmo pânico social com os livros do tio Patinhas, que era traduzido em português do Brasil. Lembro-me bem da minha professora do primeiro ciclo ter esse pânico. A mesma coisa quando apareceram as novelas…que eram completamente massificadas. Ora, eu acho que esta discussão dos youtubers não é muito diferente”, considera Catarina Menezes, embora advirta para “alguns contornos em que é preciso pensar”.

“Gosto sempre de relativizar um pouco, face a estes contextos”, sublinha a professora, embora – até como mãe – registe a preocupação com “os tempos de exposição, sobretudo em idades muito tenras. Porque no caso dos adolescente é temporário, passa muito rapidamente, mudam para outras coisas em pouco tempo. Agora, nos mais pequenos, quando começam a ser consumos já muito viciantes, é complicado”.

“Quando eu era menina havia o mesmo pânico social com os livros do tio Patinhas, que era traduzido em português do Brasil. A mesma coisa quando apareceram as novelas”, relativiza Catarina Menezes, professora de linguística no Politécnico de Leiria

Mas Catarina Menezes acredita que se pode ver o copo meio cheio e olhar para esta questão de outra forma: se os consumos desses conteúdos forem feitos com mediação, ajuda os mais novos a perceberem diferenças, por exemplo quando é que podem usar uma expressão, e ajuda-os a pensar até a própria língua. “Eu penso que poderia ser interessante incorporar estas linguagens na escola. Porque elas podem ser desconstruídas e trabalhadas. Podemos ver como é que palavras diferentes podem designar uma mesma realidade, sobretudo em diferentes contextos culturais. E às vezes até na própria sala de aula, porque aí também existe uma inter-culturalidade que não existia”, enfatiza. “E não é preciso dramatizar, porque tudo faz parte da vida da língua: há palavras que são transitórias, mas também há palavras que vão ficando e são incorporadas pela própria língua”.

A professora insiste na importância da escola, mas não descura a de outros agentes da sociedade. De resto, no prisma da comunicação, olha para os youtubers com um misto de ameaça e oportunidade: “também reconheço que às vezes os miúdos aprendem muitas coisas que nem connosco aprenderiam. Alguns são socialmente e politicamente muito envolvidos”.

É o caso de Felipe Neto, um activista anti-Bolsonaro, que durante as eleições presidenciais usou boa parte do tempo no seu canal para explicar aos milhões de seguidores todo o processo político brasileiro. Já o irmão, Luccas, o ídolo das crianças, ficou famoso depois de entrar numa banheira de Nutella, com mais de 80 kg, em 2017. Desde então, tornou-se um caso sério de popularidade infantil. Além do canal e dos vídeos, gere uma gama completa de produtos associados, desde material escolar a jogos didácticos, vestuário e brinquedos. Tudo a pensar na primeira infância. A que encheu o Altice Arena.

dnot@dn.pt

Diário de Notícias
Paula Sofia Luz
10 Novembro 2021 — 00:15