1306: A estrela que sobreviveu a uma super-nova

CIÊNCIA/ASTRONOMIA/ASTROFÍSICA

Esquerda: Imagem a cores da galáxia NGC 1309 antes da super-nova 2012Z. Direita: No sentido horário a partir do canto superior direito: a posição da super-nova pré-explosão; SN 2012Z durante 2013; a diferença entre as imagens pré-explosão e as observações de 2016; a localização de SN 2012Z nas últimas observações de 2016.
Crédito fotográfico: McCully et al.

Uma super-nova é a explosão catastrófica de uma estrela. As super-novas termo-nucleares, em particular, assinalam a destruição completa de uma estrela anã branca, não deixando nada para trás. Pelo menos era isso que os modelos e observações sugeriam.

Assim, quando uma equipa de astrónomos observou o local da peculiar super-nova termonuclear SN 2012Z com o Telescópio Espacial Hubble, ficaram chocados ao descobrir que a estrela tinha sobrevivido à explosão. Não só tinha sobrevivido – a estrela era ainda mais brilhante após a super-nova do que tinha sido antes.

O primeiro autor Curtis McCully, investigador pós-doutorado na Universidade da Califórnia em Santa Barbara e no Observatório Las Cumbres, publicou estas descobertas num artigo na revista The Astrophysical Journal e apresentou-as numa conferência de imprensa na 240.ª reunião da Sociedade Astronómica Americana. Os resultados intrigantes dão-nos novas informações sobre as origens de algumas das explosões mais comuns, mas misteriosas, do Universo.

Estas super-novas termo-nucleares, também chamadas super-novas do Tipo Ia, são algumas das ferramentas mais importantes do conjunto de ferramentas dos astrónomos para medir distâncias cósmicas.

Com início em 1998, as observações destas explosões revelaram que o Universo tem vindo a expandir-se a um ritmo cada vez mais acelerado. Pensa-se que isto se deve à energia escura, cuja descoberta ganhou o Prémio Nobel da Física em 2011.

Embora sejam de importância vital para a astronomia, as origens das super-novas termo-nucleares são mal compreendidas. Os astrónomos concordam que são a destruição de estrelas anãs brancas – estrelas com aproximadamente a massa do Sol “embalada” num objecto com o tamanho da Terra.

Não se sabe com certeza o que faz com que as estrelas expludam. Uma teoria postula que a anã branca rouba matéria a uma estrela companheira. Quando a anã branca se torna demasiado massiva, as reacções termo-nucleares inflamam-se no núcleo e levam a uma explosão que destrói a estrela.

SN 2012Z foi um tipo estranho de explosão termonuclear, por vezes chamada super-nova do Tipo Iax. São as primas mais ténues e fracas do Tipo Ia mais tradicional. Dado que são explosões menos potentes e mais lentas, alguns cientistas teorizaram que são super-novas do Tipo Ia falhadas. As novas observações confirmam esta hipótese.

Em 2012, a super-nova 2012Z foi detectada na galáxia espiral próxima NGC 1309, que tinha sido estudada em profundidade e capturada em muitas imagens Hubble ao longo dos anos anteriores. Em 2013 foram obtidas novas imagens pelo Hubble, num esforço concertado para identificar qual das estrelas, nas imagens mais antigas, correspondia à estrela que tinha explodido.

A análise destes dados em 2014 foi bem-sucedida – os cientistas conseguiram identificar a estrela na posição exacta da super-nova 2012Z. Esta foi a primeira vez que a estrela progenitora de uma super-nova anã branca foi identificada.

“Nós esperávamos ver uma de duas coisas quando obtivemos os dados mais recentes do Hubble,” disse McCully. “Ou a estrela tinha desaparecido completamente, ou talvez ainda lá estivesse, o que significa que a estrela que vimos nas imagens pré-explosão não foi a que explodiu. Ninguém estava à espera de ver uma estrela sobrevivente que fosse mais brilhante. Isso foi um verdadeiro quebra-cabeças.”

McCully e a equipa acham que a estrela semi-explodida ficou mais brilhante porque inchou até um estado muito maior. A super-nova não era forte o suficiente para rebentar com todo o material, pelo que parte dela caiu de novo no que se chama de remanescente ligado. Com o tempo, eles esperam que a estrela regresse lentamente ao seu estado inicial, apenas menos massiva e maior. Paradoxalmente, para as estrelas anãs brancas, quanto menos massa tiverem, maior será o seu diâmetro.

“Esta estrela sobrevivente é um pouco como Obi-Wan Kenobi que regressa como fantasma na ‘Guerra das Estrelas’,” disse o co-autor Andy Howell, professor adjunto na UC Santa Barbara e cientista sénior do Observatório Las Cumbres. “A natureza tentou destruir esta estrela, mas voltou mais poderosa do que podíamos imaginar. Continua a ser a mesma estrela, mas de volta sob uma forma diferente. Ela transcendeu a morte.”

Durante décadas os cientistas pensaram que as super-novas do Tipo Ia explodem quando uma anã branca atinge um certo limite de tamanho, chamado limite de Chandrasekhar, cerca de 1,4 vezes a massa do Sol. Esse modelo tem caído um pouco em desuso nos últimos anos, uma vez que foram descobertas muitas super-novas menos massivas, e novas ideias teóricas indicaram que existem outras coisas que as fazem explodir.

Os astrónomos não tinham a certeza se as estrelas alguma vez se aproximaram do limite de Chandrasekhar antes de explodirem. Os autores do estudo pensam agora que este crescimento até ao limite final é exactamente o que aconteceu a SN 2012Z.

“As implicações para as super-novas do Tipo Ia são profundas,” diz McCully. “Descobrimos que as super-novas pelo menos podem crescer até ao limite e explodir. No entanto, as explosões são fracas, pelo menos em parte do tempo. Agora precisamos de compreender o que faz uma super-nova falhar e tornar-se uma do Tipo Iax, e o que faz uma super-nova ter sucesso e tornar-se do Tipo Ia.”

Astronomia On-line
28 de Junho de 2022


 

1305: A Via Láctea borbulhante

CIÊNCIA/ASTRONOMIA/PLANETOLOGIA/ASTROFÍSICA

Emissão do hidrogénio atómico na direcção da parte exterior (os dois painéis superiores) e interior (os dois painéis inferiores) da Via Láctea.
Crédito: Levantamento Hi4Pi; Levantamento Galfa-Hi; J. D. Soler/INAF

Um grupo internacional de astrónomos, liderado por Juan Diego Soler do INAF (Instituto Nacional de Astrofísica), na Itália, encontrou a impressão das bolhas produzidas pela explosão de estrelas moribundas na estrutura do gás que permeia a nossa Galáxia.

Fizeram esta descoberta aplicando técnicas de inteligência artificial aos dados do levantamento HI4PI, que fornece a mais detalhada distribuição do hidrogénio atómico na Via Láctea até à data. Os cientistas analisaram a estrutura filamentar na emissão do gás hidrogénio atómico. Eles inferiram que esta preservava um registo dos processos dinâmicos induzidos pelas antigas explosões de super-nova e pela rotação da Galáxia.

O hidrogénio é o principal componente de estrelas como o Sol. Contudo, o processo que faz com que as nuvens difusas de gás hidrogénio, que se espalham pela nossa Galáxia, se juntem em nuvens densas a partir das quais as estrelas acabam por se formar, ainda não é totalmente compreendido.

Uma colaboração de astrónomos liderada por Juan Diego Soler do INAF-IAPS (Istituto di Astrofisica e Planetologia Spaziali, um instituto de investigação do INAF em Roma) e do projecto ECOgal, financiado pelo Conselho Europeu de Investigação, deu agora um passo importante na compreensão do ciclo de vida da matéria-prima da formação estelar.

Soler processou dados do levantamento mais detalhado de todo o céu da emissão do hidrogénio atómico no rádio, o levantamento HI4PI, que se baseia em observações obtidas com o radiotelescópio Parkes de 64 metros na Austrália, com o radiotelescópio Effelsberg de 100 metros na Alemanha e com o GBT (Robert C. Byrd Green Bank Telescope) de 110 metros nos EUA.

“Estas observações de arquivo da linha de emissão de hidrogénio a um comprimento de onda de 21 cm contêm informações sobre a distribuição do gás no céu e a sua velocidade na direcção da observação, o que, combinado com um modelo de rotação da Via Láctea, indica a que distância estão as nuvens emissoras,” indica Sergio Molinari do INAF-INAPS, investigador principal do projecto ECOgal.

Para estudar a distribuição das nuvens de hidrogénio Galácticas, Soler aplicou um algoritmo matemático frequentemente usado na inspecção e análise automática de imagens de satélite e vídeos online. Devido à dimensão destas observações, teria sido impossível fazer esta análise a olho nu.

O algoritmo revelou uma rede extensa e intrincada de objectos semelhantes a fios finos ou filamentos. A maioria dos filamentos na parte interior da Via Láctea foram encontrados a apontar para longe do disco da nossa Galáxia.

“Estes são provavelmente os remanescentes de múltiplas explosões de super-nova que varrem o gás e formam bolhas que rebentam quando atingem a escala característica do Plano Galáctico, como bolhas que chegam à superfície num copo de espumante,” comenta Ralf Klessen.

Klessen é também o investigador principal do projeto ECOgal, que visa compreender o nosso ecossistema galáctico desde o disco da Via Láctea até à formação de estrelas e planetas. “O facto de vermos principalmente estruturas horizontais na Via Láctea exterior, onde há uma forte diminuição no número de estrelas massivas e consequentemente menos super-novas, sugere que estamos a registar a energia e o ‘input’ de momento das estrelas que moldam o gás na nossa Galáxia,” complementa o astrónomo do Centro para Astronomia da Universidade de Heidelberg na Alemanha.

“O meio interestelar, que é a matéria e radiação que existe no espaço entre as estrelas, é regulado pela formação de estrelas e super-novas, sendo estas últimas as explosões violentas que ocorrem durante as últimas fases evolutivas de estrelas que são mais de dez vezes mais massivas do que o Sol,” comenta Patrick Hennebelle, que juntamente com Klessen coordena o trabalho teórico no projecto ECOgal.

“As associações de super-novas são muito eficientes a manter a turbulência e a levantar o gás num disco estratificado,” esclarece o investigador do Departamento de Astronomia do CEA/Saclay em França. “A descoberta destas estruturas filamentares no hidrogénio atómico é um passo importante na compreensão do processo responsável pela formação estelar à escala galáctica.”

Astronomia On-line
28 de Junho de 2022


 

1303: Gliese 486 b é o planeta terrestre fora do sistema solar mais estudado pelos cientistas

CIÊNCIA/ASTRONOMIA/EXOPLANETOLOGIA/ASTROFÍSICA

Em 2021, uma super-terra foi dada a conhecer ao mundo e alguns dados deixavam em aberto que poderia ser um exoplaneta muito interessante. O planeta, que recebeu a designação de Gliese 486 b, orbita a estrela anã vermelha Gliese 486, a 26 anos-luz de distância da Terra. Uma equipa científica internacional, liderada pelo Centro de Astrobiologia (CSIC-INTA), mediu a massa e o raio de um exoplaneta do tipo Terra com uma precisão sem precedentes.

O interesse e trabalho desenvolvido neste novo mundo encontrado “perto de nós” tornou possível prever como poderia ser a estrutura e composição do seu interior, bem como a sua atmosfera. Os dados são muito interessantes.

Será este exoplaneta um lugar onde os seres humanos poderiam viver?

O planeta foi acolhido com grande expectativa. Como tal, os investigadores utilizaram dados de vários telescópios terrestres e espaciais, tais como CHARA, CHEOPS, Hubble, MAROON-X, TESS e CARMENES, para modelar o interior do exoplaneta Gliese 486 b.

Desta forma, a equipa de astrónomos, liderada por José A. Caballero, conseguiu estimar as dimensões relativas do seu núcleo metálico e manto rochoso. Os detalhes foram publicados na revista Astronomia & Astrofísica.

A equipa também fez previsões sobre a composição da atmosfera deste planeta, descoberta em 2021, bem como a sua detectabilidade pelo Telescópio Espacial James Webb, que em breve apontará o seu espelho para o sistema planetário a que pertence.

Gliese 486 b tornou-se a pedra de Roseta da exoplanetologia. No sistema solar temos os planetas terrestres Mercúrio, Vénus, Terra e Marte, e agora é o quinto planeta terrestre mais bem estudado do universo.

Disse José A. Caballero (CAB).

Embora este seja um dos planetas de trânsito mais próximos conhecidos, que viaja a 10% da velocidade da luz a toda a hora, seriam necessários 260 anos para que uma sonda o alcançasse.

Gliese 486 b e a futura ciência exoplanetária

Na apresentação deste trabalho, o investigador apontou já para mais estudos, tais como a formação de campos magnéticos planetários no núcleo externo com metais líquidos, pois o Gliese 486 b parece ter um como a nossa Terra. Estes campos magnéticos podem actuar como um escudo contra tempestades hospedeiras estelares e prevenir a erosão da atmosfera.

Segundo a equipa, várias questões permanecem por responder: poderá tal atmosfera ser primitiva e feita de hidrogénio e hélio, ou composta de dióxido de carbono e vapor de água de erupções vulcânicas, e poderia o Gliese 486 b ter actividade tectónica?

Embora este exoplaneta pareça demasiado quente para ser habitável, a sua caracterização precisa pode torná-lo no primeiro exoplaneta – e até agora o único – onde estas pertinentes perguntas podem ser feitas. Há apenas alguns anos, tentar encontrar respostas era considerado ficção científica.

O primeiro exoplaneta à volta de uma estrela semelhante ao nosso Sol, o 51 Pegasi b, foi descoberto em 1995. Desde então, todos os anos, a comunidade astronómica encontra exoplanetas que estão a tornar-se menos maciços, mais próximos e mais semelhantes à Terra.

Embora a maioria deles não sejam habitáveis, os planetas em trânsito – como o Gliese 486 b – são de maior interesse para a comunidade astronómica porque permitem investigar as suas atmosferas e, apenas para os sistemas planetários mais próximos do nosso Sol, os seus interiores.

O projecto CARMENES, cujo consórcio é composto por onze instituições de investigação de Espanha e Alemanha, descobriu três dos oito sistemas mais próximos graças aos tais planetas em trânsito, o último dos quais foi anunciado na semana passada.

Pplware
Autor: Vítor M
27 Jun 2022


 

1263: Alinhamento planetário: Saiba quando pode ver um show cósmico

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Há um fenómeno com que o Universo nos vai presentar e que só acontecerá novamente daqui a 18 anos. Basicamente, é o desfile de planetas mais espectacular do ano que acontecerá na manhã de 24 de Junho.

Os curiosos irão poder ver cinco planetas do Sistema Solar alinhados no céu: Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter e Saturno. Bom, na verdade, este será um alinhamento de sete planetas, pois Neptuno e Úrano também se juntarão ao show celestial. No entanto, estes dois planetas gigantes são muito escuros para serem vistos a olho nu.

E como vai poder ver este show cósmico? Ok, venha connosco, que vamos desvendar tudo.

Junho tem sido uma época fascinante astronomicamente falando. Durante semanas tivemos várias oportunidades de ver uma conjunção planetária muito rara. Sem a necessidade de binóculos e pouco antes do crepúsculo, Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter e Saturno foram vistos ao longo do mês.

O que é um desfile planetário?

É um evento astronómico que ocorre quando os planetas do Sistema Solar se alinham em uma mesma área do céu, visto da Terra.

Os eventos astronómicos que podem ser chamados de desfiles de planetas incluem:

  • eventos que ocorrem quando os planetas se alinham num lado do Sol em simultâneo, como observado acima do plano do Sistema Solar;
  • fenómenos visuais que acontecem quando os planetas do Sistema Solar aparecem num pequeno sector do céu ao mesmo tempo, visto por um observador terrestre;
  • noites em que todos os planetas do Sistema Solar podem ser vistos.

Outro termo para um desfile de planetas é “appulse“.

Os seguintes tipos de desfiles de planetas são diferenciados de acordo com o número de planetas participantes:

  • Mini desfile de planetas – 3 planetas;
  • Pequeno desfile de planetas – 4 planetas;
  • Grande desfile de planetas – 5 ou 6 planetas;
  • Imenso (total) desfile de planetas – todos os planetas do sistema solar (+ Plutão, às vezes).

Os planetas do Sistema Solar nunca se alinham numa linha perfeitamente recta, pois não orbitam no mesmo plano. Portanto, durante este espectacular evento, é possível ver planetas alinhados (ou apenas reunidos) na mesma parte do céu.

Quando foi a última vez que ocorreu um desfile planetário?

Todos os planetas do Sistema Solar alinharam-se de um lado do Sol em simultâneo, a 4 de Julho de 2020. No mês seguinte, os observadores também puderam ver todos os planetas numa só noite. Nesse dia realizou-se o raro desfile do planeta. Todos os oito planetas do Sistema Solar e o planeta anão Plutão alinharam-se de um lado do Sol, em simultâneo.

O próximo desfile planetário espectacular terá lugar em 2040. Cinco planetas participarão neste desfile: Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter, e Saturno. A Lua crescente será também localizada perto dos planetas.

Tendo em conta este espaço temporal, o fenómeno torna-se mais atractivo. Claro que certos alinhamentos, os mais comuns, acontecerão com mais frequência.

Por exemplo, três planetas alinham num lado do Sol simultaneamente duas vezes por ano, quatro planetas – uma vez por ano, cinco planetas – uma vez em cada dezanove anos, e todos os oito planetas do Sistema Solar – uma vez em cerca de cento e setenta anos.

Pensem bem, há um alinhamento que só acontece a cada 170 anos!

Então, no dia 24 de Junho o que vamos ver exactamente?

Depois de percebermos que somos brindados por vezes com espectáculos cósmicos que marcam a nossa existência, no dia 24 deste mês o cosmos vai mostrar-nos uma evento que aconteceu pelo última vez em 2004 e que teremos de esperar até daqui a 18 anos para vê-lo novamente.

Os planetas aparecerão no leste e mover-se-ão para o sul (ou para o norte para aqueles que observam do hemisfério sul). Mercúrio será o último planeta a aparecer, para completar a conjunção. Embora já tenhamos passado os dias em que Mercúrio e Saturno têm a distância mais curta (91 graus), há agora mais tempo para o ver: até 45 minutos antes do nascer do sol.

A título de curiosidade, caso não tenha oportunidade de estar a olhar para o céu na manhã de sexta-feira, saiba que, segundo a NASA, o próximo desfile destes planetas terá lugar a 8 de Setembro de 2040.

Nesse dia, 5 planetas serão visíveis a olho nu e poderemos localizá-los dentro de um círculo de cerca de 10 graus de diâmetro. O alinhamento incluirá Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter, e Saturno. A Lua crescente também será visível, posicionada entre Vénus e Saturno.

A tecnologia no seu smartphone pode ajudar

Se é um curioso como nós, então poderá mesmo instalar aplicações que o podem ajudar localizar e identificar facilmente os planetas na cúpula do céu. Assim, sugerimos que use as aplicações móveis como Star Walk 2 ou Sky Tonight. Basta apontar o seu dispositivo para o céu e as aplicações mostrar-lhe-ão para que objecto está a olhar. As notificações das aplicações vão ajudá-lo a manter-se a par dos eventos astronómicos mais notáveis.

Pplware
Autor: Vítor M
22 Jun 2022

Quem estiver interessado, também pode descarregar a app Stellarium para smartphone (https://play.google.com/store/apps/details?id=com.noctuasoftware.stellarium_free&hl=pt-PT) e para PC (https://stellarium-web.org/)

Stellarium – 22.06.2022

Stellarium 22.06.2022


 

1251: Astrónomos encontram evidências do mais poderoso pulsar em galáxia distante

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

À medida que a concha de detritos da explosão de super-nova se expande ao longo de algumas décadas, torna-se menos densa e acaba por se tornar suficientemente fina para que as ondas de rádio do interior possam escapar. Isto permitiu observações do VLASS (VLA Sky Survey) para detectar emissões de rádio brilhantes criadas à medida que o poderoso campo magnético da estrela de neutrões que gira rapidamente varre o espaço circundante, acelerando as partículas carregadas. Este fenómeno é chamado uma nebulosa de vento pulsar.
Crédito: Melissa Weiss, NRAO/AUI/NSF

Astrónomos que analisavam dados do VLASS (VLA Sky Survey) descobriram uma das estrelas de neutrões mais jovens conhecidas – o remanescente super-denso de uma estrela massiva que explodiu como uma super-nova. Imagens do VLA (Karl G. Jansky Very Large Array) da NSF (National Science Foundation) indicam que a emissão brilhante de rádio alimentada pelo campo magnético do pulsar giratório só recentemente surgiu por detrás de uma densa concha de detritos da explosão de super-nova.

O objecto, chamado VT 1137-0337, encontra-se numa galáxia anã a 395 milhões de anos-luz da Terra. Apareceu pela primeira vez numa imagem VLASS feita em Janeiro de 2018. Não apareceu numa imagem da mesma região feita pelo levantamento FIRST do VLA em 1998. Continuou a aparecer em observações VLASS posteriores em 2018, 2019, 2020 e 2022.

“O que mais provavelmente estamos a ver é uma nebulosa de vento pulsar”, disse Dillon Dong, estudante no Caltech que vai começar uma bolsa de pós-doutoramento no NRAO (National Radio Astronomy Observatory) no final deste ano. Uma nebulosa de vento pulsar é criada quando o poderoso campo magnético de uma estrela de neutrões em rápida rotação acelera as partículas carregadas em redor até quase à velocidade da luz.

“Com base nas suas características, este é um pulsar muito jovem – possivelmente tão jovem quanto apenas 14 anos, mas não com mais de 60 a 80 anos,” disse Gregg Hallinan, orientador de doutoramento de Dong no Caltech.

Os cientistas relataram as suas descobertas na reunião da Sociedade Astronómica Americana em Pasadena, no estado norte-americano da Califórnia.

Dong e Hallinan descobriram o objecto em dados do VLASS, um projecto do NRAO que começou em 2017 para pesquisar todo o céu visível a partir do VLA – cerca de 80% do céu. Ao longo de um período de sete anos, o VLASS está a realizar um scan completo do céu três vezes, sendo um dos objectivos o de encontrar objectos transitórios. Os astrónomos encontraram VT 1137-0337 na primeira varredura VLASS de 2018.

Comparando esta análise VLASS com dados de um levantamento anterior do VLA, chamado FIRST, revelou 20 objectos transientes particularmente luminosos que poderiam estar associados a galáxias conhecidas.

“Este destacou-se porque a sua galáxia está a passar por um surto de formação estelar e também por causa das características da sua emissão de rádio,” disse Dong. A galáxia, chamada SDSS J113706.18-033737.1, é uma galáxia anã contendo cerca de 100 milhões de vezes a massa do Sol.

Ao estudar as características de VT 1137-0337, os astrónomos consideraram várias explicações possíveis, incluindo uma super-nova, um GRB (“gamma ray burst”, em português explosão de raios-gama) ou um evento de ruptura de maré em que uma estrela é triturada por um buraco negro super-massivo. Eles concluíram que a melhor explicação é uma nebulosa de vento pulsar.

Neste cenário, uma estrela muito mais massiva do que o Sol explodiu como super-nova, deixando para trás uma estrela de neutrões. A maior parte da massa da estrela original foi expelida para fora como uma concha de destroços. A estrela de neutrões gira rapidamente e à medida que o seu poderoso campo magnético varre o espaço circundante, acelera as partículas carregadas, provocando uma forte emissão de rádio.

Inicialmente, a emissão de rádio foi bloqueada pela concha de detritos da explosão. À medida que esse invólucro se expandia, tornou-se progressivamente menos denso até que eventualmente as ondas de rádio da nebulosa de vento pulsar puderam passar através dele.

“Isto aconteceu entre a observação FIRST em 1998 e a observação VLASS em 2018,” disse Hallinan.

Provavelmente o exemplo mais famoso de uma nebulosa de vento pulsar é a Nebulosa do Caranguejo (M1) na direcção da constelação de Touro, o resultado de uma super-nova que brilhou intensamente no ano 1054. M1 é facilmente visível hoje em dia através de telescópios pequenos.

“O objecto que encontrámos parece ser aproximadamente 10.000 vezes mais energético do que a Nebulosa do Caranguejo, com um campo magnético mais forte,” disse Dong. “É provável que seja um ‘super Caranguejo’ emergente”, acrescentou.

Apesar de Dong e Hallinan considerarem VT 1137-0337 como sendo muito provavelmente uma nebulosa de vento pulsar, também é possível que o seu campo magnético seja suficientemente forte para que a estrela de neutrões se qualifique como um magnetar – uma classe de objectos super-magnéticos. Os magnetares são um dos principais candidatos à origem dos misteriosos FRBs (Fast Radio Bursts), agora sob intenso estudo.

“Nesse caso, este seria o primeiro magnetar apanhado no ato de aparecer e isso, também, é extremamente excitante,” disse Dong.

De facto, verificou-se que alguns FRBs foram associados a fontes de rádio persistentes, cuja natureza também é um mistério. Têm fortes semelhanças, nas suas propriedades, com VT 1137-0337, mas não mostraram evidências de uma forte variabilidade.

“A nossa descoberta de uma fonte muito semelhante a ‘ligar-se’ sugere que as fontes de rádio associadas aos FRBs também podem ser nebulosas luminosas de vento pulsar”, disse Dong.

Os astrónomos planeiam fazer observações adicionais para aprender mais sobre o objecto e para monitorizar o seu comportamento ao longo do tempo.

Astronomia On-line
21 de Junho de 2022


 

1250: Astrónomos descobrem um sistema multi-planetário próximo

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Ilustração dos dois recém-descobertos exoplanetas rochosos que podem ser ideais para observações atmosféricas de acompanhamento.
Crédito: NASA/JPL-Caltech

Astrónomos de várias instituições descobriram um novo sistema multi-planetário na nossa vizinhança solar situado a apenas 10 parsecs, ou cerca de 33 anos-luz, da Terra, tornando-o um dos sistemas multi-planetários conhecidos mais próximos do nosso.

No coração do sistema encontra-se uma pequena e fria estrela anã M, chamada HD 260655, e os astrónomos descobriram que alberga pelo menos dois planetas terrestres do tamanho da Terra. Os mundos rochosos provavelmente não são habitáveis, pois as suas órbitas são relativamente íntimas, expondo os planetas a temperaturas demasiado elevadas para sustentar água líquida à superfície.

No entanto, os cientistas estão entusiasmados com este sistema porque a proximidade e o brilho da sua estrela vão dar-lhes uma visão mais detalhada das propriedades dos planetas e dos sinais de qualquer atmosfera que possam conter.

“Ambos os planetas neste sistema são, cada um, considerados dos melhores alvos para estudo atmosférico devido ao brilho da sua estrela,” diz Michelle Kunimoto, pós-doutorada do Instituto Kavli para Astrofísica e Investigação Espacial do MIT e uma das principais cientistas da descoberta.

“Será que existe uma atmosfera rica e volátil em torno destes planetas? E será que existem sinais de espécies à base de água ou de carbono? Estes planetas são testes fantásticos para estas explorações.”

O poder dos dados

O novo sistema planetário foi inicialmente detectado pelo TESS (Transiting Exoplanet Survey Satellite) da NASA, uma missão liderada pelo MIT que foi concebida para observar as estrelas mais próximas e brilhantes e detectar quedas periódicas na luz, quedas estas que poderiam assinalar a passagem de um planeta.

Em Outubro de 2021, Kunimoto, membro da equipa científica do TESS no MIT, estava a monitorizar os dados que estavam a ser transmitidos pelo TESS quando reparou num par de mergulhos periódicos na luz estelar, ou trânsitos, na estrela HD 260655.

Ela correu as detecções através do “pipeline” de inspecção científica da missão e os sinais foram logo classificados como dois objectos de interesse TESS, ou TOI (TESS Objects of Interest) – objectos assinalados como potenciais planetas. Os mesmos sinais também foram encontrados independentemente pelo SPOC (Science Processing Operations Center), o “pipeline” oficial da busca exoplanetária do TESS, com sede no Centro Espacial Ames da NASA.

Os cientistas normalmente fazem observações de acompanhamento, com outros telescópios, para confirmar que os objectos são de facto planetas.

O processo de classificação e posterior confirmação de novos planetas pode muitas vezes demorar vários anos. Para HD 260655, esse processo foi encurtado significativamente com a ajuda de dados de arquivo.

Logo após Kunimoto ter identificado os dois potenciais planetas em torno de HD 260655, Avi Shporer, também do MIT, procurou ver se a estrela tinha sido observada anteriormente por outros telescópios.

Por sorte, HD 260655 estava listada num levantamento de estrelas realizado pelo HIRES (High Resolution Echelle Spectrometer), um instrumento que opera como parte do Observatório Keck no Hawaii. O HIRES tinha vindo a monitorizar a estrela, juntamente com uma série de outras estrelas, desde 1998, e os investigadores puderam ter acesso aos dados do levantamento disponíveis ao público.

HD 260655 também estava listada como parte de outro levantamento independente pelo CARMENES, um instrumento que funciona como parte do Observatório de Calar Alto na Espanha. Como estes dados eram privados, a equipa contactou membros tanto do HIRES como do CARMENES com o objectivo de combinar o poder dos seus dados.

“Estas negociações são por vezes bastante delicadas,” observa Shporer. “Felizmente, as equipas concordaram em trabalhar em conjunto. Esta interacção humana é quase tão importante na obtenção de dados [como as observações propriamente ditas].”

Atracção planetária

No final, este esforço colaborativo confirmou rapidamente a presença de dois planetas em torno de HD 260655 em cerca de seis meses.

Para confirmar que os sinais do TESS eram, de facto, de dois planetas em órbita, os investigadores examinaram os dados da estrela tanto do HIRES como do CARMENES. Ambos os levantamentos medem a oscilação gravitacional de uma estrela, também conhecida como velocidade radial.

“Cada planeta em órbita de uma estrela vai exercer um pequeno puxão gravitacional na sua estrela,” explica Kunimoto. “O que procuramos é qualquer movimento ligeiro dessa estrela que possa indicar que um objecto de massa planetária está a puxá-la.”

A partir dos dois conjuntos de dados de arquivo, os investigadores encontraram sinais estatisticamente significativos de que os sinais detectados pelo TESS eram, de facto, dois planetas em órbita.

“Foi aí que soubemos que tínhamos encontrado algo muito excitante,” diz Shporer.

A equipa analisou então mais de perto os dados do TESS para determinar as propriedades de ambos os planetas, incluindo os períodos orbitais e tamanhos. Determinaram que o planeta interior, apelidado HD 260655b, orbita a estrela a cada 2,8 dias e é cerca de 1,2 vezes maior que a Terra. O segundo planeta exterior, HD 260655c, completa uma órbita a cada 5,7 dias e tem 1,5 vezes o tamanho da Terra.

A partir dos dados de velocidade radial do HIRES e do CARMENES, os cientistas conseguiram calcular a massa dos planetas, que está directamente relacionada com a amplitude pela qual cada planeta “puxa” a estrela. Descobriram que o planeta interior tem cerca do dobro da massa da Terra, enquanto que o planeta exterior tem cerca de três massas terrestres.

A partir do seu tamanho e massa, a equipa estimou a densidade de cada planeta. O planeta interior, mais pequeno, é ligeiramente mais denso do que a Terra, enquanto que o planeta exterior, maior, é um pouco menos denso. Ambos os exoplanetas, com base na sua densidade, são provavelmente terrestres, ou rochosos em termos de composição.

Os investigadores também estimam, com base nas suas órbitas curtas, que a superfície do planeta interior tem uma temperatura de cerca de 710 K, enquanto o planeta exterior ronda os 560 K.

“Consideramos essa gama de temperaturas fora da zona habitável, demasiado quente para que exista água líquida à superfície,” disse Kunimoto.

“Mas podem existir mais planetas no sistema,” acrescenta Shporer. “Há muitos sistemas multi-planetários que albergam cinco ou seis planetas, especialmente em torno de estrelas pequenas como esta. Esperamos encontrar mais, e um deles poderá estar na zona habitável. É um pensamento optimista.”

Astronomia On-line
21 de Junho de 2022


 

1240: Descoberto um buraco negro super-massivo que come uma Terra a cada segundo

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Uma equipa de investigadores da Universidade Nacional Australiana acredita ter encontrado um buraco negro super-massivo que consome o equivalente a uma Terra a cada segundo e tem uma massa de 3 mil milhões de sóis, número que é 500 vezes maior que Sagittarius A*, o buraco monstruoso no centro da nossa galáxia que viu recentemente revelada uma primeira imagem.

Dizem os especialistas que foi descoberto o buraco negro de crescimento mais rápido dos últimos nove mil milhões de anos.

Buraco negro deste tamanho é um flash no escuro

Através do SkyMapper Southern Sky Survey, um telescópio de 1,3 metros em Nova Gales do Sul, os investigadores descobriram um quasar extremamente brilhante: 7000 vezes mais brilhante do que toda a luz da Via Láctea. Um quasar é um fenómeno muito específico relacionado com os “jactos massivos” associados aos buracos de discos de acreção.

O estudo está actualmente a ser revisto, mas se confirmado, será uma bomba.

O tamanho não é tudo

Analisando este quasar, os investigadores perceberam que os dados não batem certo. Segundo os autores, “a luz que estamos a ver deste buraco negro crescente tem vindo a viajar até nós há cerca de 7 mil milhões de anos” (o Big Bang ocorreu há cerca de 13,8 mil milhões de anos). É um tempo muito curto para um monstro assim.

Existem outros buracos negros de tamanho semelhante, “mas todos eles tendem a ser muito mais antigos na história do universo, onde as fusões entre galáxias eram muito mais comuns”, explicou Christopher Onken. Se os dados forem confirmados, este seria o buraco negro de crescimento mais rápido nos últimos 9 mil milhões de anos.

Um buraco negro gigante: Como é que nunca o vimos antes?

Como os próprios investigadores admitem, “as pessoas têm procurado estes buracos negros crescentes desde o início dos anos 60”. Localizámos cerca de 880.000 deles. Como é possível que algo tão brilhante tenha sido negligenciado?

A explicação que eles dão está relacionada com o céu nocturno.

Historicamente, as pessoas têm evitado olhar muito de perto para o plano da Via Láctea porque há tantas estrelas e tantos poluentes que é muito difícil encontrar qualquer coisa. Sem ir mais longe, muitas procuras param de olhar a 25 graus… quase todas param a 20 graus do plano da Via Láctea. Este objecto está a 18 graus.

Referiu Christopher Onken.

Tão grande que pode ser “visto” por astrónomos amadores

O J1144, como é chamado o quasar, é suficientemente brilhante para ser visível para os astrónomos amadores.

Se quiser vê-lo a olho nu, provavelmente precisa de um telescópio de 30-40 cm de largura, mas é mais do que possível.

 

Explicou Onken.

Foi submetido à revista Publications of the Astronomical Society of Australia um artigo que detalha a descoberta, mas ainda não foi revisto pelos pares. Uma versão pré-impressa está disponível através da base de dados da arXiv.

Pplware
Autor: Vítor M
18 Jun 2022


 

1230: A teia cósmica da Tarântula: astrónomos mapeiam formação estelar em nebulosa fora da nossa Galáxia

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Esta imagem composta mostra a região de formação estelar 30 Doradus, também conhecida por Nebulosa da Tarântula. A imagem de fundo, obtida no infravermelho, é já por si só uma imagem composta: foi capturada pelo instrumento HAWK-I montado no VLT (Very Large Telescope) e pelo VISTA (Visible and Infrared Survey Telescope for Astronomy), ambos do ESO, e mostra estrelas brilhantes e nuvens cor de rosa claras de gás quente. Os traços brilhantes vermelhos/amarelos que estão sobrepostos na imagem vêm das observações rádio obtidas pelo ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array) e revelam regiões de gás denso e frio, com o potencial de colapsar e formar novas estrelas. Foi a estrutura em teia muito característica das nuvens de gás que levou os astrónomos a dar a esta nebulosa o nome de tarântula.
Crédito: ESO, ALMA (ESO/NAOJ/NRAO)/Wong et al., ESO/M.-R. Cioni/VISTA Magellanic Cloud survey; reconhecimento – Cambridge Astronomical Survey Unit

Com o auxílio do ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array), os astrónomos revelaram detalhes intrincados de 30 Doradus, uma região de formação estelar também conhecida por Nebulosa da Tarântula. Numa imagem de alta resolução divulgada anteontem pelo ESO (Observatório Europeu do Sul), que inclui dados ALMA, vemos a nebulosa numa nova luz, com nuvens de gás que nos mostram como é que as estrelas massivas dão forma a esta região.

“Estes fragmentos podem ser os restos de nuvens, anteriormente grandes e que foram despedaçadas pelas enormes energias emitidas por estrelas jovens massivas, num processo a que chamamos feedback,” disse Tony Wong, que liderou o trabalho de investigação sobre 30 Doradus apresentado no Encontro da Sociedade Astronómica Americana e publicado na revista da especialidade The Astrophysical Journal.

Os astrónomos pensavam inicialmente que o gás existente nestas regiões estivesse demasiado disperso e sobrecarregado por este feedback turbulento para que a gravidade o conseguisse aglomerar para formar novas estrelas. No entanto, os novos dados revelaram também filamentos muito densos onde o papel da gravidade é significativo.

“Os nossos resultados mostram que, até na presença de feedbacks muito fortes, a gravidade consegue exercer uma influência forte, permitindo a continuação da formação estelar,” acrescenta Wong, professor da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, EUA.

Situada na Grande Nuvem de Magalhães, uma galáxia satélite da nossa própria Via Láctea, a Nebulosa da Tarântula é uma das regiões de formação estelar mais brilhantes e activas da nossa vizinhança galáctica, a cerca de 170.000 anos-luz de distância da Terra.

No seu coração encontram-se algumas das estrelas mais massivas conhecidas, algumas com mais de 150 vezes a massa do nosso Sol, o que faz desta região o local ideal para estudar como é que as nuvens de gás colapsam sob a acção da gravidade para formar novas estrelas.

“O que torna 30 Doradus única é o facto de se encontrar suficientemente perto de nós para podermos estudar com todo o detalhe como é que as estrelas se formam e, no entanto, as suas propriedades são semelhantes àquelas encontradas em galáxias muito distantes, quando o Universo era jovem,” explica Guido De Marchi, cientista na Agência Espacial Europeia (ESA) e co-autor do artigo que apresenta estes resultados.

“Graças a 30 Doradus, podemos estudar como é que as estrelas se formavam há 10 mil milhões de anos atrás, na época em que nasceram a maioria das estrelas do Universo.”

Apesar da maior parte dos estudos anteriores relativos à Nebulosa da Tarântula se terem focado essencialmente em regiões do seu centro, os astrónomos já sabiam desde há muito que a formação de estrelas massivas ocorre também noutros lados. Para compreender melhor este processo, a equipa levou a cabo observações de alta resolução que cobrem uma grande região da nebulosa.

Com o auxílio do ALMA, os investigadores fizeram medições da emissão de monóxido de carbono gasoso, conseguindo assim mapear as enormes nuvens de gás frio da nebulosa que colapsam para dar origem a novas estrelas — e observar como é que se vão modificando à medida que enormes quantidades de energia vão sendo libertadas por essas novas estrelas.

“Estávamos à espera de descobrir que as partes da nebulosa mais próximas das estrelas jovens massivas mostrassem os sinais mais claros da gravidade a ser ultrapassada pelo feedback,” disse Wong. “Em vez disso, descobrimos que a gravidade continua a desempenhar um papel importante mesmo nas regiões da nebulosa que estão muito expostas ao feedback — pelo menos nas partes suficientemente densas.”

Na imagem divulgada pelo ESO, vemos os novos dados ALMA sobrepostos a uma imagem infravermelha da mesma região que mostra estrelas brilhantes e nuvens de gás quente cor-de rosa claras, obtida anteriormente com o VLT (Very Large Telescope) e o VISTA (Visible and Infrared Survey Telescope for Astronomy), ambos do ESO.

A imagem composta mostra uma forma distinta de teia nas nuvens de gás da Nebulosa da Tarântula, o que deu precisamente origem ao seu nome. Os novos dados ALMA correspondem aos traços brilhantes vermelhos e amarelos que vemos na imagem: gás denso muito frio que pode um dia colapsar e formar estrelas.

A nova investigação dá-nos pistas importantes sobre como é que a gravidade se comporta nas regiões de formação estelar da Nebulosa da Tarântula, no entanto o trabalho está longe de chegar ao fim. “Há ainda muito trabalho a fazer com este conjunto de dados e é por isso mesmo que estamos a divulgá-lo publicamente de modo a que outros investigadores possam levar a cabo os seus próprios estudos,” conclui Wong.

Astronomia On-line
17 de Junho de 2022


 

1229: Cientistas, à caça de fósseis da formação planetária, revelam excentricidades inesperadas em disco de detritos próximo

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Ao estudar pela primeira vez HD 53143 – uma estrela semelhante ao Sol com cerca de mil milhões de anos – em comprimentos de onda milimétricos, os cientistas descobriram que o disco de detritos da estrela é altamente excêntrico. Ao contrário dos discos de detritos em forma de anel, em que a estrela se situa no centro, HD 53143 está localizada num foco de um disco em forma elíptica e é mostrado como o ponto não resolvido abaixo e à esquerda do centro. Os cientistas pensam que um segundo ponto não resolvido no norte desta imagem é um planeta que está a perturbar e a moldar o disco de detritos.
Crédito: ALMA (ESO/NAOJ/NRAO)/M. MacGregor (U. Colorado, Boulder); S. Dagnello (NRAO/AUI/NSF)

Usando o ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array), os astrónomos fotografaram pela primeira vez o disco de detritos da estrela vizinha HD 53143 em comprimentos de onda milimétricos, e não se parece nada com o que esperavam.

Com base em dados iniciais coronográficos, os cientistas esperavam que o ALMA confirmasse o disco de detritos como um anel visto de face, salpicado por amontoados de poeira. Em vez disso, as observações tomaram um rumo surpreendente, revelando o disco de detritos mais complicado e excêntrico observado.

As observações foram apresentadas numa conferência de imprensa na 240.ª reunião da Sociedade Astronómica Americana em Pasadena, no estado norte-americano da Califórnia. Serão publicadas numa próxima edição da revista The Astrophysical Journal Letters.

HD 53143 – uma estrela semelhante ao Sol com cerca de mil milhões de anos, localizada a 59,8 anos-luz da Terra na direcção da constelação de Carina – foi observada pela primeira vez em 2006 com o instrumento ACS (Advanced Camera for Surveys) do Telescópio Espacial Hubble.

À sua volta também existe um disco de detritos – uma cintura de cometas que orbita uma estrela colidindo constantemente e “moendo” em poeira mais pequena e detritos – que os cientistas pensavam anteriormente ser um anel visto de face semelhante ao disco de detritos que rodeia o nosso Sol, mais vulgarmente conhecido como Cintura de Kuiper.

As novas observações ALMA de HD 53143, utilizando os seus receptores altamente sensíveis de Banda 6, revelaram que o disco de detritos do sistema estelar é altamente excêntrico. Em discos de detritos com a forma de anel, a estrela está tipicamente localizada no centro do disco ou perto dele. Mas em discos excêntricos, de forma elíptica, a estrela reside num dos focos da elipse, distante do centro do disco.

É o caso de HD 53143, que não tinha sido observada em estudos coronográficos anteriores, porque os coronógrafos bloqueiam propositadamente a luz de uma estrela para ver mais claramente os objectos próximos. O sistema estelar também pode estar a abrigar um segundo disco e pelo menos um planeta.

“Até agora, os cientistas nunca tinham visto um disco de detritos com uma estrutura tão complicada. Para além de ser uma elipse com uma estrela num foco, também tem provavelmente um segundo disco interior desalinhado ou inclinado em relação ao disco exterior,” disse Meredith MacGregor, professora assistente no CASA (Center for Astrophysics and Space Astronomy) e Departamento de Astrofísica e Ciências Planetárias da Universidade do Colorado, Boulder, autora principal do estudo. “A fim de produzir esta estrutura, deve haver um planeta ou planetas no sistema que estejam a perturbar gravitacionalmente o material no disco.”

Este nível de excentricidade, disse MacGregor, torna HD 53143 o disco de detritos mais excêntrico observado até à data, sendo duas vezes mais excêntrico do que o disco de Fomalhaut, que MacGregor fotografou completamente em comprimentos de onda milimétricos usando o ALMA em 2017.

“Até agora, não encontrámos muitos discos com uma excentricidade significativa. Em geral, não esperamos que os discos sejam muito excêntricos, a menos que algo, como um planeta, os esteja a esculpir e a forçar com que sejam excêntricos. Sem essa força, as órbitas tendem a tornar-se circulares, como vemos no nosso Sistema Solar.”

MacGregor salienta que os discos de detritos não são apenas colecções de poeira e rochas no espaço. São um registo histórico da formação planetária e de como os sistemas planetários evoluem. E fornecem uma espreitadela ao seu futuro. “Não podemos estudar directamente a formação da Terra e do Sistema Solar, mas podemos estudar outros sistemas que parecem semelhantes ao nosso.

É um pouco como olhar para trás no tempo”, disse. “Os discos de detritos são o registo fóssil da formação planetária e este novo resultado é a confirmação de que há muito mais a aprender com estes sistemas e de que o conhecimento pode proporcionar um vislumbre da complicada dinâmica dos jovens sistemas estelares semelhantes ao nosso Sistema Solar.”

O Dr. Joe Pesce, oficial do programa ALMA na NSF, acrescentou: “Estamos a encontrar planetas para onde quer que olhemos e estes resultados fabulosos do ALMA estão a mostrar-nos como se formam – tanto os que estão à volta de outras estrelas como no nosso próprio Sistema Solar. Esta investigação demonstra como a astronomia funciona e como se faz progresso, informando não só o que sabemos sobre o campo, mas também sobre nós próprios.”

Astronomia On-line
17 de Junho de 2022


 

1226: Astrónomos descobriram 2 super-terras em órbita de uma estrela próxima

CIÊNCIA/ASTRONOMIA/ASTROBIOLOGIA

Haveremos de encontrar um planeta que possa albergar vida, se não a tiver já. Bom, esta é uma esperança, apesar de não haver nada que nos diga que isso é possível. Contudo, os astrónomos continuam na sua senda de descobertas. Desta vez foram encontrados dois novos mundos, duas super-terras de provável abundância mineral rochosa. Estes planetas foram encontrados em órbita de uma estrela próxima do nosso próprio bairro cósmico.

Os dois exoplanetas recentemente descobertos são maiores que a Terra, mas menores que um gigante do gelo. Eles orbitam orbitando uma estrela anã vermelha fresca.

Exoplanetas: “Lá em cima… há um mundo sem fim…”

Embora seja improvável que estes mundos sejam habitáveis, dada a nossa actual compreensão da vida, a estrela e os seus exoplanetas estão entre os sistemas multi-mundos mais próximos da Terra. Estes planetas foram descobertos quando passaram na frente da sua estrela (em relação ao nosso planeta), uma anã vermelha fresca chamada HD 260655, que está apenas a 33 anos-luz de distância.

Isto faz com que seja um excelente alvo para as pesquisas de seguimento para tentar compreender de que são feitos os exoplanetas, e para avaliar as suas atmosferas – um esforço que ajudará a nossa procura de vida extraterrestre, mesmo que os dois mundos se revelem incapazes de a acolher eles próprios.

Ambos os planetas neste sistema são cada um considerado entre os melhores alvos de estudo atmosférico devido ao brilho da sua estrela.

Haverá uma atmosfera rica em voláteis em torno destes planetas? E há sinais de espécies à base de água ou de carbono? Estes planetas são bancos de ensaio fantásticos para essas explorações.

Disse a astrónoma Michelle Kunimoto do Instituto Kavli do MIT para a Astrofísica e Investigação Espacial.

Há muitas super-terras “conhecidas” na nossa galáxia

Até à data, mais de 5.000 exoplanetas foram confirmados na Via Láctea, e os astro-biólogos estão profundamente interessados em encontrar mundos terrestres, ou rochosos, como Terra, Vénus, e Marte.

Temos uma amostra do tamanho de exactamente um mundo conhecido por acolher vida – o nosso – pelo que encontrar planetas semelhantes à Terra em tamanho e composição é um dos principais critérios na procura de vida noutros locais da galáxia.

Os exoplanetas rochosos, contudo, são relativamente pequenos tanto em tamanho como em massa, o que os torna mais difíceis de detectar. A maioria dos exoplanetas que temos conseguido medir até à data tendem a cair na categoria dos gigantes. Mundos rochosos – e melhor ainda, os mundos rochosos próximos – são muito procurados.

Os dois mundos em órbita da HD 260655 – chamados HD 260655 b e HD 260655 c – foram descobertos porque passam entre nós e a sua estrela durante a sua órbita. As fracas quedas em luz estelar devidas a estes trânsitos exoplanetários foram registadas pelo telescópio de caça ao exoplaneta TESS da NASA, concebido para detectar exactamente tais fenómenos.

Quando a astrónoma detectou estes mergulhos de trânsito nos dados do TESS, o passo seguinte foi verificar se a estrela tinha aparecido em sondagens anteriores – e tinha aparecido.

O Espectrómetro Echelle de Alta Resolução no Telescópio Keck (agora conhecido como ANDES) tinha dados disponíveis publicamente desde 1998. Outro espectrómetro, CARMENES no Observatório Calar Alto, em Espanha, também tinha registado a estrela. Isto faz uma enorme diferença para a ciência que estuda os exoplanetas.

Os dados espectrográficos podem revelar se uma estrela está ou não em movimento no local.

Planetas que em poucos dias “contabilizam” um ano

Entre os dados TESS e os dados de HIRES e CARMENES, a equipa pôde confirmar que dois exoplanetas estavam em órbita HD 260655. Além disso, com ambos os conjuntos de dados, a equipa conseguiu compilar um perfil abrangente dos dois exoplanetas.

O exoplaneta interior, HD 260655 b, tem cerca de 1,2 vezes o tamanho da Terra e o dobro da massa da Terra, e orbita a estrela a cada 2,8 dias. O mundo exterior, HD 260655 c, é 1,5 vezes o tamanho e três vezes a massa da Terra, e tem uma órbita de 5,7 dias.

Nesses tamanhos e massas, as suas densidades sugerem que os dois exoplanetas são provavelmente mundos rochosos.

Infelizmente, ainda que a estrela seja mais fria e mais fraca do que o Sol, a proximidade dos planetas ao HD 260655 significa que os mundos seriam demasiado quentes para a vida como a conhecemos. O HD 260655 b tem uma temperatura média de 435 graus Celsius, e o HD 260655 c é mais suave, mas ainda assim ardente 284 graus Celsius.

Pplware
Autor: Vítor M
16 Jun 2022