1323: O despertar do Ocidente

OPINIÃO

Numa das minhas crónicas anteriores sinalizava o nascimento de uma nova ordem mundial. Nesse momento os sinais dessa nova ordem mundial eram ainda ténues, mas havia já indícios de que o dia 24 de Fevereiro tinha alterado, profundamente, a geopolítica mundial. Hoje, isso parece ser uma realidade inquestionável.

Até ao começo da barbárie russa na Ucrânia, o Ocidente esteve enganado sobre Moscovo.

Como escreve David Satter no livro Quanto menos soubermos, melhor dormimos “desde que Putin assumiu o poder, o Ocidente manteve uma imagem da Rússia sem nenhuma relação com a realidade”. Acreditava que a Rússia estava numa trajectória de participação sincera no concerto das Nações, comercializando as suas matérias-primas, procurando desenvolver a sua sociedade, desempenhando o seu papel na economia mundial.

O começo da guerra fez passar para segundo plano o primado do desenvolvimento harmonioso das Nações. A guerra tornou-se a prioridade. O que temos assistido até agora é a disrupção dos circuitos do comércio mundial.

As sanções ocidentais, justamente aplicadas como instrumento condicionante das aspirações imperialistas de Putin, estão a contribuir para desregular o equilíbrio que existia na sensível malha da globalização. Que, convenhamos, está a correr sérios riscos. Em maio de 2022, em relação a maio de 2021, as exportações para a Rússia dos países que aderiram às sanções caíram 60% e as exportações dos países que não aderiram caíram 40%.

Isto inclui a China que viu diminuir, consideravelmente, as suas exportações para a Rússia. A juntar a isto a Europa, primeiro consumidor dos produtos chineses, olha com desconfiança a sua dependência do mercado chinês. Não parece ser saudável para as democracias a excessiva dependência de regimes autocratas!

Para além dos perigos que a guerra introduziu na malha sistémica da globalização, há um novo alinhamento na geografia política mundial. O mais significativo sinal disso é o crescimento da NATO e a entrada das neutrais Suécia e Finlândia na lógica de uma possível confrontação com Moscovo. O que Putin pensava ser um passeio sem complicações até Kiev foi a semente de uma nova ordem mundial.

Os países ocidentais fazem agora contas ao seu PIB para alcançar os 2% dedicados aos orçamentos da guerra. Claro que isto prejudica as agendas ambiental, social, do desenvolvimento económico. O que se gasta na guerra não se gasta em educação, em investimento produtivo, em ferramentas na defesa do ambiente. Façam favor de agradecer a Putin!

No plano da geo-estratégia estão a desenhar-se, mais nitidamente, dois blocos. A NATO, alinhada à Europa fez da Rússia o seu inimigo principal. O novo Conceito Estratégico da NATO faz subir para 300 mil o número de homens em prontidão para qualquer eventualidade.

O Ocidente tem um olho na Rússia, mas vai também olhando de soslaio para a China. Do G7 fala-se já do G12, que na lógica da prevenção de um conflito com a China incluem alguns “tigres asiáticos” entre eles a Austrália, Nova Zelândia, Coreia do Sul e Japão.

E, nesta lógica, os países do G7 dedicaram a verba de 600 biliões de dólares como contraponto à iniciativa chinesa da Nova Rota da Seda. Vejam, portanto, onde já vai a harmonia entre Estados e a desconfiança que está a gerar-se. Agradeçam, se faz favor, ao sr. Putin.

Entretanto a guerra vai continuar. Provavelmente, por muito e maus anos. O presidente Macron deve estar arrependido de se preocupar tanto com a humilhação de Putin quando este, há escassos dias, lhe respondeu que preferia ir jogar hóquei no gelo do que reunir-se com Macron e Biden para acabar com a guerra. De humilhações estamos pois conversados!

Há, assim, sinais mais palpáveis do surgimento de uma nova ordem mundial. Não é por acaso que Putin resolve promover uma reunião dos BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) para contrapor a um Ocidente mais prevenido, mais vigilante, mais preocupado em manter unidas as suas hostes.

Pouco a pouco vai-se desenhando uma nova ordem mundial. Que é mais disruptiva, mais perigosa, mais beligerante, menos global, menos diplomática. Nesta nova ordem mundial o Ocidente despertou. E quem lhe abriu os olhos foi Putin!

Jornalista

Diário de Notícias
António Capinha
01 Julho 2022 — 00:07

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O ‘partenaire’

OPINIÃO

Dmitry Medvedev disse, recentemente, que o projecto de Putin ” é criar uma Eurásia aberta – de Lisboa a Vladivostok.” Medvedev tem sido o partenaire de Putin, uma espécie de “alternante” no exercício e distribuição do poder em Moscovo. É primeiro-ministro, quando Putin é Presidente e é Presidente quando Putin é uma outra coisa qualquer. E é, naturalmente, um oligarca, riquíssimo, entre outros tantos que proliferam no Kremlin.

Embora a Euroásia seja um projecto comercial, não deixa de ser um desplante a declaração de Medvedev, num momento em que ao mundo chegam notícias da barbárie e dos massacres praticados pelo exército de Putin, em Bucha.

Com notícia da eventual presença de elementos militares chechenos e mercenários da Wagner em Bucha, as tropas de Putin deixaram um rasto de violação das mais elementares regras dos códigos de ética da guerra. Violações, execuções sumárias, ataques a civis indefesos, civis abatidos à queima-roupa, a morte andou por ali com “carta branca”, onde não faltaram os saques e o roubo de todo o tipo de bens. Foi um fartar vilanagem!

Descansem os que, no universo do comentário e das redes sociais, “pedem uma investigação independente”. Sim, descansem, haverá uma investigação do Tribunal Penal Internacional, as provas serão recolhidas, os criminosos identificados e levados à barra da Justiça mundial, logo que isso seja possível.

Apesar das evidências que todos os dias nos entram pela casa dentro, nas televisões, os que, como o PCP, duvidam dos crimes de guerra, seguindo a narrativa orwelliana de Putin, esquecem que esta é a agressão mais escrutinada de sempre. As provas do comportamento criminoso do exército de Putin são recolhidas em tempo real, e colocadas nas redes sociais. A família, os vizinhos, os amigos, os cidadãos, fotografam e fazem vídeos do exercício do terror.

O que, diariamente, constatamos no conforto das nossas casas, nos trabalhos dos enviados especiais dos meios de comunicação social, nos depoimentos recolhidos, no registo dos satélites, trazem até nós a realidade do que é o modus operandi de Putin, o que aliás não constitui novidade. Lá longe, há tempos, ouvimos falar da destruição de Alepo, da violação dos direitos humanos em Grozny, na Chechénia. A metodologia de guerra aplicada na Ucrânia é a mesma e já, sobejamente, conhecida. Não há aqui qualquer novidade. Há uma coerência do terror!

Perante tudo isto chega-nos pois essa “galvanizante” proposta de uma “Euroásia de Lisboa a Vladivostok”. Calculo o que possam pensar alguns dos povos que ficam na trajectória desta Euroásia de Medvedev. Imagino o que o povo polaco possa pensar disto, eles que conhecem bem o peso da bota soviética. Ou a República Checa que ainda deve ter na memória a entrada dos tanques soviéticos em Praga.

Ou, ainda, os que viveram na Alemanha Oriental e em Berlim Oriental fechados em muros, que durante décadas sentiram a escassez de bens essenciais, sem liberdades e sob um regime fortemente militarizado. Talvez toda esta gente fique com um arrepio na espinha ao pensar no projecto Euroásia do partenaire Medvedev, mesmo de configuração comercial.

Não sei o que a Europa terá a dizer a tudo isto, mas tenho a ideia de que a melhor maneira de acabar com as veleidades dos projectos Euroásia e quejandos, sejam eles comerciais ou militares, é travar o imperialismo de Putin na Ucrânia. E fazê-lo de uma forma definitiva, assertiva. A Europa e os Estados Unidos têm de “gelar” economicamente Putin.

A maneira de o fazer é terminar com todas as importações de gás, carvão e petróleo, e acabar com o financiamento diário de cerca de 800 milhões de dólares que têm alimentado a máquina de guerra de Putin. A Alemanha e a Áustria, países mais atingidos pela suspensão do gás russo, terão de fazer sacrifícios. O que aconteceu em Bucha e o que, provavelmente, vamos constatar, dentro de dias, em Borodyanka e em Mariupol, mais do justifica a redução de 1% a 3 % por cento do PIB alemão que se perderá pelo fim das importações de gás, petróleo e carvão, da Rússia.

Pelo que disse Medvedev, percebe-se bem o que vai na cabeça de Putin e dos que o rodeiam. Travá-los, a eles e às suas ambições, vai ser uma das principais tarefas dos que defendem a liberdade e os valores civilizacionais do Ocidente. E, neste objectivo, a União Europeia não pode deixar de ser a lanterna que vai à frente.

Jornalista

Diário de Notícias
António Capinha
08 Abril 2022 — 01:13


Pelas vítimas do genocídio praticado
pela União Soviética na Ucrânia



 

752: Esboço de paz e jogo de sombras chinesas na Ucrânia

OPINIÃO

Se o esboço de paz para a Ucrânia que está em cima da mesa vier a tornar-se realidade, isso deve-se sobretudo à tenacidade do exército e do povo ucranianos, que não hesitaram em pegar em armas para defender o seu país.

Tivesse Putin conquistado, rapidamente e sem resistência, as cidades que planeara subjugar e a paz seria uma mera figura de estilo.

Assim, confirma-se o princípio de que “se queres a paz faz a guerra”. A resposta que o mundo ocidental deu à barbárie de Putin tem sido um elemento vital para mostrar à oligarquia de Moscovo o caminho em direcção à mesa de negociações. A NATO e a União Europeia disponibilizaram de imediato o apoio militar (possível) e político necessário para a defesa dos ucranianos e para tentar parar as veleidades de Putin, que tem sentido, ele e os seus correligionários e oligarcas, o peso das sanções.

Mal preparado, desmotivado e com um planeamento tosco, o exército de Putin tem sido travado à entrada de quase todas a cidades, sem as conquistar e, em desespero de causa, bombardeado alvos civis, hospitais, escolas, centros logísticos, num exercício de guerra suja. Com isto, Putin já tem “à perna” o Tribunal Internacional de Haia, podendo vir a ser acusado de crimes de guerra. Ele e os que o apoiam nesta loucura.

Entretanto a China tem-se mantido no “arame do equilibrista”, procurando apoiar Putin, discretamente, tentando não beliscar a sua postura de neutralidade. Não tem sido fácil!

Wang Li, ministro dos Negócios Estrangeiros da China, tanto fala da cooperação “sólida como uma rocha ” com a Rússia como vem pedir “contenção” no teatro da guerra, sublinhando, por fim, que “a China não faz parte da crise ucraniana e ainda menos quer ser afectada pelas sanções”.

Amarrada a um acordo rubricado entre Xi Jinping e Putin, em várias áreas, onde assume particular relevância o contrato assinado por um período de 30 anos, entre a Gazprom e a TNBT chinesa, para o fornecimento de 10 mil milhões de metros cúbicos de gás a preço de saldo, a China procura dar o apoio político possível à Rússia, sem irritar os Estados Unidos e os seus parceiros.

Um apoio mais robusto de Pequim a Moscovo, nomeadamente, de armamento militar, correria o risco de desencadear sanções de que a China foge como o diabo da cruz. A globalização é um instrumento vital para a saúde financeira chinesa e qualquer gesto que rompesse a malha mundial dos circuitos comerciais seria um desastre para a China.

Convenhamos que Pequim não está confortável com os métodos utilizados por Putin. A supremacia chinesa exerce-se através de ferramentas económicas, de ocupação de pontos logísticos, da aquisição de activos estratégicos internacionais e não com a metralha das Kalashnikov.

Contudo, muito em breve, a Rússia estará falida. O seu “porto de abrigo” terão de ser os BRICS. A Índia já se disponibilizou para comprar petróleo a Moscovo. No final desta triste aventura é bem possível que venha a verificar-se uma espécie de resgate chinês à Rússia. Com as portas do Ocidente fechadas, a Rússia não terá outra alternativa que não seja correr a abrigar-se nos países que lhe são, ideologicamente, próximos. E a China, com o seu poder financeiro, é o que está mais bem colocado para receber a Rússia, retirando daí dividendos, naturalmente.

Por agora, finalmente, começa a falar-se com alguma solidez de paz e da quase certeza de a Ucrânia continuar a sua trajectória de país independente.

Para além das questões ideológicas seria bom que a China desse um contributo para se encontrar, com urgência, uma solução de paz. Pode fazê-lo com o ascendente e com os argumentos financeiros que agora tem sobre a Rússia, levando-a à sensatez de um entendimento com a Ucrânia. Já chega de caos e entropia, que Putin provocou ao mundo. Após uma pandemia que deixou o planeta desregulado e, economicamente, mais fragilizado, o Kremlin não teve melhor ideia do que invadir um país soberano e iniciar uma guerra perigosa e de consequências económicas desastrosas.

Se a China preserva o equilíbrio dos circuitos financeiros e quer manter estável a globalização, o melhor que tem a fazer é assumir uma posição em defesa da paz, inibindo-se de fornecer armas ou outros instrumentos de agressão contra o povo ucraniano.

Um exercício de realpolitik expresso numa aproximação da China aos Estados Unidos, para salvar a economia mundial, seria bem recebida por toda a humanidade.
Se a China não o fizer estará a colocar-se do lado errado da história.

Jornalista

Diário de Notícias
António Capinha
18 Março 2022 — 00:13

 



 

706: Nas três frentes da guerra, Putin meteu-se numa camisa-de-onze-varas

OPINIÃO

Reafirmando a sua parceria com a Rússia, a China já está a tentar mediar o conflito na Ucrânia conforme sobressai das declarações de Wang Yi, responsável máximo da Relações Externas chinesas.

Não demorou, assim, muito tempo, até se desenhar uma agenda de trabalho para as negociações que tiveram lugar quinta-feira (10 de Março) e se vão prolongar no futuro.

Zelensky deixou cair a pretensão ucraniana de fazer parte do bloco da NATO. Atitude inteligente de quem, futuramente, depois de estabelecida a paz, pode receber, discretamente, as armas que vierem a ser fornecidas pelo Ocidente, seja dos Estados Unidos, seja da União Europeia e construir, no futuro, umas forças armadas modernas e bem preparadas “para o que der e vier”.

Do lado russo a preocupação vai para o reconhecimento da independência/autonomia da Crimeia e das repúblicas do Donbass. Veremos, na narrativa da paz, que solução vai ter o problema do acesso da Ucrânia ao mar Negro, que Putin quer impedir com a agressão a Odessa.

Temos, assim, a guerra a desenvolver-se em três frentes. Em primeiro lugar a “guerra” das negociações com as partes a quererem conquistar o maior número de vantagens, com Putin a ter de enfrentar a pressão chinesa para que seja obtida uma solução de paz. Depois, a guerra da economia com a Rússia a sofrer penalizações graves devido à dureza das sanções aplicadas.

Os Estados Unidos e o Reino Unido foram rápidos ao impedir o acesso do petróleo e do gás russos aos seus portos. Não é muito, mas ajuda. Os Estados Unidos, por exemplo, importaram da Rússia, em 2021, 225 milhões de barris de petróleo russo, equivalente a 8% do valor do total do seu consumo de petróleo.

A União Europeia prepara com urgência um road map de medidas destinadas a diminuir, ou mesmo anular, a dependência europeia do gás e do petróleos russos.

A Europa espera reduzir a importação de gás russo em 70% e 100 mil milhões de metros cúbicos, até ao final do ano. Um “murro no estômago” da economia russa que terá sérias repercussões no futuro.

Entretanto, as sanções têm atingido, profundamente, o coração financeiro da Rússia. A Fitch baixou o rating do país e admitiu estar iminente a situação de incumprimento por parte da Rússia em relação aos seus compromissos financeiros. A falência, portanto!

Em Moscovo a circulação de capitais deixou de se fazer, o que é um dos mais preocupantes sinais de destruição da economia de um país.

São inúmeras as empresas internacionais a sair da Rússia (cerca de 120) deixando atrás de si um cenário de desemprego e pobreza para o povo russo. Trinta por cento do PIB mundial deixou de vender para a Rússia. Imaginemos pois as consequências dessa situação.

Com a situação social a degradar-se, velozmente, Putin continua a opressão do povo russo. Segundo dados da OVD-Info (projecto media russo dos direitos humanos), o número total de detidos atinge já os 12 mil. Apesar das duras medidas de repressão é crescente a tendência de protesto em todas as cidades russas.

Finalmente, na terceira componente da guerra, a frente militar no terreno, as tropas russas não conseguem progredir e esbarram com a resistência tenaz das heróicas forças ucranianas e com a força anímica do seu povo.

Seja por razões de uma logística mal preparada seja pela incapacidade pura e simples de evoluírem no terreno, as forças russas fizeram do crime de guerra a sua prática diária, bombardeando escolas, hospitais, zonas residenciais, matando civis indefesos, crianças, numa prática de carpet bombing já sobejamente experimentada por Putin em Grozny, na Chechénia, e na Síria onde, entre 2015 e 2017, o Observatório dos Direitos Humanos registou a morte de 5700 civis.

Nas três frentes de guerra – negociações, economia e no terreno – é possível que Putin venha a vencer esta última. Mas vai, seguramente, perder a guerra financeira, com uma Rússia que ficará mais pobre, mais isolada do mundo, mais enfraquecida, com o estigma de ter lançado uma guerra cruel e inútil que acabou com importantes equilíbrios mundiais construídos pacientemente, desde a Segunda Guerra Mundial. Nunca mais a esmagadora maioria dos países desenvolvidos vão confiar em Putin.

E, ainda que a agenda das negociações lhe possa vir a ser favorável, Putin vai perder a paz no território ucraniano. O povo ucraniano já mostrou ao mundo que em circunstâncias nenhumas desistirá no seu país e da sua liberdade.

Nas três frentes da guerra, Putin meteu-se numa camisa-de-onze-varas.

Jornalista

Diário de Notícias
António Capinha
11 Março 2022 — 00:19



 

675: Putin e a nova ordem mundial

OPINIÃO

A chegada de uma nova ordem mundial e de um realinhamento entre a Rússia e a China já se antevia na reunião do dia 4 de Fevereiro que juntou Putin e Xi Jinping.

Nesse encontro, foi decidido que “não havia limites” ao relacionamento entre a China e a Rússia. Os dois países comprometiam-se a conseguir uma “alta qualidade” nos domínios da cooperação na agricultura, na economia, na saúde e o incremento das exportações russas para a China particularmente do petróleo e do gás. E não faltou mesmo o desejo expresso de ambos os países construírem uma plataforma de transferências interbancárias alternativa ao SWIFT (engloba 11 mil bancos e 42 milhões de mensagens diárias), baseada na moeda chinesa, o remimbi.

No dia 24 de Fevereiro, após ter mentido a todo o mundo, Putin invadiu a Ucrânia. O seu gigantesco exército, reconstruido com o dinheiro das exportações do petróleo e do gás para o Ocidente e assente num enorme mealheiro de 600 mil milhões de dólares, entrou num país soberano e com um profundo sentimento de nação livre e democrática.

Contudo as coisas não têm corrido bem a Putin. Os seus tanques, os seus grads, rockets lançados a partir de veículos, os seus smerchs, munições de fragmentação que rebentam mais tarde, não estão a conseguir vencer a tenacidade de um povo que tem o seu expoente máximo em Zelensky, hoje uma figura de dimensão mundial, símbolo da aspiração de um povo a um mundo livre e democrático, e com uma popularidade de 91% dos ucranianos de acordo com o estudo da Rating Sociological.

Putin acordou o mundo ocidental com a sua agenda imperialista e empedernida em conceitos Estalinistas mais que ultrapassados. Conseguiu o quase impossível, a unidade dos países europeus, e o fim da neutralidade da Suíça, que se juntou à União Europeia e aos Estados Unidos na aplicação de sanções. E, até, a discreta Noruega enviou armas à Ucrânia quebrando a sua neutralidade desde os anos 1950.

Putin é hoje um homem praticamente só no contexto internacional. É a materialização do que de pior existe na humanidade. Não entendeu que o concerto das nações não quer guerras. A agenda mundial dá hoje prioridade à preservação do planeta, ao desenvolvimento de energias alternativas, a novas formas de organização económica que deem espaço ao combate à pobreza, em vez de gastar o dinheiro em artefactos militares.

E mesmo que as suas tropas ocupem a Ucrânia, Putin vai ficar com problemas para o futuro. É muito provável que um governo ucraniano no exílio venha a fazer-lhe a vida negra com um exército ucraniano na clandestinidade que, juntamente com uma população armada, transformará a Ucrânia num novo Afeganistão de malha urbana onde Putin partirá os dentes.

Isolado, internacionalmente, Putin tem a sua retaguarda desguarnecida. Há manifestações contra a guerra por toda a Rússia. Seis mil russos foram presos por se manifestarem. Dentro de algum tempo a sua economia estará fragilizada. O rublo desvaloriza diariamente, os bancos, como o Sverbanke Europa, vão à falência. A população corre para os bancos a levantar as suas poupanças, e a importante empresa Gazprom vê sair do seu corpo de accionistas empresas ocidentais tão poderosas como a Sheel ou a BP.

Com as suas reservas de moeda estrangeira congeladas, o Banco Central da Rússia é hoje obrigado a subir as taxas de juro provocando inflação e aumento de custo de vida para a população russa.

Para o futuro, Putin vai ter de enfrentar uma NATO em alerta e uma União Europeia que vai reforçar os seus sistemas de defesa, expresso já na atitude alemã de aumentar para mais de 2% a percentagem do PIB a gastar com armamento.

Putin falhou na sua agenda belicista. Não seguiu o exemplo da China que exerce o seu poder através de instrumentos económicos e financeiros, logísticos, e não com botas cardadas. E daí o seu prudente e sábio voto de abstenção no Conselho de Segurança da ONU que analisou a invasão da Ucrânia, distanciando-se assim da Rússia. Putin lançou o caos no equilíbrio financeiro das nações, pondo em perigo o contexto global das trocas comerciais e ameaçando a estabilidade dos mercados de consumo, exportação e importação, da Europa e dos Estados Unidos. E isso não interessa à China.

Com as mãos manchadas de sangue do povo ucraniano, que recebe a solidariedade do mundo, Putin é hoje um pária mundial que poderá vir a ser acusado de crimes de guerra.

Não começa bem a nova ordem mundial…!

Jornalista

Diário de Notícias
António Capinha
04 Março 2022 — 00:06