1286: O triunfo da vontade

OPINIÃO

Na semana passada, o The New York Times trazia uma notícia curiosa, quiçá caricata: um arquitecto nova-iorquino cedeu o seu selo profissional e a sua assinatura para três projectos imobiliários colossais, um dos quais um gigantesco prédio em Hudson Yards, com quase 200 metros de altura, outro um hotel nas imediações do Aeroporto La Guardia e, outro, um edifício residencial no Bairro de Queens.

Acontece que o dito arquitecto, de seu nome Warren Schiffman, estava reformado há vários anos e nunca viu sequer as plantas e os desenhos que levavam o seu nome. Quando se aposentou, em 2016, Schiffman assinara um contrato com a firma em que trabalhava, nos termos do qual esta poderia usar a sua assinatura e o seu carimbo sempre que necessitasse, em troca de uma choruda pensão ao ano.

A fraude está agora a ser investigada pelas autoridades da cidade, mas ninguém sabe ao certo quem realmente desenhou e projectou o edifício que agora existe em Hudson Yards e o hotel perto de La Guardia (o prédioem Queens ainda não foi aprovado).

Foi só mais uma notícia das muitas que temos sabido sobre o imobiliário de Nova Iorque, de Londres ou de Paris, um território que, no caso da Big Apple, está cada vez mais reservado não já aos ricos, ou sequer aos muito ricos, mas à nova e emergente classe dos ultra-ricos, pessoas cuja fortuna se conta não por milhões, mas por vários milhares de milhões. Uns falam em bilhões, outros em biliões, mas em qualquer dos casos é muito e muito dinheiro, uma quantidade inimaginável e tremenda de massa.

Em 2014, com a construção do One World Trade Center, o Empire State Building passou a ser o segundo edifício mais alto de Manhattan, mas dentro de dois anos, em 2024, é provável que passe para a 11.ª posição nessa tabela, pois encontram-se em vias de licenciamento, ou já em construção, arranha-céus de bradar aos deuses: 20 dos edifícios que estão a ser erigidos em Manhattan irão figurar entre os 30 mais altos do mundo, o que dá bem a ideia, por um lado, do frenesi construtivo que está a assolar aquela cidade e, por outro, da rapidez com que se está a processar esta fúria da construção a grande altitude.

O que é sintomático não é estar a construir-se a alturas cada vez maiores, mas sim o facto de este fenómeno se processar num curto lapso de tempo, ou seja, de ser uma tendência ou moda recente, mas de efeito retumbante, com marcas irreversíveis.

Dir-se-á que em Manhattan sempre se construiu em grande magnitude e em larga altura, e que sempre houve prédios exclusivos para os ricos e mega-ricos. Sucede, porém, que o que agora se passa, em Nova Iorque e no mundo, ocorre a uma escala e a um ritmo sem precedentes, nunca ocorridos na História.

Para se ter uma ideia, existem 3,7 mil milhões de metros quadrados licenciados em Nova Iorque, o que daria para erguer na cidade qualquer coisa como 1300 edifícios do tamanho do Empire State Building… caso para dizer que a ilha de Manhattan é grande, mas não assim tanto.

E o que mais espanta e confrange é que a maioria das novas torres, apropriadamente denominadas supertall, têm apartamentos esplendorosos, de três, quatro, cinco pisos, com vistas privilegiadas para a skyline ou para o Central Park, mas que serão escassamente habitados, já que os seus proprietários dormirão lá, na melhor das hipóteses, meia-dúzia de noites por ano.

O mesmo ocorre nos elegantes bairros do centro de Londres, onde as mansões dos oligarcas e dos multimilionários permanecem fechadas durantes meses ou anos a fio, servindo de poiso ocasional para gente ubíqua que, no rigor da palavra, não mora em lado nenhum, pois vive em toda a parte e em jet lag permanente.

O efeito mais notório disto, claro está, é que, com tanta casa encerrada, os endereços mais exclusivos de Londres converteram-se em zonas fantasmagóricas, onde não se vê vivalma à noite: quarteirões e quarteirões com luzes apagadas, uma atmosfera fantasmagórica e aterradora que é bem descrita por Rowland Atkinson em Alpha City – How London was captured by the super-rich (Verso, 2020).

Durante o dia, a coisa ainda é disfarçada pelo movimento dos turistas, incluindo os que fazem os kleptocracy tours, uma ideia piramidal do jornalista de investigação Oliver Bullough, que há pouco publicou um livro notável, Butler of the World (Profile Books, 2022), que, como o subtítulo indica, é um relato assustador do modo como o Reino Unido se converteu num fiel mordomo e num servo obsequioso dos milionários, dos fugitivos ao fisco, dos cleptocratas e dos criminosos do mundo inteiro.

Já antes, Bullough tinha escrito um livro extraordinário, quanto a mim a sua melhor obra, Moneyland, por cá editado com o nome O País do Dinheiro – A história dos super-ricos e corruptos que estão a roubar o mundo e a destruir a democracia.

É espantoso que um livro destes, finalista do Prémio Orwell, considerado “livro do ano” pelo Times, pela Economist, pelo Sunday Times, pelo Daily Telegraph, tenha tido tão pouca repercussão entre nós, uma falha tanto mais lamentável quanto os casos que aí se abordam e denunciam são ilustrativos do mundo e do tempo em que vivemos.

Quem não gostou dele foi o vice-presidente de Angola, Bornino de Sousa, que já processou o jornalista britânico por este ter referido que a sua filha, juntamente com a mãe e umas amigas, se deslocaram propositadamente a Nova Iorque para comprarem vestidos de casamento no valor de 150 mil dólares.

O caso encontra-se agora nas mãos da Justiça portuguesa (Bornino pede uns módicos 750 mil euros de indemnização), mas, entretanto, Bullough continua a dirigir em Londres uma iniciativa curiosa, os “tours da cleptocracia”, em que faz de cicerone pelas mansões dos oligarcas, cleptocratas e outros criminosos de luxo.

Cada vez mais se fala dos efeitos desastrosos da presença dessa gente no Reino Unido, desde logo no plano urbanístico ou quotidiano, pois o que agora está em causa, em Londres e noutras capitais, já não é sequer um processo de “gentrificação”, em que um novo tipo de gente ou de função sucede às anteriores; o que agora ocorre , isso sim, é uma autêntica desvitalização dos melhores e mais centrais bairros das cidades, alvo de uma morte triste, parecida com a que Jane Jacobs detectou no coração das urbes americanas.

Os efeitos, todavia, não se cingem ao urbanismo, sendo muito mais amplos e mais graves. Em Dezembro do ano passado, dois meses antes da invasão da Ucrânia pela Rússia, a Chatham House, um dos mais prestigiados institutos de investigação e think tanks do mundo, publicou um relatório corajoso e devastador, The UK”s kleptocracy problem, fruto de um trabalho de pesquisa de vários anos levado a cabo por uma equipa de académicos de excelência, entre os quais se destaca – orgulho! – o português Ricardo Soares de Oliveira, professor em Oxford e especialista em assuntos africanos. Também aqui o subtítulo diz tudo: “How servicing post-Soviet elites weakens the rule of law“.

Ou seja, este estudo analisa o modo como o poder e o dinheiro das elites da antiga URSS (Rússia, Ucrânia e outras repúblicas) estão a corroer os alicerces da democracia, do sistema judicial e do Estado de Direito na Grã-Bretanha.

O problema não é os oligarcas serem ricos e influentes, gastarem milhões em clubes de futebol, iates ou casas de campo; a questão é outra, mais grave e mais funda, e tem a ver com a inimizade profunda dos ultra-ricos relativamente às mais elementares e saudáveis regras de civilidade e convívio democráticos e aos princípios básicos, como a igualdade perante a lei, a liberdade da imprensa ou a independência dos tribunais.

Um amigo de Putin quer construir um mamarracho em Kensington, fora de todas as regras urbanísticas? Pois uma equipa de advogados, paga a peso de ouro, encontrará formas de descobrir buracos na lei para permitir a façanha e a patranha, ou arranjará forma de mexer os cordelinhos certos junto das entidades camarárias, ou até de pressionar mais alto, se for caso disso. Um jornal ousa publicar uma notícia desfavorável a algum oligarca eslavo?

Outro batalhão de causídicos de luxo sufocará o periódico e o respectivo jornalista com pedidos de indemnizações estratosféricas, que servem de aviso dissuasor para futuras reportagens. A par disso, há a compra de influência política, os milhões gastos em lóbis ou falsas iniciativas caritativas, os donativos feitos às claras ou às escondidas para partidos e grupos de pressão.

Hoje, além de trabalharem para ditadores corruptos de todo o mundo, os maiores arquitectos mundiais são os agentes estéticos do novo capitalismo global, mais injusto e mais desigual, poluído por ultra-ricos sem moral nem escrúpulos.

Não admira, assim, que o inenarrável Boris Johnson tenha tido o desplante de nomear para a Câmara dos Lordes, além de Jo Johnson, o seu próprio irmão (!), um cavalheiro chamado Evgeny Lebedev, filho de um oligarca russo e ex-agente do KGB, dono de dois dos mais importantes jornais britânicos, o Evening Standard e o The Independent. Isto para não falarmos de outro lorde, Greg Barker, que, após ter sido ministro da Energia do governo de David Cameron, foi trabalhar, a 4 milhões de dólares/ano, para a empresa de um oligarca russo, Oleg Deripaska, o “rei do alumínio”, com quem mais outro lorde, desta feita trabalhista, Peter Mandelson, passava férias em Corfu, na companhia de outro político cimeiro, George Osborne, ministro das Finanças de Cameron e figura-chave na angariação de donativos russos para a campanha do Brexit e para o Partido Conservador, o qual, desde 2012 até hoje, recebeu mais de três milhões de libras de dois oligarcas, Lubov Chernukhin e Alexander Temerko, entre outros, em operações que tiveram o seu quê de surreal: Temerko ofereceu um busto de Cameron para a sede do partido, no valor de 50 mil libras; Andrei Borodin, ex-chairman do Banco de Moscovo, deu 40 mil libras por um retrato a óleo da Sr.ª Thatcher; a mulher de um antigo ministro de Putin ofereceu 30 mil libras aos tories em troca de um jantar com o ministro da Defesa em funções (!), Gavin Williamson, seguido de tour pelos Churchill”s War Rooms, além de ter desembolsado 160 mil libras por uma partida de ténis com Boris Johnson e com David Cameron e 135 mil libras por uma soirée com Theresa May. Reino Unido, o criado do mundo.

Estas são apenas pontas de um icebergue colossal, a que poderíamos juntar ex-governantes alemães, austríacos e italianos nos conselhos de administração de grandes empresas russas, malhas de uma teia imensa que só por ingenuidade ou má-fé julgaremos que não chegou até cá.

Alguém acredita mesmo que Portugal ficou incólume ao dinheiro do Kremlin e dos seus oligarcas? E, já agora, foi anunciado, em meados de Março, um inquérito dos Institutos de Registos e Notariado ao processo de atribuição da nacionalidade portuguesa a Abramovich; falou-se então da abertura de um “Procedimento Disciplinar”, sem especificar o número dos funcionários visados. Ao fim de mais de quatro meses, demorará assim tanto a concluir e a anunciar os resultados de um simples inquérito administrativo?

Abramovich, por seu lado, não perdeu tempo e, perante a vergonhosa passividade das autoridades europeias, conseguiu fazer deslizar os seus iates pelo Mediterrâneo fora, até paragens turcas e mais seguras… Um dia, quando se fizer a história desta guerra da Ucrânia, ficaremos boquiabertos com as coisas curiosas que nela ocorreram, a maioria das quais nem sequer suspeitamos…

Na contestação às sanções ocidentais adivinham-se batalhas judiciais sem fim, guerras mais prolongadas do que a do Donbass e, na Europa e nos EUA, já há exércitos de advogados a contestarem as medidas sancionatórias de Washington e de Bruxelas.

Tendemos, porém, a esquecer outra profissão liberal, a dos arquitectos, que ao longo da História têm mantido sempre uma relação estranha, para dizer o mínimo, com o poder e os poderosos, mesmo os mais asquerosos. Em The Edifice Complex, um livro fantástico, saído há um par de anos, Deiyan Sudijc, director do Museu do Design de Londres, descreve as ligações perigosas entre os ditadores, os ultra-ricos e alguns dos mais famosos arquitectos mundiais, actuais e passados.

Em 1957, por exemplo, o rei Faisal contratou Frank Lloyd Wright para desenhar o edifício da Ópera de Bagdad ao estilo do Palácio dos Sovietes de Moscovo, encimado por uma colossal estátua do califa mais importante do Iraque, Harun al-Rashid, neto do fundador da cidade. O projecto não se concretizou, mas seria construída a universidade projectada por outro célebre arquitecto, Walter Gropius.

Também Le Corbusier desenharia um estádio desportivo para o Iraque, edificado só após a sua morte, durante anos denominado Centro Desportivo Saddam Hussein, um outro construtor furioso, que tentou disfarçar a derrota na primeira guerra do Golfo com projectos megalómanos, como um gigantesco monumento com duas espadas cruzadas (ideia copiada ao arquitecto londrino Mike Gold, que a tinha concebido para uma autoestrada saudita), cujo modelo das mãos eram as do próprio Saddam, além de mesquitas kitsch, cujos minaretes eram réplicas de mísseis Scud ou de pontas de espingardas Kalashnikov. Numa dessas mesquitas, guardado dentro de uma vitrina, um exemplar do Alcorão, com 650 páginas escritas, dizia-se, com o sangue de Saddam Hussein, doado durante dois anos e a um ritmo pouco credível de meio litro de sangue a cada quinze dias.

Tinha quatro minaretes, representando o mês quatro – Abril -, em que começou a invasão do Kuwait, e cada minarete tinha 43 metros de altura, simbolizando os 43 dias de bombardeamentos da primeira guerra do Golfo; já os minaretes interiores tinham 37 metros, uma alusão a 1937, ano do nascimento de Saddam, e as fontes tinham 28 jorros, o dia do mês em que veio ao mundo.

O ditador de Bagdad não era o único a usar a arquitectura como arma política: do lado de lá da fronteira, no Kuwait, as autoridades quiseram mostrar as suas credenciais democráticas, quase nórdicas, encomendando o edifício do Parlamento ao dinamarquês Jorn Utzon, autor da Ópera de Sydney.

Desde as Pirâmides do Egipto que a arquitectura é usada como forma de afirmação do poder e de engrandecimento pessoal dos governantes que a patrocinam, um fenómeno não-exclusivo das ditaduras. Lembremos Mitterrand com a Ópera da Bastilha, a Pirâmide do Louvre e o Arco da Défense.

Ou recordemos que Tony Blair quis deixar a marca do New Labour através de um projecto megalómano, o Millenium Dome, erguido apressadamente durante dois anos, com um volume de 2,2 milhões de metros cúbicos e gastos correspondentes.

O que impressiona, na verdade, não é que os políticos usem a arquitectura, mas sim o modo como esta se deixa usar pela política. Ou, se quisermos, pelos poderes de uma forma geral, pois na França do pós-guerra, por exemplo, tanto o Partido Comunista pediu a Óscar Niemeyer para lhe desenhar a sede em Paris, como a hierarquia católica utilizou Le Corbusier ou Alvar Aalto para dar uma imagem de modernidade e sintonia com os novos tempos e modos.

Há casos lendários, como o de Albert Speer, o arquitecto favorito de Hitler, preso no pós-guerra e interrogado por dois militares americanos (curiosamente, George Ball e John Kenneth Galbraith), que até ao final dos seus dias tentou maquilhar a sua abjecta cumplicidade com o nazismo, o sonho louco de uma nova Berlim, a qual, para eterno esplendor do Reich, estaria concluída… em 1950.

Speer, porém, não foi caso único e até o insuspeito Mies van der Rohe, que concebera o monumento a Karl Liebknecht e a Rosa Luxemburgo, assinou uma moção em apoio de Hitler no referendo de 1934, juntou-se à Reichskultur-kammer, de Goebbels, adaptou o traço ao (mau) gosto dos nazis, tudo na mira de vencer o concurso para a nova sede do Reichsbank, em que foi um dos finalistas, competindo com outro nome grande da Bauhaus, Walter Gropius, o qual, juntamente com Le Corbusier, não hesitou também a apresentar-se ao concurso para o estalinista Palácio dos Sovietes de Moscovo, que acabaria por ser vencido por Boris Iofan.

De outro arquitecto soviético, Alexei Shuchsev, existe, aliás, uma história caricata de subserviência servil: o Hotel Moscovo, a dois passos da Praça Vermelha, tem uma fachada assimétrica e incongruente pelo simples motivo de que, por distracção,

Estaline apôs a sua assinatura em dois projectos distintos e ninguém teve coragem de lhe dizer que se tinha enganado. Optaram, então, por erguer um edifício compósito, com traços dos dois projectos, uma decisão ecuménica e bem prudente.

Hoje, além de trabalharem para ditadores corruptos de todo o mundo, os maiores arquitectos mundiais são os agentes estéticos do novo capitalismo global, mais injusto e mais desigual, poluído por ultra-ricos sem moral nem escrúpulos. A questão não é apenas a de prostituírem o seu traço e de ninguém se atrever a questioná-los sobre coisas como o respeito pela democracia e os direitos humanos ou a origem suja do dinheiro que lhes paga os serviços.

O que mais irrita é o facto de muitos arquitectos se portarem de forma igual ou pior do que advogados e outros profissionais, mas pretenderem dissimular os seus gestos com um verniz estético e uma pátina cultural que os torna imunes à crítica e aos deveres de consciência.

Figuram-se e apresentam-se como “artistas”, como estetas neutrais em política, para assim cumprirem a sua tarefa de legitimação de regimes ditatoriais ou da selvajaria financeira. Mesmo entre nós, e a uma escala bem diferente, há vestígios dessa arrogância, visível na forma como muitos arquitectos, até os de maior nomeada, querem deixar a “sua” marca, que julgam ser genial e audaz, em espaços que exigiriam maior humildade e maior respeito pela história e pela arquitectura envolventes.

Ao contrário de uma peça de teatro ou de um quadro a óleo, que podemos ver ou não ver, um edifício é sempre uma presença invasiva no espaço público, com o qual todos somos obrigados a tropeçar. Exigia-se, por isso, da parte dos arquitectos uma atitude de maior modéstia e contenção, de mais respeito por esta natureza pública das suas criações, mas o que vemos, na maioria dos casos, é justamente o inverso: ora para servirem o lucro dos promotores e donos de obra, ora para enaltecerem os seus próprios egos, muitos arquitectos impõem-nos o seu estilo e o seu traço, num autocrático triunfo da vontade, fazendo-o com total desprezo pelo espaço circundante – e por todos nós.

Felizmente, há excepções, conheço algumas e boas, mas são poucas numa longa lista de desastres (ex. o edifício da CUF-Tejo, que corta as vistas das Necessidades, o aberrante Hotel Memmo do Príncipe Real, que desfeia a 7.ª Colina e está totalmente desenquadrado dela).

A culpa, é certo, não será dos arquitectos, mas de quem os deixa agir assim. Em todo o caso, seria bom que eles próprios tivessem menos arrogância e menos venalidade, mais humildade e decoro. No fundo, que tivessem um pouco mais de cultura, da cultura de que julgam ser os fautores e exclusivos detentores, outro dos seus embustes. Fica o apelo à Ordem, pois é reflexão que se impõe.

Historiador.
Escreve de acordo com a antiga ortografia.

Diário de Notícias
António Araújo
26 Junho 2022 — 00:17


 

816: As lições da Tonecas

OPINIÃO

Uns sapatos para o Natal, pediu a Leonor ao pai, e este, durante meses, amealhou dia-a-dia para lhe satisfazer o desejo. Firmino Ferreira ganhava pouco, era um modesto empregado num armazém de vinhos no Ginjal, mas foi amealhando o que pôde para os sapatos da filha e, dias antes do Natal, 19 de Dezembro de 1938, chamou a mulher, deu-lhe o dinheiro, disse-lhe para ir com a Leonor às sapatarias da Baixa, na Lisboa da outra margem.

Na véspera desse dia, junto a Santa Apolónia, afundara-se um rebocador, o Sagres I, de 40 toneladas. E no próprio dia 19 outro acidente no Tejo: o rebocador Pátria, da Sociedade Ítalo-Portuguesa, abalroou a lancha a motor D. Elisa, da Cooperativa de Catraeiros do Porto de Lisboa, que fazia o percurso Belém-Porto Brandão com 30 passageiros a bordo, que não ganharam para o susto mas conseguiram ser levados até terra firme.

No rio, de resto, havia memória de outros desastres, alguns bastante mais graves, como o ocorrido a 24 de Dezembro de 1886, quando o navio francês Ville de Victoria, que fazia escala em Lisboa com destino ao Brasil, sofreu o embate de um couraçado inglês, o Sultan, navio equipado com 38 canhões de várias toneladas e oito metralhadoras, que se soltou das amarras e andou perigosamente à deriva Tejo acima. O Ville de Victoria afundou-se em 10 minutos e, na confusão instalada entre os passageiros, muitos dos quais se encontravam já a dormir, a tragédia fez 35 vítimas, entre elas oito portugueses.

Tonecas era uma lancha, uma lancha a motor de 21 toneladas, construída no Seixal para a Empresa de Transportes Tejo, L.da, cujo sócio gerente, Adriano Garcia, tinha dois filhos, o António e o José, de modo que uma das embarcações ficou Tonecas e a outra, igualzinha à primeira, se chamou Zecas (na imprensa da época ainda houve quem confundisse a Zecas com outro nome, Manecas, mas não era verdade).

Com capacidade para 285 passageiros, a Tonecas fazia o percurso entre o Cais das Colunas e Cacilhas, muitas vezes em carreiras a preços reduzidos, como aquela que, no final de segunda-feira, 19 de Dezembro de 1938, pelas 19 horas, saiu rumo à outra margem entre a fragata D. Fernando e a Caldeirinha do Arsenal, onde hoje passeiam turistas. Aos comandos estava mestre Emídio Olívio Lopes, por mestre Carlos Silva, o “Mata Oito”, se encontrar de folga para baptizar um filho.

Seguiam também na tripulação o maquinista António Diogo Figueiras e os marinheiros António Germano, o “Mano António” (ou “António Algarvio”) e Fernando Cardoso, o “Marinha Grande”. A bordo, pessoas de poucas posses, no máximo remediadas, empregados de comércio ou dos escritórios da Baixa, costureiras que tinham ido a Lisboa buscar ou entregar os seus lavores, soldados e operários, gente de 3.ª classe.

Ainda hoje não se sabe ao certo o que aconteceu. A Finalamarina, uma draga de sucção vinda da Cova do Vapor, onde tinha ido carregar areia para a construção do entreposto de Santa Apolónia, abalroou com violência a Tonecas. Durante anos, pensou-se que tinha sido a Tonecas que, ao virar a estibordo, suscitara o desastre, mas o jornalista Victor Aparício, numa aturada investigação ao sucedido (Tonecas – A Tragédia que Enlutou Almada, CM de Almada, 1988), sustentou tese contrária, argumentando que a vítima foi a Tonecas, que ainda tentou escapar ao embate da draga, mas sem êxito. Causada pelo choque, levantou-se uma grande onda de água e não tardou que a lancha se afundasse, à ré, erguendo a proa, para onde se refugiou grande quantidade de pessoas.

Depois, o caos. A nuvem de fumo escapada da casa das máquinas impediu que muitos se orientassem, outros lançaram-se em desespero sobre as águas gélidas, morrendo afogados de frio. Ao fim de dois, três minutos, a Tonecas mergulhou por completo, levando consigo muitas pessoas presas no seu interior, entre elas António Germano, “Mano António”, filho de pescadores de Olhão, cujo cadáver seria descoberto ainda agarrado aos comandos da embarcação.

Acorreram vários navios ao sinistro, chamados pelo marinheiro n.º 91, Alfredo da Silva, que estava em serviço no Arsenal da Marinha, e até um porta-aviões sueco, o Gotlande, deu a sua ajuda aos trabalhos, apontando os holofotes para o local da tragédia, enviando vedetas para socorrer os náufragos. Nos salvamentos, destacou-se pela galhardia o Almadense, da Parceria de Vapores Lisbonenses, comandado por mestre Joaquim Petinga, bem como a marinhagem da fragata D. Fernando e o pessoal da Zecas, que logo disparou do Cais das Colunas para acudir ao irmão gémeo em apuros.

No Terreiro do Paço, um guarda fiscal de serviço deu o alarme e, logo depois, foi comunicar o ocorrido à esquadra de polícia mais próxima. Do Beato, da Ajuda, de Campo de Ourique, as corporações de Voluntários acudiram com prontidão. Alertou-se a Polícia Cívica, a Liga dos Hospitais e os Sapadores, liderados pelo capitão Marques.

Os trabalhos seriam suspensos às 11 da noite, hora em que os homens da Polícia Marítima – o subchefe Fernandes e os agentes Serras e Moura, Ginja e Arnaldo – já tinham rastreado os salvados: três bilhas de leite, cobertores, botas e bonés, casacos de homem, uma caneta de tinta permanente, uma mala com medicamentos, uma pele de raposa, sobretudos e xailes, uma factura que no verso tinha anotado o número 45902 e o nome de Isaura Ferreira. E, num embrulho, uns sapatinhos de criança – eram para a Leonor, presente de Natal do pai.

Há dúvidas quanto ao número dos mortos e desaparecidos (o corpo de um deles, Fernando Cardoso, o “Marinha Grande”, cobrador da Tonecas, só daria à costa um mês depois, na Praia da Assenta, Ericeira). Na época, disse-se que a lancha transportava cerca de 90 almas, mas as contas de Victor Aparício apontam para 82 passageiros, com 53 sobreviventes e 29 vítimas mortais, de que resultaram 35 órfãos e 10 viúvas, pelo menos.

Durante a noite da tragédia, e sobretudo na manhã seguinte, logo de madrugada, acorreu a Cacilhas um mar de gente, vinda de Mutela, de Almada, do Pragal e depois de mais longe, Seixal, Paio Pires, Charneca da Caparica, Vale Figueira, até de Sesimbra e Setúbal, na ânsia de notícias sobre familiares ou amigos.

No café Estrela do Sul, que ainda hoje existe, o correspondente de O Século afixou fotografias de feridos e sobreviventes internados em Lisboa, no Hospital de São José, para que se soubesse que estavam vivos. O presidente da Câmara de Almada, tenente-coronel António Baptista de Carvalho, convocou autoridades e colectividades e, na tarde de dia 20, reuniram-se, sob a presidência do governador civil do distrito, Dr. António Barreiros Cardoso, a directora do Asilo 28 de Maio, o juiz da comarca, o delegado do Ministério Público, o pároco de Almada, o comandante da GNR, os comandantes dos Voluntários de Cacilhas e de Almada, o delegado de saúde, o veterinário municipal, os presidentes de junta da região, representantes da Misericórdia, da lendária Incrível e da Academia de Instrução e Recreio Familiar Almadense.

O Dr. Carvalho Serra, dos Voluntários de Cacilhas, ofereceu 100 escudos, todo o dinheiro que a corporação poderia dispor no momento, sendo este o primeiro passo de uma subscrição pública que permitiu a construção de diversas casas para as famílias das vítimas, naquele que viria a ser conhecido por Bairro das Vítimas do Tonecas ou, para outros, Bairro das Viúvas do Tonecas.

E foram muitas, de facto, as famílias desamparadas: a mulher e os sete filhos de Bernardino Daniel, sapateiro e clarinetista amador na Incrível; os seis filhos de António Pedrosa, um descarregador de mar e terra, casado com uma operária da cortiça; os quatro filhos e a mãe epilética de Capitolina Lopes, uma mulher açoriana, peixeira, moradora nos Caranguejais; a mulher e as duas crianças de um comerciante da Cova da Piedade.

Como sempre sucede, houve imbecis de serviço, que se passearam pelo centro de Cacilhas contando histórias mirabolantes apenas para chamarem a atenção para as suas pessoas. E, também como sempre, a sorte e o acaso foram decisivos: Luísa Vitoriana dos Santos, “Emira Coração”, casada com Guilherme Coração, sapateiro, poeta popular e fadista de fama, verificou não ter dinheiro na carteira no preciso instante em que ia entrar na embarcação fatídica e decidiu esperar pela próxima, onde a deixariam viajar à borla, salvando-se por um triz. João Rodrigues Mirco e esposa, por seu turno, perderam a Tonecas por questão de minutos e Francisco Bentes da Silva e António Pereira de Oliveira, quando iam a entrar para o barco, optaram no último instante por fazer uma patuscada em Lisboa, escapando assim ao desastre.

O caso mais desconcertante, até com laivos de humor, aconteceu a João Fernandes, um homem de 56 anos que fora a Lisboa levantar certa importância ganha na lotaria. Com o dinheiro no bolso, sentindo-se rico, decidiu que nessa noite não iria pernoitar a casa, ainda que se desconheça, mas adivinhe, o poiso em que ficou. Na manhã seguinte, a sua esposa, D. Lívia, julgando-o morto na tragédia, foi até Cacilhas, mas, como ninguém o tinha avistado, regressou a casa desesperada, na camioneta de carreira, onde descobriu o marido, todo vivaz e contente, sentado no banco da frente.

O rol dos mortos e dos sobrevivos é quase um tratado de sociologia: um funcionário do Banco Espírito Santo, em Lisboa, que vinha a casa jantar para depois regressar ao banco, para serão nocturno; um polidor de móveis do Pragal, de 20 anos, que se salvou agarrando-se a duas bilhas de leite; Almerinda de Jesus, costureira, que fazia fatos de ganga para uma loja de Lisboa; António da Costa, tanoeiro, inscrito na Cooperativa de Tanoeiros de Almada; Boaventura Lourenço, ajudante da Farmácia Magalhães, que tinha ido a Lisboa buscar medicamentos; um popular comerciante da Cova da Piedade, António Hermógenes Ferreira, cuja filha completava nesse dia três anos; o barbeiro Cândido Cortez, da Barbearia Cortez, de seu tio, espanhol natural de Mérida; um soldado da Artilharia da Costa, Clarimundo Augusto, de 21 anos, que sobreviveu e se tornou exímio jogador de damas; Cláudio Gonçalves, empregado numa loja de ferragens da Rua dos Fanqueiros; Eugénio Castanheira, boletineiro-ciclista nos CTT da Praça do Comércio; José Ribeiro, figura popular em Almada, pois, além de relojoeiro no Ministério da Marinha, era guarda-redes do União Sport Club; José da Silva Costa, sindicalista da oposição, que já tinha estado preso no Aljube às ordens da PVDE; a aprendiza de costureira Natalina de Almeida; Plágio Moreira, de 14 anos, vendedor ambulante de bolos, com freguesia entre os operários das fábricas de cortiça; Viriato Pereira, que andava de burro a vender fruta e legumes nos velhos bairros de Lisboa e que, com a morte do burro, se tornou funileiro ambulante. E Leonor Filipe Ferreira, de 11 anos, cujos sapatos, novos e a estrear, seu pai foi buscar ao posto da Polícia Marítima.

Na burocracia do trágico, o comandante da Polícia Marítima abriu inquérito e elaborou relatório, que remeteu ao chefe de Departamento Marítimo do Centro, capitão-de-mar-e-guerra D. Carlos de Sousa Coutinho, que por sua vez o enviou à Direcção-Geral da Armada, para que aí se decidisse se o processo deveria ser julgado ora no tribunal marítimo, ora no criminal. Nem um nem outro alguma vez se pronunciaram sobre o que quer que fosse e o caso morreu ali, foi esquecido e nada mais se soube, apurou ou julgou.

Os papéis arquivados acabariam por ir parar ao Instituto Hidrográfico, onde, ou não estivéssemos em Portugal, viriam a ser destruídos num incêndio ali ocorrido em Fevereiro de 1969. Jamais se apuraram responsabilidades e culpas e, pior do que isso, as vítimas ou os seus familiares nunca receberam quaisquer indemnizações, valendo-lhes tão-só esparsas acções de caridade, ocasionais e efémeras.

À distância de quase um século, talvez consigamos aprender-lhe a lição, ou lições da Tonecas, e ver melhor o que de essencial ocorreu nesse dia, algo que terá escapado aos que então viveram sob o clamor da tragédia e os gritos das viúvas. E ali, naquele acidente do Tejo, com uma trintena de vítimas, o que de essencial vemos hoje é, antes e acima de tudo, o povo pobre de um país pobre, então governado em ditadura, gente miúda e calada à qual não foi dado um cêntimo de ressarcimento, nem público nem privado.

É certo que sempre haverá desastres como aquele, até com gente rica e poderosa, lembre-se o Titanic, mas poucos terão desfecho tão injusto e tão revoltante como este da Tonecas, pois se outras fossem as vítimas a bordo, mais abastadas e mais influentes, tudo seria diferente, mesmo no Portugal dos anos 30. Não se pense, porém, que foi coisa portuguesa e passada, própria de ditadura, pois ainda esta semana, enquanto milhões sofriam na Ucrânia, o Sr. Abramovich, um português nado e criado na sinagoga do Porto, fez deslizar impunemente dois dos seus iates, bem maiores do que a Tonecas, para águas turcas e turvas, mais aptas aos seus intentos.

Caso tanto mais inexplicável e inconcebível quanto sobre ele impendem graves sanções, publicitadas com alarido, e que outros pilantras como ele já tiveram barcos aprisionados. Como pôde o majestoso Solaris sair tranquilamente de Barcelona, passar pelo Montenegro (que aceitou as sanções da UE), andar às voltas pelo Mediterrâneo e desaguar na Turquia? O que esperam as autoridades italianas para aprisionar o Xerazade, ancorado na Toscânia?

Perante um escândalo destes, e perante escândalos destes acumulados em décadas – os vistos gold e as offshores, as cumplicidades corruptas que levaram à dependência energética da Alemanha, os oligarcas instalados em Londres e na Riviera, as empresas ocidentais que agora arranjam desculpas esfarrapadas para se manterem na Rússia, a influência de Putin no Brexit, em Trump e em Bolsonaro, na extrema-direita europeia -, perante tudo isto, dizia-se, confrange e desespera que muita da nossa esquerda, dita ademais “radical”, persista e teime no erro de atacar o “imperialismo” da NATO, a América liberal de Joe Biden, a Europa por fim unida.

Não contente com a estupidez da votação no OE e com a sova apanhada das legislativas (o BE passou de 19 para 5 deputados, o PCP perdeu metade do grupo parlamentar), há muita esquerda que, por cegueira ideológica, atávico anti-americanismo ou fidelidades inconfessáveis, se esquece da compaixão pelos mais fracos, sejam as vítimas da Ucrânia, sejam os oprimidos da Rússia, e, com extrema desumanidade, parece mais apostada em fazer-nos esquecer o essencial que ora ocorre. E o essencial que ora ocorre é isto, só isto: a Rússia, uma ditadura, invadiu a Ucrânia, uma democracia, ou em vias de sê-lo.

Não adianta lateralizar com “sim, mas a NATO…” ou lançar cortinas de fumo com os neonazis e o Batalhão Azov: no ranking da Freedom House, ainda há pouco publicado, a Rússia é definida como um “regime autoritário consolidado”, com uma percentagem de democracia de 7% e uma percentagem de liberdades cívicas de 19%, ao nível do Burundi ou do Congo. Números aterradores. A Ucrânia, em contraste, é um “regime em transição para a democracia”, com uma percentagem de democracia de 39% e uma percentagem de liberdades de 61%. Mais ainda, o relatório da Freedom House assinala – e especifica – as muitas “reformas positivas” verificadas no país desde a queda de Yanukovich, pró-russo, em 2014.

A Rússia é uma ditadura, a Ucrânia uma democracia. Zelensky não será um democrata perfeito, mas é milhões de vezes melhor que Putin (quem duvidar, um livro arrasador, O Novo Czar. A Ascensão e o Reinado de Vladimir Putin, de Steven Lee Myers, das Edições 70, onde está tudo: a barbárie das guerras, a destruição das liberdades, as trafulhices dos siloviki, o absoluto desprezo pelo povo comum, os assassinatos de jornalistas e opositores; em 2008, no Caso Magnitsky, chegou a julgar-se um morto, liquidado na prisão, chamando a mãe a depor, coisa nunca vista nem nos tempos de Estaline!).

Ora, até pelo facto de a Ucrânia não ser uma democracia perfeita, longe disso, é que temos de a ajudar, para que não caia em derivas autoritárias e em vendettas sanguinárias, sobretudo no pós-guerra. Se nada fizermos, a breve trecho será enorme o ressentimento de Kiev contra nós, já havendo sinais disso em muitas intervenções de Zelensky. Há também risco de o anti-europeísmo alastrar às frágeis democracias do Leste, muitas das quais enamoradas de Putin (v. g., Bulgária).

Em parte, é um rancor com razão: pusemo-nos à mercê do gás de Moscovo, deixámos a Ucrânia cair aos pedaços, agora a Alemanha militariza-se à pressa (decisão que compromete o ideal de uma política de defesa europeia comum) e ainda teimamos em não perceber que aquela guerra também é nossa, pois nela morre-se pela liberdade, o que implica fazermos sacrifícios no nosso modo de vida, coisa que não gostamos. Foi lamentável ver que no Ocidente consumista e comodista, passada a fase das manifestações de ternura, ao primeiro sinal de aperto logo se ergueram agricultores da França, camionistas, cidadãos agitados com os aumentos dos preços, intelectuais saudosos pelos ballets do Bolshoi.

A todos, pelos vistos, é preciso recordar o essencial: (1) a Rússia é uma ditadura, a Ucrânia uma democracia; (2) foi a Rússia que invadiu a Ucrânia, não a Ucrânia que invadiu a Rússia; (3) queiramos ou não, estamos em guerra, como nunca estivemos desde 1939-1945. O resto, os nazis Machados, a “paz” do PC, os generais bestiais (literalmente), são coisas que poderemos e deveremos discutir, mas que não são o essencial. Na Tonecas salvou-se quem teve a calma e o norte, talvez um pouco de sorte. Os outros foram ao fundo.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

Diário de Notícias
António Araújo
27 Março 2022 — 07:00

 



 

716: Tristezas de Juan Carrito

OPINIÃO

No vendaval de notícias que se abateu sobre nós, coisas de mísseis, trovas de guerra, poucos terão notado que há dias, algures na Itália profunda, ocorreu grave incidente, ao qual ninguém foi indiferente. Consoante os gostos e as visões do mundo (de cada qual e de todos), extremaram-se os campos e as opiniões, rufaram tambores com seu quê de bélico, cavaram-se trincheiras no verbo e no gesto, houve manifs e abaixo-assinados, sucedeu enfim grossa polémica – e matéria noticiosa para os jornais de Londres. Contenda havida aos Abruzos, na montanha transalpina, quase a meio da bota, e num lugar classificado, próprio para a vida selvagem, o Parco Nazionale d’Abruzzo, Lazio e Molise.

O que se passou, basicamente, é que ali, a meio da bota, nos inícios de Dezembro, ocorreu um urso. Diga-se, a bem da verdade, que o urso ali ocorrido já andava a ocorrer na região praticamente desde que nascera, vai para dois anos.

Sem vergonha de espécie alguma, talvez apreciando o convívio dos humanos, o dito urso dava em aparecer inopinadamente pelas ruas de Roccaraso, um ski resort por sinal lindíssimo (que ele é urso mas não é burro), e punha-se a mirar as montras, sopesando preços e novidades, bebia a água das fontes, dava um giro pelo centro histórico, mordiscava aqui e acolá e depois pirava-se. Os habitantes locais, é óbvio, pasmados com o atrevimento do bicho, baptizaram-no logo ternamente de Juan Carrito.

Vai daí, ciente do apoio carinhoso da plebe, quiçá do sufrágio do demos, quiçá da civitas, o ursito Carrito começou a sentir-se ainda mais à vontade, talvez com confiança em excesso, e, claro, esticou-se. Nos inícios de Dezembro, entrou pela calada da noite numa padaria da vila, dessas a atirar ao fino, e devastou tudo que havia. Ele foi carcaças, foram pães de quilo, ele foi as bolachas, biscoitos que houvesse, bolos com creme, marchou tudo.

Algo contrita, a populaça chamou quem lhe acalmasse a fera da, há horas alambazada. Convocada à padaria, a patrulha dos carabineri deu um balázio anestésico no Juanito Carrito, a meio do lombito, e despachou-o para uma zona remota do parque natural d’Abruzzo. Carrito, porém, não se ficou e na semana passada voltou a ser visto, ou melhor, avistado, a brincar fofo na neve, muito reinadio, indiferente ao cão que lhe ladrava em volta. Selou assim seu destino: no domingo, as cruéis autoridades armaram-lhe uma armadilha, puseram-no de novo a dormir, e enviaram-no de vez para uma casa de correcção para ursos, a reserva de Palena, província de Chieti.

Picou-se a cidadania: prantos dos animalistas, chuva de queixas, petições inflamadas, com mais de 600 subscritores prenhes de indignação, notícias e reportagens, comunicados de imprensa. Na refrega mediática, e a jogar à defesa, sustentou Lucio Zazzara, director do Parque Nacional Maiella, que a intervenção era necessária até para a própria protecção do bicho e que, após ficar temporariamente num lar para ursos-mariscanos, monitorizado 24 horas/dia, Juan Carrito iria ser juntado aos da sua espécie, ademais rara, quase extinta (Ursus arctos mariscanus). Discordou imenso o primeiro peticionário, Luigi Liberatore, o qual, fazendo jus ao apelido, propugnou a tese do habeas corpus, no caso habeas ursus, com um argumento que a muitos se afigurou sedutor: “Juan Carrito nunca fez mal a ninguém.” É um facto.

No momento em que escrevemos, não houve sinais de clemência nem indícios esperançosos e quer-nos parecer que Juan Carrito, à semelhança de Juan Carlito, rei de Espanha, nesta semana exilado nas Arábias, dificilmente escapará à desdita do ostracismo perpétuo. É triste a hora, gentes de Roccaraso.

O chanceler Helmut Schmidt disse um dia que a URSS era “o Alto Volta com bombas atómicas”, e a Rússia de Putin não anda longe disso. O Ocidente aposta agora, e bem, em que ela seja ainda mais Alto Volta do que já é, mesmo correndo o risco de ter uma Coreia do Norte à porta da Europa. Em breves dias, voltou a erguer-se o Muro e a Cortina que duraram décadas de Guerra Fria a mandar abaixo, mas o facto de a Rússia ser um Alto Volta, com toda a frustração que isso implica, torna ainda mais grave e perigosa a posse nuclear.

Muitos lembram agora crise dos mísseis de Cuba, mas poucos referem que na altura, no crucial dia 23 de Outubro de 1962, o mundo foi salvo por um homem, Vasili Arkhipov, o oficial de um submarino nuclear russo que se opôs aos seus camaradas e se recusou a disparar os torpedos atómicos contra a marinha da América.

Hoje, em Moscovo, poderá estar a emergir algo parecido e até um paradoxo curioso: quanto mais Putin quiser aumentar a intensidade do conflito, levando-o ao limite atómico, mais poderá ter de enfrentar a resistência dos seus altos comandos e, sobretudo, dos militares no terreno. Há dias, quando Putin ameaçou o Ocidente com o nuclear, as caras enfiadas do ministro da Defesa e do chefe das Forças Armadas permitem acreditar que o bom senso prevalecerá.

Confiemos nos generais russos, já que não podemos confiar nos nossos. Ou, melhor, em alguns dos nossos generais, felizmente na reforma, que, nos últimos dias, têm manchado a farda que usam com intervenções que mais fazem parecê-los filhos de Putin ou adidos militares da embaixada russa em Lisboa, não oficiais-generais de um exército português e da NATO.

A 11 de Fevereiro, dias antes da violação da Ucrânia, entrevistado pelo Jornal de Negócios, o general Carlos Branco sossegava o mundo contra os avisos de Joe Biden: “Os russos não estão interessados em invadir a Ucrânia. Só o farão in extremis.” Viu-se.

Adiantava também que era melhor a Europa não se imiscuir na guerra, pois esta iria ser péssima para nós, que iríamos ficaria para trás em diversos campos, “em particular na nanotecnologia”. Depois, no Diário de Notícias, afirmou que “os russos pretendem apoderar-se da Ucrânia intacta. Com o menor dano possível”. Está a ver-se: à hora em que escrevemos, há já dois milhões de refugiados, com expectativas de quatro milhões. “O menor dano possível”, segundo o general Branco.

Confrontado com a sua ligação ao sinistro Grupo de Valdai, um clube fundado pelo ex-chefe dos serviços secretos russos, financiado pelo VTB e pelo Alfa-Bank, no qual Putin fala todos os anos (o seu maior palácio, de resto, fica por perto), e ao qual Sergey Lavrov se dirigiu no dia 22 de Fevereiro – note-se, dois dias antes da invasão da Ucrânia -, o general Carlos Branco defendeu-se dizendo que Guterres também fora a uma das reuniões do Clube Valdai, como se fosse comparável a presença do secretário-geral da ONU, que ali falou a esse título, à de um obscuro general luso, que continua sem esclarecer quem o convidou, quem lhe pagou a viagem e a estada, se recebeu ou não dinheiro de bolso e outros favores, que contactos teve ou mantém com oficiais ou agentes russos. Das muitas vezes que o convidam para a televisão, porque não o questionam sobre isso? Não são insinuações, só questões – mas legítimas.

Outro “idiota útil” é o general Raul Cunha, que condena a invasão, mas compreende-a, dizendo de Putin: “Entendo que quase o empurraram para essa opção” (ou seja, no fundo, no fundo, quem invadiu a Ucrânia foi a NATO, com a cumplicidade da Europa e dos Estados Unidos). Mas o mais ursito e limitadito do trio, e por isso o mais cristalino, é o general Agostinho Costa, um homem que faz grande esforço para ser intelectual e sagaz, ainda que o máximo que consiga seja uma citação cansada de Von Clausewitz e reiteradas referências às doutrinas sempiternas do “professor Adriano Moreira”.

No afã de se colocar na pele do inimigo, para melhor percebê-lo, este Sun Tzu da GNR acaba sempre, mas sempre, a defender as posições do Kremlin, e com despudor e descaro. No passado dia 27, Agostinho Costa estava em directo, numa das muitas e demasiadas vezes que tem ido à TV, e o jornalista da RTP confrontou-o com a ameaça nuclear feita por Putin, notícia de última hora, acabada de chegar.

Agostinho reagiu instintivamente, qual canito pavloviano, e disse que era “uma notícia que tem a credibilidade que tem”, que “a primeira baixa em qualquer conflito é a verdade”, falou em “propaganda”, afirmou que “é preciso trazer os adultos para a sala” e que “é preciso baixar o nível da emoção para entrarmos no nível da racionalidade”.

De resto, acrescentou, não era credível que Moscovo fizesse uma ameaça atómica, pois “ainda não chegámos a esse patamar”. Ou seja, estampou-se o general ao comprido – e em directo. Tal, porém, não o fez recuar, ou sequer pensar, e o que tem dito são coisas como “temos de ver os dois lados”, “o PIB da Ucrânia é o último da Europa” (é falso), “os russos já estão em Kiev” (isto no dia 25…), “a informação que tenho é que os russos estão em Kharkiv” e que era exagero falar de resistência ucraniana na cidade (“não é bem assim”).

Para o general Agostinho, esta guerra é apenas “um assunto entre a Rússia e a Ucrânia”, mas, logo a seguir, “uma disputa entre a Rússia e a América”. Porque, claro, “a NATO é um heterónimo dos Estados Unidos, o resto é paisagem” (apetece dizer, uma “paisagem” de que o senhor general Agostinho fez parte durante as décadas da sua carreira militar).

Quanto à Europa, está “a lançar gasolina no conflito”, encontrando-se o seu secretário-geral, Stoltenberg, a caminho do BancoCentral da Noruega, em corrupto contraste com os bravos generais russos, como o ministro Sergei Shoigu, um homem “de barba rija” (!). Putin, genial, é “um jogador de xadrez”, como aliás temos visto. Colunas militares paradas, trapalhadas logísticas? Nada disso – “ainda é cedo, sinceramente, para considerarmos que algo falhou” (no dia 1 de Março…).

E, mais ainda, as valorosas tropas russas só “não tomaram Kiev porque não tiveram essa ordem”. Resistência ucraniana? Era “expectável”, nada de mais, coisa pouca, sendo evidente que não deveriam ser mandadas armas para a Ucrânia, que a RT não deveria ser proibida, que os chechenos da Wagner são talvez uma invenção ucraniana (dias depois, em entrevista ao Público, o general Branco veio assumir que a Rússia tem 70 mil chechenos no país…).

Zelensky, por seu turno, “já não estará em Kiev”, mas em Lviv, tese propalada pelo Kremlin que o perspicaz Agostinho logo comeu, digeriu e regurgitou na TV, mas que veio a revelar-se pura propaganda moscovita. Quanto aos russos, uns amores, têm tido o cuidado de “não atingir alvos civis” e se há mortos entre a população ucraniana isso “é o que os americanos chamam de baixas colaterais”.

Foi atingido um prédio de habitação? “Falha de sistema”, “erro operacional”, “nestas guerras há sempre este tipo de ocorrências” (senhor general da GNR, a morte de civis numa guerra não deve ser tratada como um acidente de trânsito). Morreram dezenas de inocentes? O objectivo russo não eram eles, mas “o edifício do governo regional de Kharkiv” (caso para dizer que, na inabalável lógica de Agostinho, as baixas civis são sempre culpadas, pois têm a mania de estar no local errado à hora errada, quando os russos bombardeiam).

No dia 27 de Fevereiro, achava Agostinho que a ameaça nuclear de Putin não era credível, mas fruto de propaganda ocidental, até porque não tínhamos “chegado a esse patamar”, já que a NATO não entrara ainda em território da Ucrânia; no dia 1 de Março, sem se desfazer (e sem que a NATO tivesse entrado em território da Ucrânia), o general veio justificar a ameaça de Putin, legitimando até o uso do nuclear com o argumento da “escalada para desescalar”, isto é, se os russos lançarem mesmo bombas atómicas e matarem milhões de pessoas, é algo mais do que ajustado à sua lógica e doutrina de guerra, “escalar para desescalar”.

Tudo normal, tranquilo. Ou seja, o que no dia 27 de Fevereiro era uma inventona propagandística do Ocidente, no dia 1 de Março passou a ser uma opção natural do Kremlin. O argumento, espantoso, criminoso: “A ameaça nuclear faz parte da equação. Se a França fosse novamente invadida como foi em 1940, não há dúvida de que Macron usaria armas nucleares.”

Senhor general Agostinho Costa: caso não saiba ou não tenha visto, é a Rússia que está a invadir a Ucrânia, não é a Ucrânia nem a NATO que estão a invadir a Rússia. Vir trazer a França de 1940 e o presidente Macron para justificar a ameaça atómica de Vladimir Putin é algo que o coloca a si, major-general Agostinho Costa, no esgoto da ignomínia. Com atroz desprezo pelo sofrimento alheio, com total ignorância do direito internacional, teve até o desplante de dizer na TV que nesta guerra “não há bons, há interesses”. Esclareça-nos qual o seu.

PS – A partir da próxima semana, estas crónicas passarão a sair na edição de domingo, dia do Senhor.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

Diário de Notícias
António Araújo
12 Março 2022 — 00:27



 

682: A guerra vista daqui

OPINIÃO

A cada geração a sua guerra e nós estávamos há muito sem ter a nossa. Houve, é certo, o terror da Al-Qaeda com os barbudos das bombas, mas era ocasional e intermitente, e o Iraque e o Afeganistão sempre foram demasiado distantes e exóticos para os sentirmos como verdadeira ameaça. Agora não, é diferente, é na Europa aqui ao lado, com Yuris-canalizadores, crianças loirinhas e mães com lábios de pato que mais parecem modelos.

O ódio é uma emoção cansativa, disse Patricia Highsmith, que dominava o assunto, e é facto que nem passou uma semana e já estamos todos arrasados de tanto abominarmos Putin. Como sempre sucede, os problemas de véspera, aquela multa da EMEL, o carro na revisão, a tarde com a chata da sogra, a seca e os calores climáticos, até a saudosa covid, parecem-nos hoje pequenos, fáceis de manejar. Às tantas, nos momentos mais pesados, até sentimos inveja daqueles que já morreram e, outras vezes, remorso por termos gerado filhos em mundo tão desgraçado.

O mais doloroso de tudo é que, como no fim dos casamentos ou nos cancros terminais, a guerra obriga a que nos confrontemos connosco próprios e com o que fizemos ou deixámos de fazer para chegarmos aqui. Putin é nosso inimigo e está em guerra connosco desde que subiu ao poder – há mais de 20 anos, portanto -, nós é que não quisemos ver.

De pouco adianta agora culparmos a “fraqueza” dos líderes que temos e escolhemos, pois a culpa é nossa e de todos, que em troca de bela vida compactuámos com o gás trazido de longe, os iates dos oligarcas, os vistos a brilhar de doirados, o pântano das offshores. Sobretudo, é nossa a culpa de vivermos na ilusão de que poderíamos ser amigos e fazer negócios com um ditador que nos odeia, e que sempre nos quis destruir.

A culpa dos nossos líderes é apenas, mas grave, a de não terem visto nas estrelas o que nelas há muito já estava escrito: os avisos feitos pela Rússia desde 2007 de que jamais aceitaria a expansão da NATO para a Ucrânia; os precedentes da Geórgia e da Crimeia; a devastação bárbara da Chechénia (que, no limite, Putin poderá replicar agora em Kiev); a Síria e a Bielorrússia; a afirmação de Sergey Lavrov em 2015 de que a Ucrânia não era um verdadeiro Estado; o ensaio de enquadramento teórico publicado por Putin no ano passado, próprio de uma nação dada ao espírito; a deslocação em massa de tropas da Ásia para o Ocidente, nunca vista nos últimos 100 anos; o encontro de Putin e Xi em Fevereiro transacto, o primeiro desde 2019, e a “parceria” que daí nasceu; o acordo bilateral com o Azerbaijão poucos dias antes da ordem dada para invadir a Ucrânia.

Perceber a estupidez dessa invasão, quando para o Kremlin teria sido mais avisado e sensato para Moscovo abocanhar tão-só o Donbass, é tarefa para os “especialistas” em geopolítica, que têm proliferado como coelhos nas televisões dos últimos dias, mas será erro pensar que a racionalidade de Putin é igual à nossa, pois ele e milhões dos seus compatriotas estão sincera e genuinamente convictos de que a Ucrânia é russa e é deles e não tem razão de existir por si própria.

O plano imediato parece ser hoje claro, entrar pela Ucrânia adentro, pôr lá um governo-fantoche (“desnazificar”), firmar uma “esfera de influência” e sair rapidamente e em força, com escassas sanções ocidentais, para mais suportadas por um fundo de 630 mil milhões de dólares entesourados para a ocasião. Por trapalhadas logísticas e resistência dos Yuris, a coisa tem-se embrulhado, o que significa que a ofensiva seguinte será ainda mais poderosa e sangrenta, uma catástrofe. Ponto pouco falado, contudo, têm sido os russos da Ucrânia, 8 milhões de pessoas, que não vemos nas estradas a saudar os invasores.

Quantos foram evacuados? Significa isto que, a par da catástrofe humanitária a Ocidente, 600 mil refugiados and counting, outra haverá a Leste, mais oculta, menos falada? Ao entrarem nas cidades, com 22% de russos, como saberão os soldados sobre quem disparar? Putin, dizem os entendidos, sofre de presbitismo, um defeito que dificulta a vista ao perto, o que talvez explique o seu estranho “olhar de alumínio” (Anna Arutunyan), mas sobretudo o atoleiro em que a Rússia se meteu, pois ninguém de bom senso imagina viável governar um país em escombros, minado pela guerrilha urbana.

É útil e inteligente que, na frente interna, não nos dividamos em recriminações políticas e ajustes de contas ideológicos que só destroem a espantosa e miraculosa unidade a que chegámos, é certo motivada pelo medo e pelo pânico, mas também por certo surpreendente para Putin, o triste czar falhado. Lá fora, a rede de cúmplices é vasta e tentacular, abrange Salvini e Le Pen, a amiguinha de Ventura, muitos republicanos da América, doações aos conservadores ingleses; por cá, são poucos, uns caricatos ignóbeis, e serão dizimados a seu tempo. Mas, por ora, unidade.

Também é útil e inteligente que mostremos aos russos que os amamos e à sua cultura europeia e que temos compaixão pelo seu sofrimento passado, presente e infelizmente futuro. A Rússia é grande e antiga, maior do que um déspota e a sua camarilha, e fazer bullying ao povo comum é fazer o jogo da propaganda do Kremlin, alimentar o ódio que perpetua o tirano no poder. A Rússia do século XXI não é a Rússia da Guerra Fria, tem tablets e smartphones, banda larga de Internet, uma economia de mercado, tem muito mais a perder do que nós, tem muito mais a perder do que há 50, 60 ou 70 anos, quando era ainda mais fechada e atrasada do que é hoje.

Para mais, há presidenciais em 2024, outra das razões para esta aventura da Ucrânia, e mesmo não sendo eleições como as nossas temos de apoiar desde já as alternativas democráticas, Navalny e Muratov, e as forças da liberdade, que existem e precisam que as ajudemos, e já. Nas legislativas do ano passado, o Rússia Unida de Putin caiu para 49% e perdeu 19 lugares no parlamento, e é nisso que temos de trabalhar com saber e arte, sem gerar suspeitas de que queremos dominar a Rússia, o que de facto não queremos nem nunca deveremos querer.

Nas reuniões televisivas, Putin quis mostrar à Rússia e ao mundo que era ele quem mandava, aproveitando de caminho para entalar os próximos e os oligarcas, aqueles que devemos visar. Nos últimos dias, dizem os analistas, Putin tem dado preocupantes sinais de descontrolo emocional, e de facto é nas emoções que esta guerra se trava, mas de parte a parte, e já vimos que as emoções também estão ao rubro do nosso lado, e que os cidadãos da Europa não toleram menos dos seus líderes do que uma batalha sem tréguas.

Por vezes, morrer não é o pior: na Ucrânia morrerão milhares, Zelensky será um mártir, mas os russos sofrerão bem mais. Além das sanções económicas, que devem ser ainda mais apertadas, sobretudo fiscalizadas na sua aplicação efectiva, temos de apostar nas sanções simbólicas, culturais e sociais, ir ao coração do dia-a-dia, tirar-lhes os nossos produtos, os nossos bens de consumo, o desporto e o cinema, as celebridades.

Influencers e tiktokers do Ocidente, ao ataque. Nas redes, Ronaldo tem 500 milhões de seguidores, use-os agora, esta é a hora. É óbvio que, depois desta barbárie, a Rússia só voltará ao convívio depois da queda de Putin, mas, se formos argutos e frios, talvez isso suceda mais rapidamente do que julgamos (neste momento, imagino, os serviços secretos ocidentais estão a ter terreno fértil para recrutar agentes…).

É óbvio que vamos vencer Putin pois somos mais fortes e melhores do que ele e por outra razão singela, mas decisiva: a Rússia quer ser como nós, nós não queremos ser como ela (nem nunca quisemos).

Ao ameaçar com a bomba, Putin assinou o seu destino. Até aí, podíamos (devíamos) dar-lhe uma escapatória que lhe permitisse regressar a casa sem perder a face, para então se entregar nos braços da China e ser devorado por ela; sobretudo, retornar a Moscovo sem perder a aura de macho perante o seu povo, um povo que, com razão ou sem ela, sente que o ultrajámos e que o temos maltratado. A partir do aceno da bomba, porém, o Ocidente não pode mais dar-se ao luxo de viver com quem o ameaçou de extinção e Putin terá de cair. Por isso a guerra será longa, mais longa do que pensávamos.

Tirando o tal risco atómico, a Rússia não é difícil, difícil mesmo é a China, igualmente inevitável. Mas essa será, esperemos, guerra para a geração vindoura.

PS – No meio de tanta tragédia, resta-nos a consolação do sorriso e de pensarmos que os russos eram mais bem governados por um bêbado como Ieltsin; e que foi preciso vir da Ucrânia um comediante patusco para abrir os olhos ao mundo e dar-lhe uma lição enorme – de coragem e moral.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

Diário de Notícias
António Araújo
05 Março 2022 — 00:23



 

645: Audácia (ou falta dela)

OPINIÃO

Lubmin em Setembro

Numa manhã de Setembro de 2018, um navio colossal, o Audácia, aproximou-se de Lubmin, nas costas do Báltico. Transportava consigo uma carga cintilante, toneladas de pipelines de aço que reluziam ao sol de Outono; no dorso, em letras garrafais, tinham inscritas breves palavras, Nord Stream 2.

Meses antes, em Janeiro de 2018, o secretário de Estado Rex Tillerson declarou que a América e a Polónia se opunham ao projecto com esse nome, o qual foi também contestado pelo então presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, pelo primeiro-ministro polaco, Mateusz Morawiecki, pelo presidente Donald Trump, pelo presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, pelo então ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Boris Johnson, pelos primeiros-ministros da Itália e da Hungria, Matteo Renzi e Viktor Orbán.

Já antes, muito antes, em Março de 2016, nove líderes europeus – os primeiros-ministros da República Checa, da Croácia, da Estónia, da Hungria, da Letónia, da Polónia, da Roménia e da Eslováquia, e o presidente da Lituânia – tinham escrito uma incisiva carta ao presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, alertando-o para que o Nord Stream 2 ir ter “consequências geopolíticas desestabilizadoras na Europa”.

Desde que foi lançado, no longínquo ano de 1997, o projecto Nord Stream tem sido alvo de intensa controvérsia. O maior pipeline submarino de gás do mundo, com um comprimento de 1.222 quilómetros, o Nord Stream 1 liga Vyborg, na Rússia, a Lubmin, nas costas do Báltico. Além de sérias preocupações ambientais, desde logo porque induz o consumo de uma fonte de energia não renovável e altamente poluidora, com um poderoso impacto carbónico (cada par de condutas do Nord Stream pode gerar emissões de 110 milhões de toneladas de CO2/ano), contrariando frontalmente a agenda de descarbonização e combate às alterações climáticas firmada no Acordo de Paris, o gasoduto russo-alemão levanta problemas de vária ordem, afecta a vida marinha numa vasta área geográfica e revolve os fundos de um mar onde, durante décadas, foi sendo despejado de tudo um pouco: minas por deflagrar, cadáveres de soldados, carcaças de navios e de submarinos da 2.ª Guerra, resíduos e materiais tóxicos, armamento químico, toneladas de lixos perigosos.

Entre as muitas ironias desta história, uma das maiores reside no facto de Lubmin, o porto de chegada do Nord Stream e do Audácia, ser uma terra particularmente flagelada por inundações e pela subida do nível das águas dos oceanos. Foi submersa nas horríveis cheias do Dia de Todos os Santos do distante ano de 1304, mas agora, com as alterações climáticas, tudo é ainda pior: no final de 2020, voltou a ser inundada e, segundo os climatologistas, ao longo do século XX o nível das águas subiu 15 centímetros na costa alemã do Báltico. Por estranha coincidência, ou talvez não, o terminal do Nord Stream fica a poucos metros dos diques e das barreiras com que Lubmin tenta desesperadamente proteger-se do avanço dos mares.

Com o gasoduto russo-germânico, o cenário piorará, bastando lembrar que o gás é um fortíssimo emissor de metano e que o metano tem um efeito-estufa 28 vezes superior ao CO2. A ironia ainda é maior – e mais cruel – se lembrarmos que a principal indústria de Lubmin, situada no antigo território da RDA, era uma gigantesca central nuclear, que teve de ser encerrada em 1990 por não cumprir os requisitos mínimos de segurança e cujos custos de demolição são actualmente astronómicos, a prova provada de que, ontem como hoje, a cegueira e a ganância em matéria ambiental e energética acabam por pagar-se muito caro, com a factura geralmente entregue às gerações seguintes. É ali, em Lubmin, cemitério atómico ameaçado pelo aquecimento global, que desagua o gás vindo da Sibéria, extraído em campos onde outrora morreram milhares de vítimas de Josef Estaline. O mundo é um lugar estranho.

Apesar de instada a fazê-lo, a empresa responsável pela construção Nord Stream recusou considerar sequer as alternativas terrestres propostas pela Finlândia, pela Polónia, pela Lituânia e pela Letónia. Para muitos desses países, com destaque para a Ucrânia, o abandono dos actuais gasodutos terrestres implica uma quebra considerável de receitas, na ordem dos 1,5 mil milhões de dólares ano, além de uma perda sensível de importância geopolítica e de aumento de sua exposição face à eterna ameaça da Rússia.

Há poucos meses, a 23 de Agosto do ano passado, o presidente da Ucrânia, Volodomir Zelensky, avisou a chanceler Angela Merkel que o Nord Stream 2 era uma “arma geopolítica perigosa”, facto que não impediu a continuação do projecto, pese a advertência de Zelensky, o qual à hora em que escrevemos se encontra sitiado e em perigo de vida em Kiev, enquanto o gabinete da antiga chanceler Merkel emite um comunicado de imprensa a lamentar a “guerra de agressão” travada pela Rússia e tal “ruptura profunda na história da Europa”.

O Nord Stream 2 mereceu a viva oposição de Donald Trump, um presidente sobre o qual ainda pairam suspeitas de ter sido corrompido pelos russos, e que agora louva o “génio” militar de Vladimir Putin. A ameaça de sanções por parte dos EUA motivou, por seu turno, uma forte reacção da Europa: em Junho de 2017, a Alemanha e a Áustria criticaram o Senado dos Estados Unidos por discutir e tentar aprovar, sem sucesso, sanções às empresas envolvidas no gasoduto russo-alemão.

O chanceler austríaco Christian Kerr e o ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, Sigmar Gabriel, disseram que o fornecimento de energia para a Europa só aos europeus dizia respeito. Nos ataques a Washington destacar-se-ia o então ministro das Finanças, Olaf Scholz, actual chanceler da Alemanha, que afirmou na altura que a atitude da América era uma “ingerência grave nos assuntos internos da Alemanha e da Europa”, tendo um porta-voz da União Europeia lamentado a “imposição de sanções a empresas da UE que desenvolvem negócios legítimos”.

E, de facto, a parceria com a Rússia proporcionou muitos negócios, talvez nem todos legítimos, a gigantes como a petrolífera finlandesa Neste, as alemãs Ruhrgas, Wintershall, BASF, E.ON ou Europipe, a italiana Snamprogetti, subsidiária da Eni, a japonesa Sumitomo Heavy Industries, as britânicas Royal Dutch Shell e Rolls Royce plc, as dinamarquesas Rohde Nielsen A/S, Ørsted A/S e Rambøll, as holandesas Gasunie, Royal Van Oord e Royal Boskalis Westminster N.V., a francesa Engie, a austríaca OMV, a americana Dresser-Rand Group a suíça Allseas S.A., a malaia Wasco Energy, entre muitas outras.

Os custos do Nord Stream 2, estimados em 9,5 mil milhões de euros, são partilhados em partes iguais entre, por um lado, a Uniper, a Wintershall Dea, a OMV e a Royal Dutch Shell e, por outro, a Gazprom. A engenharia financeira do gasoduto é muito complexa, mas envolve empréstimos de mais de 26 bancos comerciais, e intervenções do Crédit Agricole e da Société Générale, da UniCredit, do Deutsche Bank, do Royal Bank of Scotland (ABN Amro), do Dresdner Kleinwort (Commerzbank), com assistência jurídica da firma de advogados norte-americana White & Case, sediada em Nova Iorque, e da britânica Clifford Chance.

O Nord Stream 1 foi inaugurado em Novembro de 2011 pela chanceler Angela Merkel, pelo então presidente russo Dmitri Medvedev, e pelos primeiros-ministros holandês e francês, Mark Rutte e François Fillon (Fillon demitiu-se há pouco do cargo de administrador da petrolífera Zarubeshneft e da Sibur, a maior petroquímica da Rússia, para o qual havia sido nomeado em Dezembro passado). A cerimónia teve lugar simbolicamente em Lubmin, onde ainda hoje decorrem os dispendiosos trabalhos de demolição de uma central nuclear dos tempos da Alemanha comunista.

Foi também lá que, em Maio de 2018, se iniciou a construção do Nord Stream 2. Pouco depois, numa manhã de Setembro, chegaria o Audácia, carregado de pipelines. Apesar da resistência americana, de Trump e também de Biden, Washington viria a alterar a sua posição e, em Maio de 2021, Merkel e Joe Biden chegaram a um acordo sobre o gasoduto.

Em Junho, o secretário de Estado Antony Blinken considerou o projecto “inevitável”, sendo descartado o apelo feito em Roma, em Dezembro passado, pelo primeiro-ministro polaco Mateusz Morawiecki, que instou o novo chanceler alemão a “não ceder à pressão da Rússia e a não permitir que o Nord Stream 2 seja usado como um instrumento de chantagem em relação à Ucrânia, de chantagem contra a Polónia e de chantagem contra a Europa”.

A Gazprom, gigante oculto

Como um gigante oculto, a Gazprom está no epicentro da actual crise de Ucrânia. Num notável livro acabado de sair, Criminels Climatiques – Enquête sur les multinationales qui brûlent notre planète (La Découverte, 2022), o jornalista luso-descendente Mickaël Correia descreve a Gazprom como um “ogre fóssil” e um dos “maiores poluidores climaticidas do planeta”, tal é a quantidade de CO2 que, ao longo de décadas, tem lançado na atmosfera.

O seu modus operandi é, por vezes, singular. Em Fevereiro de 2009, o Ministério Público da Suécia abriu uma investigação a um centro da Universidade de Gotland, vindo-se a descobrir que a Nord Stream fizera um estranho donativo de cinco milhões de coroas suecas (cerca de meio milhão de euros) a um dos investigadores desse centro, que tinha manifestado reservas quanto à construção do Nord Stream, alegando que ele iria pôr em causa os habitats de muitas aves do Báltico. Por outro lado, um relatório elaborado em 2018 pelo Grupo Ecologista do Parlamento Europeu, intitulado Revolving Doors and the Fossil Fuel Industry, analisou as “portas giratórias” entre a política e as empresas de energia, tendo destacado a obscura acção da Gazprom/Nord Stream nesses domínios pantanosos.

Mesmo nos países nórdicos, tidos por modelo de transparência, o panorama é assustador: na Suécia, a Nord Stream contratou os serviços de Ulrica Schenström, antiga secretária de Estado do gabinete do primeiro-ministro Fredrik Reinfeldt, entre 2006 e 2007, a qual teve de se demitir após um jornal ter revelado fotografias suas a abraçar e a beijar, num restaurante de Estocolmo, um dos mais conhecidos jornalistas políticos do país. Para os quadros do consórcio do gasoduto foi também uma figura destacada do Partido Social-Democrata, Dan Svanelli, assessor de imprensa de sucessivos líderes desse partido.

Na Finlândia, foi-se mais alto e a Nord Stream conseguiu contratar os serviços de um antigo primeiro-ministro, Paavo Lipponen, consultor da companhia desde 2008, tendo o escândalo sido agravado pelo facto de, em completo despudor, a contratação ser anunciada enquanto decorria a invasão russa da Ossétia do Sul. Lipponen renunciou a todos os cargos públicos, abandonou o gabinete no parlamento, escreveu um artigo a criticar a extrema dependência da Europa em relação ao gás russo, mas a controvérsia marcou-o para sempre: a Polónia vetou a sua candidatura a responsável pelas relações externas da UE e, em 2012, quando se candidatou às presidenciais finlandesas, obteve uns míseros 6,7% dos votos, a mais baixa votação de sempre dos sociais-democratas nessas eleições.

A Finlândia também não saiu a ganhar com a pertença do seu ex-PM aos quadros da Nord Stream: no momento em que escrevemos, a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia dissuadiu quaisquer veleidades finlandesas de aproximação à NATO, dizendo que, se tal acontecer, o país sofrerá “sérias repercussões políticas e militares”.

A Áustria tem sido dos fervorosos defensores do Nord Stream e, ao que parece, tentou até bloquear a suspensão da entrada em funcionamento do projecto, imposta há pouco pelo chanceler alemão, na sequência da bárbara invasão da Ucrânia. Para isso tem contribuído por certo a acção de Hans Jörg Shelling, que, enquanto ministro das Finanças, de 2014 a 2107, supervisionou a participação de 31.5% do Estado austríaco na empresa energética OMV, um dos cinco investidores estrangeiros do Nord Stream 2.

Acontece que, escassos três meses após ter abandonado a pasta das Finanças, Shelling foi contratado como consultor do Nord Stream 2, cargo que ainda mantém. Não contente, em 2019 passou a integrar também os quadros da energética OMV, cargo que teve de abandonar pouco depois, por violação grosseira do “período de nojo” imposto aos políticos austríacos.

Ainda assim, e como se disse, continua a trabalhar para a Nord Stream 2, o mesmo se passando com Marion Scheller, que desde 2013 dirigiu o departamento de política energética do Ministério da Economia da Alemanha, abandonando esse lugar-chave em 2016 para ingressar nos quadros da Nord Stream, como “conselheira sénior para as relações governamentais”, eufemismo para acções de lóbi.

Entre os 88 casos de “portas-giratórias” desvendados no relatório de 2018 dos ecologistas do Parlamento Europeu, o mais escandaloso e grotesco de todos é o de Gerhard Schröder, o qual, enquanto chanceler da Alemanha, entre 1998 e 2005 (numa coligação com Os Verdes, lembre-se), foi o maior apoiante ocidental ao projecto do gasoduto com a Rússia. Em Outubro de 2005, poucas semanas antes de se demitir, o governo de Schröder concedeu a garantia de um empréstimo no valor de mil milhões de euros ao Nord Stream.

E, logo depois de resignar, Schröder foi nomeado presidente do conselho de supervisão da Nord Stream AG, passando em 2016 a integrar o seu conselho de administração; em 2017, seria nomeado por Vladimir Putin para o conselho de administração da Rosneft, a maior companhia petrolífera russa, facto tanto mais escandaloso quanto, na altura, a Rosneft estava a ser alvo de sanções económicas do Ocidente devido à crise da Ucrânia.

O seu alinhamento com Moscovo tem sido constante e sem falhas: em 2007, Schroeder colocou-se ao lado do Kremlin numa disputa com a Estónia a propósito de um memorial de guerra; em Agosto de 2008, culpou o Ocidente pela invasão russa da Ossétia do Sul; em 2014, relativizou a conquista da Crimeia por Moscovo, comparando-a à intervenção da NATO no Kosovo. Para coroar tudo isto, celebrou o seu 70.º aniversário no Palácio Yusupov, em São Petersburgo, na companhia de Vladimir Putin. Agora, existem muitas pressões para que saia da Nord Stream, mas de momento ainda nada aconteceu.

Na América, a Nord Stream pagou cinco milhões de dólares a Vincent Roberti e um milhão de dólares a Walker Roberts, da empresa de lóbi BCR Group, para influenciarem o Congresso dos EUA a favor do gasoduto russo-germânico. Não se sabe o que fizeram, mas sabe-se que no Congresso não foi alcançado o número de votos necessário para que as sanções fossem aprovadas. O caso mais grave prende-se, porém, com o director executivo da Nord Stream 2, Matthias Warnig, um antigo oficial da Stasi, que muitos dizem ter colaborado directamente e ficado amigo de Vladimir Putin quando este trabalhava para o KGB na Alemanha.

A sua pertença aos serviços secretos da RDA é factual e incontroversa, até reconhecida pelo próprio, mas, sobre a relação com Putin, Warnig diz que o conheceu apenas em 1991, quando o actual líder russo dirigia as relações internacionais do município de São Petersburgo. É, ainda assim, um conhecimento antigo, que permitiu, por exemplo, que o Dresdner Bank se instalasse em 1991 em São Petersburgo, graças à intercessão de Warnig que, naturalmente, viria a ser nomeado presidente do conselho de administração da filial russa do Dresdner.

Em 2012, Warnig foi nomeado presidente do comité de supervisão da Rusal, a segunda maior companhia de alumínio do mundo, tendo de resignar em 2018, quando Trump impôs severas sanções a essa empresa. Em todo o caso, e em síntese, é esta figura com fortes e antigas ligações a Vladimir Putin que ocupa e continua a ocupar o cargo de CEO da Nord Stream AG, em cujo conselho de administração se sentam, além de vários membros da Gazprom, Gerhard Schröder, Hans-Ulrich Engel, CEO da BASF, a francesa Isabelle Kocher, da Engie (antiga GDF Suez), ou Johannes Teyssen e Marc Spieker, da alemã E.ON.

E agora?

Em Agosto de 2018, a revista The Economist chamou ao Nord Stream 2 “o mais controverso projecto energético do mundo”, dizendo que ele iria “isolar a Ucrânia” (sic) e alertando para a crescente dependência da Europa relativamente ao gás russo.

Poderão existir muitas explicações, históricas e geopolíticas, culturais e estratégicas, para a invasão da Ucrânia pela Rússia. Mas se é possível apontar uma razão para Vladimir Putin ter avançado da forma como avançou, essa razão é só uma: o gás. Com a dependência extrema da Europa face à energia vinda da Rússia, Moscovo sabe que quaisquer “sanções” ocidentais, por muitas duras que sejam, nunca poderão ultrapassar certos limites, sob pena de o Kremlin encerrar o Nord Stream 1 e de cortar o fornecimento de gás à Europa.

Por isso, o destino da Ucrânia já estava traçado e escrito há muito, antes sequer de as tropas russas se terem deslocado para a fronteira. A drôle de guerre a que se assistiu durante dias, semanas, com um timing de reacção mais do que tardio e as primeiras medidas só terem sido tomadas quando os russos já estavam na Ucrânia dentro, mostra bem o temor e a imensa fragilidade de uma UE à mercê do gás vindo da Sibéria e dos humores de um homem com “olhar de alumínio”, como o descreveu Anna Arutunyan em A Mística de Putin.

Com os russos instalados em Kiev, ninguém pensou, nem poderia pensar, em acabar com os fornecimentos vindos do Nord Stream 1, enquanto Suíça, a cloaca do mundo, as autoridades logo invocaram a neutralidade para dizer business as usual em matéria de protecção e sigilo para as contas das empresas russas, oligarcas e mafiosos. É aliás em Zug, na Suíça, que se situa a sede da Nord Stream AG, uma companhia cujo presidente executivo, nunca é demais recordar, foi um antigo oficial da polícia política da Alemanha comunista.

Só isso, sem mais nada, deveria ter bastado para abrir os olhos da Europa ou, melhor, da Alemanha. Mas nem isso, nem a brutal ocupação da Geórgia, nem a anexação da Crimeia, nem a chacina da Síria, nem os escândalos com ex-políticos (o alemão Schröder, o finlandês Lipponen, o austríaco Shelling), nem as centenas de sangrentos confrontos no Donbass ao longo de anos, nem os 15 mil mortos na Ucrânia, nem as ameaças da América, nem as críticas dos ecologistas, nem os avisos da Ucrânia, da Polónia (em 2006, um ministro polaco comparou o Nord Stream ao pacto Molotov-Ribbentrop), da Estónia, da Hungria, da Letónia, da Roménia, da Eslováquia e da Lituânia, nada, enfim, demoveu a Alemanha, a Áustria e a França deste projecto suicida – e homicida.

Para esses países – e é preciso dizê-lo -, a soberania da Ucrânia, a liberdade e o bem-estar do seu povo, a segurança e a democracia na Europa valeram menos, muito menos, do que o gás vindo das estepes da Sibéria. Em 2019, o CEO da Gazprom congratulou-se publicamente por ter distribuído os dividendos mais altos da história da companhia: em apenas um ano, a capitalização bolsista da empresa tinha crescido 87%. A factura veio agora, e pagamos nós por ela.

Ao longo de anos, sem tratar de ter uma política de defesa e segurança própria e comum, abrigando-se comodamente sob o escudo protector da NATO e dos EUA (isto enquanto atacava a “ingerência” americana quanto ao Nord Stream), a União Europeia não curou de diversificar as suas fontes de energia e de fazer uma aposta séria nas renováveis, com isso colocando em risco o seu futuro e o futuro de milhões de cidadãos, postos à mercê de um ditador sem escrúpulos e de um regime corrupto, vulneráveis à catástrofe climática iminente e já em curso.

Entre outros desastres, a UE foi incapaz de perceber que a actual Rússia de Vladimir Putin já nem sequer é um Estado, mas um jogo de espelhos, um teatro de sombras que joga com os conceitos e as distinções do passado (capitalismo vs. comunismo, Oeste vs. Leste) para instaurar um regime em tudo se mistura e confunde e em que se conjugam, por um lado, os extremos mais extremos do capitalismo selvagem, sob a forma de uma cleptocracia de oligarcas, e, por outro, do autoritarismo de Estado encarnado num tirano sem escrúpulos.

Apesar da falta de liberdade, da morte dos opositores, dos atropelos aos direitos humanos, das bárbaras perseguições, foi com ele que a chanceler alemã se sentou, negociou, afinou os termos de uma parceria energética desastrosa e criminosa sob todos os pontos de vista, económico e político, geoestratégico, ambiental. A Leste, o agressor é Putin, mas, do nosso lado, a catástrofe da Ucrânia tem um nome e um rosto, Angela Merkel.

Por cegueira de vistas, pura inconsciência, avidez do lucro e aberrante indiferença aos destinos da Ucrânia e Estados limítrofes, a energia da Europa foi tratada como uma questão comercial, quando ela é essencialmente um problema político e geoestratégico. Ora, não é a mesma coisa comprar o gás a uma democracia comercial, como os EUA, ou a uma ditadura que nos quer destruir, como a Rússia. A partir daí, ficou decidida a sorte de uma nação inteira, há muito escrita nas estrelas.

Sem arriscar prognósticos, o que sucederá num futuro próximo será, na melhor das hipóteses, uma deslocação para oeste da fronteira de insegurança, até aqui colocada na Ucrânia, mas doravante situada na Polónia, na Eslováquia, na Moldava e na Hungria, tudo países que, não por acaso, alertaram em devido tempo para a tragédia do Nord Stream. Este, claro, será aberto na altura própria, quando serenarem as opiniões públicas europeias, havendo para isso, como sempre, o argumento clássico de que “não há alternativa” e de que não se podem perder os investimentos feitos, da ordem dos milhares de milhões. O Nord Stream 2, convém lembrá-lo, estava pronto a ser estreado, brilhando como novo, não foi interrompido a meio curso, com obras por acabar.

Putin será afectado, sem dúvida, e a prazo tragado pela China, mas é ingénuo pensar que não sopesou ao milímetro os prós e contra desta aventura no Oeste, sabendo de antemão que tem a Europa aprisionada pela conta do gás: cerca de 41% do gás consumido na UE-27 provém da Rússia e há países, como a Hungria e a República Checa, em que se essa dependência chega a quase 100%.

Agora, Ursula von der Leyen parece ter acordado de uma letargia de meses ou anos, e os líderes da União, esquecendo-se do que há pouco diziam da “ingerência” americana na matéria (o ano passado!), falam atabalhoadamente na necessidade de diversificar as suas fontes da energia. Tarde piaram.

Por outro lado, a actual fase de “unidade europeia”, com declarações grandiloquentes para consumo mediático, passará a breve trecho, sendo substituída por um ressentimento fundíssimo, e mais do que justificado, dos países do extremo Leste relativamente à Alemanha, mas também à França e, por arrasto, a toda a União. As tensões já experimentadas entre a Polónia e a Bielorrússia tenderão a agravar-se e o nacionalismo autoritário de Varsóvia e Budapeste ganhou aqui um novo fôlego e um poderoso arsenal propagandístico devido à “traição” de Berlim e Bruxelas.

A Europa uniu-se por momentos contra a ameaça da Rússia, mas a prazo é enorme o potencial de desintegração da UE, com graves riscos de novos “Brexits” no Leste. Ao visar Kiev, Putin quis, acima de tudo, atingir Bruxelas, e conseguiu. Chapeau.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

Diário de Notícias
António Araújo
28 Fevereiro 2022 — 01:39



 

644: Nada é verdade, tudo é permitido

OPINIÃO

Era mais do que óbvio: nos seus delirantes delírios, William Burroughs, um dos papas da Beat Generation, andou fascinado pela Cientologia de Ron Hubbard e pelas suas patranhas sobre a “mente reactiva”. Em 1968, chegou a frequentar cursos da seita em Londres e Edimburgo, mas há quem assevere que o seu interesse pelas doutrinas de Hubbard foi muito anterior a isso e que o autor de Naked Lunch namoriscava a Dianética desde, pelo menos, finais dos anos 50, embevecido pelas suas ideias da linguagem como meio de controlo dos outros e pelos exercícios para a libertação de todos e quaisquer condicionamentos.

A par da Cientologia, Burroughs deslumbrou-se, o que também era óbvio, pelo “Velho da Montanha”. “Velho da Montanha” ou tão-só “o Velho” foi o nome que Marco Polo deu a Hassan-i Sabbah, de seu nome completo Hasan bin Ali bin Muhammad bin Ja”far bin al-Husayn bin Muhammad bin al-Sabbah al-Himyari, o xiita persa que, no século XII, fundou outra seita famosa, a Ordem dos Assassinos ou, se quisermos, dos Haxixim.

Dizia Marco Polo que o Velho da Montanha fez construir num vale “o maior e o mais belo jardim do mundo”, onde “só entravam aqueles que deviam tornar-se assassinos”. “O Velho tinha na sua corte todos os jovens da região, dos 12 aos 20 anos, que lhe parecesse que se iam tornar homens fortes. Quando o Velho os fazia entrar no jardim em grupos de quatro, de dez, ou de 20, mandava dar-lhes a beber ópio e eles dormiam uns bons três dias e, depois, fazia-os levar para o jardim onde os despertavam.” Quando os jovens acordavam, rodeados de belas donzelas, arvoredo frondoso e aves canoras, julgavam estar no Paraíso.

Depois, sempre que o Velho queria mandar matar alguém, ordenava que a um certo número de jovens fosse dada uma poção soporífera e mandava retirá-los do palácio. Mal acordavam, julgavam ter sido expulsos do Éden e, então, o Velho mandava-os assassinar quem quer que fosse; cegamente, os jovens obedeciam sem pestanejar, na mira de regressarem ao Jardim das Delícias. “Desta maneira, não escapava à morte nenhum homem perante o Velho da Montanha, desde que ele o quisesse; e digo-vos que muitos reis lhe prestavam um tributo com medo de serem mortos.”

Por muito fantasiosa que seja esta narrativa de Marco Polo, tem um fundo de verdade: Hassan-i Sabbah é uma personagem histórica, de rara crueldade (mandou matar um dos filhos por estar embriagado), senhor de vastos territórios, guru da Ordem dos Assassinos, devendo lembrar-se que a etimologia da palavra “assassino” deriva precisamente do haxixe consumido pelos jovens homicidas. Para Marco Polo – e o ponto é importante -, o Velho da Montanha era um charlatão que, além de drogar rapazes com ópio e com haxixe, “fazia crer àquela gente simples da montanha que era um profeta”.

À semelhança dos camponeses da Pérsia, também William Burroughs e outros arautos da Beat Generation, como Allen Ginsberg, ficaram seduzidos pelo Velho da Montanha, adoptando para si o arrepiante lema da Ordem dos Assassinos: “Nada é verdade, tudo é permitido”. Num dos seus últimos livros, L”innominabile attuale, de 2017, Roberto Calasso, falecido em Julho, estabeleceu o paralelo óbvio entre os actuais bombistas suicidas e os esbirros de Hassan-i Sabbah, também eles fida”iyyan (os que se sacrificam), estando dispostos a morrer em troca da mirífica promessa de um jardim com águas correntes e moças virgens.

Não se pense, porém, que estes delírios se cingem ao radicalismo islâmico, pois, como bem nota Calasso, o lema “Nada é verdade, tudo é permitido” marcou fundamente a filosofia de Nietzsche, que terá conhecido o mote da Ordem dos Assassinos a partir da leitura da obra Geschichte der Assassinen, publicada em 1818 pelo orientalista alemão Joseph von Hammer-Purgstall.

-Desde então, e sem receio de exagero, a ausência de verdade – ou, como agora se diz, a “pós-verdade” – tem caracterizado o niilismo e o relativismo contemporâneos e a diluição das fronteiras éticas entre bem e mal, encontrando-nos hoje, insofismavelmente, num nietzschiano “para lá do bem e do mal”. Neste sentido, Donald Trump ou Bolsonaro não serão do domínio do “mal”, como Hitler ou Estaline o eram, estando antes, e isso sim, para além das categorias que distinguem a verdade da mentira ou a bondade da maldade.

Roberto Calasso faz outra observação surpreendente, que dá que pensar. Segundo ele, não é coincidência o facto de, na década de 1990, o último estádio de formação do terrorismo islâmico radical ter surgido a par da explosão da pornografia online. Não se trata de fazer uma crítica moralista à difusão de conteúdos pornográficos através da Internet, ou de forçar uma relação de causa-efeito entre os dois fenómenos, mas de perceber que a massificação da pornografia implicou, como escreve Calasso, que “tudo o que desde sempre foi sonhado ou desejado se tornou subitamente visível e facilmente acessível, a toda a hora, a todo o minuto”.

Como é evidente, esta erupção da pornografia subverteu por completo os códigos, os tabus e os interditos existentes em matéria de sexualidade, com isso ameaçando os fundamentos da autoridade religiosa, a qual, no universo islâmico, confunde-se com a autoridade civil ou política. Pense-se no Paquistão, alfobre de radicalismos, o país que mais consome pornografia infantil em todo o mundo e onde foi descoberta em 2015, na região de Kasur, uma gigantesca rede pedófila que envolvia mais de 300 crianças.

Ou recorde-se que os jihadistas são ávidos consumidores de pornografia e, nos computadores apreendidos aos operacionais da al-Qaeda e do Estado Islâmico, cerca de 80% dos sites consultados contêm imagens de sexo explícito. Talvez isto permita alcançar o potencial subversivo da pornografia para os jovens muçulmanos, e não só. Sob a forma de imagens irresistíveis, com um poder arrebatador igual ao do ópio ou do haxixe, o secularismo ocidental desafiou a autoridade religiosa de uma forma nunca vista, sussurrando-lhe ao ouvido o desconcertante lema dos Assassinos, “Nada é verdade, tudo é permitido”.

De facto, nada do que existe na pornografia é real (os afectos, o sexo, o prazer gritado), mas tudo nela é permitido, pois assim o exigem as mais bizarras fantasias dos seus biliões de consumidores. Na perspectiva dos poderes religiosos, a ameaça é tão forte que só poderá ser combatida através de um apelo ainda mais intenso, o do terrorismo sacrificial, sendo o islamismo radical uma reacção arcaica à modernidade laica, de que a pornografia é um dos expoentes mais atractivos e mais intensos.

Nothing is True and Everything is Possible – o lema dos Assassinos – é também o título de um apaixonante livro publicado pelo jornalista Peter Pomerantsev em 2014, um retrato surreal da Rússia contemporânea (oligarcas, seitas místicas, prostitutas de luxo), que nos ajuda, como poucos, a compreender a actual tragédia do regime de Putin e aquilo que, através da televisão, da Internet e de magos da mentira como Vladislav Surkov, ele foi capaz de fazer em matéria de pós-verdade. Viu-se esta semana: com 190 mil soldados colocados na fronteira com a Ucrânia,o presidente russo teve o desplante de acusar a Ucrânia de “genocídio” no leste do país, responsabilizando-a pela “continuação do derramamento de sangue”(!).

De caminho, rasgou os acordos de Minsk, negou à Ucrânia o direito à existência (“nunca teve uma tradição consistente como uma verdadeira nação”) e, claro, ordenou o envio de tropas “de paz” para Donetsk e Lugansk. A leste, nada de novo: já tinha sido assim na Geórgia, já tinha assim na Crimeia, e o que espanta não são as mentiras descaradas de Putin, mestre da aldrabice. O que impressiona é, isso sim, que entre nós ainda haja gente que, por sectarismo abjecto, continua a amplificar e a divulgar as trapaças do ditador russo.

Perante tudo o temos assistido nas últimas semanas, com o avolumar de tropas russas na fronteira e as bárbaras declarações de Putin na televisão, o patético Avante! teve o desplante de falar da “obscena campanha provocatória do imperialismo contra a Federação Russa”, enquanto, nas páginas do Público, o servil Manuel Loff insistiu na tecla do “imperialismo” do Ocidente, com a sua “visão oriental e colonial da Rússia”.

O Óscar da sem-vergonha vai, porém, para Boaventura Sousa Santos, que diz com tranquilidade que “é provável” que a Rússia invada o leste da Ucrânia não por expansionismo, mas devido à “política de hostilização” movida pelos EUA, pela NATO e pela UE.

Quer dizer, Putin já invadiu a Geórgia, já abocanhou a Ossétia do Sul e a Abecásia, já anexou a Crimeia, mata friamente os seus opositores (Boris Nemtsov, Boris Berezovsky, Stanislav Markelov, Anastasia Baburova, Sergei Magnitsky, Natalia Estemirova, Anna Politkovskaya, Alexander Litvinenko, Sergei Yushenkov, Yuri Shchekochikhin), mas a culpa nunca é da Rússia, coitadinha, mas da “política de hostilização” do Ocidente.

A mentira em toda a parte: há dias, o ex-ministro do Ambiente do Brasil, Ricardo Salles, publicou nas redes sociais uma imagem da cimeira Putin/Bolsonaro, com o logótipo da CNN e o anúncio de que o presidente brasileiro, pelos vistos um ás da diplomacia, havia conseguido “evitar a 3ª Guerra Mundial”.

Tratava-se de uma imagem grosseira e escandalosamente falsa, que a CNN se aprontou a classificar de “mentirosa”, mas o ex-ministro Salles, ao invés de se retractar, ou ao menos calar, fugiu em frente e acusou a CNN de “ridícula”, voltando à carga com nova impostura, desta feita uma capa forjada da Time a atribuir a Bolsonaro o Nobel da Paz de 2022.

O problema não são apenas as mentiras, mas aquilo que recobrem: Salles é um escroque que teve de se demitir sob acusações de envolvimento num esquema de exportação ilegal de madeira do Brasil e tem vasto currículo de negociatas, crimes ambientais, divulgação de mentiras e vídeos falsos, condenações judiciais por corrupção e fraude, investigações em curso por enriquecimento ilícito e tráfico de influência. Foi ministro do Ambiente de um país como o Brasil…

Ocorre tudo isto numa semana em que, um ano após ter sido banido do Twitter e do Facebook, Donald Trump lançou a sua própria rede social, por ironia chamada Truth. A nova rede é gerida por uma empresa de Trump que se encontra sob investigação das autoridades federais e a Truth começa bem, lindamente, com suspeitas de ter pilhado o logótipo a uma modesta empresa de transportes inglesa, a Trailar.

De Nixon ao Clinton do Monicagate, passando pelas armas de destruição maciça e pela vitória eleitoral de Bush sobre Gore, a América já presenciou muitas fraudes e intrujices, mas nunca foram tão numerosas e constantes como no tempo de Donald Trump, um homem que começou a mentir logo no dia da tomada de posse, em que jurou não ter chovido em Washington, mesmo com as televisões a mostrarem a assistência coberta de capas de plástico e a primeira dama a empunhar um guarda-chuva.

A lista de aldrabices é infinda e deprimente: Tump disse ter sido escolhido “homem do ano do Michigan”, um Estado onde nunca viveu; acusou Obama de ter ordenado a separação de famílias migrantes e gabou-se de ter acabado com essa política, quando foi exactamente o contrário; acusou falsamente um congressista de ser apoiante da al-Qaeda; semeou o pânico ao garantir, e insistir, que o Alabama ia ser alvo do furacão Dorian, quando ele passou muito ao lado (Trump chegou a mostrar um mapa falso e os seus colaboradores pressionaram os meteorologistas para mentirem).

As aldrabices vão desde aspectos ínfimos e caricatos (após uma reunião com escuteiros, afirmou que lhe disseram que o seu discurso fora o melhor que tinham ouvido na vida, os escuteiros logo desmentiram) até questões graves e de grande alcance, como a tese de que a covid era “equivalente a uma constipação”, que no plano sanitário “a situação estava sob controlo” e que o vírus estava a “desaparecer”, num ano em que o Sars-CoV-2 vitimou mais de 386 mil americanos.

A mais anedótica de todas foi a afirmação de que as eólicas causam cancro(!), que prova bem a relação difícil e conflituosa que populistas como Trump ou Boris Johnson têm com a ciência e a verdade. O seu domínio já não é o do bem ou do mal, pois o bem e o mal são subjectivos e dependem de cada qual. Para eles, o inimigo a abater é a verdade, pois quem for capaz de iludir a verdade, que é objectiva e universal, conseguirá fazer tudo. O líder que for capaz de levar os outros a acreditarem nas suas mentiras, por mais descabeladas e inconcebíveis que sejam, tornar-se-á mais poderoso do que o Velho da Montanha. E então, como no tempo dos Assassinos, Nada será verdade, tudo será permitido.

Historiador. Escreve segundo a antiga ortografia

Diário de Notícias
António Araújo
26 Fevereiro 2022 — 00:17



 

160: Infinitamente grande, infinitamente pequeno

OPINIÃO

Há dias, andou a Figueira em polvorosa à conta de três tubarões avistados. Toparam-nos ao largo da praia do Hospital, areal hospitaleiro, portanto, e apto ao cuidado clínico de todos quantos tenham a desdita de se cruzar no mar com os temíveis esqualos, ainda que o recontro com estes raramente seja mortal ou sequer feridente. Mas isto, claro, dizemos nós no conforto e na segurança de terra firma, pois ninguém de bom senso deseja estar na água em convívio com três tubarões crescidos. A polícia marítima não conseguiu identificar a espécie dos bichos, esperando todos que eles não sejam das classes piores e mais lesivas para nós, humanos.

De todo o modo, os tubarões, mansos ou bravos, são seres extraordinários, absolutamente extraordinários – e nós, humanos, deveríamos ter vergonha e nojo do tratamento que lhes damos, da forma bárbara como amiúde os matamos, às vezes sem razão alguma, só por maldade. Pensemos, por exemplo, numa máquina chamada Somniosus microcephalus. Ou, se preferirem, Squalus squatina, outro dos seus muitos nomes, a que poderíamos acrescentar epítetos graciosos como Somniosus brevipinna, Squalus borealis, Scymnus gunneri, Scymnus glacialis, Scymnus micropterus ou até, imagine-se, Leodon echinatum. Para simplificar, chamemos-lhe tubarão-boreal ou tubarão-da-groenlândia.

Há um poema famoso de William Blake sobre o tigre, mil vezes glosado e citado, que diz assim, numa tradução possível:

Tigre, tigre, viva chama
Que as florestas da noite inflama,
Que olho ou mão imortal podia
Traçar-te a horrível simetria?

Poderíamos dizer exactamente o mesmo do tubarão-boreal: que mãos, que deuses, terão concebido e feito um animal assim? No ano passado, numa breve nota saída na London Review of Books, Katherine Rundell lembrava factos tão assombrosos como a sua longevidade: um tubarão-boreal pode viver 500 ou 600 anos.

Quer dizer, há tubarões-boreais a navegar pelos fundos da Groenlândia que já por lá andavam quando os portugueses foram às Índias ou ao Brasil, isto é, partilharam os mares com Vasco da Gama ou com Pedro Álvares Cabral. Os seus pais foram contemporâneos de Dante, os trisavós viveram no tempo de Júlio César. Muitos dos tubarões-boreais hoje vivos passaram incólumes a gripe espanhola, que em terra vitimou 100 milhões de humanos, atravessaram a Grande Guerra, com 20 milhões de mortes, e a Segunda, a de 1939-1945, em que chacinámos 70 a 85 milhões dos nossos semelhantes. Quem é o bicho, quem é o homem?

A profundidade ajuda. Um tubarão-boreal vive 2200 metros abaixo da superfície das águas. Qualquer coisa como seis Torres Eiffel de profundidade, uma distância segura em relação aos homens e à sua pulsão destruidora. Ou talvez não. Num passado não muito distante, os seres humanos chegaram a matar mais de 30 mil tubarões-boreais por ano, uma carnificina completa, que colocou esta espécie no limiar da extinção. É que os tubarões-boreais são lentos, velhos e lentos: uma fêmea só atinge a maturidade para procriar por volta dos 150 anos e um macho só começa a acasalar aos 100 anos, não me perguntem como. Matá-los antes disso é aniquilar qualquer possibilidade de reprodução.

Velhos e lentos, majestosos, tudo neles obedece a um ritmo que não é o nosso, nem sequer o dos outros tubarões. Enquanto um tubarão “normal”, digamos assim, é capaz de nadar cinco milhas por hora, a uma velocidade igual ao mais rápido dos nadadores olímpicos (e, obviamente, durante muito mais tempo do que estes), um tubarão-boreal desloca-se, na melhor das hipóteses, a umas vagarosas duas milhas/hora.

Até hoje, a nossa ciência foi incapaz de explicar tal lentidão, a maior de todos os peixes daquela envergadura. Dizem que ela tem que ver com o estranhíssimo metabolismo dos tubarões-boreais, que é, ao cabo e ao resto, a razão de ser da sua formidável resistência ou, como agora se diz, da sua resiliência: um tubarão-boreal, com 200 quilos, não precisa de mais do que da energia idêntica à de uma barra de chocolate por dia para sobreviver – e para navegar e se aquecer em águas gélidas, a mais de dois quilómetros de profundidade. Espantoso, não?

Agora, o tamanho: os tubarões-boreais mais avantajados chegam a alcançar os sete metros e a pesar mais de uma tonelada e meia. Uns monstros. Esperemos que nunca se aproximem dos pacatos areais da Figueira da Foz, mas, com o aquecimento global e a escassez de peixe, não é descabido supor que, um dia destes, em Portugal, um surfista mais afoito ou um turista de Inverno irá dar de caras com um tubarão-boreal a mirá-lo, de alto a baixo.

Espanta o pouco, quase nada, que sabemos deles. Nunca ninguém os viu a acasalar, a dar à luz, nem mesmo a caçar. Elusivos e esquivos, é ainda hoje um mistério como são capazes de capturar as focas, muito mais rápidas do que eles. Há quem diga que as caçam quando elas estão a dormir, pois as focas, sendo focas, adormecem profundamente, de olhos todos fechados, com as duas metades do cérebro apagadas, adormecidas, naquilo a que se chama “sonho bilateral simétrico”, uma delícia onírica, decerto, mas que as deixa especialmente vulneráveis à predação alheia.

Nas entranhas de alguns tubarões-boreais, contudo, já foram encontrados restos de bichos grandes, morsas, ursos-polares, alces, baleias, até o cadáver inteiro de uma rena e a perna de um infeliz humano, coitado – cuidado. Com as águas mais quentes e o pescado a rarear, não é improvável que os tubarões-boreais mudem de dieta e passem a incluir-nos no seu cardápio, mas isso não é razão nenhuma para que continuemos a matá-los de uma forma tão ignóbil e infame.

Há não muito, um norueguês maluco, Morten Strøsknes, decidiu ir em busca do tubarão-boreal, ou o que dele resta. O resultado foi um livro fascinante, Havboka, saído em Oslo em 2015 e, três anos depois, traduzido para o castelhano com o título El Libro del Mar (Barcelona, Ediciones Salamandra, 2018). Aí se conta, desde logo, que os tubarões-boreais têm um cheiro horrível, nauseabundo, devido às tremendas quantidades de ureia que trazem no lombo, essencial para que mantenham a mesma concentração de sal do oceano em que vivem, evitando que o corpo ganhe ou perca água salgada por osmose. Por isso, um ser humano não pode comer-lhe a carne; quem o fizer, fica envenenado, aturdido, aos tombos como um tonto bêbedo. Entre os povos do norte, falam de “bebedeira de tubarão” para se referirem aos incautos que o ingerem fresco e logo perdem o equilíbrio, vomitam tudo quanto têm nas tripas e tombam para o lado,

inconscientes, durante horas, às vezes dias. A carne de tubarão-boreal tem uma substância, o N-óxido de trimetilamina, que a torna tóxica, a saber a urina. Os poucos que a apreciam têm de a enterrar durante meses, para fermentar, e depois de a colocar ao sol a secar outros tantos meses, ao fim dos quais se obtém o hákarl, que uns acham uma iguaria e manjar celeste, outros, a maioria, uma mistela com um odor repugnante e um sabor abominável, áspero como tudo. Não admira, pois, que os povos nórdicos, nas suas mitologias, garantam que o tubarão-boreal veio ao mundo no pote de urina de Sedna, a deusa dos mares. Mas adiante.

Sendo infinitamente grandes, de proporções colossais, os tubarões-boreais estão à mercê de um bichozinho minúsculo, um crustáceo em forma de minhoca, chamado Ommatokoita elongata, que se aloja nos seus olhos, parasitando-os, cegando-os. Uma minhoca minúscula, ridícula, é capaz de vencer e cegar um peixe de sete metros, vindo de tempos pré-históricos. Devíamos meditar nisso, nós que matamos os tubarões-boreais só para lhe extrairmos o óleo do fígado, nem sequer para o comermos ou bebermos, que é horrível, mas apenas para com ele pintarmos as casas viradas ao mar e à geada (dizem que, envernizada com óleo de tubarão-boreal, uma casa continua a brilhar como nova mesmo passados 50 anos, ou mais).

Temos sentido na pele o poder do infinitamente pequeno. O SARS-CoV-2 tem 70 milionésimos de milímetro e uma sequência genética de 12 letras. Com uma combinação de quatro letras – a, u, g, c – está escrito o texto do vírus que já matou quase cinco milhões de seres humanos, and counting. A totalidade do código genético desse vírus cabe em quatro páginas de jornal. A sua proporção em relação a um ser humano é igual à de uma galinha para todo o planeta Terra. Quando o vírus da covid-19 mata um ser humano, é o mesmo que se uma galinha tivesse destruído o mundo inteiro, desde as montanhas mais altas dos Himalaias até às profundezas abissais onde vivem os tubarões-boreais. Uma galinha, o mundo. Nunca esqueçam: um organismo de 70 milionésimos de milímetro colocou 7,7 biliões de seres humanos em alerta máximo, confinados em casa, apavorados, e de caminho atormentou governos, destruiu economias, enlouqueceu sociedades.

Quando a covid-19 surgiu, havia 47 guerras activas no planeta, e não consta que tenham diminuído. Em 2019, só no Iémen, no Afeganistão e na Síria, humanos dizimaram 73 mil humanos, provando que não precisam de vírus para se matarem uns aos outros. A pior guerra, contudo, é a que estamos a fazer ao planeta, pois ela nos liquidará todos, inocentes ou culpados. O facto de estarmos expostos a uma coisa tão pequena como o SARS-CoV-2, de uma galinha ser capaz de destruir a Terra inteira, deveria levar-nos a perceber que também nós somos minúsculos, ínfimos, ante a grandeza do mundo circundante e, sobretudo, ante a fúria com que esse mundo se irá a voltar contra nós ou, melhor, já se está a voltar contra nós. O que temos visto é só um começo, um pálido ensaio do que nos aguarda em breve, pois ela é a Terra, nós a galinha.

PS Soube-se no passado Abril: Portugal é o 3.º país europeu, e o 12.º em termos mundiais, que mais captura tubarões e raias. Além da pesca, somos o 8.º país que mais importa carne de tubarão a nível mundial (já agora, quem anda a comer tanto tubarão?). Só em Portugal, matamos qualquer coisa como 1,5 milhões de tubarões por ano, sendo essa uma espécie essencial, absolutamente vital, para a preservação dos ecossistemas marinhos, os quais, uma vez afectados, deixarão de nos dar outros peixes, mariscos, etc. Além de crime, esta matança é estúpida, contrária aos nossos interesses. Senhores governantes, quando acabam com este crime?

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

Diário de Notícias
António Araújo
25 Setembro 2021 — 00:15

 

128: A traição da tradição

OPINIÃO

A tradição já não é mesmo o que era. Agora, ao que parece, há até tradicionalistas e Tradicionalistas, e o que distingue uns dos outros é bem mais do que o uso de uma maiúscula. Em bom rigor, os Tradicionalistas são inimigos figadais dos tradicionalistas, pelo menos a crer em quem os acompanhou de perto e estudou a fundo, como foi o caso de Benjamin Teitelbaum, professor na Universidade do Colorado e autor de Guerra Pela Eternidade: o retorno do Tradicionalismo e a ascensão da direita populista, cuja tradução brasileira acaba de sair há pouco, pela Unicamp. Recomenda-se muitíssimo: Teitelbaum entrevistou e conviveu durante anos a fio com os próceres do Tradicionalismo – Steve Bannon, o russo Aleksandr Dugin ou o brasileiro Olavo de Carvalho, guru de Bolsonaro. O retrato que nos traz é assombroso.

O crescimento do populismo tem feito nascer dezenas de obras que indagam esse fenómeno do ponto de vista político e sociológico, mas poucas há que se dediquem a tentar saber quais são ao certo as ideias dos seus líderes, porque as têm, e às vezes até arreigadas, sendo simplista – e deveras estúpido – rotulá-los apenas como um bando de oportunistas sem ideologia, gente tão-só interessada em alcançar o poder em beneficio próprio e das suas camarilhas.

Há um fundo de verdade nessa caracterização, bastando ver que todos os líderes populistas, sem excepção, se viram envolvidos em casos gravíssimos de corrupção e compadrio, não havendo um só que não tenha, antes de tudo mais, favorecido filhos e enteados logo que chegou ao poder. Mas, à parte isso, e de uma estratégia ” que se apresenta aos eleitores incautos e cujos fundamentos são mais densos e profundos do que slogans campanha como o M.A.G.A. de Donald Trump (“Make America Great Again”) ou o “Brasil Acima de Tudo, Deus Acima de Todos” de Jair Bolsonaro.

Quando eclodiu a covid, não tardou muito a revelar-se a má relação que todos os populistas mantêm com a ciência e com os cientistas, sendo no mínimo estranho que, de Bolsonaro a Salvini, passando por Trump e Orbán, não houvesse um só que ora não tivesse recusado as máscaras ou as vacinas, ora não tivesse embarcado nas fantasias da hidroxicloroquina de Didier Raoult. A opção sistemática pela charlatanice em detrimento da verdade científica tem várias causas, mas decorre, acima de tudo, de uma razão ideológica, assente no ódio profundo à modernidade e a tudo quanto dela derivou: ciência, tolerância, direitos humanos.

O fascínio dos Tradicionalistas por uma “idade de ouro” pré-moderna baseia-se nuns quantos desvarios que foram propalados por “filósofos” hoje desacreditados e quase ignorados, mas que tiveram uma influência profunda em Bannon, Dugin e Olavo de Carvalho. Entre eles, René Guénon, um francês metafísico convertido ao sufismo islâmico, que adoptou o nome Abdel Wâhed Yahiâ e morreu no Cairo em 1951.

A sua obra mais conhecida intitula-se, pois claro, Revolta Contra o Mundo Moderno, e é espantoso notar que os ideólogos reaccionários se arvoram em paladinos da “civilização ocidental” contra o islamismo e contra a ameaça dos imigrantes e, ao mesmo tempo, têm por grande referência intelectual um místico que odiava o Ocidente, cujas últimas palavras em vida foram “Alá” e que era um cultor fervoroso das espiritualidades e dos esoterismos mais bizarros provindos do Oriente.

O grande discípulo de Guénon, e outro autor de cabeceira dos Tradicionalistas, foi Julius Evola, um barão italiano estranhíssimo, conhecido pelos seus escritos antissemitas, antiliberais e antidemocráticos (defendia, por exemplo, que as mulheres deviam completa subordinação aos homens), pela sua admiração incondicional por Himmler e pelo nazismo, mas também pelas suas crenças no esoterismo e no sobrenatural. É no mínimo bizarro que, em pleno século XXI, os ideólogos de Trump ou de Bolsonaro tenham por guru um homem como Evola, que se intitulava “superfascista” e que acreditava em fantasmas e nos poderes telepáticos e que era um crente – e praticante – da alquimia.

A última das figuras-chave desta galeria patética é Frithjof Schuon, um suíço que estudava a sabedoria oculta das religiões e que se fixou nos Estados Unidos, onde fundou uma seita que, além das habituais suspeitas de abusos sexuais, praticava ritos da tradição sioux, nos quais Schuon aparecia aos fiéis, obviamente, como sumo sacerdote, envergando peles de urso e um chapéu com chifres em tudo semelhante ao “xamã do QAnon”, um dos idiotas que tentaram invadir o Capitólio no passado Janeiro.

Este trio de loucos – Guénon, Evola e Schuon – não foi uma referência intelectual distante para os ideólogos de Trump ou Bolsonaro: Olavo de Carvalho, por exemplo, foi membro da seita de Frithjof Schuon, participou nos rituais sioux, tornou-se prosélito do islamismo, foi nomeado muqaddam, com o nome de Sidi Muhammad e o encargo de fundar uma taiqa (escola sufi) no Brasil. Mais tarde, fixou-se nos confins da Virgínia, nos Estados Unidos, onde ainda hoje vive, e é de lá que ministra as suas palestras em que defende que as mulheres têm um “protótipo celestial” baseado na beleza, na pureza e na passividade.

Declinou um convite de Bolsonaro para fazer parte do seu governo, preferindo manobrar na sombra e tendo papel determinante na escolha de vários ministros-chave, como Ernesto Araújo para as Relações Exteriores e Ricardo Vélez Rodríguez para a Educação. Para termos uma noção do seu peso, basta dizer que quando o vice-presidente Hamilton Mourão atacou o excesso de influência de Olavo e lhe recomendou publicamente que “voltasse a ser astrólogo”, os filhos de Bolsonaro uniram-se em torno do guru e o presidente condecorou-o com o grau máximo da Ordem do Rio Branco, a mais alta distinção diplomática do Brasil, com isso desautorizando o seu vice-presidente e sinalizando o seu apoio a Olavo de Carvalho, um homem que denuncia os escritos de Galileu ou Newton como “charlatanismo”, que considera o aquecimento global uma invenção da família Rockefeller e do Clube de Bildberg (também responsável pelas “campanhas mundiais abortista e gayzista” e pela “nova religião global biónica”). Depois de ter sustentado que estavam a ser usadas células de fetos na fabricação da Pepsicola (!), o ideólogo de Jair Bolsonaro afirmou, em Março de 2020, que a ideia de que a covid-19 poderia ser uma doença mortal não passava de uma “invenção” decorrente da “mais vasta manipulação de opinião pública que já aconteceu na história humana.” No Brasil, a covid já fez mais de 600 mil vítimas mortais.

As contradições são mais do que muitas: os Tradicionalistas recordam com nostalgia a pré-modernidade anterior à Revolução francesa, mas não hesitam em recorrer às tecnologias mais modernas para difundir as suas mensagens e fake news (cerca de 30% das notícias veiculadas nas redes sociais em Inglaterra, favoráveis ao Brexit, foram produzidas por robôs, a maioria das quais russos); dizem querer defender o Ocidente, mas alinham à descarada com a Rússia de Putin, apostada na desestabilização da Europa e na destruição da NATO e da UE; proclamam-se cristãos, muitos deles católicos, mas tudo fazem para minar a autoridade do Papa Francisco, alinhando com integristas pré-Vaticano II, correntes evangélicas sectárias e até fundamentalistas islâmicos; criticam o materialismo do nosso tempo, mas enredam-se em esquemas fraudulentos de milhões e cultivam a amizade dos super-ricos; proclamam-se defensores dos pobres e dos descamisados, mas acreditam que os povos não devem ser governados por democracias, antes por elites iluminadas – de que eles, naturalmente, são a vanguarda mais luminosa de todas.

O seu projecto, abertamente assumido, é lançar o caos e destruir as instituições, na crença de que só assim, sobre as ruínas e os escombros de tudo o que conhecemos e prezamos, será possível fazer renascer das cinzas uma nova “civilização”. É por isso que Trump, Bolsonaro ou Orbán são dos presidentes menos “institucionais” que o mundo conhece, que afrontam pela violência todos os poderes constituídos, sobretudo o judicial (como se viu esta semana no Brasil, e já se tinha visto na invasão ao Capitólio ou nas reformas constitucionais da Hungria), que nomeiam e despacham colaboradores a uma velocidade inaudita, que proferem deliberadamente afirmações bombásticas para horrorizar o establishment (como sucedeu com as tiradas homofóbicas ou misóginas de Trump ou de Bolsonaro).

Nada disto tem a ver com a tradição ocidental e, menos ainda, com o autêntico conservadorismo. Tudo isto é, aliás, a mais completa antítese do que sempre foram os tradicionalistas conservadores, goste-se ou não deles. Vejam o legado dos novos Tradicionalistas: Steve Bannon caído em desgraça, a contas com a justiça por fraude e branqueamento de capitais, acusações não totalmente sanadas por um escandaloso perdão presidencial concedido por Trump nos últimos dias do seu mandato; na Rússia, Aleksandr Dugin demitido de professor na Universidade de Moscovo e proibido de entrar nos EUA, no Canadá e em diversos países à conta de declarações inauditas a favor do aniquilamento da Ucrânia; Jason Jorjani, um dos fundadores da sinistra Alt-Rigth Corporation, afastado do ensino por declarações em que saudava o regresso próximo dos campos de concentração à Europa (e pelo prognóstico de que, em 2050, o rosto de Hitler estaria impresso nas notas de euro…); Michael Bagley, outro nome grande destas conspiratas, preso por lavagem de dinheiro do cartel da droga de Sinaloa.

Por cá, ainda não chegámos a tanto, demos graças aos deuses. Contudo, há franjas na direita portuguesa que, infelizmente, ainda julgam que as novas luminárias do Tradicionalismo têm coisas aproveitáveis e dignas de serem escutadas. Até por isso, convém perceber quem são as fontes inspiradoras dessa escumalha, um bando criminoso e perigoso que conjuga duas perversões letais, a loucura mitómana e a total ausência de princípios morais e de escrúpulos.

Na nossa versão doméstica, o Chega, entre outras tropelias, tentou legalizar-se em 2019 com milhares de assinaturas irregulares, inclusive de menores (!), e, há dias, viu o Ministério Público no Tribunal Constitucional pedir a ilegalização das últimas alterações aos estatutos do partido, ocorridas em Setembro de 2020. Se é assim na oposição, como seria esta gente se chegasse ao governo? Quem de bom senso poderá confiar no Chega para parceiro de coligação? Era bom que os simpatizantes de André Ventura abrissem os olhos de vez e começassem a perceber com quem andam metidos.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

Diário de Notícias
António Araújo
11 Setembro 2021 — 00:27

 

20: No mundo da Lua

OPINIÃO

Agora, que um licitante anónimo acaba de pagar 23 milhões de euros para acompanhar Jeff Bezos ao espaço, começou a contagem decrescente para a sideral viagem. A partida será a 20 de Julho e, num leilão online realizado há dias, bastaram sete lances e breves minutos para encontrar o terceiro passageiro, que terá o privilégio de se sentar ao lado do multi-bilionário da Amazon e do seu irmão para uma excursão-relâmpago que durará não mais do que onze minutos, sem que aos tripulantes seja sequer concedido o direito de levantar-se do assento para ir à casa de banho. Feitos os cálculos, dá qualquer coisa como dois milhões de euros por minuto e o mais estranho de tudo é terem existido cerca de sete mil ofertas, vindas de 160 países do planeta, para embarcar numa viagem que é astronómica a vários títulos. Mas compreende-se: os que forem até aos céus irão afastar-se, nem que seja por escassos momentos, de um mundo em que Bezos, o milionário-astronauta, tem uma fortuna estimada em 196 biliões de dólares e em que, ao mesmo tempo, metade da humanidade sobrevive com menos de seis dólares por dia.

Jeff Bezos não é, porém, o primeiro milionário a comprar bilhete orbital. Nessa matéria, a primazia coube a Dennis Tito, um engenheiro e empresário que, em meados de 2001, pagou 20 milhões de dólares para navegar longamente pelas estrelas, durante oito dias, a bordo da nave russa Soyuz TM-32. Regressou de lá com a cabeça na Lua, a anunciar que em 2018 iria enviar uma nave até Marte, mas acabou por reconhecer, poucos meses depois, que nunca o conseguiria fazer sem a expertise e sem o financiamento da NASA, a qual, obviamente, nem lhe deu troco. Mas há um dado singular, bem expressivo da evolução que tivemos em tão poucos anos: em 2001, nas vésperas da partida de Tito, o administrador da NASA – ou seja, o máximo dirigente da agência – teceu duras críticas ao carácter comercial e turístico daquela excursão, dizendo que “o espaço não é coisa para egos”. Agora, poucos anos volvidos, Jeff Bezos, não contente em dominar o mundo, apronta-se para lançar a mão às estrelas, sem que da NASA ou de qualquer outro lado se ouçam vozes a questionar tal empresa.

Percebe-se que haja muitos interessados em viajar pelos astros, gente capaz de pagar dois milhões – ou mais! – por cada minuto passado fora da órbita terrestre. Trata-se de fascínio antigo, que remonta a tempos longínquos, e ainda hoje há quem diga que a estrela do nascimento de Cristo, que alumiou os pastores da Judeia e conduziu os sábios magos, mais não foi do que o cometa Halley, que atravessou o sistema solar interno por volta do ano 11 a.C. É duvidoso, contudo, que o Halley tenha sido mesmo a “ditosa strella que os três Reys guiaste”, como lhe chamou o nosso poeta quinhentista Diogo Bernardes, numa das muitas alusões que a literatura tem feito aos densos mistérios celestes. “Assim em cada lago a Lua toda / brilha, porque alta vive.”, escreveu o nosso Pessoa.

Também o cinema cedeu à sedução astral e um livrinho recente de Emmanuelle André (L’attrait de la Lune, 2020) enumera as muitas películas que se ocuparam da Lua, ou que a tomaram por motivo. A lista é impressionante e dela constam fitas de que, na minha lunática ignorância, jamais tinha ouvido falar.

Tudo começa pelo óbvio, o icónico e seminal Le Voyage dans la Lune, de George Méliès, de 1902, e pela cena celebérrima da nave lançada por um canhão a despenhar-se no olho da Lua. O que menos se sabe é que do filme, um tremendo êxito na Europa, foram feitas centenas de cópias piratas na América e houve muita gente a enriquecer à conta do génio de Méliès (com destaque para Thomas Edison), excepto ele, que acabou os seus dias endividado, a vender doces e rebuçados numa barraca de rua, junto à Gare Montparnasse.

Diferente foi o destino de Fritz Lang, autor de outra lendária película lunar Frau im Mond/A Mulher na Lua, de 1929, obra precursora em diversos planos. Desde logo, porque intuiu algo que agora vemos com cristalina clareza, na viagem de Jeff Bezos e não só: a Lua pode ser palco da cupidez e da voracidade humanas e, não por acaso, no filme de Lang a expedição orbital é motivada pela ganância de descobrir o ouro existente nas suas crateras. Depois, e caso não saibam, a contagem decrescente antes da descolagem dos foguetões, usada pela primeira vez pela NASA no lançamento do satélite Explorer 1, em 1958, e que desde então se tornou um dos momentos mais emblemáticos das missões espaciais, foi inspirada directamente em A Mulher na Lua, no qual Fritz Lang decidiu, num momento de génio, recorrer a um countdown de 6 até 1 no início da partida para o cosmos. Perguntaram-lhe se extraíra a ideia da sua experiência militar de soldado da Primeira Guerra, Lang respondeu que não, afirmando que fora algo que lhe ocorrera para aumentar o dramatismo da cena do lançamento do foguetão lunar. O filme contou, aliás, com a consultoria técnica de um pioneiro no lançamento de foguetes, Hermann Oberth, e tem um tal rigor que Hitler proibiu a sua exibição durante a Segunda Guerra, dadas as flagrantes semelhanças entre o foguetão da película e o programa nazi das V-2 assassinas.

Naturalmente, a ideia mais precursora de todas foi a de colocar uma mulher no espaço, Friede, interpretada por Gerda Maurus, mas há um outro ponto que merece ser realçado: como notou certeiramente o crítico Raymond Bellour, a dado passo da película as personagens, os actores, tornam-se em espectadores da própria missão que protagonizam. É algo de misterioso, extraordinário, mas que ocorre em todas as viagens espaciais: são feitos de tal forma assombrosos e nunca vistos que, em vários momentos, os astronautas se comportam como se os estivessem a observar de fora, como se não se encontrassem lá no alto, a caminho das estrelas, mas junto a nós, os demais mortais. O modo como Armstrong e Aldrin descreveram o que viam, e sobretudo a forma como falavam nas transmissões para a Terra, assemelhava-se mais ao de espectadores extasiados – e passivos – de um espectáculo que decorria perante os seus olhos do que de protagonistas e agentes dessa aventura.

A corrida ao espaço foi também, talvez mesmo primordialmente, uma corrida pela imagem, uma competição cinematográfica. Nesse aspecto, a América e a União Soviética da Guerra Fria portaram-se tal qual os turistas que se acotovelam em frente a um monumento ou a uma paisagem na ânsia de tirarem uma fotografia, a prova provada de que “estiveram lá”. Às vezes, quase sempre, a obsessão documental é tanta que o momento presente, o da permanência num dado lugar, é todo gasto em nome do futuro, inteiramente consumido a guardar para a posteridade o registo fotográfico de um acontecimento que, verdadeiramente, não ocorreu enquanto experiência real, mas apenas enquanto memória. No espaço, os russos tomaram a dianteira em termos sonoros, com o “bip bip” da Sputnik, em Outubro de 1957, e, logo a seguir, com as imagens da cadela Laika e de Yuri Gagarine. Não admira, pois, que os americanos tivessem respondido com uma hipermediatização da missão Apollo, para a qual foi essencial outro elemento novo, a televisão. A etimologia, como sempre, ajuda: do grego, tele, equivale a longe, a distante, e o latino visione corresponde a visão; “televisão” é ver ao longe (“telescópio” é “observar ao longe”) e, no caso da viagem lunar, era ver muito ao longe, onde a vista, a visione, nunca chegaria. E, como sucedeu com São Tomé, ver, nem que fosse ao longe, era fundamental para crer, para acreditar que dois astronautas americanos tinham mesmo pisado o solo lunar. Poderiam fazer-se fotografias, e fizeram-se (Buzz Aldrin, algo vilmente, não fotografou Armstrong), mas, sem uma experiência visual como aquela que a televisão proporcionava, o triunfo político da conquista da Lua perderia grande parte do seu sentido. Daí o empenho em registar em filme todos e cada um dos momentos da inesquecível epopeia (“os americanos acreditam que aquilo que não é mostrado no ecrã não aconteceu”, escreveu Michel Onfray em A Decadência do Ocidente).

Agora, o mais espantoso: em 2006, a NASA reconheceu ter perdido todos os registos fílmicos da Apollo 11. E o mais paradoxal de tudo é que tal aconteceu, em larga medida, devido à obsessão de transmitir as imagens para Terra, o que fez que as gravações feitas no espaço tivessem de ser convertidas num formato adequado à televisão, de menor qualidade. Após o fim da missão, a conservação dos registos originais deixou de ser uma prioridade, tal qual acontece com os turistas que só vão a um sítio para tirar um retrato, esquecendo-o logo a seguir. Mais recentemente, a NASA embrulhou-se em explicações, falou de uns vídeos enviados para a Austrália, mas teve de reconhecer o essencial: nos anos 1980, dada a escassez de película, alguém apagou os registos ou, melhor dizendo, fez uma gravação em cima deles. Não contente com isso, Houston desfez-se de centenas ou milhares de cassetes sem ter o cuidado de verificar o respectivo conteúdo. Gary George, um estagiário da agência, comprou-as por uma pechincha e, anos mais tarde, quando a NASA se apercebeu do erro, tentou comprar-lhe as fitas de volta. Gary, esperto, recusou fazê-lo e três bobinas com a duração de 2h 24″, intituladas “Apollo 11 Eva/July 1969 REEL” acabaram por ser vendidas pela Sotheby’ de Nova Iorque, em Julho de 2019, pela bela quantia de 1,8 milhões de dólares – pagos pela NASA, claro (ainda que a agência nunca tenha confirmado a aquisição). E eram, note-se, gravações de baixa qualidade, já que o original do “salto gigantesco para a humanidade” se perdeu para todo o sempre.

Estranho desenlace o desta história: numa das maiores epopeias de todos os tempos, tão dependente de imagens para a sua própria existência e para a sua eficácia, enquanto exercício planetário de relações públicas, esfumaram-se os registos primordiais, feitos pelos astronautas da Apollo e por câmaras instaladas no módulo lunar. Ao todo, 700 caixas de bobinas. Talvez a culpa tenha sido de um “processo administrativo”, como agora se diz, na hora de furtar os políticos às responsabilidades – às responsabilidades políticas – que lhes cabem pelas inépcias dos serviços que tutelam. Morrem imigrantes às mãos de inspectores de estrangeiros, denunciam-se manifestantes a uma potência hostil, pondo em risco as suas vidas e a sua segurança, e nada acontece, nada sucede, tudo se passa como se vivêssemos todos com a cabeça na Lua. No ano da morte de Jorge Coelho, um político que teve a coragem e a dignidade de assumir as suas responsabilidades, aquilo a que temos assistido por estes dias é um grotesco insulto à sua memória – e à memória de um outro PS.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

Diário de Notícias
António Araújo
19 Junho 2021 — 01:22