1302: Carapaus de corrida

– O que não falta por aí são carapaus de corrida. Mas são intragáveis!

OPINIÃO

Com as suas “Vinte mil léguas submarinas”, Júlio Verne leva-nos 150 anos de avanço. Por cá, o mar continua a ser a grandiosa promessa, diante da qual meio mundo ainda nem sequer se atreve a molhar os pés. Em clima de guerra, que no plano económico já é global, e na mesma semana em que se realizam duas outras grandes cimeiras – G7 e Nato – Lisboa acolhe por estes dias a Conferência dos Oceanos, uma iniciativa das Nações Unidas com forte impulso da diplomacia portuguesa.

Trata-se de um apelo à acção, exortando os líderes mundiais a aumentarem a ambição, a mobilizarem parcerias e dilatarem o investimento em soluções baseadas na natureza para reverter o declínio na saúde dos oceanos.

Saúde dos oceanos e nossa. O mar governa os sistemas globais que tornam a Terra um lugar habitável. A nossa chuva, a água potável, o clima, as costas, uma parte dos nossos alimentos e até mesmo o oxigénio no ar que respiramos são fornecidos e regulados pelo mar.

O oceano, que é um dreno natural de gases de efeito estufa e ajuda a combater as mudanças climáticas, enfrenta várias ameaças: acidificação, pesca ilegal e não declarada (um negócio que apenas perde para o tráfico de drogas e de armas) e poluição. Como ilhas flutuantes por esses mares, há gigantescas sopas de plástico que matam a vida marinha e ameaçam asfixiar o nosso mundo. É lixo que despejamos nos oceanos, à (sem) razão de mais de 8 milhões de toneladas por ano.

Se nada for feito para contrariar a tendência, dentro de poucas décadas haverá mais plástico do que peixes nos mares. Um produto que só utilizamos por horas leva 450 anos a decompor-se, enquanto é absorvido pela fauna marinha e, em pequenas partículas, na nossa própria cadeia alimentar.

Entre nós, é indelével a afamada “alma marítima” que atravessa séculos e serve de inspiração à literatura e cultura portuguesas, desde a arte à gastronomia. Quando se vive num país como Portugal, debruçado sobre o oceano e com a maior zona económica exclusiva da União Europeia, esta ligação intrínseca entre a vida e o mar deveria moldar-nos o carácter.

Mesmo assim, ainda são poucos os que percebem quantos elementos da vida quotidiana estão ligados ao mar: os oceanos produzem a maior parte do nosso oxigénio, armazenam 97% da água do globo, e uma significativa percentagem de alimentos provém dos mares.

Os mesmos que já fornecem 4 terawatts/hora (um número com 12 zeros à direita) de energia eólica offshore, 95 milhões de m3 de água potável dessalinizada por dia, 20% de proteína animal, cerca de 34 mil produtos naturais que apoiam aplicações médicas e farmacêuticas, um em cada quatro empregos no sector de turismo, para além das terras raras que atraem a mineração em águas profundas.

A chave para usar de forma sustentável os recursos oceânicos tem sido e é o conhecimento, que resulta do investimento em investigação e tecnologia. Mas temos andado devagar, e nalguns casos até em recuo, como é o caso da nossa frota pesqueira, a segunda mais envelhecida da União Europeia, com embarcações cuja idade média anda pelos 45 anos, e hoje reduzida em um terço do que já foi.

Quase 25 anos depois da nossa Expo98, também dedicada aos oceanos, Portugal pode e deve posicionar-se como actor relevante no desenvolvimento de soluções para a chamada “economia azul”, sustentável e amiga do ambiente, modernizando as indústrias pesqueira e conserveira e apostando na energia marinha, particularmente a eólica.

Se Júlio Verne foi capaz de profetizar, é responsabilidade colectiva, a começar nos nossos dirigentes, agir hoje com urgência. Enquanto permanecermos de toalha estendida, há todo um mar que separa os profetas dos carapaus de corrida.

Jornalista

Diário de Notícias
Afonso Camões
28 Junho 2022 — 06:52


 

861: Cavar trincheiras

OPINIÃO

Encruzilhada é aquele lugar irremediável onde temos de escolher entre dois ou mais incertos caminhos. É aí que estamos. Poucas coisas serão mais perturbadoras e fracturantes do que uma guerra. Na Europa estamos a compreender, a marchas forçadas, tarde e más horas, o enorme erro de depender de fontes de energia que, além de poluírem, nos fazem depender de amizades perigosas.

Um mês após o início da invasão da Ucrânia, começam a alinhavar-se as primeiras medidas para lidar com a inflação galopante, enquanto interiorizamos que já estamos mais pobres. O grande paradoxo é que as medidas de urgência lançadas para refrear os efeitos económicos mais imediatos nos afastam da desejada autonomia estratégica. Ou seja, o caminho que escolhemos para vencer um obstáculo coloca-nos mais longe do destino que desejamos. E o pior é que, neste momento, é provável que não se possa fazer outra coisa.

Um bom exemplo é a decisão (que não é só portuguesa) de bonificar as transportadoras em 30 cêntimos por litro de combustível, ou seja, financiar uma fonte de energia fóssil como o petróleo, em sentido radicalmente contrário ao que estava previsto, ao que ainda há dois meses a União Europeia exigia de nós, ao que a OCDE nos recomendava, e ao que evidenciam os últimos relatórios das Nações Unidas sobre a crise climática.

O agravamento dos preços dos combustíveis contamina e é imediatamente transmissível às famílias e empresas, atingindo principalmente as classes média e média baixa, já que os de mais baixos rendimentos nem sequer têm transporte próprio.

Para já, do mal o menos, limitamo-nos ao controlo de danos. As medidas disponíveis são modestas e transitórias, para uns meses, mas os problemas económicos vão prolongar-se mais, muito mais, se o conflito no Leste europeu se arrastar ou mesmo agravar. É impossível saber quanto tempo vai durar, mas já começamos a conhecer os primeiros efeitos daninhos desta crise de energia.

Na encruzilhada, a União Europeia (e nós lá dentro) enfrenta uma situação difícil em que tem de combinar dois objectivos contraditórios, no curto prazo: garantir o abastecimento energético sem agravar as alterações climáticas, obrigando a acelerar a transição de toda a economia, de toda a sociedade, enfim, a forma como vivemos, para um modelo energético mais auto-suficiente. E evitar assim a dependência de regimes autocráticos dispostos a utilizar as suas reservas de gás e petróleo como elemento de chantagem. Aí está, pois, uma das nossas melhores trincheiras nesta guerra.

É claro que é preciso reagir e conter a carestia que aí vem. Mas o governo de maioria absoluta, que agora ganha balanço, tem ao seu alcance a oportunidade para acelerar a transição energética, melhorar as interconexões de rede com a Europa e esclarecer a intrincada penumbra da nossa política de energia, demasiado embaciada pelos interesses.

Um bom começo seria, desde já, reforçar drasticamente o programa de reabilitação de edifícios (a começar nos públicos, claro!) e promover as instalações fotovoltaicas de auto-consumo. Estima-se que os edifícios gastem 30% da energia utilizada, tanto quanto todo o transporte rodoviário nacional.

Ora, não se pode culpar um governo por atender a urgências, mas é bom que o leme não ignore o rumo fixado pelo objectivo de descarbonizar a economia. O Pacto Ecológico Europeu, o Programa de Recuperação, Transformação e Resiliência ou o Plano Nacional Integrado de Energia e Clima, entre outros instrumentos, não podem ir para o lixo – executados, eles são a nossa trincheira nesta guerra.

Jornalista

Diário de Notícias
Afonso Camões
05 Abril 2022 — 00:06

 



 

780: A hipocrisia também mata

OPINIÃO

Chega a ser divertido o desfile de novos especialistas em guerra e geo-estratégia, alguns deles exactamente os mesmos que ainda há dois meses destroçavam talento e desenvoltura nos temas da virologia, do combate à pandemia e até das eleições do Benfica. Tirando aqueles portugueses que ao longo dos anos temos enviado em missões militares, humanitárias ou mesmo jornalísticas para diferentes partes do mundo, sabemos pouco dos horrores da guerra. E as guerras, ainda que sejam defensivas e de apoio, parece que são caras.

A de Putin custará muito caro à União Europeia: para financiar armas e rearmamento, substituir o gás e o petróleo russos, para acolher refugiados. E nós, europeus, ainda não sabemos como pagar por tudo isso. Na Cimeira de Versalhes, há dias, o actual presidente do Conselho Europeu, Emmanuel Macron, em vésperas de reeleição em França, adiou esse cálculo e o respectivo debate político.

O argumento passou: já que isso nos incomoda e até nos divide, vamos começar por avaliar os custos e investimentos necessários, e depois veremos como pagá-los. Mais lesto, o líder italiano Mario Draghi, que presidiu ao Banco Central Europeu, já fez as contas e estima que a União vai precisar de mobilizar entre 1,5 a 2 biliões de euros, nos próximos cinco anos, praticamente o dobro do que está alocado à chamada bazuca, uma enormidade cheia de zeros à direita.

Na parte que nos toca, com o Estado a viver há 80 dias em duodécimos, à espera de novos governo e orçamento, há sinais que damos como certos: vem aí carestia de vida, e o enorme aumento previsto das despesas na área da Defesa, por força dos nossos compromissos com a União Europeia e com a Aliança Atlântica (Nato), far-se-á inevitavelmente à custa de outras áreas, senão de novos impostos.

Apoiar os ucranianos diante de uma invasão estrangeira é a única posição eticamente aceitável. Mas é no mínimo hipócrita justificar que o esforço que nos vai ser pedido deve ser feito em nome dos valores europeus. Sim: liberdade, fraternidade e igualdade são o hino que nos junta. Mas não chegariam as páginas de um jornal se listássemos os casos em que o Ocidente traiu os seus valores em troca de vantagens económicas.

Basta recordar os abandonados afegãos que caíam do céu, desesperadamente agarrados a um avião em marcha, ou voltar a olhar de relance as imagens de cadáveres flutuando no Mediterrâneo. Podemos bem com o mal dos outros, sobretudo se nos estão mais distantes: será pela religião, ou pela cor da pele? No sofá, aos olhos acomodados dos europeus, os déspotas, os genocidas e as guerras africanas parece que são de outro mundo e causar menores sofrimentos.

A Europa viciou-se em olhar para outro lado sempre que nos convém. Vendemos armas à mesma Arábia Saudita que há anos as usa para cometer crimes de guerra, massacrando a população civil do Yemen, e não reconhecendo sequer quaisquer direitos às suas próprias mulheres, sem que nenhuma declaração de solidariedade se tenha escutado da parte de muitos dos que agora choram pelo povo da Ucrânia. Negociámos com Putin sempre que foi conveniente, alimentando o monstro que agora nos ameaça, e continuamos a fazer o mesmo com outras petro-ditaduras porque nos importa mais que a gasolina não suba do que as mulheres dos outros continuem submetidas a leis medievais.

Consentimos a exploração de trabalhadores noutros países que não sejam europeus porque os direitos laborais terminam nas nossas fronteiras, mesmo sabendo que parte da riqueza de uns poucos é fruto da mesma vergonhosa exploração. É triste reconhecê-lo, mas talvez a criminosa agressão à Ucrânia, em território europeu, sirva ao menos para acordar verdadeiramente a Europa para os valores que alicerçam a União. Liberdade, igualdade e fraternidade, sim, mas sem as vender cinicamente pela melhor oferta.

Jornalista

Diário de Notícias
Afonso Camões
22 Março 2022 — 00:03

 



 

692: Morcelas fazem-se com sangue

OPINIÃO

A compaixão não compromete ninguém; por isso é tão frequente. Na primeira fila de um circo sangrento, aqui estamos nós, frente ao ecrã e agarrados aos noticiários da guerra, presos entre a infinita piedade e um razoável egoísmo.

A tensão entre duas forças opostas é insuportável. De um lado, o horror diante de uma invasão sem sentido, o assombro com a resistência ucraniana, imagens de camponeses desarmados que cercam um tanque inimigo ou alimentam um soldado russo capturado, que chora quando autorizado a ligar para sua mãe, ou ainda a sentida tristeza ao vermos crianças aterrorizadas, em caves, ao lado dos pais, enquanto bombas destroem as suas cidades; e do outro, aquela coluna militar de 60 quilómetros estacionada fora de Kiev, que bem poderia ser destruída em poucas horas, com mísseis de cruzeiro guiados por satélite e caças furtivos invisíveis ao radar – tecnologias de guerra que as forças da NATO exibem há muito, mas não arriscam nesta frente.

O grilhão de algemas que amarra o Ocidente é o medo da guerra nuclear, e Vladimir Putin, transformado em adversário louco e imprevisível, soube tocar as nossas teclas. É assim que estamos: paralisados pela ameaça, observadores especialistas em ecrã e teclado e, partilhando da mesma angústia, incapazes de fazer muito mais do que impor sanções, doar armas e dinheiro e emitir condenações.

Putin está na terceira fase da sua guerra. A primeira era obter a rendição ucraniana sem disparar uma única bala, apenas com a ameaça de aterrorizar o governo e dividir os seus aliados na NATO e na União Europeia, até que cedêssemos às suas exigências. Após o primeiro fracasso, o antigo espião russo dobrou a aposta e neutralizou as defesas aéreas ucranianas. Estamos agora na fase da guerra aberta e massiva sem outro limite que o extermínio, a fuga ou a rendição do adversário – as únicas condições que Putin tem para mandar dizer nas reuniões de “negociação” como as que têm acontecido.

Vai ser difícil travar a chuva de bombarda e o sacrifício de vidas humanas. Putin só vai parar quando tiver destruído a força militar ucraniana e substituído o governo legítimo por outro nomeado pelo Kremlin. Para consumo russo, poderá então proclamar-se vencedor, enquanto a humanidade o colocará entre os grandes criminosos da história. Acontece que todas as guerras têm um dia seguinte, aquele que consolida a vitória e os seus ganhos, porque já não é mais a guerra, mas a paz.

E esta já não a vai ganhar Putin, mas os ucranianos, a cujo heroísmo ficaremos a dever o traçado do futuro mapa da Europa, com a Ucrânia lá dentro, com uma nova fronteira nos limites territoriais internacionalmente reconhecidos. Ninguém entre os ucranianos de amanhã poderá prescindir deste legado europeu, escrito com sangue. Valentes não são apenas aqueles que resistem à invasão, com armas na mão. Valentes são também aquelas mulheres em desespero que atravessam a fronteira para Ocidente, para melhor resguardar os seus filhos das bombas.

No ponto em que estamos, é urgente a intermediação diplomática ao mais alto nível, comprometendo pelo menos algumas das maiores potências, China e União Europeia incluídas. Respeitada por Putin, Zelensky e todos os seus antigos pares no G7, Angela Merkel deveria ser chamada para as conversações, em nome de Ursula von der Leyen. É urgente utilizar todos os recursos para desenhar, como primeiro passo mínimo e com toda a compaixão e criatividade possíveis, as condições de um cessar-fogo. Se não o tentarmos já, estaremos condenados a assistir de mais perto à morte de multidões; e nunca nos perdoaremos. Até lá, a minha sogra lembra que não se fazem morcelas sem sangue.

Jornalista

Diário de Notícias
Afonso Camões
08 Março 2022 — 00:07



 

Cardoso, Narciso & Cia

OPINIÃO

Quem vai à guerra dá e leva. Na minha cidade organizávamo-nos por bairros, disputávamos bola e território, apedrejávamo-nos todas as semanas à saída da escola, às vezes havia mazelas, e quando já só havia dois bandos dominantes, decidimos delegar a guerra nos mais matulões, que elegemos chefes, abrutalhados e ambos repetentes. Cardoso e Narciso passaram a lutar de joelhos, frente a frente e com mãos bem firmes nos ombros um do outro, do inimigo.

O combate agora era de cabeças, testa contra testa, e ainda hoje nos horroriza a memória daquele embate surdo de duas frontes que só terminava com a rendição de algum deles. Atrás do Cardoso e do Narciso, as claques ululávamos: Cardoso, Cardoso, Cardoso! – Narciso, Narciso, Narciso! Até ao dia em que deu mesmo sangue, e a autoridade disciplinar decidiu punir todos, mas mesmo todos, com palmatória de fazer inchar as mãos, mais a lição sobre convivência e cidadania.

Guerra estúpida, aquela! Estúpida como todas as guerras, e mais esta que se trava no leste europeu e cujos estilhaços já começam a atingir-nos. Só que, nesta, não há autoridade disciplinar que se vislumbre e, pior, é uma guerra connosco, que nos diz respeito. É uma guerra em território europeu que desafia a União Europeia e a NATO, organizações a que pertencemos e que nos comprometem.

As principais vítimas já são os cidadãos ucranianos que vão viver histórias de horror: morte, perseguições, massacres e deslocamentos forçados e maciços da população. Após as duas guerras mundiais do século XX, a guerra civil espanhola e a guerra na antiga Jugoslávia, na década de 1990, milhões de refugiados fugidos do assédio e da repressão tiveram de deixar as suas casas.

Acontece que aprendemos pouco com histórias de más notícias. E o pouco é quase sempre devagar. As imagens avassaladoras da invasão russa da Ucrânia, e o abandono deste Estado soberano e da sua população civil face à passividade da comunidade internacional e das suas organizações multilaterais, revelam que regressámos mais uma vez ao passado: à lei do mais forte, sem regras nem limites. No pódio da ONU, onde o obsoleto conselho de segurança é boicotado pelo veto do agressor e a abstenção dos seus aliados, fazem-se orelhas moucas aos apelos de António Guterres, e as partes trocam acusações, quando todos sabemos que a soma de duas meias-verdades não faz a verdade inteira.

Por cá, por toda a Europa Ocidental, estávamos acostumados a guerras distantes e a viver confortavelmente sob o guarda-chuva do polícia mundial americano, sem muito esforço militar da nossa parte, portuguesa e europeia. Parece que esses tempos acabaram, porque os Estados Unidos já abandonaram esse papel. E o que vem aí, por todo o espaço da União, é um enorme aumento dos orçamentos militares, desviando para a Defesa europeia investimentos que deveriam ser prioritariamente aplicados em áreas como saúde, educação, transição energética, desenvolvimento.

Esta guerra é estúpida e o tormento da Ucrânia vai mudar o rosto da Europa. Para lá do povo ucraniano, o maior perdedor é já a União Europeia, que apesar dos esforços unilaterais da Alemanha de Merkel, ao longo das duas últimas décadas, após o colapso da antiga União Soviética, perdeu a oportunidade económica de uma parceria pacífica com a Rússia, rica em recursos, mas a precisar de tecnologia e bens de capital, enquanto a Europa tem tecnologia e bens de capital e precisa de recursos.

Em vez disso, irá perder mercados importantes e pagará muito mais cara a energia. Por ora, diante do que se passa na Ucrânia, somos uma amarga decepção: não fizemos e não faremos o suficiente para ajudar os ucranianos, e provavelmente esquecemos que defendê-los é agir em nossa própria defesa, porque não há alternativas boas ao diálogo, à paz e à democracia.

Jornalista

Diário de Notícias
Afonso Camões
01 Março 2022 — 01:05



 

618: Antes que chova

OPINIÃO

Água de Fevereiro enche o celeiro! Era coisa que se dizia no tempo da senhora minha sogra, em breve centenária. Hoje, temos mais de 90% do território em seca severa ou extrema e há menos água nas barragens do que na seca de 2005, a pior de sempre. Previsões? Chuva, nem vê-la nos próximos dez dias, descontados uns pingos que hão de incomodar algumas carecas, lá para quinta-feira, mas só no litoral a sul do Tejo.

A inquietação e nalguns casos desespero que toca quantos vivem da agricultura ou da pecuária há de tocar a todos, quando os efeitos da seca se repercutirem nos preços dos bens alimentares. E não vale a pena alimentar expectativas quanto às ajudas de emergência que os governos de Portugal e Espanha reclamaram ontem mesmo da Comissão Europeia, tendo em vista mitigar os efeitos da seca prolongada que atinge a Península.

Bruxelas sabe que “as alterações climáticas irão aumentar ainda mais a escassez de água e os riscos de seca”, e mostra “sensibilidade” para o problema ibérico. Mas entende que o combate à seca é um objectivo de “médio e longo prazos”, devendo dar-se prioridade à “transição agrícola para métodos mais sustentáveis e resilientes”, contribuindo para a “neutralidade climática”.

Cinismo à parte, o pessoal da cidade adora este tempo de inverno soalheiro e, entre escapadelas à beira-mar e uns passeios pelo campo, há até uns milhares, sobretudo a norte e na Galiza, que partem ao reencontro dos fantasmas de antigas aldeias inundadas pelas barragens e que reaparecem por estes dias de seca prolongada.

À míngua de água, para turista ver, o que emerge nas nossas albufeiras é toda uma geografia assombrada de topónimos que os cartógrafos há muito apagaram dos mapas, povoados que deixaram de o ser. Isto, enquanto as televisões mostram imagens das tempestades nunca vistas que devastam a norte da Europa, em Moçambique ou no Brasil – sinais do tempo e dos tempos.

Quando o Conselho de Segurança da ONU foi criado, com a finalidade de manter a paz e a segurança internacionais, era difícil imaginar que, 75 anos depois, as mudanças climáticas fossem incluídas na agenda dos mais poderosos. Ora, em cima da mesa do Conselho está agora uma proposta de resolução que considera as alterações climáticas uma ameaça à paz e à segurança internacionais, e exorta a ONU a abordar os factores climáticos como uma prioridade nas suas operações de manutenção da paz e prevenção de conflitos. A ameaça climática coloca em risco “tudo o que nos dá segurança”, como a produção de alimentos e o acesso à água potável, temperaturas suportáveis ou solos habitáveis.

Pela primeira vez, no seu relatório de 2021, o International Crisis Group, que monitoriza conflitos em todo o mundo, incluiu as mudanças climáticas como um risco global. O painel de cientistas que integram aquela organização estima que nos próximos dez anos ocorrerão mais inundações, as secas serão mais extensas, as tempestades mais frequentes e severas, os incêndios e altas temperaturas cada vez mais letais e a segurança alimentar mundial estará em risco.

Migrações e epidemias vão multiplicar-se e os meios de subsistência de milhões de pessoas serão destruídos. Se não forem tomadas medidas urgentes, esses factores exacerbarão as tensões e os conflitos sociais. Ou seja, prenunciada a catástrofe, faltam as medidas que podem evitá-la ou minimizá-la.

Até lá, há de chover. E a água da chuva, que tem a vocação de apagar memórias, voltará a encher pântanos e barragens, e a engolir de novo os antigos povoados que a seca destapou, como que, por maldição, só nos restassem os caminhos da saudade e o que conduz ao esquecimento.

Jornalista

Diário de Notícias
Afonso Camões
22 Fevereiro 2022 — 00:14



 

527: Lítio, gaita e assobio

OPINIÃO

Se não dispensa o telemóvel ou se sofre de depressão, o lítio é coisa que lhe interessa. É um daqueles metais que estudámos no secundário, na tabela periódica dos químicos. Ignorávamos quase tudo sobre ele até que, há alguns anos, se tornou subitamente o componente essencial para o fabrico de baterias, em virtude das suas excelentes condições como condutor de electricidade.

Para além da sua utilização na medicina e nas indústrias química e nuclear, o crescente fabrico de carros eléctricos, por imposição da urgente transição energética, bem como a generalização de dispositivos electrónicos, deram ao lítio um carácter tão estratégico como foi o petróleo no último século. A procura mundial daquele metal macio, capaz de ser cortado à faca, já supera largamente a oferta, e não há exploração que baste. Daí que o preço do lítio tenha aumentado mais de 400%, para quase 40 mil euros por tonelada, em pouco mais de um ano.

Pois bem, estudos geológicos revelam que debaixo do nosso chão dormem as maiores reservas de lítio da Europa, avaliadas em 60 mil toneladas e colocando Portugal em sexto na tabela mundial. Ora, diante de tal filão potencial, a ganância da mineração começa a salivar, respaldada aliás pela União Europeia, que precisa urgentemente de lítio para alimentar as todo-poderosas indústrias automobilística e de tecnologia sem depender da China.

Por cá, dão-se os primeiros passos, com o governo a anunciar o concurso para atribuição de direitos de prospecção de lítio, abrangendo uma dúzia de municípios no Douro e sobretudo na Beira Interior, precisamente a região do país que mais sabe de minas e que guarda, em particular, a memória da tradição mineira de outros tempos, mas também as lembranças do sofrimento, na pele, nos pulmões e numa terra escalavrada que viu saquear as suas entranhas (temos ainda hoje mais de 170 áreas mineiras abandonadas) para ir enriquecer a indústria transformadora noutras paragens.

Na primeira linha de contestação ao anúncio do governo estão associações ambientalistas e autarcas dos municípios abrangidos pelo concurso de prospecção. Temem, sobretudo, os danos provocados pela mineração e manifestam dúvidas sobre a viabilidade económica dos planos de exploração. O lítio em si não é perigoso, mas o método de extracção fabril, que obriga ao uso de maquinaria pesada, pode ser devastador para as áreas de exploração, interferindo na paisagem, recursos hídricos, qualidade do ar e afectar ainda a flora e a fauna locais, com consequentes prejuízos ambientais e potencial turístico.

A polémica, que deverá arrastar-se por longos meses, actualiza um tema antigo, dolorosamente repetido ao longo da história: “Fidalguia sem comedoria é gaita que não assobia”, para ilustrar o profundo desequilíbrio entre a riqueza gerada por algumas matérias-primas e o parco aproveitamento dessa riqueza nas áreas de extracção, pois a mais-valia acaba sempre nas mãos do transformador industrial.

À contestação, o ministro do Ambiente, Matos Fernandes, afiança que “nem um grama” de lítio extraído em Portugal vai ser processado fora do país, e que nenhum concurso sairá vencedor se não apresentar um projecto industrial associado à exploração deste metal. Para além dos milhares de postos de trabalho que uma futura exploração e transformação possam mobilizar, o governo garante mais cuidados ambientais e justiça social, repartindo pelas autarquias abrangidas metade dos royalties da exploração mineira. Portugal tem, afinal, condições para liderar a transição energética, dirá o ministro quando, dentro de dias, se reunir com os autarcas dos municípios abrangidos. A resposta destes não pode ser de menos: se querem levar o lítio, coloquem cá as fábricas, a refinaria e a de baterias. E mais não digo que me escasseia a bateria.

Jornalista

Diário de Notícias
Afonso Camões
08 Fevereiro 2022 — 00:05


Web designer
HTML Programmer
Network Engineering and Computer Systems



 

485: Regar o carvalho

OPINIÃO

Costa é um sempre-em-pé. Desde que chegou a São Bento, ganhou praticamente tudo o que havia para ganhar. Resistiu a Sócrates, a Pedrogão, a Tancos, a Cabrita e à pandemia. E vê os seus poderes agora reforçados por uma maioria absoluta que supera em votos os que já alcançara em 2019. É obra! Quando a próxima legislatura chegar ao fim, o PS, com Costa nos sucessivos governos, terá governado 23 dos últimos 27 anos. É uma geração – que não há de ficar sem prestação de contas.

Está visto: entre o certo e o incerto, os portugueses escolheram a estabilidade, com forte penalização dos que acrescentaram uma crise política às crises pandémica e económica que já cá estavam, chumbando o Orçamento e derrubando o governo a meio do mandato. À esquerda, o Bloco e a CDU pagam a maior factura e a geringonça faleceu de vez.

A direita democrática, essa, de novo órfã de lideranças, vai ter tempo para se reorganizar e estabelecer com clareza o cordão sanitário que a separa do discurso grunho, de ódio xenófobo, populista e intolerante, que agora ganha geografia e reconhecimento institucional na forma de um grupo parlamentar.

Com o próximo governo que ainda não há, mas que já tem proposta de Orçamento, com um programa mais recentrado e liberto das amarras parlamentares que o obrigavam a negociar à sua esquerda, parte da acção fiscalizadora passa agora para Belém, cabendo a Marcelo, mais do que servir de grilo a Pinóquio, forçar a agenda reformista de que o país precisa.

Porque, se há algo de muito claro para todos os portugueses é a urgência de mais crescimento económico, menos desigualdades, melhores serviços públicos e menos asfixia fiscal, para além da gestão patriótica dos fundos europeus que aí vêm, destinados à recuperação e em dose irrepetível.

É a urgência de querermos sair “deste tempo de vida dilacerada, para um horizonte de esperança e sonho”, na boa síntese do Presidente da República, quando há um ano iniciava o seu segundo e último mandato. Enganam-se quantos, perante a maioria absoluta do PS, vaticinam a Marcelo um final de mandato (que coincide com o fim da próxima legislatura), menos marcante e influente.

Um presidente não governa, não tem poder executivo. O exercício das suas funções é, não apenas, mas muito, o uso da palavra. E Marcelo sabe, como ninguém, temperá-la. É esperar para vê-lo e ouvi-lo. Ele que, ironicamente, será o primeiro chefe de Estado a viver na Presidência com dez anos consecutivos de governos socialistas.

Bem-vindos à realidade, o ano começa agora. Com maioria absoluta, é o PS e António Costa quem tem a responsabilidade de “dar esperança e sonho” aos portugueses. O Costa dialogante e europeísta terá de materializar-se. E não há desculpas nem faz sentido agitar fantasmas de absolutismo. O PS pode ter cometido no passado muitos erros na tarefa de governar, mas nunca renunciou às suas obrigações como partido de Estado.

Qualquer democracia moderna precisa de uma esquerda aberta, mais próxima dos cidadãos, especialmente os menos favorecidos, uma esquerda não dogmática, tolerante, progressista, humilde, que respeite os adversários. Essa esquerda não é garantia de que a direita não volte a governar. Nem deve sê-lo. A razão de ser da esquerda não é acabar com a direita. Mas essa mesma esquerda deve ser a garantia de que, quando a direita democrática regressar ao governo, o que ocorrerá mais cedo ou mais tarde, milhões de portugueses se sentirão igualmente representados e protegidos.

Faz agora um ano, em cerimónia pública, Costa oferecia a Marcelo uma árvore em forma de bonsai, para sinalizar a garantia de continuidade e a cooperação estratégica entre Governo e Presidente da República. Era um carvalho. Oxalá não se esqueçam de o regar.

Jornalista

Diário de Notícias
Afonso Camões
01 Fevereiro 2022 — 00:59


Web designer
HTML Programmer
Network Engineering and Computer Systems



 

304: Solstício de inverno

OPINIÃO

O medo que anda por aí chegou de forma inesperada, faz agora dois anos. Os noticiários apontavam a Wuhan, uma obscura localização na nossa geografia imaginária, afinal uma cidade de dez milhões de chineses no sudeste da Ásia. De forma imprecisa, falava-se de um vírus cuja acção rápida e devastadora ameaçava a população humana. Tratava-se de um vírus novo, sem identidade nem nome, que gerou todo o tipo de alarmes sanitários e que em breve será considerado a primeira pandemia global. Hoje, mais logo, os mesmos noticiários hão de contabilizar o número de infecções e de mortos por conta.

O que a princípio foi delimitado como um vírus chinês, muito em breve, ultrapassando fronteiras e continentes, chegaria até nós. Na cidade italiana de Codogno, será registado o primeiro paciente com o vírus que passou chamar-se covid-19 ou coronavírus e que imediatamente tomou conta do espaço público, marcando a agenda dos meios de comunicação, da política, da ciência. Para a opinião pública, foi o início de um verdadeiro pesadelo. O desconhecimento sobre a sua identidade e a terrível letalidade que a acompanha obrigou os governos a confinar a população. Connosco, o estado de emergência foi decretado a 18 de Março de 2020, e por 11 vezes renovado, obrigando-nos a recolher por 173 penosos dias. Connosco, outros 4 mil milhões de pessoas, quase metade dos habitantes do planeta, eram também confinados.

Só a emergência poderia justificar tal decisão. A primeira impotência foi agravada pelo medo que nos forçou a aceitar um confinamento sem precedentes. A situação era tão grave, marcada pelo número de mortos e sistemas de saúde à beira do colapso, que todos procurámos refúgio em casa, à espera de um horizonte mais seguro. Desde aí, não há muitos dias sem ansiedade nervosa, e há demasiados meses, quase dois anos, que interiorizamos esse medo, uma forma de domesticação que por sua vez tem gerado várias formas de submissão, desde aquelas que a fatalidade nos impõe até aquelas que a nova normalidade interpõe. E assim é há dois natais consecutivos.

É preciso vencer esse medo, e foi para isso que inventámos o Natal, a coincidir por alturas do solstício de inverno (fenómeno astronómico que acontece todos os anos e que desta vez ocorre hoje mesmo, às 15h59, hora de Portugal Continental). É o dia mais curto do ano e, consequentemente, a noite mais longa. A partir de hoje, a duração do dia começa a crescer. Por isso, desde a antiguidade, o solstício de inverno simboliza a vitória da luz sobre a escuridão, o medo e a ignorância.

Há um mito de Natal no coração de cada um de nós. E seja ele qual for, sonhamo-lo sempre com os que amamos. Os romanos da antiguidade eram devotos de Saturno, um deus que faria reinar a idade de ouro, cheia de paz e abundância. Por esta altura do ano, à volta do solstício de inverno, e em homenagem àquela divindade suprema, organizavam as Saturnais, grandes festejos com que pretendiam celebrar, por uns dias, esse tempo fértil e maravilhoso sem distinções sociais.

Desobrigavam então os escravos, suspendiam as actividades, interrompiam as campanhas militares e gozavam uma semana de repouso, livre e feliz, entre banquetes e orgias. O Natal dos cristãos só chegou depois, num apelo para que soltemos o menino que trazemos sequestrado dentro de nós.

Afinal, seja qual for o nosso credo, há de ser difícil não simpatizarmos com a ideia do presépio ou não nos deixarmos enternecer com o retrato despojado do menino pobre, nascido em família humilde, num canto perdido do mundo, sem máscara e sem medo. Boas festas! Com cuidado.

Jornalista

Diário de Notícias
Afonso Camões
21 Dezembro 2021 — 00:48




Capacete & Galochas, Lda.

OPINIÃO

Quando amanhã se sentarem diante de Marcelo, pode ser que algum dos conselheiros de Estado se lembre de que o pão cai quase sempre com a manteiga para baixo, que é como quem diz: o que pode correr mal vai mesmo correr mal – e, no nosso caso, no pior momento possível. Seja qual for o resultado das eleições, espera-nos um aumento geral dos preços e, durante meses, a escassez ou a demora de alguns produtos de consumo corrente.

Antes de se pronunciarem sobre a crise política caseira, os conselheiros hão de ouvir a senhora Lagarde, do Banco Central Europeu, advertir que a míngua de produtos químicos, madeira, plástico, metais e chips vai subir preços, alimentar a inflação e, logo, as taxas de juro que pagamos pela dívida.

Há uma semana, já o Banco da França prevenira que os problemas de abastecimento são generalizados na construção, na indústria e, especialmente, na produção automóvel, confirmando o registo da associação europeia de componentes segundo a qual há atrasos na produção de mais de 500 mil veículos. Quem imaginaria que nos países mais ricos do mundo, no período mais consumista do ano, fosse difícil comprar alguns produtos (materiais de construção, tecnologia, químicos, automóveis, matérias-primas… e até brinquedos)?

Coroámos a globalização, mas algo vai mal nesse reino quando, podendo trocar de carro, temos de esperar nove meses para receber o novo; quando grandes navios de contentores fazem fila por mais de uma semana, em enormes engarrafamentos nos principais portos do mundo ocidental. É a globalização que vacila quando até na indústria de brinquedos há empresas que não sabem se os seus produtos chegarão a tempo para a lucrativa campanha de Natal; e quando as fábricas de automóveis param porque não têm semicondutores, ou as obras atrasam por falta de madeira, alumínio ou aço.

A globalização tem êxito quando baseia a sua capacidade de atender às necessidades dos consumidores a um preço razoável e em curto período de tempo. Ou seja, o mecanismo funciona quando há estabilidade nos preços da energia (e não há) e a produção viaja sem problemas, principalmente de países de mão-de-obra barata para países de rendimento médio e alto.

Acontece que o ciclo mudou e a pandemia, mais do que areia, foi o pedregulho na engrenagem que estrangulou o comércio mundial, sobretudo quando foi preciso encerrar fronteiras e fábricas. No Extremo Oriente trabalha-se aos soluços desde há dois anos, e a retenção de matérias-primas para uso próprio de países como a China, aliada à alta de preços, também não ajuda.

O gargalo que estrangula as cadeias de distribuição tem vários efeitos, ao mesmo tempo: inflaciona os preços das principais matérias-primas (industriais e agrícolas); atrasa a entrega dos produtos aos consumidores, em virtude de congestionamento do transporte que, por sua vez, o encarece; agrava os custos com pessoal por falta de mão de obra especializada (camionistas, por exemplo) e, naturalmente, aumenta as reivindicações sindicais não só em salários, mas também em melhores condições de trabalho.

Depois de décadas de deslocalizações industriais, para fazer mais por menos graças à mais barata mão-de-obra asiática, os europeus não esquecem a chegada caótica de aviões chineses para nos abastecer de máscaras e ventiladores. Daí que a União Europeia apele à reindustrialização, para ser mais auto-suficiente, pelo menos em áreas essenciais como a saúde. A palavra soberania volta a estar na moda. Capacete e galochas, eis a indumentária que a estação recomenda.

Jornalista

Diário de Notícias
Afonso Camões
02 Novembro 2021 — 00:07