1161: Raro alinhamento mostra-nos cinco planetas que podemos vislumbrar da Terra

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

De 3 a 24 de Junho, temos várias oportunidades de ver uma rara conjunção planetária. Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter e Saturno podem ser vistos sem binóculos e alinhados na mesma ordem em que estão no Sistema Solar. A conjunção será visível antes do crepúsculo durante a maior parte do mês.

Este é um raro alinhamento que nos permite perceber a conjuntura destes astros no sistema solar.

Segundo explica a American Astronomical Society, a vista deliciosa de todos os cinco planetas a olho nu saudará os madrugadores durante todo o mês de Junho. Enquanto ver dois ou três planetas próximos (no que é conhecido como conjunção) é uma ocorrência bastante comum, ver cinco é um pouco mais raro. E o que é ainda mais notável na programação deste mês é que os planetas estão organizados na sua ordem natural a partir do Sol.

Durante todo o mês de Junho, pouco antes do nascer do Sol, os espectadores poderão ver Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter, Saturno – nessa ordem – a estenderem-se pelo céu. Mercúrio será mais difícil de detectar: ​​no início do mês, os espectadores precisarão de um horizonte leste desobstruído, bem como de binóculos para ver o pequeno mundo.

À medida que o mês passa, Mercúrio sobe mais alto e ilumina-se significativamente, facilitando a visualização e, assim, completando a programação planetária.

A última vez que os cinco planetas foram colocados no horizonte em sequência foi em Dezembro de 2004, podendo também ser vistos a olho nu. Mas este ano, a diferença entre Mercúrio e Saturno é muito menor.

Várias datas dignas de nota este mês

3 a 4 de Junho: nestas duas manhãs, os cinco planetas abrangem 91°, quando a separação entre Mercúrio e Saturno será menor. Para vislumbrar a vista, encontre um local com uma visão clara em direcção ao leste para maximizar as suas hipóteses de apanhar Mercúrio.

Leve binóculos. Também precisará de se certificar de que está em posição bem a tempo de apreciar a vista de todos os cinco planetas – terá menos de meia hora entre o momento em que Mercúrio aparece pela primeira vez acima do horizonte e quando se perde no horizonte, no brilho do sol nascente.

24 de Junho: de acordo com a Sky & Telescope, o alinhamento planetário desta manhã é ainda mais convincente. Para começar, Mercúrio será muito mais fácil de captar, tornando o desfile dos cinco planetas muito mais acessível. E terá cerca de uma hora para desfrutar da vista, desde quando Mercúrio salta acima do horizonte até quando o Sol nascente o ofuscar no céu.

Mas o verdadeiro bónus é a Lua crescente minguante posicionada entre Vénus e Marte, servindo como um substituto da Terra. Por esta altura do mês, os planetas estão mais espalhados pelo céu – a distância entre Mercúrio e Saturno será de 107°.

Se estiver nublado nas datas de nota, ainda tem todas as manhãs entre elas para ver os cinco planetas a olho nu que adornam o horizonte sudeste. Apenas se certifique que define o alarme e acordar a tempo.

Pplware
Autor: Vítor M
03 Jun 2022

Posição dos planetas hoje, 03.06.2022

Stellarium


 

1160: Portugal registou 220 mortes e 175.766 casos de covid-19 na última semana

– … e ainda não começou a rénação… Bora lá rénar p’rós arraiais qu’é o que faz falta à malta!!!

SAÚDE PÚBLICA/PANDEMIA/COVID-19/INFECÇÕES/MORTOS

Em comparação com a semana anterior, o país contabilizou menos 12 óbitos e 11.750 casos, mas registou mais internamentos.

Portugal registou 220 mortes e 175.766 casos de covid-19 entre 24 e 30 de Maio, revela o relatório de situação semanal da Direcção-Geral da Saúde (DGS).

Em comparação com a semana anterior, o país contabilizou menos 12 óbitos e 11.750 casos.

Segundo o relatório, a faixa etária entre os 40 e os 49 anos foi a que apresentou maior número de casos a sete dias (30.194), seguida das pessoas entre os 50 e os 59 anos (27.584), enquanto as crianças até nove anos foram o grupo com menos infecções (8.871) nesta semana.

O boletim refere também que, nestes sete dias, morreram 164 idosos com mais de 80 anos, 35 pessoas entre os 70 e 79 anos, 15 entre os 60 e 69 anos, quatro entre os 50 e 59 anos e duas entre os 40 e 49 anos.

A taxa de incidência é agora de 1 707 casos por 100 mil habitantes, uma redução de 6% face ao período anterior de sete dias, enquanto o R(t) situa-se em 1,00.

Presentemente, encontram-se internadas 2092 pessoas nos hospitais portugueses (mais 250 do que na semana anterior), 107 das quais em unidades de cuidados intensivos (mais oito).

Dos internamentos totais, 865 foram de idosos com mais de 80 anos, seguindo-se a faixa etária dos 70 aos 79 anos (462) e dos 60 aos 69 anos (319). A DGS contabilizou ainda 29 internamentos no grupo etário das crianças até aos nove anos, 12 dos 10 aos 19 anos, 28 dos 20 aos 29 anos, 38 dos 30 aos 39 anos, 76 dos 40 aos 49 anos e 130 dos 50 aos 59 anos.

A região de Lisboa e Vale do Tejo foi a que contabilizou mais casos entre 24 e 30 de Maio (67.158), seguida de Norte (59.685), Centro (25.911), Alentejo (7.236), Açores (6.376), Algarve (5.972) e Madeira (3.428).

No entanto, foi no Norte que se registaram mais óbitos (83). LVT registou 56, o Centro 50, o Alentejo 11, o Algarve dez, os Açores seis e a Madeira quatro.

Paralelamente, 93% da população tem o esquema de vacinação completo, 62% já recebeu a dose de reforço e 1% já foi imunizado com a segunda dose de reforço. No entanto, apenas 20% do grupo etário de 80 e mais anos é que já recebeu a segunda dose de reforço.

A primeira dose de reforço já foi administrada a 96% dos idosos com mais de 80 anos, a 98% das pessoas entre os 65 e 79 anos, a 84% entre os 50 e 64 anos, a 61% entre os 25 e 49 anos e apenas a 47% no escalão etário entre os 18 e 24 anos.

De acordo com o Relatório de Monitorização da Situação Epidemiológica da COVID-19, do Instituto Ricardo Jorge, “a linhagem BA.5 da variante Omicron é dominante em Portugal, registando uma frequência relativa estimada de 87% no dia 30 de Maio de 2022”.

“Esta linhagem tem revelado uma maior capacidade de transmissão, a qual é potencialmente mediada por mutações adicionais com impacto na entrada do vírus nas células humanas e/ou na sua capacidade de evadir a resposta imunitária”, indica a nota enviada às redacções.

Diário de Notícias
DN
03 Junho 2022 — 19:25


 

1159: Sobem para 143 os casos confirmados de infecção humana por vírus Monkeypox em Portugal

SAÚDE PÚBLICA/SURTO/VÍRUS MONKEYPOX/INFECÇÕES

Há mais cinco casos de infecção humana por vírus Monkeypox em Portugal, indica a Direcção-Geral da Saúde.

© Global Imagens

Portugal registou mais cinco casos confirmados de infecção com o vírus Monkeypox, totalizando até agora 143 situações de pessoas infectados que se encontram clinicamente estáveis, anunciou esta sexta-feira a Direcção-Geral da Saúde (DGS).

Em comunicado, a autoridade de saúde “confirma mais cinco casos de infecção humana por vírus Monkeypox em Portugal, havendo, até ao momento, um total de 143 casos”.

Segundo o departamento liderado por Graça Freitas, a maioria das infecções confirmadas pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge foram notificadas em Lisboa e Vale do Tejo, mas também há registo de casos nas regiões Norte e Algarve.

A DGS indica que “todas as infecções confirmadas são em homens entre os 19 e os 61 anos, tendo a maioria menos de 40 anos”.

“Os casos identificados mantêm-se em acompanhamento clínico, encontrando-se estáveis” lê-se na nota divulgada pela autoridade nacional de saúde, acrescentando que a “informação que recolhida através dos inquéritos epidemiológicos está a ser analisada para contribuir para a avaliação do surto a nível nacional e internacional.”

Ao Hospital dos Capuchos, em Lisboa, onde a 3 de maio surgiu o primeiro caso suspeito de Monkeypox, têm chegado cerca de 20 doentes por semana, disse na quinta-feira à agência Lusa a dermatologista Cândida Fernandes, responsável pela consulta de Doenças Sexualmente Transmissíveis do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central.

Os doentes observados têm um quadro clínico benigno e com o mesmo padrão. “Não sabemos se no futuro, daqui a alguns meses, como é que se vai comportar, como é que vai surgir na população feminina e nas outras faixas etárias, mas, para já, está a ser uma infecção mais frequente nos homens e jovens”, adiantou.

Cândida Fernandes adiantou que estão a aparecer na sua consulta “alguns doentes que estiveram nos mesmos locais e alguns doentes que são contactantes de outros com infecção”.

Referiu ainda que “é normal” que apareçam mais doentes, uma vez que o período de incubação da doença são 21 dias, além de as pessoas estarem “mais atentas” ao aparecimento de lesões.

Até agora, disse, apenas um doente esteve internado “poucos dias” no serviço de doenças infecciosas do CHULC, para controlo da dor numa lesão.

A dermatologista adiantou que os doentes estão a recorrer atempadamente aos serviços de saúde, porque estão informados. “Nós, do ponto de vista europeu, até detectámos este surto bastante precocemente em relação a outros países”, salientou.

Relativamente ao tratamento, Cândida Fernandes explicou que é dirigido aos sintomas, nomeadamente febre, embora seja ligeira, e dor nas lesões.

Adiantou que o número de lesões – que desaparecem sem grandes sequelas – nos doentes observados é em “número muito inferior, abaixo de dez”, ao observado em doentes nos países onde a doença é endémica.

Quanto à via de transmissão da doença, Cândida Fernandes disse que os casos observados parecem indicar que o vírus se transmite por um contacto físico muito próximo devido à localização das lesões.

“Em relação ao que se sabe da doença em geral [nos países endémicos], ou seja, nos outros casos da doença, põe-se sempre a hipótese de que possa haver transmissão a partir de, eventualmente, de roupas, de contacto próximo a partir de gotículas”, referiu.

“Nós presumimos que também nesta infecção possa haver algum tipo dessa transmissão, mas actualmente tanto quanto nos percebemos nos nossos doentes é um contacto físico próximo”, sustentou.

Lembrando o aparecimento dos primeiros casos na consulta, Cândida Fernandes disse que o desafio foi encontrar “o diagnóstico correto para melhor tratar os doentes”.

“Os primeiros casos que surgiram foi o desafio das lesões cutâneas que não se enquadravam no que normalmente nós vimos nesta consulta e, portanto, a partir daí foi tentar alargar o número de exames que fazem para encontrar o diagnóstico certo para tratar a doença. No fundo, para esclarecer os casos e tratar bem os doentes”, rematou.

Diário de Notícias
DN/Lusa
03 Junho 2022 — 12:18


 

1158: Telescópios ajudam a explicar porque Úrano e Neptuno têm cores diferentes

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Esquerda: imagem, pelo Hubble, a 25 de Outubro de 2021, de Úrano que mostra o brilhante “capô” polar no norte do planeta.
Direita: imagem Hubble, obtida dia 7 de Setembro de 2021, de Neptuno que apresenta a mancha escura do planeta e o hemisfério norte escurecido.
Crédito: NASA, ESA, A. Simon (Centro de Voo Espacial Goddard) e M. H. Wong (Universidade da Califórnia, Berkeley) e equipa OPAL

Os astrónomos pensam agora saber porque é que Úrano e Neptuno têm cores diferentes. Usando observações do Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA, bem como do telescópio Gemini North e do IRTF (Infrared Telescope Facility) da NASA, os investigadores desenvolveram um modelo atmosférico único que corresponde às observações de ambos os planetas. O modelo revela que o excesso de neblina em Úrano acumula-se na atmosfera estagnada e “preguiçosa” e faz com que pareça ter um tom mais leve do que Neptuno.

Neptuno e Úrano têm muito em comum – têm massas, tamanhos e composições atmosféricas semelhantes – mas as suas aparências são notavelmente diferentes. Em comprimentos de onda visíveis, Neptuno tem um tom azul rico e profundo, enquanto Úrano tem um tom ciano nitidamente pálido. Os astrónomos têm agora uma explicação para o facto de os dois planetas terem cores diferentes.

Novas investigações sugerem que uma camada de neblina concentrada, presente em ambos os planetas, é mais espessa em Úrano do que em Neptuno e, portanto, “branqueia” a aparência de Úrano mais do que a de Neptuno. Se não houvesse névoa nas atmosferas de Neptuno e Úrano, ambos seriam quase igualmente azuis como resultado da luz azul espalhada nas suas atmosferas (as cores vermelhas da luz do Sol, espalhadas pela neblina e pelas moléculas de ar, são mais absorvidas pelas moléculas de metano nas atmosferas dos planetas.

Este processo – conhecido como dispersão de Rayleigh – é o que torna o céu azul aqui na Terra, embora na nossa atmosfera a luz solar seja na sua maioria dispersa por moléculas de azoto em vez de moléculas de hidrogénio. A dispersão de Rayleigh ocorre predominantemente em comprimentos de onda mais curtos e azuis).

Esta conclusão provém de um modelo que uma equipa internacional liderada por Patrick Irwin, professor de física planetária na Universidade de Oxford, desenvolveu para descrever as camadas de aerossol nas atmosferas de Neptuno e Úrano. Investigações anteriores das atmosferas superiores destes planetas focaram-se na aparência da atmosfera apenas em comprimentos de onda específicos.

No entanto, este novo modelo consiste em múltiplas camadas atmosféricas e corresponde a observações de ambos os planetas através de uma vasta gama de comprimentos de onda. O novo modelo também inclui partículas de neblina dentro de camadas mais profundas que anteriormente se pensava conterem apenas nuvens geladas de metano e sulfureto de hidrogénio.

“Este é o primeiro modelo a encaixar simultaneamente observações da luz solar reflectida em comprimentos de onda que vão desde o ultravioleta ao infravermelho próximo,” explicou Irwin, que é o autor principal de um artigo que apresenta este resultado na revista Journal of Geophysical Research: Planets. “É também o primeiro a explicar a diferença visível de cor entre Úrano e Neptuno.”

O modelo da equipa consiste em três camadas de aerossóis a diferentes alturas. A camada chave que afecta as cores é a camada intermédia, que é uma camada de partículas de névoa (referida no artigo como a camada Aerosol-2) que é mais espessa em Úrano do que em Neptuno.

A equipa suspeita que, em ambos os planetas, o metano gelado condensa-se nas partículas desta camada, puxando as partículas mais para dentro da atmosfera numa chuva de neve de metano.

Dado que Neptuno tem uma atmosfera mais activa e turbulenta do que Úrano, a equipa pensa que a atmosfera de Neptuno é mais eficiente a agitar as partículas de metano para a camada de neblina e a produzir esta neve. Isto remove mais da névoa e mantém a camada de névoa de Neptuno mais fina do que em Úrano, com o resultado de que a cor azul de Neptuno parece mais forte.

“Nós esperávamos que o desenvolvimento deste modelo nos ajudasse a compreender as nuvens e névoas nas atmosferas dos gigantes gelados,” comentou Mike Wong, astrónomo na Universidade da Califórnia, Berkeley e membro da equipa que está por detrás deste resultado. “A explicação da diferença de cor entre Úrano e Neptuno foi um bónus inesperado!”

Para criar este modelo, a equipa de Irwin analisou dados de arquivo do Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA abrangendo vários anos. Estes dados espectrográficos foram obtidos com o STIS (Space Telescope Imaging Spectrograph) do Hubble, cobrindo uma vasta gama de comprimentos de onda desde o ultravioleta até ao visível e infravermelho (0,3-1,0 micrómetros).

Foram complementados com dados de telescópios terrestres: um conjunto de novas observações pelo Telescópio Gemini North e dados de arquivo do IRTF (Infrared Telescope Facility) da NASA, ambos localizados no Hawaii.

A equipa não só examinou os espectros dos planetas, como também fez uso de algumas das muitas imagens que o Hubble obteve dos dois planetas com o seu instrumento WFC3 (Wide Field Camera 3). O Hubble fornece excelentes vistas das distintas tempestades atmosféricas partilhadas pelos dois planetas conhecidas como “manchas escuras”, que os astrónomos conhecem há muitos anos.

Não se sabia exactamente que camadas atmosféricas eram perturbadas pelas manchas escuras para as tornar visíveis ao Hubble. O modelo produzido pela equipa explica o que dá uma aparência escura às manchas e porque são mais facilmente detectáveis em Úrano em comparação com Neptuno.

Os autores pensavam que um escurecimento dos aerossóis na camada mais profunda do seu modelo produziria manchas escuras semelhantes às vistas em Neptuno e talvez em Úrano. Com as imagens detalhadas do Hubble, puderam verificar e confirmar as suas hipóteses.

De facto, as imagens simuladas baseadas neste modelo combinam de perto com as imagens WFC3 de ambos os planetas, produzindo manchas escuras visíveis nos mesmos comprimentos de onda. Pensa-se que a mesma neblina espessa na camada de Aerossol-2 em Úrano, que provoca a sua cor azul mais clara, também obscurece estas manchas escuras com mais frequência do que em Neptuno.

Astronomia On-line
3 de Junho de 2022


 

1157: Astrónomos identificam 116.000 novas estrelas variáveis

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Um telescópio do ASAS-SN que ajuda os astrónomos a descobrir novas estrelas.
Crédito: ASAS-SN

De acordo com um novo artigo científico, astrónomos da Universidade Estatal do Ohio identificaram cerca de 116.000 novas estrelas variáveis.

Estes corpos celestes foram encontrados pelo levantamento ASAS-SN (All-Sky Automated Survey for Supernovae), uma rede de 20 telescópios espalhados por todo o mundo que pode observar todo o céu cerca de 50.000 vezes mais profundamente do que o olho humano. Os investigadores da universidade acima mencionada operam o projecto há quase uma década.

Agora, num artigo publicado no site de pré-impressão arXiv, os investigadores descrevem como utilizaram técnicas de aprendizagem de máquina para identificar e classificar estrelas variáveis – objectos celestes cujo brilho aumenta e diminui com o tempo, especialmente se observados a partir da nossa perspectiva da Terra.

As alterações que estas estrelas sofrem podem revelar informações importantes sobre a sua massa, raio, temperatura e mesmo a sua composição. De facto, até o nosso Sol é considerado uma estrela variável. Levantamentos como o ASAS-SN são uma ferramenta especialmente importante para encontrar sistemas que possam revelar as complexidades dos processos estelares, disse Collin Christy, o autor principal do artigo e analista do ASAS-SN na Universidade Estatal do Ohio.

“As estrelas variáveis são como um laboratório estelar,” disse. “São lugares realmente engraçados no Universo onde podemos estudar e aprender mais sobre como funcionam realmente as estrelas e sobre as pequenas complexidades que têm.”

Mas para localizar mais destas entidades elusivas, a equipa teve primeiro que ir buscar dados anteriormente não utilizados do projecto. Durante anos, o ASAS-SN olhou para o céu utilizando filtros de banda V, lentes ópticas que só conseguem identificar estrelas cuja luz cai no espectro de cores visíveis a olho nu. Mas em 2018, o projecto passou a utilizar filtros de banda g – lentes que podem detectar mais variedades de luz azul – e a rede passou de poder observar cerca de 60 milhões de estrelas de cada vez para mais de 100 milhões.

Mas ao contrário da campanha de ciência cidadã do ASAS-SN, que depende de voluntários para filtrar e classificar dados astronómicos, o estudo de Christy exigiu a ajuda da inteligência artificial.

“Se se quiser olhar para milhões de estrelas, é impossível que alguns humanos o façam sozinhos. Vai levar uma eternidade,” disse Tharindu Jayasinghe, co-autor do artigo, estudante de doutoramento em astronomia e bolseiro na mesma universidade. “Por isso tivemos de trazer algo criativo para a mistura, como técnicas de aprendizagem de máquina.”

O novo estudo centrou-se em dados do Gaia, uma missão para traçar um mapa tridimensional da nossa Galáxia, bem como em dados do 2MASS e AllWISE. A equipa de Christy usou um algoritmo de aprendizagem de máquina para gerar uma lista de 1,5 milhões de estrelas variáveis candidatas a partir de um catálogo de 55 milhões de estrelas isoladas.

Posteriormente, os investigadores reduziram ainda mais o número de candidatas. Das 1,5 milhões de estrelas que estudaram, quase 400.000 revelaram-se estrelas variáveis verdadeiras. Mais de metade já eram conhecidas da comunidade astronómica, mas 116.027 delas revelaram-se ser novas descobertas.

Embora o estudo precisasse de aprendizagem de máquina para ser concluído, a equipa de Christy diz que ainda há um papel para os cientistas cidadãos. De facto, os voluntários da campanha de ciência cidadã já começaram a identificar dados de lixo, disse. “Ter pessoas a dizer-nos quão maus os nossos dados são é deveras útil, porque inicialmente, o algoritmo olharia para os dados maus e tentaria fazer sentido dos mesmos,” disse Christy.

Mas a utilização de um conjunto de treino de todos estes dados maus permite à equipa modificar e melhorar o desempenho global do seu algoritmo. “Esta é a primeira vez que estamos realmente a combinar a ciência cidadã com técnicas de aprendizagem de máquina no campo da astronomia das estrelas variáveis,” disse Jayasinghe. “Estamos a expandir os limites do que se pode fazer quando estes dois se juntam.”

Astronomia On-line
3 de Junho de 2022


 

1156: Estrela de neutrões invulgar descoberta em cemitério estelar

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Impressão de artista do pulsar PSR J0901-4046 (em magenta) em comparação com outras fontes com rotação mais elevada.
Crédito: Daniëlle Futselaar (artsource.nl)

Uma equipa internacional liderada por uma cientista da Universidade de Sidney descobriu um sinal de rádio invulgar emitido por uma estrela de neutrões que gira extremamente devagar, completando uma rotação a cada 76 segundos.

A estrela é única porque reside no “cemitério de estrelas de neutrões”, onde não se esperam pulsações. A descoberta foi feita pela equipa MeerTRAP utilizando o radiotelescópio MeerKAT na África do Sul, e foi publicada na revista Nature Astronomy.

A estrela foi inicialmente detectada a partir de um único pulso. Foi então possível confirmar vários pulsos usando imagens consecutivas do céu com oito segundos de exposição, confirmando a sua posição.

As estrelas de neutrões são remanescentes extremamente densos de explosões de super-nova de estrelas massivas. Os cientistas conhecem cerca de 3000 destas na nossa Galáxia. No entanto, a nova descoberta é diferente de tudo o que se viu até agora. A equipa pensa que poderia pertencer à classe teorizada de magnetares de período ultra-longo – estrelas com campos magnéticos extremamente fortes.

A Dra. Manisha Caleb, líder da investigação, anteriormente da Universidade de Manchester e agora da Universidade de Sidney, disse: “Surpreendentemente só detectamos emissões de rádio a partir desta fonte durante 0,5% do seu período de rotação.

“Isto significa que é uma grande sorte que o feixe de rádio se tenha cruzado com a Terra.

“É, portanto, provável que existam muitas mais destas estrelas de neutrões que giram muito lentamente na Galáxia, o que tem implicações importantes para a compreensão de como as estrelas de neutrões nascem e evoluem.

“A maioria dos levantamentos pulsar não procura períodos tão longos, pelo que não temos ideia de quantas destas estrelas possam existir.”

A estrela de neutrões recentemente descoberta chama-se PSR J0901-4046 e parece ter pelo menos sete tipos de pulsos diferentes, alguns dos quais ocorrem a intervalos regulares. Mostra características de pulsares, magnetares de período ultra-longo e até FRBs (em inglês “fast radio bursts”) – flashes de emissão de rádio em locais aleatórios no céu.

“Este é o início de uma nova classe de estrelas de neutrões. Como ou se se relaciona com outras classes ainda está para ser explorado. É provável que haja muitas mais por aí. Só precisamos de olhar!” disse a Dra. Caleb.

Os colaboradores da investigação incluem a equipa ThunderKat de 77 pessoas, liderada pelas Universidade da Cidade do Cabo e Oxford.

Astronomia On-line
3 de Junho de 2022


 

1155: Comunicações no espaço? Já há uma empresa a tratar

TECNOLOGIA/ESPAÇO/COMUNICAÇÕES

Nos últimos anos muito se tem falado sobre o espaço e têm sido várias as descobertas. Quem sabe se daqui a poucos anos não poderemos ir passar, por exemplo, um fim de semana ao espaço e ter muitos dos serviços que usamos actualmente.

Nesse sentido, há já uma empresa que está já a tratar de comunicações espaciais. Saiba quem é e qual o objectivo.

Comunicações: Actualmente existem 12 mil satélites no espaço

A multinacional japonesa de tecnologia e entretenimento Sony anunciou a criação de uma nova empresa, a Sony Space Communications Corporation (SSC), com a qual pretende entrar no sector das comunicações espaciais.

A empresa, fundada através da subsidiária norte-americana, vai construir dispositivos ópticos que permitem a comunicação entre pequenos satélites em órbita, através de feixes laser, acelerando as comunicações em comparação com o sistema de rádio convencional, disse a Sony, em comunicado.

Segundo Kyohei Iwamoto, da SSC…

Existem actualmente cerca de 12 mil satélites no espaço, e espera-se que o número aumente no futuro. A quantidade de dados utilizados em órbita também está a aumentar todos os anos, mas a quantidade de ondas de rádio disponíveis é limitada

Os dispositivos vão funcionar entre satélites no espaço e nas comunicações de satélites com estações terrestres, tendo a Sony indicado esperar que este sistema garanta comunicações em tempo real de qualquer ponto da Terra para qualquer satélite no espaço.

Segundo a Lusa, antes de iniciar as operações, a Sony realizou uma experiência com a Agência de Exploração Aeroespacial do Japão (JAXA) este ano e concluiu a transferência de ficheiros de dados, a base tecnológica para serviços da Internet através de comunicações ópticas.

Os dispositivos da SSC vão também evitar a necessidade de certos tipos de licenças necessárias para a comunicação via rádio, seguindo o modelo de outras empresas, como a Amazon e a SpaceX, que optaram por construir redes de satélite de baixa altitude para melhorar as comunicações via Internet.

Em Setembro de 2021, a SpaceX lançou o primeiro lote de satélites equipados com um sistema de comunicação laser para a constelação Starlink de satélites de Internet.

Pplware
Autor: Pedro Pinto
03 Jun 2022


 

1154: Abriu a época dos arraiais. Um roteiro para a festa

– Em plena sexta vaga pandémica e numa altura em que Portugal está com mais infecções e mortes devido à pandemia do Covid-19 e suas variantes, esta gajada vai dedicar-se às festas dos arraiais, numa insanidade irracional, acéfala e criminosa. Mas também ninguém é obrigado a participar nesta alucinação pandémica colectiva… O que lamento são os que não tendo nada a ver com o assunto, possam vir a ser infectados por estes grunhos labregos neandertais…

SOCIEDADE/FESTAS E ARRAIAIS/PANDEMIA/COVID-19

Com o arranque das festas de Lisboa, as ruas da cidade enchem-se de vida, de cheiro a sardinha assada, manjericos e adereços coloridos. Com tanta festa, perca-se pelas ruas e vielas, mas siga este roteiro para que não perca os melhores arraiais da capital.

Foto Global Imagens

Arraial dos Navegantes

Até domingo

O terreiro junto à Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes, no Parque das Nações, volta a ser palco do Arraial dos Navegantes. A organização promete muita festa, com petiscos e animação musical. Hoje, o palco está por conta das bandas Original Bandalheira e Z.A. Incorporation. Amanhã, será a vez de assistir às actuações do coro vocal da Universidade sénior da freguesia e de Os Manjericos. Domingo, sobem ao palco a Cottas Club Jazz Band e os Rockfour.

Arraial da Vila Berta

Até dia 12

Cabe a José Malhoa inaugurar, esta noite, o arraial da Vila Berta, no Bairro da Graça. No sábado, o palco estará por conta dos Deixa Rolá e Muncho Leche, enquanto no domingo haverá arraial infantil pelas 16h00. O cartaz inclui ainda actuações dos Arpicantares (dia 6), Comes, Bebes… e Pimba (dia 7), uma DJ battle entre Cota Ruizadas e Mucho Letche (dia 8), Fado Vadio (dia 9), DJ Cota Ruizadas (dia 10), Bra’thers Band (dia 11), e Tudo ao Molho e DJ Cota Ruizadas (dia 12).

Santos à Campolide

Até dia 12

© Global Imagens

A Quinta do Zé do Pipo é o centro das celebrações populares em Campolide. Iran Costa (esta noite), Quim Barreiros (dia 9), Jorge Guerreiro (dia 10), Fernando Correia Marques (dia 11) e Ruth Marlene (dia 12) são os cabeças de cartaz destas festas, mas por lá também vão passar os Trio Clave, Tributo Popular, Fernando Alvim, Salvador Nogueira e Cristina Ferreira, Ramboia Total, Domingos Patinha e Pedro Simões – DJ Pietro.

Arraial da Doca da Marinha

Até dia 23

© Global Imagens

A Doca da Marinha, junto ao terminal do Terreiro do Paço, vai ser palco de um arraial popular que promete várias noites de música ao vivo, com alguns momentos fortes: Mónica Sintra (dias 11 e 18), Miguel Azevedo (14 e 22), Belitos Campos (dia 15), Nel Monteiro (dia 16), José Reza (dia 21). Esta noite, o palco está por conta de Ruizinho de Penacova e amanhã de Between Afternoons.

Arraiais de São Vicente

Até dia 13

Haverá dois palcos – um no Largo da Graça e outro no miradouro -, naquele que promete ser o melhor arraial de Lisboa. Por lá vão passar Arrebimba o Malho, Alma Rock, Bandalheira, Ex-Libris, Oitantamente, Olha Q’Três, Rambóia Total e XPTO, entre outros.

Arraial da Misericórdia

Até dia 30

© Global Imagens

Depois de Rosinha, na passada quarta-feira, o Miradouro de São Pedro de Alcântara vai continuar com animação até ao fim do mês. Destaque para as actuações de Ruth Marlene (dia 10), Quim Barreiros (dia 12), Jorge Guerreiro (dia 15) e Toy (dia 29).

Grande arraial das Avenidas Novas

Até 3 de Julho

© Global Imagens

É nos jardins do Campo Pequeno que estão instalados carrosséis, insufláveis e barracas de comes e bebes para animar este mês. Rosinha (dia 7), Tio Jel (dia 9), DJ Kamala (dia 12) são as principais atracções, mas haverá animação diária em palco, com outros artistas, fados, karaoke e stand up comedy.

Grande arraial de Benfica

De 23 a 26

© Global Imagens

A Junta de Freguesia de Benfica volta a organizar o Grande Arraial de Benfica na Alameda Padre Álvaro Proença. O cartaz tem como cabeças de cartaz Lena d’Água e Amor Electro (dia 23), Ana Bacalhau e Carlão (dia 24), Sons do Minho e Expensive Soul (dia 25), e Martim Vicente e Rui Veloso (dia 26).

Arraial da Praça do Município

Até domingo

A Praça do Município vai transformar-se num imenso arraial até domingo. A música será ambiente, mas haverá sardinhas, bifanas, caldo verde, arroz doce, pão, cerveja e vinho.

Arraial “A Minha Penha é Linda”

Até 13

A Junta de Freguesia da Penha de França reúne as colectividades da freguesia e organiza um arraial solidário no Mercado de Sapadores, na rua da Penha de França. As receitas irão reverter para as actividades das associações da comunidade. Além das tradicionais bifanas e sardinhas, haverá opção vegana em todas as bancas.

Diário de Notícias
03 Junho 2022 — 00:04


 

1153: Conselho de Finanças Públicas quer regra fixa para reforçar pensões mais baixas

Também o relatório “Pensions at a Glance 2021”, da OCDE, mostra que as pensões portuguesas acumulam nas últimas décadas a quinta pior evolução em termos de acompanhamento do poder de compra no grupo de 38 países, com perdas reais médias anuais de 0,2% e um desvio significativo da evolução nos salários, com um crescimento médio anual real de 1,2% no mesmo período.

SOCIEDADE/PENSÕES DE MISÉRIA/IDOSOS

Medida tem “cariz social relevante”, mas deve ter quadro legal estável e não pôr em causa objectivos de reposição de poder de compra das actualizações automáticas anuais, defende a instituição que fiscaliza contas públicas.

Conselho liderado por Nazaré Costa Cabral diz que é preciso “previsibilidade” na gestão financeira do sistema de Segurança Social.
© Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

O Conselho das Finanças Públicas (CFP) defende que a medida que nos últimos seis anos tem assegurado actualizações mínimas de dez euros entre as pensões de valor mais baixo deve passar a permanente, garantindo assim maior previsibilidade à despesa da Segurança Social.

A ideia foi deixada ontem em relatório de análise à evolução orçamental da Segurança Social, com o órgão liderado por Nazaré Costa Cabral a notar o peso crescente da despesa com actualizações extraordinárias de pensões e também a alertar para o risco de esta medida pôr em causa “a filosofia e os objectivos” das regras legais de actualização de pensões, destinadas a assegurar a manutenção do poder de compra dos pensionistas.

“Esta actualização extraordinária tem vindo a ser aplicada de forma recorrente desde 2017, o que não pode deixar de suscitar a questão de saber até que ponto não faria sentido alterar de forma permanente a regra de actualização destas pensões de montante mais baixo”, refere o CFP.

Está em causa a garantia de actualização mínima de dez euros nas pensões de valor até 1,5 vezes o indexante de apoios sociais (658,20 euros no ano passado) que tem sido legislada anualmente nos Orçamentos do Estado até 2021. Neste ano, abrangerá já as pensões de até 1108 euros (2,5 vezes o indexante de apoios sociais), conforme o Orçamento para 2022 aprovado pelo Parlamento na semana passada, numa medida a aplicar a partir de Julho com efeitos retroactivos a Janeiro.

“Na verdade, por razões de previsibilidade na gestão financeira do sistema de Segurança Social, até como salvaguarda da sua sustentabilidade, será sempre preferível contar com um quadro legislativo estável, com regras de aplicação objectiva e automática, do que com intervenções discricionárias e casuísticas do decisor político que, no limite, podem pôr em causa a filosofia e os objectivos últimos do quadro legal existente”, defende o organismo liderado por Nazaré Cabral.

O CFP diferencia os objectivos sociais da actualização extraordinária dos objectivos de garantir acompanhamento do poder de compra e ligação ao crescimento económico registado no país que orientam a actualização automática anual das pensões.

Nas notas do documento, refere-se que a “actualização extraordinária ao ter um cariz social relevante por beneficiar as pensões mais baixas pode afastar a fundamentação inerente à criação da regra de actualização regular das pensões”.

Já a habitual actualização automática, “tem como objectivo a ligação da evolução das pensões às contingências económicas (crescimento do PIB real e inflação), verificando-se uma diferenciação do valor da actualização em função do seu montante”. Nestas regras, o crescimento do PIB verificado bonifica também as pensões mais baixas, mas garante-se o acompanhamento da inflação para todas as pensões apenas quando o crescimento da economia supera os 3% nos dois anos anteriores. Deverá ser o caso em 2023, tal como prevê a lei, lembrada recentemente no Parlamento pelo secretário de Estado da Segurança Social, Gabriel Bastos.

Em 2022, estas regras garantiram no início do ano uma actualização em 1% para as pensões de valor até 886,40 euros; de 0,49% para as pensões a partir desse valor e até 2659,20 euros; e de 0,24% para as pensões acima dos 2659,20 euros e até 5318,40 euros (nos valores acima de 12 vezes o indexante de apoios sociais não há lugar a actualizações). Apesar destas regras de actualização, as pensões de velhice portuguesas são aquelas que sofrem maior desvalorização face à evolução dos salários em toda a União Europeia, segundo concluiu o último Relatório sobre a Adequação de Pensões da Comissão Europeia, de 2021.

Também o relatório “Pensions at a Glance 2021“, da OCDE, mostra que as pensões portuguesas acumulam nas últimas décadas a quinta pior evolução em termos de acompanhamento do poder de compra no grupo de 38 países, com perdas reais médias anuais de 0,2% e um desvio significativo da evolução nos salários, com um crescimento médio anual real de 1,2% no mesmo período.

Esta desvalorização ocorre mesmo com as actualizações extraordinárias que ocorrem desde 2017, e que garantem um valor diferencial extra face às actualizações regulares. Ou seja, após a actualização automática, a Segurança Social supre o necessário para que a subida total seja de dez euros.

O relatório publicado ontem assinala que a despesa com a actualização extraordinária de dez euros (e com o complemento extraordinário que visa compensar valores de pensões de mínimos a novos beneficiários em função de actualizações extraordinárias dadas em anos anteriores) tem vindo a aumentar o peso na despesa da Segurança Social. Os custos foram de 77 milhões de euros em 2017, mais do que duplicando para 207 milhões de euros no ano seguinte. Em 2019, ascenderam a 338 milhões de euros, alcançando os 449 milhões de euros em 2020.

Já em 2021, os custos das medidas ficaram em 747 milhões de euros. Desse valor, a actualização extraordinária de dez euros (excluindo o complemento de compensação às pensões de mínimos) representou 504,6 milhões de euros, num ano em que não houve actualização regular de pensões devido à ausência de inflação e de crescimento económico.

Para 2022, o governo estima que a actualização extraordinária das pensões até 1108 euros custe mais 197 milhões de euros, que incrementarão o total de despesa resultante das actualizações extraordinárias dos últimos anos.

Maria Caetano é jornalista do Dinheiro Vivo

Diário de Notícias
Maria Caetano
03 Junho 2022 — 00:15


 

Raquel Duarte: “Nunca tivemos tantos infectados acima dos 80 anos. É muito preocupante o nível de transmissão”

SAÚDE PÚBLICA/PANDEMIA/COVID-19/INFECÇÕES/IDOSOS

A pneumologista considera que não há justificação para medidas obrigatórias, mas que a situação tem de ser vista dia a dia, até porque acredita que o contágio “é muito maior” do que dizem os números. E pede que a comunicação da saúde volte a ser feita à população.

“Sim, a vacina veio para ficar e continuar e, provavelmente, vamos precisar de nos continuar a vacinar ao longo do tempo com uma periodicidade a definir.”
© David Tiago / Global Imagens

Médica pneumologista, especialista em tuberculose e doenças do pulmão, trabalha com frequência no aconselhamento da Direcção-Geral da Saúde. Foi uma das peritas ouvidas nas reuniões do Infarmed para traçar as medidas de contenção da pandemia. Foi secretária de Estado da Saúde. Hoje exerce no Hospital Gaia Espinho e é investigadora do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto e professora do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar. Raquel Duarte, 54 anos, nasceu no Porto.

É falta de voz do Estado, seja do governo ou autoridades de saúde, que está a fazer subir os casos de infecção ou esta sexta vaga deve-se à falta de vontade das pessoas de cumprir regras de protecção?
Diria que é multi-factorial, nós estamos perante uma variante com um poder de transmissão muito grande numa população que estava cansada das medidas de isolamento, de cumprir as medidas restritivas, que tinha percepção de risco baixa e uma série de eventos que são potencialmente de grande transmissão. Tudo isso foram os ingredientes necessários para chegarmos a esta onda, aliados a uma população com alta taxa de cobertura vacinal o que permite reduzir o efeito desta transmissão.

Avaliando as medidas que usámos nos últimos dois anos, devemos continuar a usar máscara?
Nunca deixou de ser recomendada. Deixou de ser obrigatória em determinados espaços, mas continua a ser uma das medidas mais eficazes. É preciso ter percepção de risco, se tivermos num local com muita gente, sem distanciamento, mal ventilado, com pessoas com sintomas, devemos utilizar a máscara a par das outras medidas como a vacinação.

Distanciamento é recomendável?
É. Bem como melhorar a ventilação de espaços interiores e vacinação. Quando verificamos os dados epidemiológicos actuais verificamos que temos a mais alta taxa de incidência entre populações mais velhas. Numa fase inicial, protegemos muito as populações mais vulneráveis, mas a verdade é que, nesta fase, temos muita gente infectada acima dos 80 anos, nunca tivemos tanta gente infectada acima dos 80 anos. O que é que poderá ter acontecido? Por um lado, as pessoas acima dos 80 anos, já cansadas das medidas, relaxaram na protecção e as mais jovens também não têm tido os mesmos cuidados de protecção dos mais vulneráveis. É fundamental manter esses cuidados no sentido de protegermos as pessoas com maior risco de ter formas graves da doença ou até de morrer.

“Não devemos voltar ao passado, tivemos dois anos de aprendizagem, que funcionaram bem no sentido de controlar os piores cenários várias vezes.”

Lavar as mãos e higienizar espaços regularmente é para manter?
Lavagem das mãos é o nosso quotidiano. É fundamental e é para ser mantida, independentemente da pandemia. Nos espaços também, bem como reduzir contactos sociais quando há sintomas. Aquilo que acontecia no passado de estarmos com tosse, febre e ir ter com amigos, colegas de trabalho, avós os pais não pode voltar a acontecer. Há uma série de práticas que aconteciam no passado que não devem ser replicadas e isso não pode ser esquecido. Não devemos voltar ao passado, tivemos dois anos de aprendizagem que funcionaram bem no sentido de controlar os piores cenários várias vezes e, nesta altura, nós não estamos a proteger as populações mais vulneráveis. Isso passa precisamente pela nossa percepção de risco, pela avaliação dos sintomas, como nos protegemos a nós e aos mais vulneráveis, isso aliado ao incentivar forte de todo o processo vacinal que é, claramente, o pilar fundamental, mas sem esquecer o resto.

A evidência científica mantém a necessidade dos isolamentos dos infectados e dos contactos de risco?
O isolamento da pessoa infectada faz parte das medidas de controlo da infecção. Permite cortar a cadeia de transmissão e isso continua a ser uma das medidas que é aplicada não só à covid-19, mas noutros contextos de doença de transmissão inalada.

Começam a surgir dúvidas se são necessários sete dias ou apenas cinco. Há evidência quanto a isso?
Vamos aprendendo. Quantos dias são necessários para reduzir o risco e quantos dias estamos dispostos a reduzir, mesmo com risco residual de transmissão, vamos aprendendo.

O melhor é manter os sete dias?
O melhor, para já, é manter os sete dias até termos evidência necessária e suficiente para ir reduzindo.

“Há dados de estudos de análises a águas residuais que apontam que há uma transmissão, provavelmente, maior do que aquela que nos é dada a ver pelos números.”

Os casos da nova variante, da sexta vaga, representam 21% do total de casos da pandemia e 6% das mortes desde início da pandemia. O que é que isto quer dizer?
É muito preocupante o nível de transmissão. Eu até acredito que o nível de transmissão é muito maior do que nos é dado a ver pelos números, porque temos nesta altura uma forma de doença que é, na grande maioria dos casos, benigna, com poucos sintomas. Há alguns dados de estudos de análises a águas residuais que apontam que há uma transmissão provavelmente maior do que aquela que nos é dada a ver pelos números. Temos uma grande transmissão na comunidade. Sugere que a população, ávida de grandes eventos e ávida de alguma liberdade, assumiu que já não há pandemia. E há outro dado: o facto de haver tantas pessoas mais velhas infectadas sugere que não estamos a protegê-las de forma adequada, isto é há transmissão a decorrer na comunidade e não há uma barreira dessa população para as populações mais velhas, portanto nós estamos a falhar na protecção das populações mais velhas. Como é que as podemos proteger? Vacinando-as, a vacina tem funcionado, mas é preciso lembrar que vai perdendo o poder ao longo do tempo e estas populações, acima de 80 anos, foram as primeiras a ser vacinadas, estão na fase de perder a capacidade de protecção e precisam de ser revacinadas.

“Temos agora um planalto. Já estávamos a reduzir a incidência, mas estamos a ter alguns travões da descida que está a ser mais lenta do que aquilo que seria previsível.”

Temos agora um planalto, já estávamos a reduzir a incidência, mas estamos ter alguns travões da descida que está a ser mais lento do que aquilo que seria previsível e muito provavelmente fruto de uma série de eventos de super-transmissão que têm vindo a ocorrer e confesso que olho com alguma preocupação para os dados epidemiológicos da covid-19 porque nos próximos tempos continuarão a ocorrer uma série de eventos que serão propícios a transmissão, como as festas populares que irão decorrer em breve e um fim de semana prolongado, que já no passado recente deu azo a grande transmissão e mobilidade da população pelo país. Precisamos de ter a noção de que temos conseguido ter a nossa vida normal, mas para que isso aconteça precisamos de começar a reduzir a transmissão e isso passa pelos comportamentos.

Perante isto a máscara deve voltar a ser obrigatória?
As medidas têm de ser proporcionais ao contexto epidemiológico. Se houver um agravamento da transmissão, e sobretudo das consequências, as medidas têm de ser proporcionais. Nesta fase não há muita justificação para que haja medidas obrigatórias. Há uma série de medidas que podem ser tomadas a nível individual sem que sejam obrigatórias.

Se nós não estamos a conseguir conter a transmissão e não estamos a conseguir proteger as populações mais vulneráveis, nós estamos a cometer uma falha como população, como comunidade, não nos estando a proteger a nós próprios com medidas que já conhecemos.

A Organização Mundial de Saúde disse, esta semana, que a evidência global mostra que a imunidade adquirida pelo contágio, somada à vacina, é mais protectora que, que cada uma dessas imunidades, de forma isolada. E que a variante ómicron não gera uma imunidade tão eficaz com as variantes originais. Ou seja, que a vacina, é mais interessante que a doença, para imunizar. É necessário, traçar um plano de vacinação permanente?
Vamos precisar de ser vacinados várias vezes, já tivemos cinco variantes. Se fizermos um paralelismo com a gripe, acabamos por ter uma vacina e uma variante anual, e nesta altura a vacina tem sido eficaz para as diferentes variantes que têm surgido. Perante o passado recente, perante o que temos aprendido, vamos precisar de ter um plano vacinal, efectivamente. Qual é esse plano e a frequência da vacinação? Isso teremos de aprender e teremos de ver exactamente aquilo que está a acontecer. Aquilo que se percebe até agora é que com o tempo há uma perda da imunidade, há uma perda dessa capacidade protectora, portanto, vamos ter de repetir o processo vacinal, vamos ter de ir ajustando a vacina ao longo do tempo. Embora, e apesar de tudo, ainda estejamos com a vacina original e que ainda mantém algum factor de protecção perante as variantes que têm vindo a decorrer. Portanto, sim, a vacina veio para ficar e continuar e, provavelmente, vamos precisar de nos continuar a vacinar ao longo do tempo com uma periodicidade a definir.

No outono teremos todos de ser vacinados? Só os mais vulneráveis?
Aquilo que sabemos de certeza é que temos de preparar o outono e o inverno. Esta preparação vai ter de ser com a vacinação, a vacina será fundamental mais uma vez, sendo prioritário a vacinação das populações mais vulneráveis, as que têm mais consequências e possibilidade de formas graves e de morte. Mas não nos podemos esquecer que, além da vacinação, vamos ter de preparar o inverno melhorando de forma eficaz a ventilação dos espaços interiores.

Antes de chegarmos ao outono-inverno temos de garantir que as populações que ainda não foram vacinadas ou as que estão ainda a fazer a segunda dose de reforço, que façam a vacina para se protegerem. Quando chegar à altura do inverno, as populações que forem definidas com maior risco, façam a vacina para se protegerem.

Quais os efeitos secundários mais duradouros da pandemia?
Há claramente o efeito da saúde mental, o efeito do lockdown, do isolamento, da violência, das alterações da forma como nos comportamos socialmente. Isto vai ter consequências a nível da saúde mental e temos de nos preocupar nos próximos tempos em permitir um diagnóstico e uma acção célere nessa situação. Por outro lado, diria que as consequências imediatas terão a ver com uma série de doenças que terão visto o seu diagnóstico atrasado por uma dificuldade no acesso aos diagnósticos. Houve uma redução dos rastreios, houve uma redução no diagnóstico de uma série de doenças infecciosos, nomeadamente a tuberculose e o VIH, e elas não desapareceram por decreto, simplesmente estiveram camufladas e não foram diagnosticadas. Provavelmente vamos ter algumas alterações em termos de epidemiologia de uma série de doenças e não nos esqueçamos também das consequências do long covid. O long covid existe, penso que ainda não sabemos todas as suas consequências, aquilo que parece é que o long covid foi muito mais frequente e sério com as primeiras variantes, mas penso que ainda teremos muito para aprender sobre as consequências da covid no ser humano. Confesso que são as principais preocupações que tenho quando penso em termos de carga de saúde da população, em consequência da covid-19.

A propósito do long covid, quer dar-nos detalhes?
Mesmo em pessoas que têm formas ligeiras de covid-19, surgem uma série de manifestações clínicas que podem ir do foro respiratório até ao neurológico, e que se manifestam muito além do término da doença aguda. Ainda não se sabe muita coisa sobre o long covid, nomeadamente a sua génese, porque é que acontece, quanto tempo é que dura. Aquilo que sabemos, apesar de tudo, é que era muito mais frequente numa fase inicial da pandemia do que é agora, mas ainda vamos ter muito para saber.

A doença acentua a desigualdade?
A doença acentua a desigualdade, há determinantes sociais e económicos que vão ditar a forma como vivemos, trabalhamos, nos comportamos, os hábitos que temos. Tudo isso vai influenciar bastante a exposição a determinados agentes, quer infecciosos, quer poluentes. Vão aumentar também o risco de determinadas doenças e essas doenças per si, poderão também fazer com que haja um agravamento desses determinantes sociais e económicos. Nomeadamente a covid, em relação às pessoas que vivem e trabalham em sítios de grande densidade populacional, que não puderam ficar em casa isolados. Mesmo nas respostas em saúde, de certa forma, porque houve um grande investimento na tecnologia digital (tele-consulta e tele-monitorização) não terá sido completamente medido o efeito que essas tecnologias digitais poderão ter tido no agravar de alguma iniquidade nas populações desfavorecidas. Devemos olhar com atenção, no sentido de não deixar ninguém para trás.

Mas uma das missões do Serviço Nacional de Saúde, como direito universal, não é precisamente anular essa desigualdade?
Exactamente. E tem de haver ou continuar a haver, têm de ser pensadas alternativas, para que o próprio desenvolvimento da tecnologia digital não seja uma fonte geradora de iniquidade.

Um dia, demitiu-se de uma posição de chefia por falta de condições para fazer o que lhe era pedido. Do conhecimento que tem dos funcionários das unidades de saúde, esse problema mantém-se, agravou-se, é hoje outro ou, pelo contrário, está tudo muito melhor?
É uma boa pergunta. Diria que estamos permanentemente a trabalhar numa situação de recursos limitados e, particularmente numa fase pandémica, com recursos limitados e cansados. Preparamo-nos sistematicamente para as situações, e até para a pandemia, de uma forma muito estanque, pensamos sempre naquilo que chamamos os quatro S: staff, stuff, space e system. Portanto, os recursos humanos, os recursos técnicos, os espaços e os sistemas e como é que eles funcionam. Acabamos por nos preparar só olhando para essas quatro funções, não temos organizações resilientes, as nossas organizações não têm sido capazes de se adaptar rapidamente. Conseguimos adaptar-nos na pandemia, conseguimos encontrar estruturas de integração entre o serviço público, o serviço privado e o serviço social, e isso foi fundamental para conseguirmos dar a resposta necessária. Se bem se lembram, numa fase inicial, não tínhamos gente, não tínhamos ventiladores, não tínhamos espaço, e foi esta integração que nos permitiu dar resposta. Mas mesmo dentro de um hospital ou dentro de uma unidade de saúde, os serviços trabalham de uma forma muito estanque e, durante a pandemia, conseguiram trabalhar em integração e em interligação. É preciso que esta adaptação, isto que aprendemos durante a pandemia, que foi que tivemos capacidade de nos adaptar em resposta a este desafio, o que permitiu atenuar o efeito desta ameaça e que conseguíssemos recuperar mais rapidamente, esta aprendizagem deverá manter-se no futuro. Se vamos ter novas ameaças no futuro? Vamos ter efectivamente, quer sejam de índole infecciosa, de alterações climáticas ou de uma guerra, mas vamos ter novas ameaças no futuro. Não vamos ter recursos humanos a pensar que vamos ter uma catástrofe a seguir, não vamos ter máscaras ou ventiladores a pensar que todas as ameaças serão de índole respiratória, mas temos de ser capazes de ter uma resposta de organização capaz de se adaptar às ameaças que surgirem. E esta adaptação vai ter de funcionar por forma de colaboração entre os diferentes serviços, uma colaboração entre os diferentes sectores de actividade da área da saúde.

Qual é a melhor resposta, qual é a melhor organização? Não tenho uma resposta para si, aliás, não sou a única que não tem uma resposta para si. Há quem já esteja, neste momento, a tentar perceber quais são as características ou as respostas e estratégias das estruturas de saúde, que permita que estas organizações sejam mais resilientes.

E os políticos que estão no poder podem ignorar as recomendações científicas com base em argumentos que são sociais e económicos?
Diria que uma coisa que aprendemos nesta pandemia foi a importância da articulação entre a ciência, a comunidade e o poder político. E conseguimos ver isso a acontecer nas reuniões do Infarmed em que cientistas das várias áreas do saber partilhavam o seu conhecimento com a comunidade e o poder político. Tudo isso era escrutinado e discutido e depois, obviamente, o poder político ouve os cientistas e ainda vai ter de ouvir os seus diferentes parceiros comunitários, sociais, e vai ter de tomar a decisão. A decisão é do poder político, mas é importante que oiçam a comunidade científica e a comunidade em geral. Uma das coisas que acho que foi importante, particularmente no nosso trabalho, foi auscultarmos peritos de diferentes áreas, mas auscultámos também pontos comunitários focais em que incluíamos pessoas mais vulneráveis. Isto para conseguirmos perceber de forma mais real, o efeito que a pandemia estava a ter na comunidade, mas também o efeito que as diferentes medidas tinham. Tínhamos de equilibrar o efeito da pandemia e o efeito das medidas que iam sendo aplicadas ou levantadas nas propostas de desconfinamento. Essa auscultação da comunidade é fundamental, é esta tríade que acho que será de sucesso em termos de compreensão real do que está a acontecer e do impacto das medidas que podem ser tomadas.

“Temos de preparar o outono-inverno, com vacinação, sendo prioritária a dos mais vulneráveis, as que têm mais consequências e possibilidade de formas graves e de morte.”
© David Tiago / Global Imagens

Fez parte do grupo de peritos responsável pela proposta de estratégia de desconfinamento do país e lançou um livro, em co-autoria, com o título Covid-19 em Portugal: a estratégia. Olhando para trás, teria afinado alguns dos pontos dessa estratégia de forma diferente?
Estou a pensar na sua pergunta. Decidimos escrever o livro, precisamente para uma memória futura. Há dois anos, surge-nos um vírus que não conhecíamos, ninguém no mundo estava preparado para ele, e foram tomadas uma série de decisões com base naquilo que se sabia. Avidamente procurávamos tudo o que era publicado sobre o vírus, sobre tudo o que estava a ser feito em termos de vacinas e de tratamentos, sobre diagnósticos, sobre os efeitos das diferentes medidas nos diferentes países. Como sabem, muita coisa publicada que não tinha grande qualidade científica, como foi demonstrado por alguns artigos pseudo-científicos sobre alguns fármacos que não tinham utilidade. Muita coisa não se sabia e foi-se sabendo com o tempo e as decisões iniciais eram baseadas nesse pouco que se sabia e naquilo que estava a acontecer no resto do mundo. Penso que uma das grandes lições foi a nossa humildade em tentar incluir pessoas de várias competências de forma a olhar de maneiras diferentes para o mesmo problema. Penso que isso foi bom, termos no nosso grupo pneumologia, saúde pública, matemática, psicologia, ciências da educação, jornalista, tínhamos vários olhares. Auscultámos pessoas das várias áreas do saber e auscultámos também a comunidade e penso que olharmos para a pandemia em todas as suas facetas, não só na área da saúde, mas também nas suas consequências económicas, sociais, familiares e de saúde mental, foi importante nas propostas que fizemos, sempre na medida da evidência disponível e dos saberes disponíveis. Muitas decisões foram tomadas antes de surgir uma nova variante que era muito mais transmissível, fomos sendo surpreendidos por novas variantes, e isso também tem de servir de aprendizagem. Devemos, de certa forma, olhar o passado e perceber o que correu bem e o que correu mal, e vamos ter de planear o futuro.

E afinaria algumas estratégias?
Diria que precisamos de trabalhar muito bem a comunicação. A comunicação com a população é fundamental, precisamos de ter a população a perceber o que está a acontecer. Foi muito bom ocorrerem as reuniões do Infarmed, porque permitiu que a população percebesse o racional por de trás das decisões, foi muito importante. Era importante também que essa comunicação não tivesse desaparecido com a cessação das reuniões do Infarmed.

E desapareceu?
De certa maneira sim, mas não foi apenas por terem desaparecido as reuniões do Infarmed, a guerra na Ucrânia também passou a ser o assunto de maior relevo.

Com a sexta vaga deveria voltar essa comunicação?
É importante que a comunicação voltasse. Porque o desaparecimento da obrigatoriedade da máscara, que não é igual à cessação da responsabilização e da recomendação de utilização da máscara. Provavelmente, com a grande vontade de largar todas as medidas e o cansaço associado à pandemia, mas houve aqui uma falsa de noção de que deixar de ser obrigatório poderia ser igual à não recomendação, e não é de todo. A pandemia continua, continuamos a ter transmissão comunitária e, portanto, as medidas continuam a ser recomendadas e as pessoas devem ter essa recomendação de utilizar a máscara perante a percepção de risco. Uma coisa que é interessante é que uma das coisas que também fizemos durante estes dois anos, foi estar atentos a uma série de ferramentas, e algumas delas mediam a percepção de risco da população. É interessante perceber que a população percebia bem quando o risco era maior e quando era menor e a resposta a essa percepção de risco traduzia-se, precisamente, na utilização das medidas de protecção individual. Creio que a mensagem em termos desta sexta vaga, desta transmissão, for eficaz como foi no passado, a população facilmente percebe que precisa de usar as medidas de protecção individual. Portanto, esse trabalho, particularmente com a comunicação social, que foi tão importante durante o período da pandemia, e foi extraordinário, porque a noção que tenho é que a comunicação social chamou a si a missão de informar e de apostar na literacia da população. E, de repente, como a covid-19 deixou de ser assunto, penso que terá contribuído para que houvesse este dissociar da percepção de risco face à realidade epidemiológica, coisa que não tinha acontecido no passado. A percepção de risco era muito adequada, a nossa população tinha uma percepção de risco muito adequada e uma adesão às medidas de protecção individual muito adequada. Penso que houve aqui uma quebra da comunicação e, obviamente, essa quebra aliada ao cansaço associado às medidas.

É a DGS que deve voltar a comunicar melhor com a população?
Diria que todos nós temos a responsabilidade de comunicar. Existem produtos de comunicação, mas a comunicação do que está a acontecer, a comunicação de quais são as medidas adequadas, diria que é função de todos nós. É função minha como médica na minha actividade clínica, é função minha como professora na minha actividade lectiva, é minha também aqui quando estou a falar convosco, mas é vossa também no dia a dia. Diria que a Direcção-Geral de Saúde, obviamente, tem a missão de comunicar e de aumentar a literacia da população, mas além da DGS, todos nós temos esse papel no nosso dia a dia, de comunicar e de fazer passar a mensagem mais adequada.

Se fosse chamada de novo a uma missão política aceitaria?
Sou técnica, não sei exactamente o que o futuro me dirá, mas sou técnica, sou médica, sou professora, e estou aqui para trabalhar e para aquilo que for preciso fazer. Nesta altura tenho uma actividade bem preenchida, mas não sei o que o futuro me dirá.

Diário de Notícias
Rosália Amorim e Nuno Domingues (TSF)
03 Junho 2022 — 07:00