651: Em que planeta o James Webb deve procurar vida alienígena? Chris Hadfield tem uma ideia

CIÊNCIA/ASTROBIOLOGIA/VIDA ALIENÍGENA

NASA GSFC / CIL / Adriana Manrique Gutierrez
Impressão de artista do Telescópio Espacial James Webb no Espaço

O Telescópio James Webb da NASA está a preparar-se para iniciar oficialmente as operações científicas no final do verão.

De acordo com a Futurism, os astrónomos já estão entusiasmados por o telescópio começar a procurar sinais de vida em mundos distantes.

Há muitos lugares para procurar, é claro. Os investigadores já confirmaram a existência de quase 5.000 exoplanetas, com muitos mais a caminho.

E de uma estimativa de 300 milhões de planetas suspeitos de abrigar uma região “Goldilocks” na qual poderia existir água líquida e, por conseguinte, vida, só a missão Kepler da NASA confirmou várias centenas.

O popular astronauta canadiano Chris Hadfield tem a sua própria sugestão, e considera que o planeta Kepler-442b seria “um excelente planeta para o Telescópio James Webb da NASA dar uma vista de olhos“.

O raciocínio de Hadfield coincide com a opinião de vários especialistas. O planeta em causa encontra-se no promissor sistema Kepler-444, a cerca de 1.200 anos-luz da Terra, e pode ser mais habitável do que o nosso próprio planeta.

Hadfield, que se reformou em 2013 após uma lendária carreira de 21 anos como astronauta, afirmou em 2016 que “pensar que só há vida na Terra é uma arrogância“.

nasa2explore / Flickr
O astronauta canadiano Chris A. Hadfield, engenheiro de voo da Expedição 34 da Estação Espacial Internacional (2013)

Num estudo publicado no The Astrophysical Journal em 2015, uma equipa de astro-biólogos argumentou que vários exoplanetas identificados pelas missões Kepler e K2 da NASA, incluindo o Kepler-442b, eram altamente susceptíveis a possuir água líquida na superfície, como a Terra.

“Classificámos os conhecidos planetas Kepler e K2 por habitabilidade e descobrimos que vários têm valores de H [a probabilidade de ser terrestre] maiores do que a Terra”, lê-se no artigo.

O objectivo dos investigadores era reduzir o número de candidatos, para que pudessem atingir o solo e observar primeiro os exoplanetas mais prováveis.

“Basicamente, concebemos uma forma de pegar em todos os dados de observação disponíveis e desenvolver um esquema de priorização para que, à medida que avançamos para uma época em que existem centenas de alvos disponíveis, possamos dizer, ‘OK, é com esse que queremos começar’”, realçou a autora principal Rory Barnes, da Universidade de Washington.

O JWST da NASA utilizará vários métodos para observar de perto as atmosferas de exoplanetas que orbitam estrelas distantes.

Alguns cientistas suspeitam mesmo que será suficientemente sensível para detectar a poluição atmosférica de quaisquer civilizações alienígenas que possam existir.

O telescópio fixou-se recentemente à sua primeira estrela, e está agora a calibrar a sua delicada gama de espelhos dourados. É a nossa melhor oportunidade de observar de perto os planetas habitáveis fora do nosso próprio sistema solar.

Pensar que só existe vida na Terra é uma arrogância

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  ZAP //
Alice Carqueja
28 Fevereiro, 2022



 

Quase metade do mundo em situação “muito vulnerável” pelas alterações climáticas

SOCIEDADE/ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS

A ONU admite que o aquecimento global já provocou “impactos negativos em grande escala” que afectam a humanidade e a natureza.

© EPA/Alberto Valdes

Quase metade dos habitantes da Terra, entre 3,3 e 3,6 mil milhões de pessoas, estão em situação “muito vulnerável” por causa das alterações climáticas, alertou esta segunda-feira o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas das Nações Unidas.

No seu último relatório, os especialistas concluíram também que entre 3 e 14% das espécies terrestres estão ameaçadas de extinção mesmo se se limitar o aquecimento global a 1,5 graus até fim do século.

Qualquer “atraso adicional” na luta contra as alterações climáticas reduzirá as hipóteses de um futuro sustentável para a humanidade, alertam os peritos das ONU.

Cerca de mil milhões de pessoas poderão estar a viver até 2050 em zonas costeiras ameaçadas pela subida das águas do mar e periodicamente submersas por causa de tempestades, adiantam ainda no documento hoje divulgado em Genebra.

Em 2020, já havia 896 milhões de pessoas a viver em zonas sujeitas a estas condições.

O painel garante que o aquecimento global já provocou “impactos negativos em grande escala”, alguns deles irreversíveis, que afectam a humanidade e a natureza.

“O aumento dos fenómenos extremos meteorológicos e climáticos conduziu a impactos irreversíveis, enquanto os sistemas humanos e naturais foram afectados para lá da sua capacidade se de adaptarem”, afirma-se no relatório, em que se apontam pólos, litoral e montanhas como os ecossistemas que já sofreram danos de que não conseguirão recuperar.

Uma das zonas de “relativa alta vulnerabilidade” é a mediterrânica, onde a produção agrícola poderá cair cerca de 17% até 2050 se se mantiverem as emissões de gases com efeito de estufa ao nível actual.

Apesar de progressos, os esforços mundiais de adaptação às alterações climáticas têm sido, na maior parte, “fragmentados e em pequena escala”, considera o Painel, que estima que com os compromissos actuais de redução de emissões poluentes, estas deverão continuar a aumentar “14% durante a década actual”.

Diário de Notícias
DN/Lusa
28 Fevereiro 2022 — 13:00



 

Carnaval. Contra as “agendazinhas” é preciso reconhecer “o feriado”

– Só mentalidades tacanhas. retrógradas e reaccionárias poderiam ter o deslumbre de acabar com os feriados de Carnaval, 5 de Outubro, 1º. de Dezembro e os dois feriados religiosos. E depois têm a lata de dizer que foi um “erro político”…

SOCIEDADE/CARNAVAL

Por duas vezes, em 1993 e 2012, o Carnaval teve intolerância de ponto. A população manifestou-se e até Cavaco Silva reconheceu que essa decisão foi um “erro político”.

Em 2012, houve manifestações à porta da residência oficial do primeiro-ministro no dia de Carnaval
Foto Paulo Spranger/Global Imagens

António Costa cumpriu sempre a tradição enquanto primeiro-ministro e este ano, invariavelmente, deu tolerância de ponto aos funcionários públicos na véspera e dia de Carnaval. Mas nem sempre os governantes lidaram bem com esta data que é vista como um feriado sem o ser oficialmente. Cavaco Silva, então líder de governo, teve intolerância de ponto em 1993 e pôs o país e os foliões em polvorosa. O que se repetiu em 2012 com o então chefe do Executivo Pedro Passos Coelho.

“Li há dias a notícia “António Costa vai dar ponte”, mas vai dar o quê?” – questiona de forma provocatória o politólogo José Adelino Maltez. Isto porque considera que a terça-feira de Carnaval já é um feriado decretado pelo uso e costume.

“Não sou jurista, mas aquilo que se chama prática reiterada já fez lei. Uma coisa é a lei pura e dura, outra é o costume, que é mais do que a lei”, diz.

José Adelino Maltez considera que foi um dos erros cometidos pelos líderes do PSD, Cavaco e Passos, essa medida de não reconhecer o dia de Carnaval nos idos anos de 1993 e de 2012, ainda que justificado com as crises económicas da altura, porque contribuíram para delapidar “o eleitorado do PSD”, que tinha forte ligação popular.

Para o politólogo, para impedir estas “agendazinhas” dos políticos de quererem dar sinais de muita rectidão na gestão das coisas públicas, sem cuidar do que é o sentimento da comunidade, “devia-se consagrar oficialmente o feriado de Carnaval”. Sublinha a propósito que “em todos os países ocidentais civilizados” os trabalhadores sabem com antecipação no início de cada ano os dias que trabalham e não trabalham.

Reconhece que uma larga maioria de pessoas tem mais apego ao Carnaval do que a outros feriados civis.

“Cometi um erro político”

Com uma crise económica a pairar no horizonte, Aníbal Cavaco Silva sacrificou, pela primeira vez, o Entrudo a bem da produtividade nacional e decretou: “Não se gozará o feriado de Carnaval.” E assim aconteceu. Mas os funcionários públicos que viram estragada a folia, reagiram mal. Alguns foram trabalhar para as repartições públicas mascarados e os protestos fizeram-se ouvir.

Nas suas memórias admitiu: “Em Fevereiro de 1993, cometi o erro político de não assinar o despacho que concedia aos funcionários públicos tolerância de ponto na terça-feira de carnaval”. Paulo Teixeira Pinto, o secretário de Estado da presidência do Conselho de Ministros já tinha, como nos anos anteriores, o despacho preparado e pronto para assinar, mas o então primeiro-ministro decidiu não o fazer. O assunto nem sequer foi discutida no governo e apanhou os ministros de surpresa.

O DN noticiou nas primeiras páginas, em 1993 e 2012, a decisão de Cavaco Silva e de Passos Coelho de não dar tolerância de ponto no Carnaval
© Arquivo DN

A terça-feira de Carnaval daquele ano foi sui generis. Os deputados do PSD compareceram nas comissões parlamentares, até em número excessivo, enquanto a oposição fez gazeta total. A folia do Entrudo foi levada por dezenas de funcionários públicos para o local de trabalho. As máscaras de Carnaval foram indumentária em muitas repartições públicas.

Os ministros do governo disseram “sim, senhor primeiro-ministro” e foram trabalhar todos, à excepção do titular da Administração Interna, Dias Loureiro, que meteu umas férias providenciais antes da (in)tolerância de ponto.

No ano seguinte, em 1994, Aníbal Cavaco Silva ainda pensou repetir a proeza de pôr toda a gente a trabalhar no Entrudo. Acabou por recuar. E mais nenhum primeiro-ministro ensaiou essa partida de Carnaval.

Ninguém percebeu

Só Pedro Passos Coelho se atreveu a repetir a façanha, muito justificada pelo draconiano plano de resgate a que o país estava sujeito e que obrigou a suspender quatro feriados oficiais – dois civis e dois religiosos. “Julgo que ninguém perceberia em Portugal, numa altura em que nos estamos a propor acabar com feriados como o 5 de Outubro ou o 1.º de Dezembro ou até feriados religiosos, que o Governo pensasse sequer em dar tolerância de ponto, institucionalizando a partir de agora o Carnaval como um feriado em Portugal.”

Mais uma vez ninguém percebeu foi a decisão e houve até manifestações à porta de São Bento no dia de Carnaval.

paulasa@dn.pt

Diário de Notícias
Paula Sá
28 Fevereiro 2022 — 01:19



 

647: Astrónomos encontraram um buraco negro misterioso a girar de lado

CIÊNCIA/ASTRONOMIA/FÍSICA

NASA
Horizonte de eventos do buraco negro da Via Láctea

Nem todos os buracos negros nascem iguais, e alguns foram amaldiçoados com infortúnios cósmicos desde a sua formação.

Segundo a Inverse, os astrónomos descobriram recentemente um buraco negro desalinhado, a rodar fora do seu eixo, em cerca de 40 graus.

Esta é a primeira vez que os cientistas observam um comportamento tão invulgar de um buraco negro, e acreditam que tal se deve a um ligeiro “pontapé” que recebeu após o seu nascimento. O estudo foi publicado esta quarta feira.

Juri Poutanen, professor de astronomia no Instituto Nórdico de Física Teórica e autor principal do estudo, começou a observar o buraco negro MAXI J1820+070 em 2019, quando reparou que a radiação emitida pelo objecto era extremamente polarizada.

Nunca vimos nada assim“, salientou o astrónomo. “Significa que se for fortemente polarizado, então há uma grande quebra na simetria do sistema”.

Os sistemas binários de raios X envolvem um buraco negro e uma estrela companheira, em órbita à volta um do outro, enquanto giram sobre os seus eixos individuais. A sua rotação tende a ser alinhada uma com a outra, sendo perpendicular ao seu plano orbital.

Quando estes dois objectos se aproximam através da atracção gravitacional, o buraco negro suga material da sua estrela companheira. Esse material irá formar um disco de acreção em torno do buraco negro, que emite radiação.

Parte desse material escapa ao abismo do buraco negro, e acaba por cair no limite que o envolve, também conhecido como o horizonte do evento, antes de disparar sob a forma de dois poderosos jactos de plasma.

Os jactos são dois feixes curtos de material a ser emitido a partir do horizonte do evento, e por isso servem como indicação do giro do buraco negro no seu eixo.

A equipa responsável pelo novo estudo reuniu dados sobre a inclinação, posição e ângulo dos jactos, e criou uma orientação tridimensional dos mesmos.

Mas depararam-se com um problema: os jactos emitiam material que estava pelo menos a 40 graus um do outro. Este é o maior desvio alguma vez observado num sistema binário de raios X.

Isto pode ter algo a ver com o seu nascimento. Os buracos negros são regiões compactas de espaço com puxões gravitacionais tão fortes que nada pode escapar à sua influência, nem mesmo a própria luz.

Alguns buracos negros formam-se no rescaldo da morte de uma estrela. Depois de uma estrela ficar sem combustível e cair sob o peso da sua própria gravidade, ela explode numa poderosa super-nova, que muitas vezes deixa para trás um buraco negro no seu lugar.

“A única explicação razoável é que o desalinhamento foi formado quando o buraco negro foi formado”, refere Poutanen.

Após a morte de uma estrela maciça, um chamado foguete neutrino foi lançado. Os neutrinos são partículas subatómicas semelhantes aos electrões, com uma massa muito menor. “O foguete de neutrino foi ejectado mais numa direcção do que na outra”, sublinhou Poutanen.

O foguete de neutrino deu uma espécie de pontapé no buraco negro numa direcção, o que perturbou o alinhamento do sistema.

Os astrónomos por detrás das recentes observações querem ver mais deste desalinhamento relatado noutros sistemas, antes de poderem ter a certeza das causas.

Esperam utilizar o recentemente lançado Explorador de Polarimetria de Raios X (IXPE) da NASA, um observatório espacial focado nos os objectos mais extremos no espaço em raios X, para observar o sistema binário e outros como ele.

“Pode-se observar a polarização por raios X, e medir a simetria no sistema”, explica Poutanen. O investigador acredita que o desalinhamento dos buracos negros pode ajudar a explicar outros dados de observação de buracos negros, onde alguns fenómenos permanecem inexplicáveis.

“Por isso agora, se tivermos desalinhamento e o observarmos, então estes modelos têm realmente um bom apoio, porque antes era apenas imaginação teórica”, diz Poutanen. “Se assumirmos que temos um desalinhamento, então talvez não seja assim tão louco”.

  ZAP //
Alice Carqueja
28 Fevereiro, 2022

 



 

646: Dois novos relógios atómicos provaram a dilatação do tempo à menor escala de sempre

CIÊNCIA/MECÂNICA QUÂNTICA

Wikimedia

A ligação entre a relatividade e a mecânica quântica tem sido uma caixa negra para o mundo da física durante décadas.

De acordo com a Universe Today, isso resulta parcialmente da dificuldade em recolher dados sobre sistemas que fazem interface entre os dois.

A relatividade é o reino dos super-massivos, enquanto a mecânica quântica pode ser melhor descrita como o reino das miniaturas.

Mas, existe, de facto, um domínio particular onde eles se sobrepõem. Um dos resultados da relatividade é que a gravidade pode afectar o fluxo do tempo — um fenómeno conhecido como “dilatação do tempo

Este efeito foi agora estudado por investigadores do National Institute of Standards and Technology (NIST) nos EUA, que usaram um relógio atómico extraordinariamente preciso.

A própria dilatação temporal é um conceito bem definido. Esta nem sequer é a primeira vez que os engenheiros do NIST a provam utilizando relógios atómicos.

Conceptualmente, a dilatação do tempo significa que a própria gravidade abranda o tempo. Assim, um objecto que está a experimentar uma elevada gravidade vai fazê-lo durante menos tempo.

Um dos exemplos mais famosos do conceito foi provavelmente capturado no filme Interstellar. Os heróis acabam num mundo perdido, à procura de um explorador que apenas tinha passado algumas horas na superfície do planeta, enquanto os anos passavam na Terra.

No caso do filme, essa dilatação temporal deve-se à elevada gravidade causada por um buraco negro perto do planeta, mas os mesmos efeitos podem ser vistos a uma escala de minutos mesmo aqui na Terra.

Investigadores do NIST já tinham antes provado este efeito, medindo a dilatação temporal de dois relógios atómicos, colocados próximo um sobre o outro, a uma distância de apenas 33 cm. Mesmo com essa ligeira distância, foi possível detectar alterações perceptíveis na gravidade.

Desta vez, os investigadores reduziram essa distância para apenas um milímetro.

Ter dois relógios atómicos separados que se aproximam é fisicamente impossível, pelo que o investigador Jun Ye e o resto da equipa conceberam um novo relógio, para ser usado especificamente neste estudo.

Os dispositivos costumam utilizar a vibração de um certo tipo de átomo para contar o tempo. A própria definição de um segundo é baseada nas vibrações de um átomo de césio.

Os investigadores usaram uma estrutura conhecida como “malha óptica”, que contém cerca de 100.000 átomos individuais de estrôncio numa estrutura definida.

Também desenvolveram um sistema de imagem para monitorizar de perto a parte superior e inferior da grelha, parecida com um monte de panquecas, apenas a uma escala atómica.

A distância entre a parte superior e inferior da grelha óptica media apenas um milímetro, tornando-a na menor distância alguma vez observada numa experiência deste género.

Ainda assim, observou-se uma diferença perceptível no tempo vivido pela parte superior da malha em relação à parte inferior.

Foram apenas 0,0000000000000000001 segundos, mas os cientistas estavam definitivamente a contar — o que comprova as expectativas da relatividade geral.

No entanto, provar uma teoria que já foi provada dezenas de vezes não foi o único resultado da experiência.

A técnica utilizada pelos investigadores aponta para a construção potencial de um relógio que é 50 vezes mais preciso do que qualquer outro existente.

Mais uma vez, pode parecer um exagero, uma vez que a maioria dos relógios atómicos são mais do que adequados para medições no nosso mundo macro.

Mas na mecânica quântica, o próprio tempo torna-se diferente, uma vez que as ligeiras alterações de gravidade em distâncias mínimas são um factor complexo que dificulta a nossa compreensão do tema.

Relógios mais precisos podem potencialmente explorar essas pequenas distâncias de uma forma nunca antes possível, e este novo relógio atómico baseado na “nuvem atómica” pode ser uma forma de o fazer.

Há ainda uma ordem de grandeza de melhoria na precisão necessária antes de qualquer experiência deste tipo poder ser realizada.

Mas com sorte, determinação, e financiamento, melhores relógios atómicos poderiam abrir o caminho para desvendar um dos maiores mistérios da física.

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ZAP
28 Fevereiro, 2022



 

645: Audácia (ou falta dela)

OPINIÃO

Lubmin em Setembro

Numa manhã de Setembro de 2018, um navio colossal, o Audácia, aproximou-se de Lubmin, nas costas do Báltico. Transportava consigo uma carga cintilante, toneladas de pipelines de aço que reluziam ao sol de Outono; no dorso, em letras garrafais, tinham inscritas breves palavras, Nord Stream 2.

Meses antes, em Janeiro de 2018, o secretário de Estado Rex Tillerson declarou que a América e a Polónia se opunham ao projecto com esse nome, o qual foi também contestado pelo então presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, pelo primeiro-ministro polaco, Mateusz Morawiecki, pelo presidente Donald Trump, pelo presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, pelo então ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Boris Johnson, pelos primeiros-ministros da Itália e da Hungria, Matteo Renzi e Viktor Orbán.

Já antes, muito antes, em Março de 2016, nove líderes europeus – os primeiros-ministros da República Checa, da Croácia, da Estónia, da Hungria, da Letónia, da Polónia, da Roménia e da Eslováquia, e o presidente da Lituânia – tinham escrito uma incisiva carta ao presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, alertando-o para que o Nord Stream 2 ir ter “consequências geopolíticas desestabilizadoras na Europa”.

Desde que foi lançado, no longínquo ano de 1997, o projecto Nord Stream tem sido alvo de intensa controvérsia. O maior pipeline submarino de gás do mundo, com um comprimento de 1.222 quilómetros, o Nord Stream 1 liga Vyborg, na Rússia, a Lubmin, nas costas do Báltico. Além de sérias preocupações ambientais, desde logo porque induz o consumo de uma fonte de energia não renovável e altamente poluidora, com um poderoso impacto carbónico (cada par de condutas do Nord Stream pode gerar emissões de 110 milhões de toneladas de CO2/ano), contrariando frontalmente a agenda de descarbonização e combate às alterações climáticas firmada no Acordo de Paris, o gasoduto russo-alemão levanta problemas de vária ordem, afecta a vida marinha numa vasta área geográfica e revolve os fundos de um mar onde, durante décadas, foi sendo despejado de tudo um pouco: minas por deflagrar, cadáveres de soldados, carcaças de navios e de submarinos da 2.ª Guerra, resíduos e materiais tóxicos, armamento químico, toneladas de lixos perigosos.

Entre as muitas ironias desta história, uma das maiores reside no facto de Lubmin, o porto de chegada do Nord Stream e do Audácia, ser uma terra particularmente flagelada por inundações e pela subida do nível das águas dos oceanos. Foi submersa nas horríveis cheias do Dia de Todos os Santos do distante ano de 1304, mas agora, com as alterações climáticas, tudo é ainda pior: no final de 2020, voltou a ser inundada e, segundo os climatologistas, ao longo do século XX o nível das águas subiu 15 centímetros na costa alemã do Báltico. Por estranha coincidência, ou talvez não, o terminal do Nord Stream fica a poucos metros dos diques e das barreiras com que Lubmin tenta desesperadamente proteger-se do avanço dos mares.

Com o gasoduto russo-germânico, o cenário piorará, bastando lembrar que o gás é um fortíssimo emissor de metano e que o metano tem um efeito-estufa 28 vezes superior ao CO2. A ironia ainda é maior – e mais cruel – se lembrarmos que a principal indústria de Lubmin, situada no antigo território da RDA, era uma gigantesca central nuclear, que teve de ser encerrada em 1990 por não cumprir os requisitos mínimos de segurança e cujos custos de demolição são actualmente astronómicos, a prova provada de que, ontem como hoje, a cegueira e a ganância em matéria ambiental e energética acabam por pagar-se muito caro, com a factura geralmente entregue às gerações seguintes. É ali, em Lubmin, cemitério atómico ameaçado pelo aquecimento global, que desagua o gás vindo da Sibéria, extraído em campos onde outrora morreram milhares de vítimas de Josef Estaline. O mundo é um lugar estranho.

Apesar de instada a fazê-lo, a empresa responsável pela construção Nord Stream recusou considerar sequer as alternativas terrestres propostas pela Finlândia, pela Polónia, pela Lituânia e pela Letónia. Para muitos desses países, com destaque para a Ucrânia, o abandono dos actuais gasodutos terrestres implica uma quebra considerável de receitas, na ordem dos 1,5 mil milhões de dólares ano, além de uma perda sensível de importância geopolítica e de aumento de sua exposição face à eterna ameaça da Rússia.

Há poucos meses, a 23 de Agosto do ano passado, o presidente da Ucrânia, Volodomir Zelensky, avisou a chanceler Angela Merkel que o Nord Stream 2 era uma “arma geopolítica perigosa”, facto que não impediu a continuação do projecto, pese a advertência de Zelensky, o qual à hora em que escrevemos se encontra sitiado e em perigo de vida em Kiev, enquanto o gabinete da antiga chanceler Merkel emite um comunicado de imprensa a lamentar a “guerra de agressão” travada pela Rússia e tal “ruptura profunda na história da Europa”.

O Nord Stream 2 mereceu a viva oposição de Donald Trump, um presidente sobre o qual ainda pairam suspeitas de ter sido corrompido pelos russos, e que agora louva o “génio” militar de Vladimir Putin. A ameaça de sanções por parte dos EUA motivou, por seu turno, uma forte reacção da Europa: em Junho de 2017, a Alemanha e a Áustria criticaram o Senado dos Estados Unidos por discutir e tentar aprovar, sem sucesso, sanções às empresas envolvidas no gasoduto russo-alemão.

O chanceler austríaco Christian Kerr e o ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, Sigmar Gabriel, disseram que o fornecimento de energia para a Europa só aos europeus dizia respeito. Nos ataques a Washington destacar-se-ia o então ministro das Finanças, Olaf Scholz, actual chanceler da Alemanha, que afirmou na altura que a atitude da América era uma “ingerência grave nos assuntos internos da Alemanha e da Europa”, tendo um porta-voz da União Europeia lamentado a “imposição de sanções a empresas da UE que desenvolvem negócios legítimos”.

E, de facto, a parceria com a Rússia proporcionou muitos negócios, talvez nem todos legítimos, a gigantes como a petrolífera finlandesa Neste, as alemãs Ruhrgas, Wintershall, BASF, E.ON ou Europipe, a italiana Snamprogetti, subsidiária da Eni, a japonesa Sumitomo Heavy Industries, as britânicas Royal Dutch Shell e Rolls Royce plc, as dinamarquesas Rohde Nielsen A/S, Ørsted A/S e Rambøll, as holandesas Gasunie, Royal Van Oord e Royal Boskalis Westminster N.V., a francesa Engie, a austríaca OMV, a americana Dresser-Rand Group a suíça Allseas S.A., a malaia Wasco Energy, entre muitas outras.

Os custos do Nord Stream 2, estimados em 9,5 mil milhões de euros, são partilhados em partes iguais entre, por um lado, a Uniper, a Wintershall Dea, a OMV e a Royal Dutch Shell e, por outro, a Gazprom. A engenharia financeira do gasoduto é muito complexa, mas envolve empréstimos de mais de 26 bancos comerciais, e intervenções do Crédit Agricole e da Société Générale, da UniCredit, do Deutsche Bank, do Royal Bank of Scotland (ABN Amro), do Dresdner Kleinwort (Commerzbank), com assistência jurídica da firma de advogados norte-americana White & Case, sediada em Nova Iorque, e da britânica Clifford Chance.

O Nord Stream 1 foi inaugurado em Novembro de 2011 pela chanceler Angela Merkel, pelo então presidente russo Dmitri Medvedev, e pelos primeiros-ministros holandês e francês, Mark Rutte e François Fillon (Fillon demitiu-se há pouco do cargo de administrador da petrolífera Zarubeshneft e da Sibur, a maior petroquímica da Rússia, para o qual havia sido nomeado em Dezembro passado). A cerimónia teve lugar simbolicamente em Lubmin, onde ainda hoje decorrem os dispendiosos trabalhos de demolição de uma central nuclear dos tempos da Alemanha comunista.

Foi também lá que, em Maio de 2018, se iniciou a construção do Nord Stream 2. Pouco depois, numa manhã de Setembro, chegaria o Audácia, carregado de pipelines. Apesar da resistência americana, de Trump e também de Biden, Washington viria a alterar a sua posição e, em Maio de 2021, Merkel e Joe Biden chegaram a um acordo sobre o gasoduto.

Em Junho, o secretário de Estado Antony Blinken considerou o projecto “inevitável”, sendo descartado o apelo feito em Roma, em Dezembro passado, pelo primeiro-ministro polaco Mateusz Morawiecki, que instou o novo chanceler alemão a “não ceder à pressão da Rússia e a não permitir que o Nord Stream 2 seja usado como um instrumento de chantagem em relação à Ucrânia, de chantagem contra a Polónia e de chantagem contra a Europa”.

A Gazprom, gigante oculto

Como um gigante oculto, a Gazprom está no epicentro da actual crise de Ucrânia. Num notável livro acabado de sair, Criminels Climatiques – Enquête sur les multinationales qui brûlent notre planète (La Découverte, 2022), o jornalista luso-descendente Mickaël Correia descreve a Gazprom como um “ogre fóssil” e um dos “maiores poluidores climaticidas do planeta”, tal é a quantidade de CO2 que, ao longo de décadas, tem lançado na atmosfera.

O seu modus operandi é, por vezes, singular. Em Fevereiro de 2009, o Ministério Público da Suécia abriu uma investigação a um centro da Universidade de Gotland, vindo-se a descobrir que a Nord Stream fizera um estranho donativo de cinco milhões de coroas suecas (cerca de meio milhão de euros) a um dos investigadores desse centro, que tinha manifestado reservas quanto à construção do Nord Stream, alegando que ele iria pôr em causa os habitats de muitas aves do Báltico. Por outro lado, um relatório elaborado em 2018 pelo Grupo Ecologista do Parlamento Europeu, intitulado Revolving Doors and the Fossil Fuel Industry, analisou as “portas giratórias” entre a política e as empresas de energia, tendo destacado a obscura acção da Gazprom/Nord Stream nesses domínios pantanosos.

Mesmo nos países nórdicos, tidos por modelo de transparência, o panorama é assustador: na Suécia, a Nord Stream contratou os serviços de Ulrica Schenström, antiga secretária de Estado do gabinete do primeiro-ministro Fredrik Reinfeldt, entre 2006 e 2007, a qual teve de se demitir após um jornal ter revelado fotografias suas a abraçar e a beijar, num restaurante de Estocolmo, um dos mais conhecidos jornalistas políticos do país. Para os quadros do consórcio do gasoduto foi também uma figura destacada do Partido Social-Democrata, Dan Svanelli, assessor de imprensa de sucessivos líderes desse partido.

Na Finlândia, foi-se mais alto e a Nord Stream conseguiu contratar os serviços de um antigo primeiro-ministro, Paavo Lipponen, consultor da companhia desde 2008, tendo o escândalo sido agravado pelo facto de, em completo despudor, a contratação ser anunciada enquanto decorria a invasão russa da Ossétia do Sul. Lipponen renunciou a todos os cargos públicos, abandonou o gabinete no parlamento, escreveu um artigo a criticar a extrema dependência da Europa em relação ao gás russo, mas a controvérsia marcou-o para sempre: a Polónia vetou a sua candidatura a responsável pelas relações externas da UE e, em 2012, quando se candidatou às presidenciais finlandesas, obteve uns míseros 6,7% dos votos, a mais baixa votação de sempre dos sociais-democratas nessas eleições.

A Finlândia também não saiu a ganhar com a pertença do seu ex-PM aos quadros da Nord Stream: no momento em que escrevemos, a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia dissuadiu quaisquer veleidades finlandesas de aproximação à NATO, dizendo que, se tal acontecer, o país sofrerá “sérias repercussões políticas e militares”.

A Áustria tem sido dos fervorosos defensores do Nord Stream e, ao que parece, tentou até bloquear a suspensão da entrada em funcionamento do projecto, imposta há pouco pelo chanceler alemão, na sequência da bárbara invasão da Ucrânia. Para isso tem contribuído por certo a acção de Hans Jörg Shelling, que, enquanto ministro das Finanças, de 2014 a 2107, supervisionou a participação de 31.5% do Estado austríaco na empresa energética OMV, um dos cinco investidores estrangeiros do Nord Stream 2.

Acontece que, escassos três meses após ter abandonado a pasta das Finanças, Shelling foi contratado como consultor do Nord Stream 2, cargo que ainda mantém. Não contente, em 2019 passou a integrar também os quadros da energética OMV, cargo que teve de abandonar pouco depois, por violação grosseira do “período de nojo” imposto aos políticos austríacos.

Ainda assim, e como se disse, continua a trabalhar para a Nord Stream 2, o mesmo se passando com Marion Scheller, que desde 2013 dirigiu o departamento de política energética do Ministério da Economia da Alemanha, abandonando esse lugar-chave em 2016 para ingressar nos quadros da Nord Stream, como “conselheira sénior para as relações governamentais”, eufemismo para acções de lóbi.

Entre os 88 casos de “portas-giratórias” desvendados no relatório de 2018 dos ecologistas do Parlamento Europeu, o mais escandaloso e grotesco de todos é o de Gerhard Schröder, o qual, enquanto chanceler da Alemanha, entre 1998 e 2005 (numa coligação com Os Verdes, lembre-se), foi o maior apoiante ocidental ao projecto do gasoduto com a Rússia. Em Outubro de 2005, poucas semanas antes de se demitir, o governo de Schröder concedeu a garantia de um empréstimo no valor de mil milhões de euros ao Nord Stream.

E, logo depois de resignar, Schröder foi nomeado presidente do conselho de supervisão da Nord Stream AG, passando em 2016 a integrar o seu conselho de administração; em 2017, seria nomeado por Vladimir Putin para o conselho de administração da Rosneft, a maior companhia petrolífera russa, facto tanto mais escandaloso quanto, na altura, a Rosneft estava a ser alvo de sanções económicas do Ocidente devido à crise da Ucrânia.

O seu alinhamento com Moscovo tem sido constante e sem falhas: em 2007, Schroeder colocou-se ao lado do Kremlin numa disputa com a Estónia a propósito de um memorial de guerra; em Agosto de 2008, culpou o Ocidente pela invasão russa da Ossétia do Sul; em 2014, relativizou a conquista da Crimeia por Moscovo, comparando-a à intervenção da NATO no Kosovo. Para coroar tudo isto, celebrou o seu 70.º aniversário no Palácio Yusupov, em São Petersburgo, na companhia de Vladimir Putin. Agora, existem muitas pressões para que saia da Nord Stream, mas de momento ainda nada aconteceu.

Na América, a Nord Stream pagou cinco milhões de dólares a Vincent Roberti e um milhão de dólares a Walker Roberts, da empresa de lóbi BCR Group, para influenciarem o Congresso dos EUA a favor do gasoduto russo-germânico. Não se sabe o que fizeram, mas sabe-se que no Congresso não foi alcançado o número de votos necessário para que as sanções fossem aprovadas. O caso mais grave prende-se, porém, com o director executivo da Nord Stream 2, Matthias Warnig, um antigo oficial da Stasi, que muitos dizem ter colaborado directamente e ficado amigo de Vladimir Putin quando este trabalhava para o KGB na Alemanha.

A sua pertença aos serviços secretos da RDA é factual e incontroversa, até reconhecida pelo próprio, mas, sobre a relação com Putin, Warnig diz que o conheceu apenas em 1991, quando o actual líder russo dirigia as relações internacionais do município de São Petersburgo. É, ainda assim, um conhecimento antigo, que permitiu, por exemplo, que o Dresdner Bank se instalasse em 1991 em São Petersburgo, graças à intercessão de Warnig que, naturalmente, viria a ser nomeado presidente do conselho de administração da filial russa do Dresdner.

Em 2012, Warnig foi nomeado presidente do comité de supervisão da Rusal, a segunda maior companhia de alumínio do mundo, tendo de resignar em 2018, quando Trump impôs severas sanções a essa empresa. Em todo o caso, e em síntese, é esta figura com fortes e antigas ligações a Vladimir Putin que ocupa e continua a ocupar o cargo de CEO da Nord Stream AG, em cujo conselho de administração se sentam, além de vários membros da Gazprom, Gerhard Schröder, Hans-Ulrich Engel, CEO da BASF, a francesa Isabelle Kocher, da Engie (antiga GDF Suez), ou Johannes Teyssen e Marc Spieker, da alemã E.ON.

E agora?

Em Agosto de 2018, a revista The Economist chamou ao Nord Stream 2 “o mais controverso projecto energético do mundo”, dizendo que ele iria “isolar a Ucrânia” (sic) e alertando para a crescente dependência da Europa relativamente ao gás russo.

Poderão existir muitas explicações, históricas e geopolíticas, culturais e estratégicas, para a invasão da Ucrânia pela Rússia. Mas se é possível apontar uma razão para Vladimir Putin ter avançado da forma como avançou, essa razão é só uma: o gás. Com a dependência extrema da Europa face à energia vinda da Rússia, Moscovo sabe que quaisquer “sanções” ocidentais, por muitas duras que sejam, nunca poderão ultrapassar certos limites, sob pena de o Kremlin encerrar o Nord Stream 1 e de cortar o fornecimento de gás à Europa.

Por isso, o destino da Ucrânia já estava traçado e escrito há muito, antes sequer de as tropas russas se terem deslocado para a fronteira. A drôle de guerre a que se assistiu durante dias, semanas, com um timing de reacção mais do que tardio e as primeiras medidas só terem sido tomadas quando os russos já estavam na Ucrânia dentro, mostra bem o temor e a imensa fragilidade de uma UE à mercê do gás vindo da Sibéria e dos humores de um homem com “olhar de alumínio”, como o descreveu Anna Arutunyan em A Mística de Putin.

Com os russos instalados em Kiev, ninguém pensou, nem poderia pensar, em acabar com os fornecimentos vindos do Nord Stream 1, enquanto Suíça, a cloaca do mundo, as autoridades logo invocaram a neutralidade para dizer business as usual em matéria de protecção e sigilo para as contas das empresas russas, oligarcas e mafiosos. É aliás em Zug, na Suíça, que se situa a sede da Nord Stream AG, uma companhia cujo presidente executivo, nunca é demais recordar, foi um antigo oficial da polícia política da Alemanha comunista.

Só isso, sem mais nada, deveria ter bastado para abrir os olhos da Europa ou, melhor, da Alemanha. Mas nem isso, nem a brutal ocupação da Geórgia, nem a anexação da Crimeia, nem a chacina da Síria, nem os escândalos com ex-políticos (o alemão Schröder, o finlandês Lipponen, o austríaco Shelling), nem as centenas de sangrentos confrontos no Donbass ao longo de anos, nem os 15 mil mortos na Ucrânia, nem as ameaças da América, nem as críticas dos ecologistas, nem os avisos da Ucrânia, da Polónia (em 2006, um ministro polaco comparou o Nord Stream ao pacto Molotov-Ribbentrop), da Estónia, da Hungria, da Letónia, da Roménia, da Eslováquia e da Lituânia, nada, enfim, demoveu a Alemanha, a Áustria e a França deste projecto suicida – e homicida.

Para esses países – e é preciso dizê-lo -, a soberania da Ucrânia, a liberdade e o bem-estar do seu povo, a segurança e a democracia na Europa valeram menos, muito menos, do que o gás vindo das estepes da Sibéria. Em 2019, o CEO da Gazprom congratulou-se publicamente por ter distribuído os dividendos mais altos da história da companhia: em apenas um ano, a capitalização bolsista da empresa tinha crescido 87%. A factura veio agora, e pagamos nós por ela.

Ao longo de anos, sem tratar de ter uma política de defesa e segurança própria e comum, abrigando-se comodamente sob o escudo protector da NATO e dos EUA (isto enquanto atacava a “ingerência” americana quanto ao Nord Stream), a União Europeia não curou de diversificar as suas fontes de energia e de fazer uma aposta séria nas renováveis, com isso colocando em risco o seu futuro e o futuro de milhões de cidadãos, postos à mercê de um ditador sem escrúpulos e de um regime corrupto, vulneráveis à catástrofe climática iminente e já em curso.

Entre outros desastres, a UE foi incapaz de perceber que a actual Rússia de Vladimir Putin já nem sequer é um Estado, mas um jogo de espelhos, um teatro de sombras que joga com os conceitos e as distinções do passado (capitalismo vs. comunismo, Oeste vs. Leste) para instaurar um regime em tudo se mistura e confunde e em que se conjugam, por um lado, os extremos mais extremos do capitalismo selvagem, sob a forma de uma cleptocracia de oligarcas, e, por outro, do autoritarismo de Estado encarnado num tirano sem escrúpulos.

Apesar da falta de liberdade, da morte dos opositores, dos atropelos aos direitos humanos, das bárbaras perseguições, foi com ele que a chanceler alemã se sentou, negociou, afinou os termos de uma parceria energética desastrosa e criminosa sob todos os pontos de vista, económico e político, geoestratégico, ambiental. A Leste, o agressor é Putin, mas, do nosso lado, a catástrofe da Ucrânia tem um nome e um rosto, Angela Merkel.

Por cegueira de vistas, pura inconsciência, avidez do lucro e aberrante indiferença aos destinos da Ucrânia e Estados limítrofes, a energia da Europa foi tratada como uma questão comercial, quando ela é essencialmente um problema político e geoestratégico. Ora, não é a mesma coisa comprar o gás a uma democracia comercial, como os EUA, ou a uma ditadura que nos quer destruir, como a Rússia. A partir daí, ficou decidida a sorte de uma nação inteira, há muito escrita nas estrelas.

Sem arriscar prognósticos, o que sucederá num futuro próximo será, na melhor das hipóteses, uma deslocação para oeste da fronteira de insegurança, até aqui colocada na Ucrânia, mas doravante situada na Polónia, na Eslováquia, na Moldava e na Hungria, tudo países que, não por acaso, alertaram em devido tempo para a tragédia do Nord Stream. Este, claro, será aberto na altura própria, quando serenarem as opiniões públicas europeias, havendo para isso, como sempre, o argumento clássico de que “não há alternativa” e de que não se podem perder os investimentos feitos, da ordem dos milhares de milhões. O Nord Stream 2, convém lembrá-lo, estava pronto a ser estreado, brilhando como novo, não foi interrompido a meio curso, com obras por acabar.

Putin será afectado, sem dúvida, e a prazo tragado pela China, mas é ingénuo pensar que não sopesou ao milímetro os prós e contra desta aventura no Oeste, sabendo de antemão que tem a Europa aprisionada pela conta do gás: cerca de 41% do gás consumido na UE-27 provém da Rússia e há países, como a Hungria e a República Checa, em que se essa dependência chega a quase 100%.

Agora, Ursula von der Leyen parece ter acordado de uma letargia de meses ou anos, e os líderes da União, esquecendo-se do que há pouco diziam da “ingerência” americana na matéria (o ano passado!), falam atabalhoadamente na necessidade de diversificar as suas fontes da energia. Tarde piaram.

Por outro lado, a actual fase de “unidade europeia”, com declarações grandiloquentes para consumo mediático, passará a breve trecho, sendo substituída por um ressentimento fundíssimo, e mais do que justificado, dos países do extremo Leste relativamente à Alemanha, mas também à França e, por arrasto, a toda a União. As tensões já experimentadas entre a Polónia e a Bielorrússia tenderão a agravar-se e o nacionalismo autoritário de Varsóvia e Budapeste ganhou aqui um novo fôlego e um poderoso arsenal propagandístico devido à “traição” de Berlim e Bruxelas.

A Europa uniu-se por momentos contra a ameaça da Rússia, mas a prazo é enorme o potencial de desintegração da UE, com graves riscos de novos “Brexits” no Leste. Ao visar Kiev, Putin quis, acima de tudo, atingir Bruxelas, e conseguiu. Chapeau.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

Diário de Notícias
António Araújo
28 Fevereiro 2022 — 01:39



 

644: Nada é verdade, tudo é permitido

OPINIÃO

Era mais do que óbvio: nos seus delirantes delírios, William Burroughs, um dos papas da Beat Generation, andou fascinado pela Cientologia de Ron Hubbard e pelas suas patranhas sobre a “mente reactiva”. Em 1968, chegou a frequentar cursos da seita em Londres e Edimburgo, mas há quem assevere que o seu interesse pelas doutrinas de Hubbard foi muito anterior a isso e que o autor de Naked Lunch namoriscava a Dianética desde, pelo menos, finais dos anos 50, embevecido pelas suas ideias da linguagem como meio de controlo dos outros e pelos exercícios para a libertação de todos e quaisquer condicionamentos.

A par da Cientologia, Burroughs deslumbrou-se, o que também era óbvio, pelo “Velho da Montanha”. “Velho da Montanha” ou tão-só “o Velho” foi o nome que Marco Polo deu a Hassan-i Sabbah, de seu nome completo Hasan bin Ali bin Muhammad bin Ja”far bin al-Husayn bin Muhammad bin al-Sabbah al-Himyari, o xiita persa que, no século XII, fundou outra seita famosa, a Ordem dos Assassinos ou, se quisermos, dos Haxixim.

Dizia Marco Polo que o Velho da Montanha fez construir num vale “o maior e o mais belo jardim do mundo”, onde “só entravam aqueles que deviam tornar-se assassinos”. “O Velho tinha na sua corte todos os jovens da região, dos 12 aos 20 anos, que lhe parecesse que se iam tornar homens fortes. Quando o Velho os fazia entrar no jardim em grupos de quatro, de dez, ou de 20, mandava dar-lhes a beber ópio e eles dormiam uns bons três dias e, depois, fazia-os levar para o jardim onde os despertavam.” Quando os jovens acordavam, rodeados de belas donzelas, arvoredo frondoso e aves canoras, julgavam estar no Paraíso.

Depois, sempre que o Velho queria mandar matar alguém, ordenava que a um certo número de jovens fosse dada uma poção soporífera e mandava retirá-los do palácio. Mal acordavam, julgavam ter sido expulsos do Éden e, então, o Velho mandava-os assassinar quem quer que fosse; cegamente, os jovens obedeciam sem pestanejar, na mira de regressarem ao Jardim das Delícias. “Desta maneira, não escapava à morte nenhum homem perante o Velho da Montanha, desde que ele o quisesse; e digo-vos que muitos reis lhe prestavam um tributo com medo de serem mortos.”

Por muito fantasiosa que seja esta narrativa de Marco Polo, tem um fundo de verdade: Hassan-i Sabbah é uma personagem histórica, de rara crueldade (mandou matar um dos filhos por estar embriagado), senhor de vastos territórios, guru da Ordem dos Assassinos, devendo lembrar-se que a etimologia da palavra “assassino” deriva precisamente do haxixe consumido pelos jovens homicidas. Para Marco Polo – e o ponto é importante -, o Velho da Montanha era um charlatão que, além de drogar rapazes com ópio e com haxixe, “fazia crer àquela gente simples da montanha que era um profeta”.

À semelhança dos camponeses da Pérsia, também William Burroughs e outros arautos da Beat Generation, como Allen Ginsberg, ficaram seduzidos pelo Velho da Montanha, adoptando para si o arrepiante lema da Ordem dos Assassinos: “Nada é verdade, tudo é permitido”. Num dos seus últimos livros, L”innominabile attuale, de 2017, Roberto Calasso, falecido em Julho, estabeleceu o paralelo óbvio entre os actuais bombistas suicidas e os esbirros de Hassan-i Sabbah, também eles fida”iyyan (os que se sacrificam), estando dispostos a morrer em troca da mirífica promessa de um jardim com águas correntes e moças virgens.

Não se pense, porém, que estes delírios se cingem ao radicalismo islâmico, pois, como bem nota Calasso, o lema “Nada é verdade, tudo é permitido” marcou fundamente a filosofia de Nietzsche, que terá conhecido o mote da Ordem dos Assassinos a partir da leitura da obra Geschichte der Assassinen, publicada em 1818 pelo orientalista alemão Joseph von Hammer-Purgstall.

-Desde então, e sem receio de exagero, a ausência de verdade – ou, como agora se diz, a “pós-verdade” – tem caracterizado o niilismo e o relativismo contemporâneos e a diluição das fronteiras éticas entre bem e mal, encontrando-nos hoje, insofismavelmente, num nietzschiano “para lá do bem e do mal”. Neste sentido, Donald Trump ou Bolsonaro não serão do domínio do “mal”, como Hitler ou Estaline o eram, estando antes, e isso sim, para além das categorias que distinguem a verdade da mentira ou a bondade da maldade.

Roberto Calasso faz outra observação surpreendente, que dá que pensar. Segundo ele, não é coincidência o facto de, na década de 1990, o último estádio de formação do terrorismo islâmico radical ter surgido a par da explosão da pornografia online. Não se trata de fazer uma crítica moralista à difusão de conteúdos pornográficos através da Internet, ou de forçar uma relação de causa-efeito entre os dois fenómenos, mas de perceber que a massificação da pornografia implicou, como escreve Calasso, que “tudo o que desde sempre foi sonhado ou desejado se tornou subitamente visível e facilmente acessível, a toda a hora, a todo o minuto”.

Como é evidente, esta erupção da pornografia subverteu por completo os códigos, os tabus e os interditos existentes em matéria de sexualidade, com isso ameaçando os fundamentos da autoridade religiosa, a qual, no universo islâmico, confunde-se com a autoridade civil ou política. Pense-se no Paquistão, alfobre de radicalismos, o país que mais consome pornografia infantil em todo o mundo e onde foi descoberta em 2015, na região de Kasur, uma gigantesca rede pedófila que envolvia mais de 300 crianças.

Ou recorde-se que os jihadistas são ávidos consumidores de pornografia e, nos computadores apreendidos aos operacionais da al-Qaeda e do Estado Islâmico, cerca de 80% dos sites consultados contêm imagens de sexo explícito. Talvez isto permita alcançar o potencial subversivo da pornografia para os jovens muçulmanos, e não só. Sob a forma de imagens irresistíveis, com um poder arrebatador igual ao do ópio ou do haxixe, o secularismo ocidental desafiou a autoridade religiosa de uma forma nunca vista, sussurrando-lhe ao ouvido o desconcertante lema dos Assassinos, “Nada é verdade, tudo é permitido”.

De facto, nada do que existe na pornografia é real (os afectos, o sexo, o prazer gritado), mas tudo nela é permitido, pois assim o exigem as mais bizarras fantasias dos seus biliões de consumidores. Na perspectiva dos poderes religiosos, a ameaça é tão forte que só poderá ser combatida através de um apelo ainda mais intenso, o do terrorismo sacrificial, sendo o islamismo radical uma reacção arcaica à modernidade laica, de que a pornografia é um dos expoentes mais atractivos e mais intensos.

Nothing is True and Everything is Possible – o lema dos Assassinos – é também o título de um apaixonante livro publicado pelo jornalista Peter Pomerantsev em 2014, um retrato surreal da Rússia contemporânea (oligarcas, seitas místicas, prostitutas de luxo), que nos ajuda, como poucos, a compreender a actual tragédia do regime de Putin e aquilo que, através da televisão, da Internet e de magos da mentira como Vladislav Surkov, ele foi capaz de fazer em matéria de pós-verdade. Viu-se esta semana: com 190 mil soldados colocados na fronteira com a Ucrânia,o presidente russo teve o desplante de acusar a Ucrânia de “genocídio” no leste do país, responsabilizando-a pela “continuação do derramamento de sangue”(!).

De caminho, rasgou os acordos de Minsk, negou à Ucrânia o direito à existência (“nunca teve uma tradição consistente como uma verdadeira nação”) e, claro, ordenou o envio de tropas “de paz” para Donetsk e Lugansk. A leste, nada de novo: já tinha sido assim na Geórgia, já tinha assim na Crimeia, e o que espanta não são as mentiras descaradas de Putin, mestre da aldrabice. O que impressiona é, isso sim, que entre nós ainda haja gente que, por sectarismo abjecto, continua a amplificar e a divulgar as trapaças do ditador russo.

Perante tudo o temos assistido nas últimas semanas, com o avolumar de tropas russas na fronteira e as bárbaras declarações de Putin na televisão, o patético Avante! teve o desplante de falar da “obscena campanha provocatória do imperialismo contra a Federação Russa”, enquanto, nas páginas do Público, o servil Manuel Loff insistiu na tecla do “imperialismo” do Ocidente, com a sua “visão oriental e colonial da Rússia”.

O Óscar da sem-vergonha vai, porém, para Boaventura Sousa Santos, que diz com tranquilidade que “é provável” que a Rússia invada o leste da Ucrânia não por expansionismo, mas devido à “política de hostilização” movida pelos EUA, pela NATO e pela UE.

Quer dizer, Putin já invadiu a Geórgia, já abocanhou a Ossétia do Sul e a Abecásia, já anexou a Crimeia, mata friamente os seus opositores (Boris Nemtsov, Boris Berezovsky, Stanislav Markelov, Anastasia Baburova, Sergei Magnitsky, Natalia Estemirova, Anna Politkovskaya, Alexander Litvinenko, Sergei Yushenkov, Yuri Shchekochikhin), mas a culpa nunca é da Rússia, coitadinha, mas da “política de hostilização” do Ocidente.

A mentira em toda a parte: há dias, o ex-ministro do Ambiente do Brasil, Ricardo Salles, publicou nas redes sociais uma imagem da cimeira Putin/Bolsonaro, com o logótipo da CNN e o anúncio de que o presidente brasileiro, pelos vistos um ás da diplomacia, havia conseguido “evitar a 3ª Guerra Mundial”.

Tratava-se de uma imagem grosseira e escandalosamente falsa, que a CNN se aprontou a classificar de “mentirosa”, mas o ex-ministro Salles, ao invés de se retractar, ou ao menos calar, fugiu em frente e acusou a CNN de “ridícula”, voltando à carga com nova impostura, desta feita uma capa forjada da Time a atribuir a Bolsonaro o Nobel da Paz de 2022.

O problema não são apenas as mentiras, mas aquilo que recobrem: Salles é um escroque que teve de se demitir sob acusações de envolvimento num esquema de exportação ilegal de madeira do Brasil e tem vasto currículo de negociatas, crimes ambientais, divulgação de mentiras e vídeos falsos, condenações judiciais por corrupção e fraude, investigações em curso por enriquecimento ilícito e tráfico de influência. Foi ministro do Ambiente de um país como o Brasil…

Ocorre tudo isto numa semana em que, um ano após ter sido banido do Twitter e do Facebook, Donald Trump lançou a sua própria rede social, por ironia chamada Truth. A nova rede é gerida por uma empresa de Trump que se encontra sob investigação das autoridades federais e a Truth começa bem, lindamente, com suspeitas de ter pilhado o logótipo a uma modesta empresa de transportes inglesa, a Trailar.

De Nixon ao Clinton do Monicagate, passando pelas armas de destruição maciça e pela vitória eleitoral de Bush sobre Gore, a América já presenciou muitas fraudes e intrujices, mas nunca foram tão numerosas e constantes como no tempo de Donald Trump, um homem que começou a mentir logo no dia da tomada de posse, em que jurou não ter chovido em Washington, mesmo com as televisões a mostrarem a assistência coberta de capas de plástico e a primeira dama a empunhar um guarda-chuva.

A lista de aldrabices é infinda e deprimente: Tump disse ter sido escolhido “homem do ano do Michigan”, um Estado onde nunca viveu; acusou Obama de ter ordenado a separação de famílias migrantes e gabou-se de ter acabado com essa política, quando foi exactamente o contrário; acusou falsamente um congressista de ser apoiante da al-Qaeda; semeou o pânico ao garantir, e insistir, que o Alabama ia ser alvo do furacão Dorian, quando ele passou muito ao lado (Trump chegou a mostrar um mapa falso e os seus colaboradores pressionaram os meteorologistas para mentirem).

As aldrabices vão desde aspectos ínfimos e caricatos (após uma reunião com escuteiros, afirmou que lhe disseram que o seu discurso fora o melhor que tinham ouvido na vida, os escuteiros logo desmentiram) até questões graves e de grande alcance, como a tese de que a covid era “equivalente a uma constipação”, que no plano sanitário “a situação estava sob controlo” e que o vírus estava a “desaparecer”, num ano em que o Sars-CoV-2 vitimou mais de 386 mil americanos.

A mais anedótica de todas foi a afirmação de que as eólicas causam cancro(!), que prova bem a relação difícil e conflituosa que populistas como Trump ou Boris Johnson têm com a ciência e a verdade. O seu domínio já não é o do bem ou do mal, pois o bem e o mal são subjectivos e dependem de cada qual. Para eles, o inimigo a abater é a verdade, pois quem for capaz de iludir a verdade, que é objectiva e universal, conseguirá fazer tudo. O líder que for capaz de levar os outros a acreditarem nas suas mentiras, por mais descabeladas e inconcebíveis que sejam, tornar-se-á mais poderoso do que o Velho da Montanha. E então, como no tempo dos Assassinos, Nada será verdade, tudo será permitido.

Historiador. Escreve segundo a antiga ortografia

Diário de Notícias
António Araújo
26 Fevereiro 2022 — 00:17



 

643: Depor Putin. O mundo vai apoiar os russos

– “... Putin enlouqueceu e não tem limites – incluindo o botão vermelho nuclear. Há quem o interne?”. Não é só o Vladimir Putin que tem de ser internado. Xi Jinping, kim jong un, Donald Trump, Jair Bolsonaro e afins, deviam levar o mesmo tratamento. Porque os Povos de todo o Mundo não precisam de ser governados por loucos acéfalos indigentes, assassinos profissionais, que apenas injectam destruição e morte a inocentes.

OPINIÃO

Putin é um espião profissional e a sua especialidade é coligir informação e actuar na oportunidade. O Ocidente definiu o padrão. A invasão do Iraque, a propósito das ficcionadas “armas de destruição maciça”, foi o primeiro momento. A legitimidade da defesa própria em terreno alheio, a partir de imaginárias estratégias nucleares, consumou-se em Março de 2003. E serve hoje de guião.

Putin é um fora-da-lei e não precisava desta legitimação. Durão Barroso e Portas, Aznar ou Blair, numa ingenuidade (?) oportunística, subjugaram-se à narrativa de Dick Cheney, Rumsfeld, Karl Rove e da marioneta George W. Bush. A invasão, selada nas Lajes, tornou-se oficial. Fomos a “Bielorrússia” dos falcões de Washington.

Quase 20 anos após, é infame vermos as ruas de Kiev invadidas pelos blindados russos, depois de termos dado a entender aos ucranianos que estavam protegidos pelas melhores democracias do mundo. Não podíamos, mas prometemos.

Em cima desta fraude política ocidental, no terror de tantas cidades como Odessa, Dniepro ou Mariupol, passeia igualmente um fantasma: Xi Jinping. Sem ele, Putin não teria ousado tanto. O omnipotente Partido Comunista Chinês prossegue a sua ofensiva económica e cibernética, tentando tomar o mundo sem tiros, mas pelo dinheiro e terrorismo digital. (Falta ver o que sucede em Taiwan).

Sem a China não estaríamos neste desmando russo na Ucrânia, todos rebaixados a esta omissão crucial no nosso tempo, tentando manter a lucidez essencial e triste: a Ucrânia não vale uma guerra nuclear, por mais que não atacar doa ao Ocidente. E é nisto que Putin acredita. Na nossa lucidez.

Vladimir, o déspota, que prende os oponentes, controla os média e voga num delírio mitómano em redor de Pedro o Grande ou Estaline o Sanguinário, ficará na história apenas como mais um ditador abjecto. Se algum dia perder o poder, será entregue ao Tribunal Internacional de Haia como o sérvio Milosevic. Não apenas pelas atrocidades na Ucrânia, ou previamente na Geórgia, etc..

Há 20 anos de terror junto dos vizinhos, invasões e anexações territoriais incluídas – um poder desmesurado assente numa plutocracia infame. Adicione-se ainda a estratégia de assegurar diversos poderes-fantoche onde puder pelo mundo (Trump incluído). A Bielorrússia é o maior exemplo, mas a lista dos agrilhoados ao diktat de Moscovo será infinita, se deixarmos.

Lá está, Hitler, ainda antes de invadir a Polónia, tomou conta da Áustria e anexou a Checoslováquia. Porque podia. E era tolerável. Mas depois veio a Polónia. E os americanos assobiaram para o lado e os ingleses ainda andaram a apanhar bonés. Até que finalmente chegou a França. Mesmo assim, não fosse o ataque japonês a Pearl Harbor em 1941, sinal da demente aliança entre alemães e japoneses, e os americanos ainda teriam ficado a exportar material bélico e a ver no que dava.

Por isso mesmo, esqueçamos um pouco os interesses “Biden” e aceitemos a dolorosa perda do gás ou a subida dos preços. Tratando-se da nossa casa europeia, ceder a um vizinho louco é ceder a um vizinho louco. O “czar” está tomado por uma espiral mitómana que desagua na alucinação imperial que jamais existirá connosco vivos: o regresso ao tempo do Muro de Berlim.

99% da população mundial pede aos russos a coragem de evitar uma aniquilação colectiva, lutando contra o ditador. O mundo vai apoiá-los nas ruas. Putin enlouqueceu e não tem limites – incluindo o botão vermelho nuclear. Há quem o interne?

Jornalista

Diário de Notícias
Daniel Deusdado
27 Fevereiro 2022 — 01:03