169: As interpretações selvagens dos desenhos infantis

OPINIÃO

No desenho de uma criança, o que significam os corações? E o fumo que sai de uma chaminé? E as figuras humanas com mãos muito grandes? Ou o sol e a chuva ao mesmo tempo?

As crianças mais novas têm, naturalmente, maior dificuldade em comunicar verbalmente e, por esse motivo, expressam-se muitas vezes através de técnicas projectivas, como os desenhos ou a actividade lúdica. Falamos de estratégias facilitadoras de comunicação, especialmente importantes em contexto de avaliação clínica ou forense, por serem uma forma de melhor aceder ao mundo interno da criança, aos seus desejos, fantasias e receios.

Não obstante a importância destas estratégias projectivas e de toda a evidência empírica disponível, é inquestionável a sua subjectividade, que pode conduzir a uma maior variabilidade na interpretação dos dados. O desenho, em particular, é um meio privilegiado de aceder às representações internas de uma criança, mas deve ser devidamente contextualizado, não apenas com a narrativa que a criança faz sobre esse mesmo desenho, como também com a restante informação de que o psicólogo dispõe. Por outro lado, um desenho não pode ser interpretado de uma forma isolada. É necessário conhecer outros desenhos da criança, realizados também noutros contextos, por forma a ter-se uma visão mais global.

Neste sentido, é preciso alguma cautela, não apenas nas interpretações que se fazem dos desenhos infantis, como também com o peso que se atribui às mesmas aquando das conclusões ou pareceres no âmbito de um processo de avaliação ou acompanhamento psicológico. Análises simplistas ou mesmo selvagens de desenhos – quando se afirma que o fumo na chaminé significa conflito sexual, as mãos grandes estão associadas a agressividade e que os corações são sinal de abuso sexual – constituem um perigo e podem comprometer os interesses daquela criança em concreto.

Tendo em conta que muitas destas interpretações acabam vertidas em relatórios que, por sua vez, surgem em processos de promoção e protecção, processos de regulação das responsabilidades parentais, ou mesmo processos-crime, pede-se a quem decide um olhar crítico sobre esta realidade e que exija uma verdadeira contextualização daquilo que é referido. Pode parecer irreal, mas a verdade é que existem pais e mães acusados de maus-tratos ou de abuso sexual com base apenas num desenho de uma criança. Com tudo o que isso implica, começando pelo afastamento da criança em relação a esse progenitor, tantas vezes durante anos e anos.

Um processo de avaliação psicológica de uma criança deve envolver diversas fontes de informação e metodologias, permitindo um olhar global que, de forma mais válida, nos permita compreender o funcionamento daquela criança em particular. Os desenhos são formas complementares de avaliação, muito importantes, sim, mas não determinantes.

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

Diário de Notícias
Rute Agulhas
30 Setembro 2021 — 00:52

 

168: O fumo das sondagens

OPINIÃO

Passada a eleição, fica o fumo da fogueira eleitoral onde, em todos os ciclos políticos, se tentam queimar as sondagens. Faz parte da natureza humana justificar as insuficiências com motivos externos, fora da nossa esfera de acção e responsabilidade. E a humaníssima política não é excepção. Em tempo de eleições, as sondagens são frequentemente apontadas como a raiz de todos os males. Porque sub ou sobre estimaram a intenção de voto. Porque foram manipuladas, se não servem os interesses de determinada facção política. Porque erraram na aferição do resultado final e, portanto, são uma vigarice. A trituradora da simplificação serve muito bem as diferentes agendas políticas, mas erra, deliberada e conscientemente.

A sondagem eleitoral é um indicador de confiança que, a partir de instrumentos validados, afere a intenção de voto de uma população em determinado momento delimitado no tempo. Não é um instrumento de adivinhação, apoiado num algoritmo, e, sobretudo, não constitui nem determina o resultado de uma eleição. Pelo contrário, a sondagem pode ser um indicador essencial para permitir reforçar, corrigir ou mudar a estratégia partidária. Porque a opção política assenta maioritariamente numa avaliação que resulta de três variáveis de teor racional e emocional: o interesse próprio do votante, a filiação ideológica, a percepção sobre a actuação do partido e/ou do político. E a forma como o actor político se comunica determina o que se vê.

O facto de uma sondagem ser negativa para determinado candidato, ao contrário do que muitos gritam, não é uma profecia com realização antecipada. Energizar os apoiantes face a um indicador negativo, mudar estratégia, reforçar instrumentos de comunicação, contribuem para uma alteração da estrutura de sentimento dos votantes. A eleição de Carlos Moedas acabou justamente de o demonstrar.

Não é útil ao sistema democrático, nem é saudável, o debate politiqueiro em torno das sondagens. Casos como a eleição de Donald Trump em 2016, com o falhanço das sondagens à boca das urnas, demonstram sobretudo a incapacidade dos analistas lerem os instrumentos ao seu dispor. Certamente os métodos de sondagem têm-se vindo a adequar às alterações na estrutura comunicativa e às alterações sócio-culturais em curso, porque na verdade os instrumentos lidam com percepções inexactas, emocionais e dadas à mudança. Discutir para melhorar é essencial à saúde democrática. Questionar para justificar a derrota é politiquice indigna.

Reitora Univ. Católica Portuguesa

Diário de Notícias
Isabel Capeloa Gil
29 Setembro 2021 — 00:25

 

167: O PCP está a suicidar-se?

– Publico neste Blogue muitos textos do Pedro Tadeu que sei ser militante do PCP, como publico textos do José Ribeiro e Castro ex-líder do CDS. Campos e ideologias opostos, sem qualquer dúvida. Cada um defendendo a sua “dama” ideologicamente expressando as suas teses. Neste artigo de opinião, apenas tenho a lembrar ao Pedro que se o PCP está a “suicidar-se”, não é por ter apoiado o PS na glamorosa “geringonça” de Outubro de 2015. É por o PCP continuar a seguir a doutrina stalinista/leninista, desajustada aos tempos modernos, apoiando países comunistas de parido único e ditatoriais (Coreia do Norte, China, Rússia, Cuba, etc.). E, se o PCP algum dia governasse Portugal, a doutrina ditatorial desses países seria a mesma utilizada aqui. E caro Pedro, em meu entender, ditaduras sejam elas de direita ou de esquerda, não entram na minha agenda. São ditaduras, que representam tudo aquilo que diariamente lemos na C.S.: assassínios, prisões, campos de concentração de quem tenta opor-se ao regime de partido único.

OPINIÃO

Na noite de 4 de Outubro de 2015 em que Jerónimo de Sousa abriu a possibilidade de o PCP, após negociação, apoiar no Parlamento os orçamentos de Estado que um governo formado pelo PS viesse a apresentar, tirou o tapete à direita política do país e afastou-a do poder executivo.

Depois desse dia já houve outra eleição para a Assembleia da República, em 2019. Em quatro anos a CDU, a coligação onde o PCP concorre, perdeu 113 mil votos, mais de 25% do eleitorado que tinha.

Depois desse dia já houve uma eleição europeia. Em relação ao sufrágio anterior, de 2014, a CDU perdeu 188 mil votos, uma enorme queda de 45% do total de votantes.

Depois desse dia já houve duas autárquicas. Em 2017 a CDU perdeu 63 mil votos, uma queda de 11,5% em relação a 2013. Em 2021 perdeu mais 78 mil votos, 16% em relação a 2017.

Não me parece ser necessário dizer muito mais para assegurar factualmente que, do ponto de vista eleitoral, a declaração histórica do líder do PCP, que permitiu a António Costa ser primeiro-ministro, foi uma desgraça para o partido – até porque este ciclo de quedas eleitorais se segue a outro de subidas: 13 mil votos mais das autárquicas de 2009 para 2012, quatro mil votos das legislativas de 2011 para 2015 e 36 mil votos das europeias de 2009 para 2014.

O que é que ganhou o PCP em 2015? Algo muito relevante para o partido e para a democracia portuguesa: Jerónimo de Sousa, numa frase, acabou com o conceito de “arco da governação” onde, 40 anos antes, desde 25 de Novembro de 1975, só cabiam PS, PSD e CDS. Até o Bloco de Esquerda beneficiou desse tiro ao preconceito ideológico.

O PCP também ganhou capacidade para impor medidas orçamentais que favoreceram os mais desprotegidos da sociedade e foi decisivo em muitos momentos legislativos na Assembleia da República onde, de longe, venceu o campeonato da sensatez, da visão humanitária da vida, da defesa da liberdade individual ou colectiva e da coragem política.

Os ganhos para o país do aumento de influência política do PCP parecem-me evidentes, mas os castigos sistemáticos e repetidos do eleitorado demonstram que boa parte desse país que encarava a CDU como uma opção séria de voto deixou de o fazer – e a tendência estatística desse abandono acentua-se, de eleição para eleição.

Perda de deputados, perda de presidentes de câmara, perda de eleitos autárquicos significa perda de poder na alta política, significa perda de influência no poder mais próximo das populações mas, também, perda de capacidade de liderança em outros sectores da sociedade: por exemplo, no mundo sindical é inevitável que estes maus resultados sistemáticos não tenham reflexos indirectos sérios.

A emigração, a pandemia, o voto útil anti-comunista, a abstenção, as mudanças sócio-demográficas, o tratamento discriminatório por parte da comunicação social, a “campanha negra” contra o PCP estão muito longe de explicar esta erosão.

Quando um autarca de excelência como Bernardino Soares perde em Loures para um candidato do PS, repetindo o fenómeno ocorrido com Joaquim Judas em Almada em 2017, há certamente alguma coisa que estas explicações habituais não estão a contemplar.

Quando vejo um dirigente de topo do PCP, na noite eleitoral de domingo, a acusar uma jovem repórter da SIC de ter – ela, individualmente – uma “agenda política” escondida por detrás de uma pergunta banal sobre os maus resultados eleitorais da CDU, leio uma desorientação comunicacional e um descontrolo emocional preocupantes e, receio, significativos.

Quando olho para a propaganda CDU, analógica ou digital, nas várias eleições, quase sempre fria, rotineira, sem calor humano, sem foco, sem mensagem política, sem risco, sem rasgo, com muito passado glorioso mas sem mostrar futuro, com as mesmas palavras de ordem de há 40 anos – “Trabalho, Honestidade e Competência” ou “Com Toda a Confiança” – espanto-me por já ninguém no PCP ler os textos de Lenine sobre propaganda.

Quando vejo protestos institucionais do PCP, aparentemente inconsequentes, sobre o incumprimento por parte do PS dos acordos orçamentais em vigor, da degradação de quadros e meios técnicos no Serviço Nacional de Saúde, ou sobre as normas mais lesivas do novo Código do Trabalho, verifico uma ineficácia nesses protestos que é claramente auto-destruidora, suicida – se o PCP não ganha ou, pelo menos, não “rasga as vestes” em batalhas destas, serve para quê?

Desde a primeira hora que no PCP se tinha a noção que o apoio a um governo minoritário do PS teria graves custos eleitorais – mas a medida desse custo começa a ser, parece-me evidente, demasiado alto para as possibilidades políticas do partido.

É preciso, pensa este militante do PCP, sensatamente, revolucionar isto.

Jornalista

Diário de Notícias
Pedro Tadeu
29 Setembro 2021 — 00:24

 

166: Notas à boca das urnas

– Insiro esta crónica do José Ribeiro e Castro, ex-líder do CDS, apenas em concordância com o que ele escreveu e em que uma das principais razões da abstenção é esta: “Há várias causas, sabemos-lo. Uma delas, sabemos também, é o descrédito que se deixou crescer no sistema de representação e nos partidos.“. Por isso, não é de admirar os 46,3% de eleitores que não foram votar nestas autárquicas. As pessoas deixaram de confiar nos partidos e nos políticos. Simples! O resto da crónica é lógico que seja para enaltecer o seu partido, que continua a ser o “partido do táxi”.

OPINIÃO

As eleições autárquicas são as eleições mais importantes da democracia. Exprimem a auto-administração pelas populações e o grau de maior proximidade da escolha política. Independentemente das diferenças de ideias políticas, por vezes muito acentuadas, são as que mais constroem um ambiente não crispado, nem confrontacional, indispensável ao convívio político e à paz cívica.

Por isso, a primeira nota é sobre a abstenção: subiu mais 1,3% sobre um valor já alto. Agora, 46,3% não foram votar, apesar de repetidos apelos de Presidente da República e vários líderes. É de mais!

Ninguém quis notar um facto inquietante: nas legislativas de 2019, atingimos um nível de abstenção obsceno, superando, pela primeira vez nestas eleições, os 50%. Pois bem, a abstenção destas autárquicas foi pior. Temos de comparar votações em território nacional, pois, nas autárquicas, não há emigração. Assim, a abstenção de 46,3% compara com 45,5% em 2019 para o Parlamento. Conseguiu piorar.

Há várias causas, sabemos-lo. Uma delas, sabemos também, é o descrédito que se deixou crescer no sistema de representação e nos partidos. A partir das eleições partidárias por excelência (as parlamentares), o descrédito foi contaminando todas as eleições: não há uma que escape à degradação. Grave responsabilidade cabe aos que insistem em impedir a reforma do sistema eleitoral que foi aberta na Constituição há 24 anos, tema em que tenho trabalhado.

Essa reforma, por um sistema misto de círculos uninominais e plurinominais, permitiria reconciliar o sistema com a cidadania, melhorar o funcionamento dos partidos e elevar o seu crédito. Só isso restaurará a alegria e a confiança de ir votar. Devolverá à democracia a autenticidade de que sempre precisa.

A segunda nota vai para o conjunto de Câmaras Municipais em cujo governo o CDS passou a participar, tema que vi ser muito apagado. O CDS manteve as seis Câmaras que detinha sozinho (Albergaria-a-Velha, Oliveira do Bairro, Ponte de Lima, Santana, Vale de Cambra, Velas). Manteve as 15 onde estava em coligação com o PSD e, por vezes, outros (Alijó, Amarante, Amares, Armamar, Cascais, Castro Daire, Estarreja, Maia, Ourém, Penafiel, Rio Maior, Tabuaço, Torre de Moncorvo, Trofa, Vila Nova de Famalicão) e o envolvimento no movimento de Rui Moreira que lidera o Porto.

E, agora, conseguiu acrescentar mais 19 deste grupo, o que é notável e extraordinário: Alter do Chão, Barcelos, Coimbra, Funchal, Horta, Lamego, Lisboa, Mêda, Miranda do Douro, Mourão, Nelas, Santa Cruz da Graciosa, Vila da Praia da Vitória, Vila Flor, Oliveira de Frades, Portalegre, Redondo, São Vicente, Vila Viçosa – esta última tirada directamente à CDU! Por outras palavras, o CDS estava no governo de 22 municípios; passou a estar em 41. É uma grande responsabilidade.

Dir-se-á: ah! Mas isso são coligações, não foi o CDS que ganhou. Certo! São coligações, não foi o PSD que ganhou. Venceram todos os que as integram. Saúdo, aliás, Rui Rio e Francisco Rodrigues dos Santos pela sagacidade de as terem feito e o sentido estratégico que revelaram. Esse era o caminho certo para o centro-direita encetar a viragem.

Os resultados estão à vista. Se não fossem as coligações e a disponibilidade inteligente e patriótica do CDS, o PSD não obteria, como era crucial, os ganhos líquidos que pôde apresentar. É de lamentar que as oposições internas profissionais, que tanto fizeram para comprometer este ano eleitoral, continuem a demonstrar não entender os caminhos da mudança.

A última nota vai para Lisboa. Carlos Moedas, com a coligação, arrancou uma vitória que não era esperada. Não foi uma vitória arrancada a ferros; foi arrancada com trabalho, inteligência e visão. Terá uma governabilidade difícil e muito apertada. Mas, além da sua experiência e capacidade, contará com o apoio de todos os lisboetas que querem o bem da cidade. Não estarão para aturar jogos e bloqueios contra o bem comum. Vai ser interessante de seguir; melhor ainda, ver crescer o apoio à acção do Município.

Advogado e ex-líder do CDS.
Escreve de acordo com a antiga ortografia

Diário de Notícias
Ribeiro e Castro
29 Setembro 2021 — 00:25

 

165: Portugal tem cerca de 8.200 sem-abrigo, mais de metade em Lisboa

– O Carlinhos dos Trocados vai dar casa a todos os sem-abrigo…

SOCIEDADE/SEM-ABRIGO

Portugal terá cerca de 8.200 pessoas em situação de sem-abrigo, segundo os resultados de um levantamento nacional que revelam que mais de metade dessa população concentra-se na área metropolitana de Lisboa.

© André Luís Alves / Global Imagens

O número resulta de um levantamento nacional conduzido em 2020 e que permitiu identificar, no total, 8.209 pessoas em situação de sem-abrigo.

O inquérito de caracterização desta população, publicado no portal da Estratégia Nacional para a Integração de Pessoas em Situação de Sem-Abrigo (ENIPSSA), revela que a grande maioria dessas pessoas se concentra na área metropolitana de Lisboa (AML).

Nessa zona, foram contabilizadas 4.786 pessoas, o que representa 58,3% do total, seguindo-se a área metropolitana do Porto (AMP) com 1.213 pessoas.

Por cem mil habitantes, a situação mais preocupante é no Alentejo, nos concelhos de Alvito e Beja que têm, respectivamente, 11,35 e 9,72 pessoas por cem mil habitantes em situação de sem-abrigo.

Da totalidade das cerca de 8.200 pessoas nesta situação, a maioria são homens na faixa etária dos 45 aos 64 anos, sem tecto ou sem casa há até um ano. As principais causas estão associadas a dependência de álcool ou de substâncias psicoactivas (2.442), desemprego ou precariedade no trabalho (2.347) ou insuficiência financeira associada a outros motivos (2.017).

Apesar de ser esta a caracterização genérica da população em situação de sem-abrigo, contabilizaram-se também 734 casais. Na AML, a grande maioria desses casais (339 em 392) não tem casa, mas vive em centros de alojamento temporário, alojamentos específicos para pessoas sem casa ou em quartos pagos pelos serviços sociais ou por outras entidades.

No país, pouco mais de metade das pessoas em situação de sem abrigo vive nestas opções (4.789), mas há ainda 3.420 sem tecto, que vivem na rua, em abrigos de emergência ou em locais precários.

O relatório indica ainda o número de pessoas que deixaram a situação de sem-abrigo e obtiveram uma habitação permanente, e que no ano passado foram 485 casos, mais 39% face a 2019.

O levantamento promovido pela ENIPSSA resultou de um inquérito aos 278 municípios de Portugal continental e traduz as 275 respostas obtidas, através da articulação das diferentes instituições com intervenção local.

Com uma taxa de resposta de 99%, este é o inquérito mais completo desde 2018 (nesse ano, o mesmo inquérito teve uma taxa de resposta de 9,7% que desceu para 92% em 2019).

Em comunicado, o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social refere que se registou um aumento do número de pessoas em situação de sem-abrigo comparativamente ao ano anterior, que justifica com a “melhoria no processo de diagnóstico em todo o país”.

Esse trabalho, continua a tutela, “permite no curto e médio prazo a adopção de estratégias para um acompanhamento mais personalizado e próximo de cada pessoa e, em simultâneo o desenho e adopção de estratégias de prevenção”.

“O Governo tem apostado em disponibilizar soluções de habitação para as pessoas em situação de sem-abrigo, numa abordagem que coloca a habitação em primeiro lugar para, a partir daí, trabalhar a respectiva inserção social e autonomia”, acrescenta.

Em Setembro, terminou o prazo do segundo aviso para disponibilização de soluções de habitação Housing First e de apartamentos partilhados, com mais de 600 vagas que acrescem àquelas que já são actualmente disponibilizadas. O objectivo do Governo para 2021 são 1.100 vagas.

Diário de Notícias
DN/Lusa
28 Setembro 2021 — 18:30

 

164: A percepção e a realidade

OPINIÃO

As dinâmicas sociais passam muitas vezes muito mais pela perceção do que pela realidade. Quando um quase desconhecido Fernando Gomes ganhou a Câmara do Porto ao PSD, em 1989, a cidade estava envelhecida e escura, sem auto-estima e sem peso político. Os dois anteriores autarcas, Paulo Vallada e Fernando Cabral, vinham de uma “linhagem” de “senadores” da cidade, homens eruditos e elitistas, mas poupados e conservadores.

Dizia-se, à época, que a câmara tinha “os cofres cheios”, mas estava quase tudo por fazer. Gomes chega, vai ao banco e descobre todo um novo mundo. A cidade rasga-se, abre-se, a voz do presidente da Câmara do Porto torna-se oposição às maiorias de Cavaco Silva, o (Futebol Clube do) Porto começa a coleccionar campeonatos, depois de ter sido campeão europeu em 1987, e a percepção da cidade transforma-se. O Porto torna-se “moderno”, cosmopolita, com abertura à cultura, com erradicação de barracas e de ilhas, com peso político dentro e fora do país.

Houve, claro, trabalho feito, mas, mais do que isso, Fernando Gomes devolveu ao Porto peso, importância e orgulho na cidade. Um património imaterial, que passa pela percepção. (Já agora, o mesmo Fernando Gomes, que se mudou do Porto para o governo de Guterres, viria a morrer enquanto ministro da Administração Interna, também por causa da percepção. Uma curiosa sucessão de crimes com figuras publicas e, por isso, amplificada nos media, levaram à sua saída do governo. Na realidade, os crimes e a revolta da PSP foram apenas circunstanciais, mas a percepção da fragilidade do ministro obrigou Guterres a entregar a cabeça de Gomes a Sampaio. A frase, da altura, foi “Roma não paga aos traidores”).

A noite deste domingo tem muito que ver com percepção. Costa e o PS ganharam, por larga margem, as eleições. Têm mais votos, mais mandatos, mais presidências de câmara e de freguesias. Mas a percepção que passa para o país é de um PS caído, depois de perder Lisboa, Coimbra e Funchal. Basta, para isto, ver a fácies de Costa quando veio reclamar a vitória. Ombros caídos, semblante carregado, olhar de derrotado, quando era, na verdade, o vencedor. A necessidade de repetir ad nauseum que o PS foi “o grande vencedor das eleições” demonstra bem a necessidade de lembrar a todos o óbvio. Como se fosse preciso fazer o país acreditar num facto que, de tão matemático, não merece discussão.

(Já agora, o mesmo para Catarina Martins, sempre tão afoita a responder a perguntas, mas que fez uma declaração acelerada e despachou com impaciência as perguntas, com vontade de deixar rapidamente o palco e dar a noite por encerrada. E o mesmo para Jerónimo, que sem meias-palavras assumiu que o resultado autárquico ficou “aquém” das expectativas.)

Entretanto, do outro lado, Rui Rio, que perdeu as eleições, era o rosto da confiança e da serenidade. Estranha realidade esta, quando quem ganha está envergonhado e quem perde está confiante. Mais uma vez, o que passa das imagens cruas da noite é a percepção de que o governo, que se empenhou fortemente nesta campanha autárquica, leva um aviso à navegação. E, à direita, a oposição dada como moribunda está, afinal, viva e, agora, com um suplemento de energia para os dois anos que faltam até às legislativas.

No país, ontem, o espanto com o resultado de Lisboa, as quase lágrimas de Medina e o sorriso aberto de Moedas são o espelho de uma eleição onde, para além dos números, conta a percepção.

Ganham-se eleições com percepções? Não. Mas quem quer estar ao lado de quem ganha e parece que perdeu, ou de quem chora?

Jornalista

Diário de Notícias
Pedro Cruz
28 Setembro 2021 — 00:03

 

163: A pílula do dia seguinte

OPINIÃO

Por estes dias lavam-se os cestos da vindima eleitoral. E uma das alegrias da terça-feira seguinte é reconhecermos que o bom da política é que todos são aprendizes até ao dia em que se reformam.

Se alguma originalidade os resultados demonstram é que de uma votação à outra um partido pode encadear os piores e os melhores marcos eleitorais sem pestanejar. O nosso mundo acelerou e só aqueles que sabem observar, temperar e agir por conta própria, sem se deixarem levar pela maré, podem saborear melhor a vitória. O oportunismo continua muito rentável na política de hoje: basta ao candidato exibir-se ao sol que mais aquece a opinião pública. Mas os eleitores, de vez em quando, dão uma sapatada na urna que devolve à democracia o seu carácter mais implacável. E isso também é muito bom.

Depois de várias semanas de confronto de palavras, emoções e, mais raramente, algumas ideias, o mais estimulante do domingo eleitoral foi visitar as assembleias de voto e, finalmente, colher uma sensação agradável, bem em contraste com a campanha. Os discursos e as propostas políticas foram esmagadormente pobres de ideias e alguns confrontos atingiram níveis danosos para o prestígio profissional daqueles que confundem competição eleitoral com duelo de claques, com ecos em quase toda a comunicação social, cúmplice com a frivolidade.

Valha-nos, no entanto, que nos pátios das escolas e outros edifícios públicos os eleitores afluíram com razoável frescura, fervor e compostura, em convivência e colaboração para respeitar filas e evitar multidões indesejadas. Os portugueses, melhor, metade dos portugueses continuam a gostar de votar, no fundo para converter no contador numérico o seu estado de espírito geral, sem ter de esperar que muitas das promessas da campanha eleitoral se concretizem, coisa aliás bastante improvável se olharmos pelo retrovisor para observar a nossa história política.

Sabemos todos que nos jogos, como em todos os combates, uns ganham e outros perdem. Na política habituámos-nos a embalar na curva. Todos reclamam ganhos, quando todos temos razões para concluir que todos perderam. Por cá, é um pouco, assim, como nos sopram os manos brasileiros: “Se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano terminava empatado.” E é aí, claro, que entram os analistas para nos ditar as famosas previsões do dia seguinte.

É bom que mais de 180 mil portugueses, muitos deles nossos vizinhos, tenham decidido ir a jogo, nas freguesias e nos municípios. Tenhamos ou não votado, são eles os eleitos que vão governar nos próximos quatro anos em cada uma das nossas terras. Se não os escrutinarmos, somos cada um de nós quem verdadeiramente perde. Sobra, porém, desse domingo de outono doce, o travo amargo de mais umas eleições que sinalizam uma desvitalização progressiva da nossa democracia. Não se trata apenas de constatar que só um em cada dois portugueses foi votar, algo que justifica pelo menos um debate sério sobre o voto electrónico ou o voto obrigatório.

Acresce o empobrecimento de todo o processo, da linguagem utilizada ao formato dos debates, dos temas escolhidos às simbologias exibidas, dos insultos aos tabus. O circo político existiu sempre, é certo, mas hoje os actores transformaram-no numa espécie de co-produção mediático-política que toma conta de todo o palco, atrai fortemente o olhar fugaz das audiências, mas deixa fugir o essencial da vida democrática – a diversidade das propostas e dos valores e o modo como são protagonizados pelos diferentes candidatos.

Jornalista

Diário de Notícias
Afonso Camões
28 Setembro 2021 — 00:07

 

162: Os sem-dentes

– Uma crónica de excepção, excelente, directa e muito real. Em tempos idos, não muitos, existiu uma gaja que perguntou-me porque não punha os dentes que me faltavam. Nem sequer lhe respondi dada não só a extrema falta de educação colocada pela pergunta, como pela ousadia de a fazer. Desde há uns anos a esta parte, trata dos dentes quem TEM DINHEIRO para o fazer. Sou do tempo (fascismo), em que os postos da Caixa de Previdência possuíam estomatologistas que tratavam das nossas bocas (e dentes). Tive um médico, o único em quem confiava plenamente, que era um verdadeiro “artista” a tratar dos dentes. Cantava o fado Coimbra e tinha LP’s gravados. Dr. Luís Goes, infelizmente já falecido. Anestesiava a gengiva com spray para dar a anestesia com a agulha e para não sentirmos a picada. Cantarolava enquanto se dedicava a brocar ou a arrancar os dentes ou raízes estragados, relaxando psicologicamente os seus pacientes. Quando preenchia cáries, fazia-o com cerâmica e não com chumbo como a maioria dos colegas de profissão. Desta espécie, penso que já não existe nenhum. Quanto à essência da crónica, é uma triste realidade que o SNS não coloque, nos Centros de Saúde, estomatologistas para que não existam os tais “sem-dentes”… como nos velhos tempos do fascismo…

OPINIÃO

A história conta-se rapidamente. Produzi durante algumas temporadas um programa chamado Liga dos Últimos. O objectivo era mostrar os domingos à tarde do Portugal profundo – que tanto pode ser no Alandroal como em Moscavide ou Ermesinde. Vidas onde a bola, o clube do bairro, o bolinho de bacalhau e a cerveja ocupam, de forma barata, o que sobra do tempo em que não se trabalha. Esta verdadeira aventura tinha começado pelo inolvidável campeonato de Amadores do Porto, na extinta NTV, e daí passou para os clubes em situação difícil no país todo. Uma forma de ver Portugal (e o futebol) de pernas para o ar.

Tudo correu bem até ter começado a correr mal. E bastou isto: um dia um colunista importante, a partir de um visionamento de um best-of que a RTP1 decidiu transmitir num verão (2009), bramiu contra a indignidade de se mostrarem aquelas pessoas – ainda por cima sem dentes. A seguir outro acolitou-o e depois mais um ou dois. Foi suficiente para que, passados poucos meses, no momento em que foi extinta a RTP-N (com direcção no Porto) e transformada em RTP Informação (com direcção em Lisboa), a coisa acabasse. O serviço público caía na lama com este Portugal.

Azar meu. A Liga dos Últimos continuou a ser repetida impreterivelmente todos os anos na RTP-Memória mas aquele Portugal, de 2011 em diante, ficou por registar.

Escrevo isto por causa dos dentes de tantos milhares de portugueses. Porque eles são o maior sinal exterior de pobreza de um cidadão. Quando esta semana o dentista me disse que um dente cerâmico custaria 500 euros – entre retirar o anterior, que partiu, mais consultas, dente provisório e finalmente o definitivo, lembrei-me deles de novo. Como podem pessoas com tão baixos rendimentos darem-se ao luxo de ter todos os dentes? E o que vemos é dramático: já não tentam sequer ter os dentes todos. Nem, pelo menos, ter alguns. Muitas vezes restam quase zero, sobretudo à frente.

Depois das notícias sobre o facto de 30% dos cheques-dentista terem ficado por usar, fui ao site do SNS compreender como é isto possível. E é, porque as condições do seu uso são bastante restritivas. Ou seja, pode aceder ao cheque-dentista, “grávidas, beneficiários do complemento solidário, crianças e jovens até aos 18 anos, portadores de VIH/SIDA e cancro oral.”

Ficam de fora os reformados que não estejam naquelas situações de quase pobreza total bem como muitas das pessoas que vivem apenas do seu trabalho – sobretudo os salários mínimos ou mileuristas. Já para não falar dos casais jovens com filhos. E é nisto que se percebe como o nosso SNS não é, afinal, de primeiro mundo.

Ter um problema num dente é tão má notícia como uma avaria no carro ou na máquina de lavar. E por isso mesmo é bom não deixar no esquecimento a promessa do Governo quanto ao atendimento de dentista nos centros de saúde. O investimento para criação de uma rede destas pelo país é colossal, mas se não for feito, não se está a ver quando haverá realmente um maior cuidado dentário que evite a perda dos dentes de forma tão precoce.

Além disso trará vantagem de instalar mais oferta no mercado e, talvez, regular melhor o preço médio da saúde oral nas redes privadas. Não que em Portugal não seja mais barato que na média dos outros países europeus (como sabem, aliás), os nossos emigrantes que aproveitam as visitas a Portugal para tratamentos médicos. O problema é que, em geral, os portugueses ganham mesmo muito pouco. E ter dentes não deveria de ser uma opção.

Jornalista

Diário de Notícias
Daniel Deusdado
26 Setembro 2021 — 00:11

 

161: Um mundo em mutação

OPINIÃO

Quando presidentes e primeiros-ministros dos países de todo o mundo se reuniram na Assembleia Geral das Nações Unidas, ouviram António Guterres apresentar um diagnóstico dramático sobre o estado do planeta.

Guterres lembrou que estamos a braços com uma pandemia mundial, com uma crise climática sem precedentes, com guerras e conflitos novos e velhos, com a pobreza extrema de alguns e riquezas acumuladas de outros, com violações dos direitos humanos – em particular das mulheres e raparigas -, com mudanças profundas provocadas pela revolução digital e com uma crescente falta de confiança nas instituições democráticas e na ciência. Mas os desafios surgem também na política externa dos mais influentes Estados e organizações internacionais que estão a rever o seu posicionamento, o que dificulta a cooperação internacional que Guterres propõe, se quisermos dar respostas às crises que são de todos.

Do lado de Washington, depois de a administração Trump ter alterado a política externa americana tradicional para um conjunto de relações bilaterais, não constrangidas por regras ou organizações internacionais para “put America first”, veremos como a nova administração Biden posicionará os Estados Unidos no quadro da comunidade internacional. Até à data os sinais são ambíguos, divididos entre o regresso anunciado ao multi-lateralismo e as decisões tomadas recentemente no Afeganistão e no acordo com o Reino Unido e a Austrália à margem dos parceiros da NATO.

Por seu lado, a República Popular da China tem vindo a expandir o posicionamento militar na sua vizinhança próxima, e através de um conjunto muito significativo de investimentos é detentora de dívidas muito substantivas de países em desenvolvimento e está a adquirir e a controlar infra-estruturas estratégicas e a reforçar a sua presença na Europa, na Ásia, em África e nas Américas.

A União Europeia, ciente de que a segurança na Europa depende da segurança fora de portas, oferece uma visão do mundo baseada na ligação entre o crescimento económico, o desenvolvimento social e a promoção da democracia política, a sustentabilidade ambiental e a promoção da democracia para o apoio aos países em desenvolvimento e está envolvida num esforço colectivo de aprofundamento da sua capacidade de segurança e defesa, a chamada Bússola Estratégica, que deverá estar concluída em 2022.

Finalmente a Rússia, que durante a presidência de Donald Trump não parecia oferecer um modelo alternativo de organização do mundo, acusou recentemente a União Europeia e os Estados Unidos de tentarem impor a sua agenda ao mundo e posiciona-se como o campeão da soberania, disposto a organizar os Estados que não se reconhecem no modelo ocidental e estabelecer relações privilegiadas com a China e com a Índia. Teremos, também aqui, de aguardar para vermos o papel que a Rússia poderá vir a desempenhar no sistema internacional.

Como disse António Guterres, o mundo está à beira do precipício e, se não formos capazes de trabalhar em conjunto, corremos o risco de dar um passo na direcção errada. Infelizmente a comunidade internacional parece fragmentada e mais ocupada em reafirmar as diferenças que nos separam do que em dar resposta aos desafios comuns que temos de enfrentar. Mas o mundo não espera e o tempo não para.

Investigador associado do CIEP / Universidade Católica Portuguesa

Diário de Notícias
Bernardo Ivo Cruz
25 Setembro 2021 — 00:11

 

160: Infinitamente grande, infinitamente pequeno

OPINIÃO

Há dias, andou a Figueira em polvorosa à conta de três tubarões avistados. Toparam-nos ao largo da praia do Hospital, areal hospitaleiro, portanto, e apto ao cuidado clínico de todos quantos tenham a desdita de se cruzar no mar com os temíveis esqualos, ainda que o recontro com estes raramente seja mortal ou sequer feridente. Mas isto, claro, dizemos nós no conforto e na segurança de terra firma, pois ninguém de bom senso deseja estar na água em convívio com três tubarões crescidos. A polícia marítima não conseguiu identificar a espécie dos bichos, esperando todos que eles não sejam das classes piores e mais lesivas para nós, humanos.

De todo o modo, os tubarões, mansos ou bravos, são seres extraordinários, absolutamente extraordinários – e nós, humanos, deveríamos ter vergonha e nojo do tratamento que lhes damos, da forma bárbara como amiúde os matamos, às vezes sem razão alguma, só por maldade. Pensemos, por exemplo, numa máquina chamada Somniosus microcephalus. Ou, se preferirem, Squalus squatina, outro dos seus muitos nomes, a que poderíamos acrescentar epítetos graciosos como Somniosus brevipinna, Squalus borealis, Scymnus gunneri, Scymnus glacialis, Scymnus micropterus ou até, imagine-se, Leodon echinatum. Para simplificar, chamemos-lhe tubarão-boreal ou tubarão-da-groenlândia.

Há um poema famoso de William Blake sobre o tigre, mil vezes glosado e citado, que diz assim, numa tradução possível:

Tigre, tigre, viva chama
Que as florestas da noite inflama,
Que olho ou mão imortal podia
Traçar-te a horrível simetria?

Poderíamos dizer exactamente o mesmo do tubarão-boreal: que mãos, que deuses, terão concebido e feito um animal assim? No ano passado, numa breve nota saída na London Review of Books, Katherine Rundell lembrava factos tão assombrosos como a sua longevidade: um tubarão-boreal pode viver 500 ou 600 anos.

Quer dizer, há tubarões-boreais a navegar pelos fundos da Groenlândia que já por lá andavam quando os portugueses foram às Índias ou ao Brasil, isto é, partilharam os mares com Vasco da Gama ou com Pedro Álvares Cabral. Os seus pais foram contemporâneos de Dante, os trisavós viveram no tempo de Júlio César. Muitos dos tubarões-boreais hoje vivos passaram incólumes a gripe espanhola, que em terra vitimou 100 milhões de humanos, atravessaram a Grande Guerra, com 20 milhões de mortes, e a Segunda, a de 1939-1945, em que chacinámos 70 a 85 milhões dos nossos semelhantes. Quem é o bicho, quem é o homem?

A profundidade ajuda. Um tubarão-boreal vive 2200 metros abaixo da superfície das águas. Qualquer coisa como seis Torres Eiffel de profundidade, uma distância segura em relação aos homens e à sua pulsão destruidora. Ou talvez não. Num passado não muito distante, os seres humanos chegaram a matar mais de 30 mil tubarões-boreais por ano, uma carnificina completa, que colocou esta espécie no limiar da extinção. É que os tubarões-boreais são lentos, velhos e lentos: uma fêmea só atinge a maturidade para procriar por volta dos 150 anos e um macho só começa a acasalar aos 100 anos, não me perguntem como. Matá-los antes disso é aniquilar qualquer possibilidade de reprodução.

Velhos e lentos, majestosos, tudo neles obedece a um ritmo que não é o nosso, nem sequer o dos outros tubarões. Enquanto um tubarão “normal”, digamos assim, é capaz de nadar cinco milhas por hora, a uma velocidade igual ao mais rápido dos nadadores olímpicos (e, obviamente, durante muito mais tempo do que estes), um tubarão-boreal desloca-se, na melhor das hipóteses, a umas vagarosas duas milhas/hora.

Até hoje, a nossa ciência foi incapaz de explicar tal lentidão, a maior de todos os peixes daquela envergadura. Dizem que ela tem que ver com o estranhíssimo metabolismo dos tubarões-boreais, que é, ao cabo e ao resto, a razão de ser da sua formidável resistência ou, como agora se diz, da sua resiliência: um tubarão-boreal, com 200 quilos, não precisa de mais do que da energia idêntica à de uma barra de chocolate por dia para sobreviver – e para navegar e se aquecer em águas gélidas, a mais de dois quilómetros de profundidade. Espantoso, não?

Agora, o tamanho: os tubarões-boreais mais avantajados chegam a alcançar os sete metros e a pesar mais de uma tonelada e meia. Uns monstros. Esperemos que nunca se aproximem dos pacatos areais da Figueira da Foz, mas, com o aquecimento global e a escassez de peixe, não é descabido supor que, um dia destes, em Portugal, um surfista mais afoito ou um turista de Inverno irá dar de caras com um tubarão-boreal a mirá-lo, de alto a baixo.

Espanta o pouco, quase nada, que sabemos deles. Nunca ninguém os viu a acasalar, a dar à luz, nem mesmo a caçar. Elusivos e esquivos, é ainda hoje um mistério como são capazes de capturar as focas, muito mais rápidas do que eles. Há quem diga que as caçam quando elas estão a dormir, pois as focas, sendo focas, adormecem profundamente, de olhos todos fechados, com as duas metades do cérebro apagadas, adormecidas, naquilo a que se chama “sonho bilateral simétrico”, uma delícia onírica, decerto, mas que as deixa especialmente vulneráveis à predação alheia.

Nas entranhas de alguns tubarões-boreais, contudo, já foram encontrados restos de bichos grandes, morsas, ursos-polares, alces, baleias, até o cadáver inteiro de uma rena e a perna de um infeliz humano, coitado – cuidado. Com as águas mais quentes e o pescado a rarear, não é improvável que os tubarões-boreais mudem de dieta e passem a incluir-nos no seu cardápio, mas isso não é razão nenhuma para que continuemos a matá-los de uma forma tão ignóbil e infame.

Há não muito, um norueguês maluco, Morten Strøsknes, decidiu ir em busca do tubarão-boreal, ou o que dele resta. O resultado foi um livro fascinante, Havboka, saído em Oslo em 2015 e, três anos depois, traduzido para o castelhano com o título El Libro del Mar (Barcelona, Ediciones Salamandra, 2018). Aí se conta, desde logo, que os tubarões-boreais têm um cheiro horrível, nauseabundo, devido às tremendas quantidades de ureia que trazem no lombo, essencial para que mantenham a mesma concentração de sal do oceano em que vivem, evitando que o corpo ganhe ou perca água salgada por osmose. Por isso, um ser humano não pode comer-lhe a carne; quem o fizer, fica envenenado, aturdido, aos tombos como um tonto bêbedo. Entre os povos do norte, falam de “bebedeira de tubarão” para se referirem aos incautos que o ingerem fresco e logo perdem o equilíbrio, vomitam tudo quanto têm nas tripas e tombam para o lado,

inconscientes, durante horas, às vezes dias. A carne de tubarão-boreal tem uma substância, o N-óxido de trimetilamina, que a torna tóxica, a saber a urina. Os poucos que a apreciam têm de a enterrar durante meses, para fermentar, e depois de a colocar ao sol a secar outros tantos meses, ao fim dos quais se obtém o hákarl, que uns acham uma iguaria e manjar celeste, outros, a maioria, uma mistela com um odor repugnante e um sabor abominável, áspero como tudo. Não admira, pois, que os povos nórdicos, nas suas mitologias, garantam que o tubarão-boreal veio ao mundo no pote de urina de Sedna, a deusa dos mares. Mas adiante.

Sendo infinitamente grandes, de proporções colossais, os tubarões-boreais estão à mercê de um bichozinho minúsculo, um crustáceo em forma de minhoca, chamado Ommatokoita elongata, que se aloja nos seus olhos, parasitando-os, cegando-os. Uma minhoca minúscula, ridícula, é capaz de vencer e cegar um peixe de sete metros, vindo de tempos pré-históricos. Devíamos meditar nisso, nós que matamos os tubarões-boreais só para lhe extrairmos o óleo do fígado, nem sequer para o comermos ou bebermos, que é horrível, mas apenas para com ele pintarmos as casas viradas ao mar e à geada (dizem que, envernizada com óleo de tubarão-boreal, uma casa continua a brilhar como nova mesmo passados 50 anos, ou mais).

Temos sentido na pele o poder do infinitamente pequeno. O SARS-CoV-2 tem 70 milionésimos de milímetro e uma sequência genética de 12 letras. Com uma combinação de quatro letras – a, u, g, c – está escrito o texto do vírus que já matou quase cinco milhões de seres humanos, and counting. A totalidade do código genético desse vírus cabe em quatro páginas de jornal. A sua proporção em relação a um ser humano é igual à de uma galinha para todo o planeta Terra. Quando o vírus da covid-19 mata um ser humano, é o mesmo que se uma galinha tivesse destruído o mundo inteiro, desde as montanhas mais altas dos Himalaias até às profundezas abissais onde vivem os tubarões-boreais. Uma galinha, o mundo. Nunca esqueçam: um organismo de 70 milionésimos de milímetro colocou 7,7 biliões de seres humanos em alerta máximo, confinados em casa, apavorados, e de caminho atormentou governos, destruiu economias, enlouqueceu sociedades.

Quando a covid-19 surgiu, havia 47 guerras activas no planeta, e não consta que tenham diminuído. Em 2019, só no Iémen, no Afeganistão e na Síria, humanos dizimaram 73 mil humanos, provando que não precisam de vírus para se matarem uns aos outros. A pior guerra, contudo, é a que estamos a fazer ao planeta, pois ela nos liquidará todos, inocentes ou culpados. O facto de estarmos expostos a uma coisa tão pequena como o SARS-CoV-2, de uma galinha ser capaz de destruir a Terra inteira, deveria levar-nos a perceber que também nós somos minúsculos, ínfimos, ante a grandeza do mundo circundante e, sobretudo, ante a fúria com que esse mundo se irá a voltar contra nós ou, melhor, já se está a voltar contra nós. O que temos visto é só um começo, um pálido ensaio do que nos aguarda em breve, pois ela é a Terra, nós a galinha.

PS Soube-se no passado Abril: Portugal é o 3.º país europeu, e o 12.º em termos mundiais, que mais captura tubarões e raias. Além da pesca, somos o 8.º país que mais importa carne de tubarão a nível mundial (já agora, quem anda a comer tanto tubarão?). Só em Portugal, matamos qualquer coisa como 1,5 milhões de tubarões por ano, sendo essa uma espécie essencial, absolutamente vital, para a preservação dos ecossistemas marinhos, os quais, uma vez afectados, deixarão de nos dar outros peixes, mariscos, etc. Além de crime, esta matança é estúpida, contrária aos nossos interesses. Senhores governantes, quando acabam com este crime?

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

Diário de Notícias
António Araújo
25 Setembro 2021 — 00:15