72: O fascista e o imprestável

OPINIÃO

O Brasil é presidido por um fascista. E a segunda principal figura do executivo não presta.

Não é o colunista quem o diz – só porque poderia custar um maçador processo – mas os próprios.

Sim, quem afirmou que o presidente do Brasil é fascista foi o político que não presta; e quem chamou a segunda figura do executivo de imprestável foi o chefe de Estado fascista.

“Em relação ao Bolsonaro, eu tenho muita restrição porque ele é um fascista, tem um carácter fascista. É preconceituoso. É muito fácil ir para a televisão dizer que você vai matar bandido, mas isso não é discurso para um presidente da República”, declarava o senador Ciro Nogueira, sobre Jair Bolsonaro, em 2017, à Rede Meio Norte, do Piauí, na pré-campanha das eleições presidenciais do ano seguinte.

Nogueira é, desde esta semana ministro da Casa Civil, uma espécie de primeiro-ministro do presidente “fascista”.

Na mesma pré-campanha, Bolsonaro criticava o adversário Geraldo Alckmin por ter o apoio do “centrão”, conjunto de deputados liderado por Nogueira e outros, cujo foco é parasitar o poder. “Eu quero cumprimentar o Alckmin: ele juntou a alta nata de tudo o que não presta no Brasil ao lado dele”, afirmou. Meses depois, o general Augusto Heleno, capataz de Bolsonaro, cantava em comício “se gritar pega ‘centrão’ [em vez do original ‘ladrão’], não escapa um, meu irmão”.

Bolsonaro convidou para seu braço-direito o representante de tudo o que não presta para, justificou-se, “salvar o governo”.

Fernando Henrique Cardoso, presidente de 1995 a 2002, gastou centenas de páginas das suas memórias, os Diários da Presidência, a lamentar ter sido obrigado a alimentar a rapina do “centrão” da época, para manter o seu governo de pé.

Eleito sob discurso anti-corrupção, com um ano ou dois de Planalto o governo Lula já oferecia um “mensalão” para acalmar a ganância dos deputados. Confrontado com as suas incoerências, Lula disparou: “Se Jesus Cristo fosse presidente do Brasil aliava-se até com Judas.”

Dilma Rousseff decidiu enfrentar o “centrão” em posição de fraqueza – acabou traída por outro dos seus vértices, Michel Temer, e destituída sem piedade.

Mas Bolsonaro, no momento em que deu um cheque em branco a Nogueira, disse mais: “Eu também sou do ‘centrão’…”

Com efeito, ao longo dos 30 anos como parlamentar, o ex-capitão militou em nove partidos, namorou com mais uma meia dúzia, fracassou ao tentar fundar o seu e passou a maior parte do tempo da sua insignificante carreira política no Progressistas (PP), a mesma formação de Ciro Nogueira.

O PP que, diga-se de passagem, é o partido mais visado da Operação Lava-Jato – não, não é o PT, conforme se ouve além-mar de observadores desavisados. São 33 deputados e senadores investigados, entre os quais Nogueira, himself, réu no Supremo Tribunal Federal por organização criminosa, denunciado por corrupção, lavagem de dinheiro e obstrução de justiça e acusado de ter recebido 7,3 milhões de reais de subornos em esquemas da construtora Odebrecht, além de 2,5 milhões de reais para assegurar o seu apoio ao impeachment de Dilma da empresa JBS.

Bolsonaro tinha, pelos vistos, razão ao chamar Nogueira de “alta nata de tudo o que não presta no Brasil”. Mas, cá entre nós, Ciro Nogueira também acertou na mosca na definição de 2017 do hoje presidente.

Jornalista, correspondente em São Paulo

Diário de Notícias
João Almeida Moreira
29 Julho 2021 — 00:19

 

71: E nós, estamos focados na nossa saúde mental?

OPINIÃO

Simone Biles abandonou nesta semana a final feminina de equipas dos Jogos Olímpicos de Tóquio e anunciou que não vai participar na final individual. Fala em ansiedade, falta de confiança em si mesma, ausência de divertimento e da existência de demónios dentro da sua cabeça. E porque valoriza a sua saúde mental tomou esta decisão.

Tal como outros atletas de alta competição fizeram no passado, temos aqui mais um exemplo de bandeira vermelha que acena para o impacto negativo que a pressão (por parte de nós mesmos e do mundo à nossa volta) e o perfeccionismo têm no bem-estar geral e na saúde psicológica em particular.

Tal como Simone, somos todos seres humanos. Com forças e fraquezas, capacidades e limitações, desejos e receios. Todos erramos, todos sentimos emoções mais desagradáveis e temos comportamentos que poderiam ser mais ajustados. Mas será que estamos todos devidamente atentos aos sinais de alerta que o nosso corpo e a nossa mente emitem? Será que os lemos e valorizamos adequadamente? Ou será que os ignoramos, metemos debaixo do tapete e seguimos em frente como se nada fosse, acreditando que as coisas melhoram só porque sim?

Reconhecer que cuidar da saúde psicológica é tão importante como cuidar da saúde física é o primeiro passo. Um passo de gigante, tendo em conta a forma como ainda se desvaloriza o sofrimento psíquico, olhado como sinal de fraqueza ou incompetência.

O passo seguinte foi também dado por Simone, quando alerta para outra questão muito relevante: a dimensão do divertimento. A diversão e o prazer, a par da sensação de competência e mestria, são dois óptimos antidepressivos e ansiolíticos. E sim, todos nós, mesmo adultos, precisamos de sentir prazer e é importante que possamos organizar a nossa vida diária de modo a que esta dimensão esteja presente. Não é um luxo ou um capricho, mas sim uma necessidade e um direito.

Por mais resilientes que possamos ser e, nesse sentido, conseguimos adaptar-nos de forma positiva a experiências adversas ou stressantes, apesar dos desafios que possam surgir, existem momentos ou circunstâncias em que podemos ter mais dificuldade em activar todos os nossos recursos, sejam eles internos ou externos. A resiliência não é uma característica inata e imóvel, pelo que pode sofrer alterações ao longo das várias transições de vida ou manifestar-se apenas em determinadas dimensões da vida do indivíduo. É um processo dinâmico que resulta da interacção entre a pessoa e o meio ambiente e, por isso mesmo, é natural e expectável que nem sempre consigamos lidar com as situações da forma mais ajustada.

Possamos todos aprender com Simone, permitindo-nos parar e olhar para dentro. O que estou a pensar? O que estou a sentir? O que estou a fazer? Que sinais de alerta identifico? Será que é hora de parar? De mudar algo? Ou mesmo de pedir ajuda profissional?

Aproveitemos a boleia desta situação mediática e retiremos dela o melhor proveito possível. Um proveito de aprendizagem e reflexão que nos ajude a olhar para nós mesmos. Será que estamos focados na nossa saúde mental?

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

Diário de Notícias
Rute Agulhas
29 Julho 2021 — 00:17

 

70: Otelo é pior do que Spínola?

Não pretendo defender o marechal Spínola, apenas lembrar, a quem nunca o conheceu pessoalmente, no teatro das operações, no meio da selva, em que ele ostentava as suas divisas vermelhas de então general, monóculo, bengalim e luvas de cabedal pretas, num corpo coberto pela farda camuflada das forças armadas, que numa das visitas que efectuou a um dos aquartelamentos mais flagelados da zona onde me encontrava na altura, a primeira coisa que ele fez foi dirigir-se ao refeitório dos soldados para saber como estavam as refeições diárias. Um singelo acto de um general que se importava com a classe mais baixa do Exército.

OPINIÃO

Otelo Saraiva de Carvalho, major, comanda a 25 de Abril de 1974 as operações militares que derrubam o Estado Novo. Na sequência é nomeado comandante da Região Militar de Lisboa e comandante do COPCON.

Nesse mesmo dia, António de Spínola, general, recebe do Movimento dos Capitães a presidência da Junta de Salvação Nacional, que acumula com a Presidência da República até 28 de Setembro, quando tenta um levantamento da direita portuguesa contra a esquerda.

Há aqui um paralelo e uma divergência.

Entre Maio de 1975 e Abril de 1977 a rede bombista de direita promove 566 acções violentas no país. Esses terroristas matam mais de uma dezena de pessoas.

Entre 1980 e 1987 as FP25, de extrema-esquerda, fazem pouco mais de uma centena de atentados e assaltos armados, dos quais resultam 17 mortes, incluindo quatro membros da própria organização terrorista.

Há aqui um paralelo e uma divergência.

Em 21 de Dezembro de 1991, o Presidente da República Mário Soares e o primeiro-ministro Cavaco Silva assinam um indulto a Ramiro Moreira, a cara mais conhecida da rede bombista, que nunca chegara a cumprir a pena de prisão de 20 anos a que fora condenado.

Em 1 de Março de 1996 a Assembleia da República, por sugestão do Presidente da República, Mário Soares, amnistia do crime de terrorismo os elementos das FP25, incluindo os que tivessem eventual envolvimento de Otelo Saraiva de Carvalho, que já fora condenado por alguns deles e cumprira, até então, cinco anos de cadeia. Dez crimes de sangue, porém, não são perdoados e seguem para julgamento. Em 2003 Otelo Saraiva de Carvalho é definitivamente absolvido desses crimes.

Há aqui um paralelo e uma divergência.

No depoimento que deu à Judiciária e que serviu para o condenar, Ramiro Moreira explicita e detalha dois encontros para planear atentados que manteve com Alpoim Calvão, que comandava o sector operacional do MDLP, uma organização presidida por António de Spínola. Embora se atribuam, judiciariamente, vários dos atentados da rede bombista quer ao MDLP quer ao ELP (outra organização de extrema-direita), a ligação, material ou moral, de Spínola a estas operações nunca foi seriamente investigada nem ele teve alguma vez de responder a qualquer autoridade por essa suspeita. O próprio MDLP nunca foi alvo de investigação profunda e continuada.

Os depoimentos dos três primeiros capturados das FP25 pela Judiciária, numa operação policial fortuita, servem imediatamente para tornar Otelo Saraiva de Carvalho suspeito de, pelo menos, ser o inspirador dos crimes dessa organização. Em 1984, três meses depois das declarações nesse sentido feitas por essas pessoas, Otelo estava já entre os 40 detidos por alegado envolvimento em terrorismo.

Há aqui um paralelo e uma divergência.

Em 1981 António de Spínola foi promovido a marechal. A 13 de Fevereiro de 1987 recebeu a Grã-Cruz da Antiga e Muito Nobre Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito. Morre em 13 de Agosto de 1996 e o governo decreta dois dias de luto nacional.

A 25 de Novembro de 1983 Otelo Saraiva de Carvalho foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade. Foi promovido a coronel a 2 de Abril de 2009, com antiguidade a 19 de maio de 1986. Morreu no domingo passado. Não foi decretado luto nacional.

Há aqui um paralelo e uma divergência.

O paralelo é que à direita e à esquerda há, após o 25 de Abril, crimes horríveis cometidos com cobertura política.

A divergência é que à direita se esconde, se esquece e se perdoa esse passado. À esquerda exige-se a rememoração constante e a punição eterna.

É irónico, até porque foi a esquerda que trouxe a liberdade a este país e o livrou dos crimes do fascismo da direita, muito mais numerosos, mais hediondos e mais continuados no tempo do que os crimes cometidos politicamente em democracia.

O filósofo alemão Walter Benjamin defendeu um dia que se deveria passar a escrever a história a contra-pelo, ou seja, do ponto de vista dos vencidos – contra a tradição conformada do historicismo clássico em que os relatos, invariavelmente, entram em empatia com o vencedor. Aqui a palavra “vencedor” usada por Walter Benjamin não se refere aos líderes vitoriosos das batalhas ou das guerras da humanidade, mas à “guerra de classes”, na sua visão marxista, na qual um dos campos, o da classe dirigente, vence sempre o campo das classes oprimidas.

É essa história, escrita pela classe dirigente dominadora nestes dias de reacção à morte de Otelo Saraiva de Carvalho, que está a ser confeccionada, despudoradamente, sobre toda a Revolução dos Cravos.

Jornalista

Diário de Notícias
Pedro Tadeu
28 Julho 2021 — 00:06

 

69: O país exausto

OPINIÃO

A viver o segundo verão de pandemia, Portugal dá sinais de um cansaço vital, que se estende da política à comunicação, da economia à saúde. Os portugueses estão cansados do vírus, do ziguezague das normas sanitárias, das verdades científicas, das fake news, do elogio e da crítica da tecnologia, do isolamento forçado, do trabalho remoto. O governo demonstra a exaustão decorrente da gestão da maior crise sanitária da época moderna e os cidadãos demonstram uma apatia interrompida apenas por explosões celebratórias – como os festejos do Sporting – ou conflituais – como o vandalismo de Mil Fontes.

Esta exaustão não é novidade na história da humanidade. Não somos, na verdade, assim tão inovadores. Na Idade Média, a acedia cordis designava um estado de letargia e ausência, uma amargura, tristeza e ausência que constituíam uma rejeição da ideia cristã de criação. No ano de Dante, interessa recordar que é a acedia o vício que, na Divina Comédia, leva o poeta ao Inferno. Modulações modernas, como o Weltschmerz dos românticos ou o ennui decadentista do final do século XIX, são construções culturais que têm em comum a necessidade de caracterizar a letargia social, a amargura e o ressentimento em épocas de ausência de ideais. Uma das mais relevantes reflexões sobre o tempo da exaustão é de George Steiner que via justamente nas raízes do ennui novecentista, nesse tempo sem ideais, quando tudo parecia ter sido conseguido, o embrião das explosões bélicas do trágico século XX.

No Portugal de 2021 parece que o tempo se completou. A normalização acrítica da lógica regulatória, a falta de inspecção, tornaram-se uma inevitabilidade da forma suave de ser português. No novo normal, a corrupção é denunciada, mas a lentidão dos tribunais e os enredos legais evitam que se faça justiça. Os centros de decisão são capturados por afinidades, não electivas, mas partidárias, de interesses familiares. Pais e filhos nomeados para as mesmas comissões, maridos, mulheres, tios e sobrinhos, num círculo de roda que indica que o princípio da mulher de César, que não apenas tem de ser, mas também parecer, está definitivamente afastado da forma de governar e gerir em Portugal.

E porque vivemos em tempos de gestão de percepções, importa inspeccionar o papel dos media na criação desta imagem de um país fechado sobre si, desastrosamente desmotivado, com pouco pão, mas muito circo. O Portugal exausto revê-se na redoma televisiva dos infindáveis telejornais das estações generalistas e embriaga-se de falsa energia nas variedades pimba das tardes de sábado e domingo.

O perigo da exaustão é, por um lado, o deixar de acreditar convictamente na possibilidade de reformar, que é essencial a qualquer exercício democrático, e por outro a deriva para falsos ideais cuja força reside no cultivo da divisão ou então na busca de alvoradas revolucionárias requentadas e manifestamente obsoletas. Disso nos avisava Steiner, disso temos abundante evidência nos processos globais de desestabilização dos nossos tempos.

Escrevo esta crónica também exausta de um ano difícil, mas convicta de que sou, como cada um dos leitores, cúmplice deste estado de anomia. Uma sociedade civil forte tem de ser capaz de criar espaços de criação de riqueza e produção de pensamento, modelos de desenvolvimento e propostas políticas que não estejam sob tutela, capturados dos interesses de uns e outros. Exige-se antes de mais que cada um ouse arriscar e pôr-se ao serviço de um Portugal com futuro e sem complexos. Nos limites da minha acção, estou presente e convido-vos a fazer o mesmo.

Reitora Universidade Católica Portuguesa

Diário de Notícias
Isabel Capeloa Gil
28 Julho 2021 — 00:21

 

68: Estatuto do Antigo Combatente-Lei nº. 46/2020 de 20.08.2020

Já são DOIS os e-mails enviados à Secretária de Estado de Recursos Humanos e Antigos Combatentes, dra. Catarina Sarmento e Castro, sobre quando os ex-combatentes poderiam COMEÇAR a usufruir de dois dos direitos consignados no Estatuto do Antigo Combatente, Lei nº. 46/2020 de 20.08.2020:

  • Isenção de taxas moderadoras no Serviço Nacional de Saúde;
  • Gratuitidade do passe intermodal de transportes públicos das áreas metropolitanas e comunidades intermunicipais.

e a resposta foi ZERO! Sobre o Estatuto do Antigo Combatente e do Cartão de Antigo Combatente, que confere ao ex-combatente a designação de TITULAR DE RECONHECIMENTO DA NAÇÃO, sublinhando o lugar marcante que ocupam na História de Portugal.

Considerando que é da mais elementar justiça valorizar o contributo daqueles que combateram com coragem, lealdade, abnegação e sacrifício, em vários teatros operacionais, foi também criada a Insígnia do Antigo Combatente (Portaria 3/2021 de 4 de Janeiro).

Tudo isto é muito louvável se, passado UM ANO da entrada em vigor do Estatuto do Antigo Combatente, já estivessem delineadas e activadas, pelo menos, as duas opções acima mencionadas – Taxas Moderadoras e passe intermodal -, uma vez que nenhuma das entidades envolvidas, conhece os moldes em que estas “benesses” funcionam e se processam.

Estão a aguardar que os ex-combatentes vão MORRENDO aos poucos – cidadãos que hoje têm mais de SETENTA ANOS -, para as despesas serem menores no futuro?

É desta forma que se aplica o termo RECONHECIMENTO DA NAÇÃO? É assim que se procede num Estado de Direito? Andam a gozar com os Antigos Combatentes?

Simplesmente VERGONHOSO!

27 de Julho de 2021

 

Ramalho Eanes defende que Otelo “tem direito a lugar de proeminência” na História

Apesar das “contradições”, como afirmou Ramalho Eanes, Otelo merece AGORA, NESTE MOMENTO e não posteriormente, como algumas figuras ligadas ao Estado Novo fascista salazarista/marcelista, apregoam, o lugar devido na História de Portugal.

Otelo é uma dessas personalidades. A ele a pátria deve a liberdade e a democracia. E esta é dívida que nada, nem ninguém, tem o direito de recusar.
António Ramalho Eanes

Para o general Ramalho Eanes, e “apesar de todas as contradições”, Otelo tem direito a um “lugar de proeminência histórica, apesar da autoria de desvios políticos perversos, de nefastas consequências”.

Otelo Saraiva de Carvalho e Ramalho Eanes na apresentação do livro de Maria Inacia Rezola, “25 de Abril – Mitos de uma Revolução”, em 2007
© Gerardo Santos / Global Imagens

O ex-presidente da República Ramalho Eanes defendeu esta segunda-feira que Otelo Saraiva de Carvalho, falecido no domingo, tem direito a um “lugar de proeminência histórica”, apesar “da autoria” do que considerou “desvios políticos perversos, de nefastas consequências”.

“Para mim, e apesar de todas as contradições, o Otelo tem direito a um lugar de proeminência histórica. E tem esse direito, apesar da autoria de desvios políticos perversos, de nefastas consequências, porque foi ele quem liderou a preparação operacional do 25 de Abril, a mobilização dos jovens capitães, o comando da operação militar bem-sucedida”, defendeu o general Ramalho Eanes, num texto enviado às redacções.

Otelo Saraiva de Carvalho, militar e estratego do 25 de Abril de 1974, morreu no domingo de madrugada aos 84 anos, no Hospital Militar, em Lisboa.

O funeral realiza-se na quarta-feira, no crematório de Cascais, em Alcabideche, estando em câmara ardente na Capela da Academia Militar, em Lisboa, a partir das 16:30 de terça-feira, foi divulgado esta segunda-feira.

O cortejo fúnebre parte na quarta-feira, pelas 12:30, da Capela da Academia Militar, para o Crematório de Cascais em Alcabideche, informou a empresa Servilusa.

Nascido em 31 de Agosto de 1936 em Lourenço Marques, actual Maputo, Moçambique, Otelo Nuno Romão Saraiva de Carvalho teve uma carreira militar desde os anos 1960, fez uma comissão durante a guerra colonial na Guiné-Bissau, onde se cruzou com o general António de Spínola, até ao pós-25 de Abril de 1974.

No Movimento das Forças Armadas (MFA), que derrubou a ditadura de Salazar e Caetano, foi o encarregado de elaborar o plano de operações militares.

Depois do 25 de Abril, foi comandante do COPCON, o Comando Operacional do Continente, durante o Processo Revolucionário em Curso (PREC), surgindo associado à chamada esquerda militar, mais radical, e foi candidato presidencial em 1976.

Na década de 1980, o seu nome surge associado às Forças Populares 25 de Abril (FP-25 de Abril), organização armada responsável por dezenas de atentados e 14 mortos, tendo sido condenado, em 1986, a 15 anos de prisão por associação terrorista. Em 1991, recebeu um indulto, tendo sido amnistiado cinco anos depois, uma decisão que levantou muita polémica na altura.

Leia na íntegra a mensagem de Ramalho Eanes:

“A notícia da morte do Otelo Saraiva de Carvalho magoou-me e surpreendeu-me. Magoou-me, por se tratar de mais um amigo que parte. Surpreendeu-me, porque estive, recentemente, com o Otelo, no funeral da sua mulher, e achei-o, naturalmente, abatido, mas, aparentemente, com vigor e saúde.

Conheci o Otelo na Guiné, onde o substituí na Direcção da Secção de Radiodifusão e Imprensa do Comando-Chefe. Tornámo-nos amigos. Foi, aliás, essa amizade que me levou a testemunhar em seu favor no julgamento a que foi submetido, apesar de muitos reparos e apelos para que o não fizesse.

O Otelo era um homem bom, generoso, embora, por vezes, pouco prudente, pouco realista – contraditório, mesmo. Adorava representar, até na vida real, esquecendo que a representação exige um espaço delimitado, em que tudo o que aí é normal não o é na vida real.

Para mim, e apesar de todas as contradições, o Otelo tem direito a um lugar de proeminência histórica. E tem esse direito, apesar da autoria de desvios políticos perversos, de nefastas consequências, porque foi ele quem liderou a preparação operacional do 25 de Abril, a mobilização dos jovens capitães, o comando da operação militar bem-sucedida.

E penso assim porque entendo que um Homem é uma unidade e continuidade, uma totalidade complexa, e que só é bem julgado quando considerando, historicamente, esse quadro e o seu contexto. Mas há homens que, num momento histórico especial, se ultrapassam, ganhando dimensão nacional, indiscutível, porque souberam perceber e explorar uma oportunidade histórica única, e sentir os anseios mais profundos do seu povo.

Otelo é uma dessas personalidades. A ele a pátria deve a liberdade e a democracia. E esta é dívida que nada, nem ninguém, tem o direito de recusar.

António Ramalho Eanes”

Diário de Notícias
DN/Lusa
26 Julho 2021 — 17:55

 

66: Os justiçáveis

A “justiça” dos justiceiros deste país está PODRE e apenas se aplica aos “justiçáveis”…

OPINIÃO

Tudo igual, tudo igual, tudo desesperadamente igual. A detenção usada para investigar e a violação do segredo de justiça usada para difamar. No centro da acção mediática já não está uma pessoa com os seus direitos, mas um alvo a que ninguém dará ouvidos quando chegar a sua vez de dizer qualquer coisa em sua defesa. A maledicência estatal resultou em pleno e o plano foi repetido sem falhas, pouco importando se toda a actuação se baseou na acção criminosa de violação de segredo de justiça. Afinal, quem ainda liga a isso? Quem se interessa ainda por saber se havia ou não fundamento legal para a detenção? Salvo honrosas excepções, os jornalistas, encantados por tanto escândalo e por tanta audiência, apenas divulgam e festejam e aplaudem. Por eles está tudo bem e não há razão nenhuma para questionar as autoridades, que só poderiam ver nisso ingratidão. Afinal de contas, são elas que fornecem a informação que lhes alimenta a acção.

O direito penal evolui assim por transgressões. Se violarmos as normas muitas vezes, as pessoas acostumam-se e aceitam. Agora, prende-se primeiro e pergunta-se depois; agora, arrastam-se as pessoas para a cadeia para humilhar, para despersonalizar e para intimidar os outros – calem-se, que vos pode acontecer o mesmo. A detenção para interrogatório deixou de ser um dispositivo extraordinário da acção judicial para se transformar num vulgar instrumento da violência estatal quando identifica o inimigo social. O segredo de justiça há muito que se transformou em ferramenta à disposição das autoridades, usada por forma a substituir a presunção de inocência pela presunção pública de culpabilidade. Um novo tempo e uma velha cultura. Lentamente, a caminho de um estado policial.

O espectáculo de violência estatal concentra-se, portanto, nestes dois pontos – a prisão abusiva e a campanha de difamação alimentada pela violação do segredo de justiça. Abuso e crime, eis o comportamento institucional onde se já se vislumbra o que a senhora ministra da Justiça chamou, em artigo recente, “direito dos justiçáveis”. Este novo mundo precisa de novas categorias e novas gramáticas. A expressão põe de lado o clássico fundamento da dignidade pessoal e dos direitos universais e convida a separar uns e outros. Eis como tudo encaixa. Na verdade, Joe Berardo e Luís Filipe Vieira já não são indivíduos com direitos, são “justiçáveis”.

No livro O nosso agente em Havana, Graham Greene expõe a teoria sobre as classes “torturáveis” e não “torturáveis”: ” Há pessoas que esperam ser torturadas e pessoas a quem tal ideia enche de indignação ( …) a polícia pode usar de toda a brutalidade que quiser com os imigrantes da América Latina e dos estados do Báltico, mas não com os visitantes do seu país ou da Escandinávia (…) Os católicos são mais torturáveis do que os protestantes “. A nova linguagem da ministra não é, portanto, completamente nova. O que é novo é que, para lhe encontrarmos o rasto, tenhamos que regressar a um mundo de guerra fria, de tortura, de ditaduras latino-americanas e de conversas de chefes de polícia.

Impossível também não reparar na primeira entrevista do senhor presidente do Supremo Tribunal de Justiça dada ao jornal Observador: “Há um excesso de garantias de defesa. Se queremos uma justiça mais rápida temos que cortar com isso”. Cortar com isso, nada menos. Ao senhor juiz presidente não impressiona que as autoridades penais prendam durante onze meses sem que apresentem qualquer acusação durante esse período. Não impressiona que se adiem indefinidamente uma, duas, três, quatro, cinco, seis vezes os prazos legais de inquérito. Não o impressiona a despudorada e ostensiva violação do segredo de justiça. Nada disto lhe suscita qualquer reflexão.

Na nova dialéctica “justiceiro – justiçáveis” que nos é proposta, esse problema parece não vir ao caso, já que estamos a falar dos segundos, que são problemáticos, e não dos primeiros que são intocáveis. Mas vamos ao que importa. O que é extraordinário é que a única preocupação do senhor Presidente seja a de se perguntar se ainda faz sentido que o Estado Democrático garanta ao cidadão o direito a poder recorrer de uma decisão judicial que considere errada ou injusta. É absolutamente extraordinário. E mais extraordinário ainda é o silêncio. A violência do silêncio.

Finalmente, no Benfica, a cena em palco é ainda mais repulsiva. Nem uma palavra de simpatia por quem ainda ontem era o líder da equipa. Nem uma palavra. O cadáver ainda não arrefeceu e ali só se vê cálculo e ambição e poder e oportunismo. Aquelas pessoas perderam-se ali mesmo, no preciso momento em que encenaram o megalómano espectáculo do estádio vazio de onde emergiria a figura redentora. No final, o pano desce tristemente, mostrando que por detrás dele nada existe – nem legitimidade, nem gravitas. Os mais calculistas são frequentemente os mais incautos. À volta, de novo, o silêncio.

Ex-primeiro-ministro

Diário de Notícias
José Sócrates
26 Julho 2021 — 00:26

 

65: O Chega vive do nosso medo e está a vencer

Algumas das crónicas do Baldaia passam-me ao lado porque não as subscrevo. Por várias razões e porque por vezes, dá a sensação que ele dá uma no cravo e outra na ferradura. A crónica de hoje tem o meu total apoio porque como ele termina – e muito bem – ao afirmar que “Num país de cobardes, quando é que a lei se aplica ao Chega e a Ventura?” aplica-se, infelizmente, à triste realidade actual existente neste país: UM PAÍS DE COBARDES!!! Um país de escroques, de aldrabões, de corruptos, de cretinos da pior espécie que a raça humana alguma vez produziu!

OPINIÃO

Ignorar é a maneira que se pensa politicamente correcta de olhar para os problemas criados pelos partidos xenófobos, racistas, homofóbicos e tudo o mais que lhes apetece ser em nome de uma suposta liberdade de expressão. Mas tudo tem limites e, como tanto gostam de dizer os politicamente incorrectos, a vida não está para meias tintas. Por isso, sugiro às autoridades deste país que façam cumprir a lei. Não vale tudo e os ataques racistas e homofóbicos dos últimos dias exigem que se perceba de vez que André Ventura é perigoso e põe em causa a liberdade em Portugal.

A limitação do líder do Chega e dos principais dirigentes leva-os a imitar comportamentos de partidos estrangeiros e a repetir à exaustão ataques a diferentes comunidades, procurando utilizar a ignorância de uma parte da sociedade para a dividir e liderarem os mais intolerantes e violentos. O medo que cresce em tempos de maior incerteza leva a que muitos de nós procuremos culpas nos que são diferentes. Diferentes na cor da pele, nos costumes, na religião que professam, na orientação sexual e até no campo político em que militam. Este medo natural que pode existir em relação ao que nos reserva o futuro é o único território em que prosperam os extremismos. Dos ciganos aos africanos, dos muçulmanos aos judeus, dos da ala esquerda aos da ala direita, dos homossexuais aos outros LGBTQI+, todos servem para mostrar que há uns “puros” que devem impor as regras aos outros. A vida em ditadura é a solução que preconizam para não terem de aturar ciganos e africanos ou “atitudes espalhafatosas de pessoas de orientação sexual diferente”, gente que é agredida por culpa “deles e só deles próprios”, como defende Ventura.

Estes ensaios de “porrada” que se vão repetindo aqui e ali pretendem espalhar o medo e fazer com que as minorias deixem de defender os seus direitos ou que entrem no jogo e façam crescer o confronto no terreno que agrada ao Chega. Num país democrático, isto é inconcebível e, num Estado de direito, isto são crimes puníveis por lei. Não apenas as agressões e os insultos, também a apologia do caminho da confrontação anti-democrática. Acobardámo-nos, quando decidimos ser tolerantes com a intolerância, quando julgamos ser possível convencê-los pelo exemplo, dando a outra face, quando tememos confrontá-los com a lei e a ordem, imaginando que isso os tornaria mais fortes. Eles vivem do nosso medo e estão a vencer.

Ciganos perseguidos sistematicamente pelo líder do Chega, insultos constantes a portugueses descendentes de africanos, discriminação de outras nacionalidades, ataques homofóbicos com agressões físicas, ameaças a jornalistas, infiltração das forças de segurança… Há uma responsabilidade dos partidos democráticos na Assembleia da República. É tempo de acabarem com os sorrisinhos cúmplices com o deputado racista. Ele não tem piada e representa uma ameaça séria para a sociedade portuguesa. Há uma responsabilidade acrescida dos partidos à direita (PSD, CDS e IL), que não podem defender nenhum tipo de conversação com o partido de todas as intolerâncias para chegar ao poder. Num país de cobardes, quando é que a lei se aplica ao Chega e a Ventura?

Jornalista

 

Diário de Notícias
Paulo Baldaia
26 Julho 2021 — 00:23

 

64: 24.Jul.2021

No meu Blogue Diário de um Cuidador, ficou registado o dia de ontem (24.07.2021) como um dia triste, a minha ida ida ao cemitério da Ajuda, para tratar do levantamento das ossadas de minha esposa Tina e da marcação da incineração das mesmas.

52 anos de casamento representam mais que uma vida em conjunto. Esposa fantástica, Mãe extremosa, Avó sem limites, foi uma vida dedicada a quem dela precisasse, sem um desalento, sem um desfalecimento, sempre com a energia de um Touro, signo do Zodíaco a que pertencia (01.05.1935).

Fica neste meu Blogue o artigo que publiquei:

https://inforgom.pt/new-cuidador/2021/07/24/24-jul-2021/

bem como as habituais imagens que sempre tirámos quando semanalmente visitávamos a sua campa.

 

Hoje, opino eu…

Tarde abrasadora, saída do táxi, Pavilhão da Ajuda, uma pessoa à minha frente para a vacina, entrada no Pavilhão, entrega do CC + o cartão da primeira dose (esta é a segunda Pfizeriana), espera curta para a chamada e lá vai o je ser injectado…

Repórter de serviço em acção, sacou uns bonecos ao je que serão inseridos de seguida. Je com bronzeado de camionista a levar com ela (a segunda dose), a colocar o adesivo e a ir para o “recobro” por 30 minutos.

Recolha a casa de táxi, toma de um Paracetamol de 1000mg, actualização de blogues e “descansobro” para ficar bom para o jantar. Ó p’ra elas… as imagens…